terça-feira, 15 de novembro de 2011

O centenário do Divino Mestre


No próximo sábado, dia 19 de novembro, Domingos da Guia, um dos maiores craques do futebol brasileiro, entraria em contagem regressiva para os seus 100 anos de vida. O “Divino Mestre”, apelido que o consagrou, partiu no dia 18 de maio de 2000. Domingos começou a carreira no Bangu, passou pelo Vasco da Gama, Nacional do Uruguai, Boca Juniors da Argentina, Flamengo e Corinthians. Domingos é o único tricampeão sul-americano jogando por três países diferentes.

 Para conhecer a vida de Domingos da Guia, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura de sua biografia, escrita pelo jornalista inglês Aidan Hamilton, obra lançada em abril de 2005, pela Editora Gryphus. O livro tem 334 páginas e demorou cinco anos para ser concluído. É uma obra riquíssima em detalhes, repleta de depoimentos de diversos atletas que jogaram e conviveram com Domingos da Guia, além de vários jornalistas brasileiros, argentinos e uruguaios.
Domingos também fez história com a camisa da seleção brasileira, especialmente, na Copa de 1938, mundial que também o deixaria marcado para sempre, por conta de um pênalti que ele teria cometido no jogo decisivo contra os italianos. Por causa de seu famoso estilo clássico e elegante de jogar, ninguém acreditava que Domingos fosse capaz de cometer um pênalti tão infantil como o árbitro da partida marcou. Houve polêmica, reclamação dos dirigentes e torcedores. A seleção perdia o jogo por 1 a 0 para a Itália, em jogo válido pelas semifinais da Copa de 1938, quando, aos 17 minutos do segundo tempo, Piola, atacante italiano enrolou-se com o zagueiro brasileiro e caiu ocasionando o pênalti.

Apesar da polêmica, Domingos será lembrado neste seu centenário de vida, não por este momento, mas pelo talento e categoria exibidas enquanto esteve em campo.

Abaixo, os vários “Domingos” que encantaram o mundo...


Domingos da Guia, por ele mesmo

Sobre ser um predestinado
Nasci assim. As forças maiores determinaram que haveria de ser um jogador de categoria. Modéstia à parte, realmente fui. Aos oito anos, quando jogava minhas peladas pelas ruas de Bangu, os jogadores que vinham dos treinos me viam jogando e apontavam: ‘Ih! Aquele garoto lá tem jeitinho pra bola. Olha lá que beleza!’ Aos oito anos, já tinha certa intimidade com o caroço, driblava e passava muito bem. Fui um predestinado.” (Jornal dos Sports, 06/01/1980)




Sobre a fase do amadorismo
No amadorismo, quando o jogador mudava de time era o fim do mundo. Ele passava a ser apontado na rua como um miserável traidor. E havia os exagerados, que cuspiam à sua passagem, num esgar medonho de nojo. Em suma: mudar de clube era uma coisa mais ignóbil que um adultério. Aquele que, por qualquer motivo, trocava de camisa, era chamado de ‘borboleta’. Mas esse nome bonito, lírico, não disfarçava a ofensa mortal. O craque chamado de ‘borboleta’ rugia de humilhação e de remorso. (Última Hora, 15/06/1957)
Sobre racismo
O jogador negro tem uma série de virtudes específicas. Em primeiro lugar, é preciso considerar o estímulo profundo de sua condição racial e em tudo mais, o preconceito de cor. Normalmente, esse preconceito pode ser disfarçado, atenuado. Mas basta que no decorrer de um ‘match’, ele incorra num ‘foul’ qualquer. Logo, o adversário e a torcida passarão a vê-lo, não como um ser humano, igual aos demais, mas como ‘o negro’, o ‘preto’ ou, ainda, o ‘moleque’. É comum ver alguém dizer, em relação ao craque de cor que, eventualmente, irrita a torcida: ‘Aquele moleque!’ Eu fui jogador durante vinte anos e me fartei de escutar coisas semelhantes referentes aos meus companheiros.

Ora, essas manifestações se, por um lado machucam, constituem, por outro lado, o incentivo de que falei. Ocorre, então, o seguinte: o jogador procura recuperar-se. Sente, por instinto, que tem meios no futebol de ascender social e humanamente. Experimenta o prazer, a volúpia de magnetizar a multidão com seu virtuosismo. Reparem: não lhe basta jogar bem. Ele quer mais, muito mais. Precisa burilar, enfeitar a jogada, dar na bola o toque ou o retoque que entusiasma a torcida. Basta ver Didi, com seu extremo virtuosismo. Se fosse branco não seria um estilista tão perfeito e tão minucioso. Outro: Leônidas, o ‘Diamante Negro’. A meu ver, sua imaginação é caracteristicamente racial. (Última Hora, 01/07/1957)

Sobre gostar de curtir a vida
Minha passagem por este mundo tem sido como o nome que meu pai e minha mãe me deram: uma sucessão de domingos, dia de futebol e de festa. Ganhei, na década de 30, o máximo que um jogador podia ganhar. Gastei muito também. Eu, por exemplo, adorava namorar e ir aos cassinos. (Folha de S. Paulo, 16/01/1994)
Sobre as dificuldades financeiras
Recebi, entre outras coisas, as seguintes: uma tinturaria, em 1940, à Rua do Lavradio; um armazém em Bangu, onde consegui comprar 25 casas; em São Paulo, um caminhão e um bar. As responsabilidades aumentaram, houve a inflação e, sem grande tino comercial, acabei perdendo tudo. Uma por uma, as casas foram sendo vendidas; apareceu quem quisesse a tinturaria; o caminhão começou a apresentar defeitos. Então, procurei emprego para viver. Hoje (junho de 1957), sou inspetor da Cervejaria Rio Claro, que produz a gostosa ‘Caracu’. Estou satisfeitíssimo e tenho todo o apoio dos meus chefes’.(Última Hora, 03/06/1957)
Ademir da Guia (na foto ao lado, observando o pai), filho de Domingos, complementa o final desta história:
Depois de ficar como técnico do Bangu (no mesmo ano de 1957) ele conseguiu um trabalho na Prefeitura com “Seu Talão Vale Um Milhão”. Você comprava qualquer coisa, pedia o recibinho e trocava esse talão para ganhar prêmios. Era uma coisa da Prefeitura para as pessoas pegarem o recibo das compras. Ele ficou até os 70 anos neste trabalho.

Domingos da Guia, por quem entendia do jogo

Luiz Mendes
Quais foram as lendas? Que ele tinha imã, que a bola vinha nele, que ele atraía. Em um jogo que ele fez nas Laranjeiras contra o Fluminense, em 1939, eu me lembro que Carreiro, que era o ponta-esquerda do Fluminense, quis passar por Domingos e deu um toquezinho por cima dele, mas Domingos era esperto e puxou a bola de volta pra ele com o calcanhar. E ao tomar o balãozinho, Domingos devolveu o balãozinho no mesmo lance, e ficou com a bola. O outro ficou lá atrás dele sem poder fazer nada. Ele fazia também uma jogada em que vinha de frente para o próprio goleiro e fingia que ia atrasar a bola, o atacante se mandava, passava por ele, daí Domingos puxava a bola para frente e saía jogando com um companheiro qualquer. A matada de bola dele, ela vinha pelo alto, ele parava ela lá em cima.

Ramos de Freitas (cronista uruguaio do jornal El Día), após ver a vitória por 2 a 0 do Nacional sobre o Rampla Juniors.
Domingos é a perfeição apurada da defesa. É uma linha na qual se podem enfiar todas as pérolas de elogios que a palavra escrita tributa ao ‘football’ – e o idioma ainda é curto para isso. Por seu jogo tão regular, tão espetacular, tão matizado de frases lindas, tão brilhante. Domingos é de uma classe de homens que quando começa a partida, obriga a todos a tirar o chapéu e, quando a partida termina, o tipo tirou o paletó e...todas as peças de vestuário, que decorosamente se pode tirar, no calor do entusiasmo que o seu jogo produz a milhares de espectadores. Ele arranca a bola sem nenhum desses recursos violentos e depois de arrancá-la se dá ao luxo de fazer um passe de ‘ta-te-ti’, que dá prazer até a Torre da Homenagem (torre que existe no estádio do Nacional). Quando o vê, a Torre, que não pode aplaudi-lo, lhe sorri pelos quatorze olhos de suas janelinhas e parece que quer agitar suas asas de cimento para voar até o Paraíso dos Jogadores e gritar: ‘Vocês que foram craques venham ver!’ ...Na exaltação do meu entusiasmo, Domingos; eu que não sou fanático por ninguém, que sou um amante do bom ‘football’ te grito: ‘Tu mereces ser footballer uruguaio! Tira uma carta de cidadania!’.(Jornal dos Sports, 08/06/1933)

Paulo Amaral (ex-jogador e técnico)
Domingos não abria a boca para reclamar de ninguém. Ele apenas comunicava: “Não vai nesta”, “espera”, “agora vai nesta”, “pode deixar comigo”. Orientava. O ponta adversário vinha com a bola dominada, ele falava: “Não vai nessa, espera”...Nada de gritar. Calmo – muito tranqüilo. Não vibrava nem se alguém fizesse uma boa jogada ou quando o time fazia um gol, ele não dava pulos no ar, não levantava o braço, era muito calmo, muito tranqüilo.


Zizinho (ex-jogador do Flamengo e seleção brasileira)
Para sentirem o que representava o Da Guia no futebol brasileiro, quando Flávio Costa reunia os 33 jogadores convocados e dizia: ‘Aqui estão reunidos os melhores jogadores do país, portanto a fina flor do futebol brasileiro. Não existem titulares nem reservas’. Então, mandava o roupeiro distribuir as camisas. Geralmente eram azuis, brancas e verdes. Aí o Tim, o famoso ‘El Peon’, como o chamavam os argentinos, ‘A Raposa’ como excelente treinador que foi, o meu saudoso amigo me pegava e dizia: ‘Flávio pensa que sou trouxa, mas se você não estiver com a camisa da cor da do Da Guia não está na equipe titular. Se quiser ficar, mete os peitos e disputa a posição’. Portanto, a camisa do Da Guia nunca era disputada! (Zizinho, O Mestre Ziza, p. 59)
Ivan Sotter (autor da Enciclopédia do Futebol, sobre o termo “Domingada”)
Parecia que a mágica de Domingos era fácil de ser aprendida e executada, tal a sua simplicidade. Driblava na área e saía soberano. Havia jogadores que, antes de enfrentá-lo, iam logo entregando a bola. O problema era aqueles que tentavam imitá-lo. Tudo era tão simples, por que não tentar? Tentavam e se davam mal. Isso é que é uma ‘domingada’: o se dar mal tentando imitar Domingos. Só é chamada de ‘domingada’ quando a coisa não dá certo.




Fonte:
O divino mestre – biografia de Domingos da Guia (Editora Gryphus, 2005)

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