sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A imagem que mudou a vida de Dadá Maravilha


A história é chocante. E está no excelente livro escrito por Lúcio Flávio Machado, “Dadá Maravilha” (Editora Del Rey, 1999, MG), uma biografia do irreverente centroavante brasileiro (para quem não conhece a trajetória de Dario no futebol brasileiro, acessar: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dad%C3%A1_Maravilha, pois esse post é para a reflexão sobre a incrível reviravolta na vida de um jovem chamado Dario).

Após conhecermos o início de vida traumático de Dario, o “Dadá Maravilha”, parece impossível que esse homem, que vive com um eterno sorriso no rosto e ainda dono de tiradas sensacionais sobre o mundo da bola, tenha dado a volta por cima na vida.

O livro começa assim:

A primeira cena

Nasceu Dario José dos Santos, em 4 de março de 1946, numa casa pobre na rua Frei Sampaio, no bairro de Marechal Hermes, subúrbio do Rio de Janeiro; Filho de João José dos Santos, funcionário da Companhia Energética do Rio de Janeiro – Light, e de dona Metropolitana Barros, dona de casa. Dos primeiros anos de vida ele pouco se lembra. A única cena da infância, que se tornaria marcante por boa parte de sua vida, foi a morte da mãe que ele presenciou aos cinco anos. Dona Metropolitana, que sofria alucinações, estava na cozinha preparando o almoço; Dario brincava ao lado dela. De repente, num gesto impensado e inesperado, ela jogou querosene por todo o corpo, ateou fogo e saiu correndo pela rua como tocha humana. Vendo aquela cena, na tentativa de acudir a mãe, o menino correu tentando abraçá-la. E num último ato, lúcido e fraternal, ela se desvencilhou do filho, jogando-o numa vala à céu aberto. E foi de lá, dentro de um esgoto, que ele viu a mãe morrer totalmente queimada.

 A partir desse instante, Lúcio Flávio Machado relata como a vida do menino Dario mudou radicalmente. Virou um garoto problema, revoltado, calado e que gostava sempre de ficar sozinho. Para quem conhece o Dadá Maravilha das tiradas e sacadas sobre o mundo da bola, não consegue imaginar que um dia ele foi esse jovem rebelde e revoltado. A tragédia com a mãe aconteceu no ano de 1951 e o pai, sem saber o que fazer com os três filhos, decidiu entregá-los ao Serviço de Assistência aos Menores – SAM, atual Funabem.

Dario acabou se separando dos irmãos na instituição. Ficou sozinho no Instituto Profissionalizante Quinze de Novembro – IPQN, em Quintino Bocaiúva, zona norte do Rio de Janeiro. Revoltado, fugia constantemente da instituição que abrigava menores abandonados para praticar pequenos furtos. Na escola ou na rua, vivia com uma pequena faca, sempre afiada, para “espetar” quem ousasse o desafiar. Brigava por tudo, por comida especialmente. Adolescente, um marginal em potencial estava nas ruas. As fugas da escola prosseguiram, assim como os roubos, só que desta vez, como ele mesmo lembra em suas memórias no livro de Lúcio Flávio: “eu já estava passando dos limites, a única coisa que não fiz foi estuprar, mas batia nas mulheres, era covarde, sem coração e gostava de roubar. Ofendia a todos com palavrões e furava todo mundo com minha inseparável faca afiada. Isso me fazia alegre, eu gostava de fazer os outros sofrerem porque eu sofria também”.

Deste momento em diante, hora de resgatar as páginas de Lúcio Flávio, com momentos trágicos e emocionantes:
(...)
Cansado das incertezas quanto ao futuro, Dario tentou o suicídio, cortando os pulsos. Foi socorrido a tempo e levado para o pronto socorro. O fantasma da mãe se suicidando, a morte e o desespero atormentavam cada vez mais. “A tristeza era muito grande, não pensava em nada de bom. Não tinha formação religiosa. Não acreditava em Deus e tinha até bons motivos para achar isso. Achava que, se Deus existisse, Ele não queria nada comigo. Chorei todas as lágrimas possíveis. A única certeza que tinha é que todo mundo não prestava, eu queria matar todo mundo, era um poço de incertezas. Não gostava do mundo e de ninguém, minha certeza era o mal”.

Depois da tentava de suicídio, Dario passou a questionar o sentido da vida. Mas não tinha tempo para procurar respostas, os problemas continuavam e ele não via outra alternativa a não ser os furtos. A polícia de tanto prender e soltar, avisou que tinha chegado ao limite. Na próxima vez, ele não sairia vivo. As surras já não adiantavam mais. Depois do aviso da polícia, Dario começou a pensar que tinha chegado o momento de mudar de vida. Ou se integrava à sociedade ou virava marginal de vez. À noite, Dario sempre fugia para dormir na copa das árvores, era quando tinha um momento de paz, gostava de olhar o céu, se esconder dos problemas. E foi numa dessas fugas que sua vida começou a mudar: “Apesar de ter medo de cobras eu me sentia melhor, em cima das árvores, sozinho, isolado no meu mundo. Num desses dias, eu vi a imagem que mudou toda a minha vida. Minha mãe apareceu para mim. Até então, a imagem que guardava dela, era aquela do suicídio, pegando fogo. Desta vez, ela apareceu como um anjo, toda de branco. E não era um sonho, a imagem era bem real e eu pude ouvi-la. Dizia que aquele tipo de vida não servia para mim, que não tinha feito um filho para ser maltratado, xingado e ofendido por todos. Eu não podia mais ter o diabo no corpo. Depois daquela noite, minha vida mudou para melhor, senti uma energia diferente, como se tivesse tirado um peso de cima de mim. Nunca mais vi a imagem dela pegando fogo, a partir daquele dia ela tinha virado um anjo”.

E deste dia em diante, a vida de Dario mudou...

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