quinta-feira, 3 de novembro de 2011

João Cabral de Melo Neto e o futebol


O poeta brasileiro que mais escreveu sobre o tema futebol foi João Cabral de Melo Neto. E não escrevia por escrever, escrevia porque adorava futebol desde a infância no Recife quando chegou a campeão juvenil jogando pelo Santa Cruz, em 1935. Mas sua grande paixão nos gramados foi o América do Recife, clube pelo qual também chegou a jogar.


João Cabral aos 15 anos
com a camisa do juvenil do Santa Cruz
João Cabral jogava na posição de "volante" e segundo os que o viram jogar foi uma promessa do futebol pernambucano.   E um dos motivos que o levou a se afastar dos gramados foi a terrível dor de cabeça que o torturou durante toda a vida.


Em 1986, uma entrevista revela a paixão do poeta pelo futebol. O arquivo foi extraído do site:


Como ex-jogador de futebol, o senhor acha que o futebol faz bem à saúde mental do povo brasileiro?
João Cabral: "Ah, eu gosto de futebol! Mas, agora, como não vivo no Brasil, não vou a futebol.  A grande vantagem do futebol brasileiro é que é o único futebol que você assiste sem estar interessado na vitória de um clube. Você assiste porque é um espetáculo bonito. Com futebol europeu não acontece. Você não vê uma jogada maliciosa, não vê um gesto harmônico, não vê elegância. Só aquela correria. E correria não me interessa. Só consigo me interessar pelo futebol brasileiro. Há os que gostam de ver futebol porque gostam de ver o time predileto ganhar. Mas acontece que meu clube é o América. Ganha tão pouco... Então, gosto de futebol não para ganhar. Gosto pelo espetáculo. Eu era América no Recife. Quando voltei para o Rio, era normal que fosse América também. Joguei um campeonato pelo América, no Recife. O Santa Cruz tinha chegado ao fim do campeonato empatado com o Torre, um clube que nem existe mais. O Santa Cruz não tinha center-half. Então, descobriram que a minha mãe era fanática pelo Santa Cruz, embora nunca tenha ido a um jogo de futebol. A diretoria do Santa Cruz, então, foi pedir à minha mãe que me fizesse jogar pelo Santa Cruz. Joguei. Disputei o campeonato com o Torre e fui campeão juvenil pelo Santa Cruz, em 1935".

Daí é que surgiu a famosa dor de cabeça que o acompanhou durante décadas?
João Cabral: "Não. Minha dor de cabeça começou quando eu tinha dezesseis anos e foi uma das coisas que me fez largar o futebol. Naquele tempo, eu não podia correr, porque vinha a dor de cabeça...".




América, campeão pernambucano de 1944
Mas a grande paixão de João Cabral era mesmo o seu América do Recife. Em um arquivo encontrado no acervo do jornal Diário de Pernambuco, de 2009, ele revela esse encanto. João escreve sobre seu América para o primo Manuel Bandeira e ainda tira uma casquinha do Rubro-Negro Gylberto Freire.


                                                                        ********

Prezado Manuel,

Ontem, fui dormir feliz. De longe chegou a notícia que o meu querido América vencera o Náutico por 3x0. Em quatro jogos decisivos, três vitórias maiúsculas. O que mais posso eu desejar dessa vida? Apenas me dói o fato de nao estar no Recife. Soube que uma multidão conduziu nossos jogadores até o Bar Savoy. Soube que a Ilha do Retiro foi pequena para acomodar tantos quantos quiseram assistir nosso momento de glória.

Sabe que como me arrependo de ter jogado pelo Santa Cruz. Eu queria, na verdade, usar o manto verde e branco. Mas eram coisas da idade.
Manuel, mas apresso-me em te contar. Eu, que como sabes, sou o mais descrente dos crentes, cansado de tantas derrotas durante tantos anos, decidi provocar o Criador.

Quando o ano começou e foram anunciadas as partidas decisivas, absolutamente certo de que o Náutico seria campeão, chamei o Criador para uma armadilha. Disse-lhe que, caso o meu América vencesse, eu me daria por satisfeito. Poderia ser o último título conquistado. Poderia não ser campeão mais nunca. Eu ficaria feliz com aquele título.

Como Deus não existe, ou não haveria essa vida Severina (gostei da expressão, talvez eu torne a usá-la no futuro), seria um mera experiência literária.
No primeiro jogo dessa absurda e interminável disputa final, o inesperado acontece: O América triunfa!

Calei em meu canto, desconfiado. Mas não havia de ser nada. Quase que torcendo contra meu time do coração, aguardei o resultado da segunda peleja. Menos mal, o universo parecia estar voltando para o seu lugar devido. E, durante um certo tempo, acalentei novamente a certeza no meu mundo material. Pois, tu sabes, a inspiração eu deixo contigo. Não me deixo levar por esta quimera.
Manuel. Chegou então o momento do terceiro jogo. Acordei convicto de que ali terminavam minhas dúvidas metafísicas. E o América venceu novamente!
Tranquei-me em mim mesmo. O mundo inteiro em guerra e eu convalescendo de uma absurda dúvida existencial.

Conto a ti estas coisas, pois sei que somos diferentes. Tens inspiração, lirismo, lembranças que eu não consigo ter. Quem sabe, tens até fé em Deus? Não essa fé social, mas uma fé real, idealista. Eu lia versos de Cordel para empregados lá do engenho, eu tinha pena deles, mas uma pena racional. Uma pena da vida e da morte daqueles pobres diabos. Que já vivem no inferno.

Mas agora, tratava-se de um fato totalmente diverso. Os céus subitamente ganhavam vida. E o América, subitamente, parecia uma máquina de platina de jogar futebol. Ia triturando os alvirrubros. Sem dó nem piedade.

No dia de ontem, fui para meu quarto e lá me tranquei. Li muito. Dormi um pouco. E quando as horas do jogo se escoaram, busquei saber notícias do Recife. Estavam novamente racional. Não cogitava que poderes sobrenaturais controlassem uma pelota, vinte e dois homens e um mero jogo. Mal disfarçando, porem, um certo nervosismo, escutei quando alguem gritou lá de dentro que mandassem me avisar: O América era campeão pernambucano!

Enlouqueci, Manuel. Confesso que perdi meu prumo durante alguns instantes, e caso estivesse em Recife, teria sido uma festa. Imaginei Recife coberto de verde. Vou querer pintar o Bar Amarelinho com outras cores amanhã. E diabos, ninguém conhece meu América aqui no Rio!

Agora reestabelecido e feliz, eu sei que tudo não passou de um surto de superstição. Uma insanidade temporária. Uma perda monentânea da razão. O América era de fato um esquadrão invencível. Ano que vem será, aliás daqui a alguns meses, será bicampeão. Hoje somos os campeões de 1944, mesmo estando em 1945. Coisas deste futebol brasileiro, que nunca foi muito sério.
Deus, se é que existe, deve estar cuidando de outras coisas bem mais importantes.
Um abraço, meu caro Manuel Bandeira,

Do seu primo,

João Cabral de Melo Neto.

PS: Perdão se na emoção que agora sinto, a cronologia dos fatos houver me traído a memória. Em tempo, nosso primo Gilberto deve estar descabelando com as derrotas do seu Esporte! (atual Sport Recife)




Escudo do América do Recife
A prova maior de seu amor pelo América, João Cabral deixou nestes versos encontrados no livro "Antologia lírica de um sentimento obstinado", lançado por ocasião dos 100 anos do clube:


O torcedor do América F. C.                                    
 
O desábito de vencer
não cria o calo da vitória;
não dá à vitória o fio cego
nem lhe cansa as molas nervosas.
Guarda-a sem mofo: coisa fresca,
pele sensível, núbil, nova,
ácida à língua qual cajá,
salto do sol no Cais da Aurora.



Literatura na Arquibancada destaca ainda outros poemas marcantes que o poeta fez sobre o futebol:





Ademir da Guia
 
Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.
 
Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o
 
Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.


De um jogador brasileiro a um técnico espanhol
 
Não é a bola alguma carta
que se leva de casa em casa:
 
é antes telegrama que vai
de onde o atiram ao onde cai.
 
Parado, o brasileiro a faz
ir onde há-de, sem leva e traz;
 
com aritméticas de circo
ele a faz ir onde é preciso;
 
em telegrama, que é sem tempo
ele a faz ir ao mais extremo.
 
Não corre: ele sabe que a bola,
Telegrama, mais que corre voa.


A Ademir Meneses
 
Você, como outros recifenses,
nascido onde mangues e o frevo,
soube mais que nenhum passar
de um para o outro, sem tropeço.
 
Recifense e, assim, dividido
entre dois climas diferentes,
ambidestro do seco e do úmido
como em geral os recifenses,
 
como você, ninguém passou
de dentro de um para o outro ritmo
nem soube emergir, punhal, do lento:
secar-se dele, vivo, arisco.


O futebol brasileiro evocado da Europa
 
A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e, embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
 usar com malícia e atenção
 dando aos pés astúcias de mão.



Para obter mais informações sobre a vida e obra do poeta, acessar:



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