sábado, 12 de novembro de 2011

Não sei, não vi e toca pra frente


O livro tem apenas 80 páginas, editoração bem simples, mas suas histórias são importantíssimas na preservação da história de uma sociedade local. Histórias como essas, narradas pelo autor Lupercio Luiz de Azevedo, em seu livro “A História não contada do futebol Potiguar”, mostram com simplicidade a tradição e importância do futebol para o povo brasileiro. Histórias que, contadas na mesa de um bar, ou na roda de amigos, nas centenas de milhares de quadras e campos espalhados pelo país, pareceriam história de pescador. Mas não são...

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Não sei, não vi e toca pra frente

Mossoró, cidade diferente em todos os aspectos, até mesmo no futebol, nos mostra muita raridade. O ano de 1965 fora espetacular em matéria de futebol, culminando com uma disputa em série “melhor de três” partidas, reunindo Potiguar x Ferroviário. Era o título de campeão mossoroense que estava em jogo. O time tricolor da Estrada de Ferro, vencera a primeira partida pelo placar de 1 a 0 e, pelo futebol que apresentara, dificilmente deixaria escapar o título máximo. No segundo jogo, onde acabou acontecendo o grande caso, novamente o time coral se mostrava bem melhor que o adversário, vencendo-o, na primeira fase, pelo placar mínimo. No entanto, futebol é sempre futebol e uma surpresa viria modificar o andamento da partida, consequentemente, o curso da história e do próprio campeonato. Pelé (o próprio nome já diz tudo), era o mais perigoso e temido atacante do Potiguar, fazendo miséria na defensiva adversária. Várias vezes aplaudido pela torcida presente ao velho estádio da Rua Benjamin Constant, ele desconcertava toda a defesa tricolor, prenunciando desta forma, que o empate estava próximo. Num certo lance, logo no início do segundo tempo, o Pelé mossoroense ao correr com a bola dominada junto à linha lateral das arquibancadas (se é que se podia chamar de arquibancada aquela mureta), ouviu alguém gritar em voz alta:

- Corre Pelé, que o teu irmão está brigando fora do estádio com a polícia e levando uma saraivada de pancadas.

O crioulo não contou conversa. Deixando de lado a bola, pulou a mureta do campo e já fora do estádio, entrou na luta, desta feita, contra a polícia. O pau cantou solto, com o craque tentando de todas as formas, sem resultado, driblar os cassetetes dos policiais. Depois de também entrar na dança, os ânimos foram serenados e Pelé com o couro cabeludo ardendo mais que pimenta  no focinho de cachorro, volta ao campo de jogo, sem que o juiz tenha notado qualquer irregularidade. Por falar em juiz, o famoso João Batista de Amorim (o popular não sei, não vi e toca pra frente...) estava atuando à contento. E seu único pecado, durante toda a partida foi o de não ter observado a saída do atleta de campo, e depois, o seu retorno. O engraçado na história toda, é que ao retornar ao campo de jogo, Pelé recebeu uma bola livre pelo setor esquerdo de ataque do Potiguar, caminha tranqüilo até a entrada da área e na saída do arqueiro, fuzila inapelavelmente, empatando a partida. Logo em seguida, uma jogada parecida, e mais uma vez Pelé, desempatando a partida e dando a vitória ao Potiguar. O juiz do encontro, alheio a tudo que se passara, confirma os dois gols de Pelé. A vibração foi enorme. Houve invasão de campo, com a torcida carregando em triunfo o grande ídolo e herói do jogo. A vitória do Potiguar acabou forçando uma terceira partida, também vencida pelo Potiguar, que acabou tornando-se o novo campeão mossoroense. A história passou para o folclore do esporte de Mossoró e servindo de gozação à diminuta e sempre fiel torcida do Ferroviário. Ainda hoje quando se pergunta ao juiz João Batista de Amorim, o que aconteceu naquele fatídico dia, ele responde:

- Não sei, não vi e toca pra frente...

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Ainda no livro de Lupercio Luiz de Azevedo, uma crônica sensacional, onde o autor resgata nomes curiosos do futebol de Mossoró e de uma equipe no interior do Pernambuco. Já imaginaram se Galvão Bueno tivesse de narrar o jogo???

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Um time diferente

Essa contribuição recebi de um grande amigo, curioso com as coisas do futebol, por esse país afora. Diz respeito a escalação oficial do selecionado de Riaco do Gado, no município de Tabira (PE). O time que não deve ser um primor de técnica, com certeza deve ser o primeiro, disparadamente, em nomes esquisitos. Eis a formação do quadro:
“Cuíca, Durica, Totó, Pintinho e Tant-Tan; Mané Telinha, Coiva e Catraca; Ramiro, Goipeba e Catatau”. De quebra o treinador é o Ciço Boca de Sapato.

E como a curiosidade aumentou, resolvi então pesquisar nomes também diferentes, que militaram no futebol de Mossoró. Eis uma relação vigorosa: “Ruído, Chaleira, Pitoco, Nôpa, Carestia, Resma, Birim, Jabela, Pedão, Molambo, Jesus, Xiranha, Nono, Bila, Paca, Xexéu, Arranha, Panam, Baterista, Imagem, Milagre, Saruê, Macarrão, Roladeira, Caju, Bala de Fuzil, Gia, Batata, Feijão, Pirão, Berico, Pai-tá-bom, Carrola, Nego Cão, Pinto, Nego Chico, Pinta, Cooperativa, Boga, JB, Toreite, Luca, Boêmio, Chorão, Pinduca, Brosfério, Caboré, Luluta, Corredor, Negão, Sulina, Surica, Seu Né, Corina. E tome mais: Burrego, Gute, Cachorrinho, Sapinho, Triado, Chinês, Caçuleta, Paraguaio, Lolinha, Bolão, Bodinho, Sapiranga, Melotuca, Vera Lúcia, Nêgo Xin, Tutula, Batoré, Gravatá, Boião e Regalado”.

Com tanta raridade, o futebol mossoroense contribui de forma significativa, para a infindável galeria de nomes esquisitos dentro do futebol brasileiro.

Sobre o autor

Lupercio Luiz de Azevedo é também autor de vários livros, entre eles, Estórias do Trivial, Futebol em Tom Menor,Fusão - Uma Proposta Explosiva, SAAB- Uma Semente que Brota no Solo Potiguar, A História não contada do Futebol Potiguar, Duarte Filho- Um Exemplo de Dignidade na Vida e na Política e Potiguar - 60 anos de Glórias e conquistas.

Para outras informações sobre o autor, acessar: http://www.correiodatarde.com.br/editorias/esporte-46511

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