segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Dia do radialista, dia de Ary Barroso


Em homenagem a data de nascimento do compositor, músico e radialista Ary Barroso, 7 de novembro, ficou-se instituído O Dia do Radialista. Ary Barroso faleceu em 09 de Fevereiro de 1964, no Rio de Janeiro.

E já que o dia do radialista é uma homenagem a Ary Barroso, Literatura na Arquibancada resgata alguns textos sobre a paixão dele pelo futebol.

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Ary Barroso, mineiro de Ubá, fez sua primeira narração pela Rádio Cruzeiro do Sul no dia 27 de dezembro de 1936, exatamente no terceiro jogo entre Flamengo e Fluminense que decidia o título da Liga Carioca. Ary ficou conhecido como o “homem da gaitinha”, pois em suas transmissões trocava o grito de gol pelo sopro de uma gaita, igual às que os vendedores de sorvete usavam nas ruas para atrair a criançada. Na primeira vez em que soprou sua gaita, Ary comemorava o gol de Leônidas, mas quando teve de usá-la pela segunda vez, foi para registrar o gol de empate que deu o título ao Fluminense.
O efeito sonoro inovador, precursor das vinhetas e efeitos sonoros em futuras transmissões, tinha uma razão de existir. Além do fato de ser obrigado a narrar no meio dos torcedores, o que abafava a voz de qualquer locutor, o som da gaitinha, que diferenciava suas transmissões, também ajudava na hora de vender os anúncios. Foi nesse período que Ari conheceu o jornalista e publicitário Antônio D’Ávila, ou simplesmente, Zuzu, um pernambucano de 18 anos, na época apenas contato publicitário, que fazia a venda de suas transmissões.
Zuzu vendia anúncios como se fosse água. Os preços, nem um pouco populares, variavam entre 5 e 10 mil réis por irradiação, eram divididos em cotas de três ou cinco textos e tinham em média trinta palavras. Vendia-se para todo tipo de anunciante, desde fabricantes de calçados e móveis até para o óleo perfumado Pindorama, que dizia “de cabeça em cabeça, corre a fama do óleo perfumado Pindorama”.
A dupla Zuzu e Ary fez tanto sucesso de público e para os cofres da emissora, que no ano seguinte, em 1937, foram contratados pelo empresário Assis Chateaubriand para trabalhar na Rádio Tupi. Ari ficaria por mais quinze anos na Tupi, enquanto Zuzu continuou a fazer sucesso também na política, e anos mais tarde viria a ser assessor especial do presidente Jânio Quadros, criando o jingle histórico: “Varre, varre, vassourinha...”.
Fonte: 
trecho do livro Donos do Espetáculo – Histórias da Imprensa Esportiva do Brasil, André Ribeiro, Editora Terceiro Nome, SP, 2007.
Ary tocando sua gaitinha no Maracanã
Vale a pena também conferir os artigos escritos por Regina Rocha para o portal sobre a Copa 2014 (www.portal2014.org.br)

Quem não conhece "Aquarela do Brasil", primeiro samba-exaltação, uma das músicas mais executadas de todo o mundo? Pois é dele, que compôs ainda grandes sucessos da MPB, como: É Luxo Só, No Tabuleiro da Baiana, Boneca de Piche, Os Quindins de Yayá, Camisa Amarela, Na Baixa do Sapateiro e dezenas de outras músicas. Mas o seu Ary era bom mesmo em futebol e enfrentava qualquer desaforo para torcer pelo Flamengo.

Futebol hoje é fenômeno de mídia. Até a torcida virou cenário, como se percebe pelas gigantescas bandeiras agitadas só para aparecer na telinha. E o jogador, não comemora o gol voltado para a câmera, colado à lente e de costas para a arquibancada? Não é a toa que os  projetos dos novos estádios para a Copa do Mundo priorizam áreas da imprensa, cientes da importância da televisão, que hipnotiza os zilhões de olhares do mundo todo.

Esta, a realidade... Mas houve tempo em que o rádio era o campeão da popularidade, época em que o círculo fechado das diretorias dos clubes ainda via com desconfiança a ação daquela mídia primitiva. Nossa história começa por aí,nos anos 1930, quando entra em cena um certo Ary Barroso.

Aos 18 anos, com uma herança de 40 contos de réis no bolso, o mineiro Ary Evangelista Barroso muda-se para o Rio de Janeiro, onde ingressa na faculdade de Direito. A música e a boemia logo seduzem o jovem, levando embora seus 40 contos, em dois anos. Em compensação, rapidamente se torna um compositor respeitado, gravado pelos maiores intérpretes da época.

Quem não conhece "Aquarela do Brasil", nosso primeiro samba-exaltação, uma das músicas mais executadas de todo o mundo? Pois é dele, que compôs ainda grandes sucessos da MPB, como: É Luxo Só, No Tabuleiro da Baiana, Boneca de Piche, Os Quindins de Yayá, Camisa Amarela, Na Baixa do Sapateiro... No comando do programa A Hora do Calouro, na Rádio Cruzeiro do Sul (mais tarde adaptado para a TV), revelou artistas como Dolores Duran, Elza Soares e Elizeth Cardoso.

Em 1933, já tendo músicas suas na voz de Carmen Miranda e Francisco Alves, Ary  ingressava na Rádio Phillips, para comandar programas de calouros e, por volta de 1935, iniciar a carreira de locutor esportivo. Logo entrou para a Rádio Tupi, onde foi comentarista, humorista, ator e locutor. Artista polivalente, nos anos 1940 fez até trilha sonora para o desenho animado "Você Já Foi à Bahia?", de Walt Disney.

"Carmen Miranda foi o Domingos da Guia da nossa música popular"
Uma das gravações de Carmen Miranda, o samba "Deixa Falar", iniciava com a participação de Ary Barroso narrando um hipotético gol de Perácio no jogo Brasil x Checoslováquia. A letra, citando clubes do Rio e Sao Paulo, exalta Leônidas da Silva, o Diamante Negro. Ary Barroso personificava bem a ligação entre a MPB e o futebol, pois ao lado de sua carreira de compositor, foi um notável locutor esportivo. Antes do final da Copa de 50, Ary Barroso mostrava otimismo com "O Brasil Há de Ganhar", lançado por Linda Batista.

Compositor-cronista de jornal-apresentador e locutor de rádio, Ary incursionou até pela política e foi o segundo vereador mais votado do Rio de Janeiro em 1946. Na Câmara foi ativo defensor da construção do Maracanã, ao lado do jornalista Mário Filho.

Ary Barroso transmitindo jogo
de cima de um telhado,
mesmo em dia de chuva.
Um dia, depois de tanto criticar o Vasco da Gama, Ary Barroso foi proibido de entrar no estádio São Januário.  E para não deixar os ouvintes na mão, o teimoso radialista simplesmente subiu no telhado de um galinheiro ao lado e de lá fez a locução do jogo. Esta não foi a única transmissão clandestina de Ary. De outra vez, novamente impedido de entrar no estádio num jogo de um campeonato sul-americano no Uruguai (outra emissora detinha os direitos de transmitir a partida), Ary não se deu por vencido e hospedou-se num hotel de Buenos Aires, na vizinha Argentina. De lá, sintonizado na rádio Mayrink Veiga, reproduziu a narração, como se ele próprio estivesse no campo. Mais que isso, a certa altura do jogo, passou a acompanhar a transmissão de uma rádio argentina, e foi "traduzindo" a partida. Com esse truque, conseguiu anunciar um gol antes da rádio carioca. No mesmo campeonato do Uruguai, o brasileiro chegou a desmaiar de emoção durante uma partida. 

Em 1944, na decisão do campeonato carioca entre Flamengo e Vasco, Ary estava na cabine de rádio quando aos 41 minutos do segundo tempo saiu o gol que dava o título de tricampeão ao rubronegro. Emocionado, ele abandonou o microfone e foi torcer à beira do gramado.

Na final da Copa do Mundo de 1950, quando o uruguaio Gighia fez o Maracanã emudecer, Ary Barroso emudeceu, chorou e deu por encerrada suas transmissões futebolísticas. Acabou voltando, dois anos depois. 
Compositor prolífico, não escondia que sua maior paixão era mesmo o futebol... Flamenguista doente, torcedor fanático, marcou a história da locução esportiva no país por sua personalidade e também por inovações criativas. Exemplo: Ary foi o primeiro repórter de campo, desses de microfone em punho em busca da primeira declaração do goleador. Até então nenhum profissional saía da cabine de rádio.
 Sua marca era uma indefectível gaitinha de boca, dessas agudas de criança, que ele adquiriu numa loja de instrumentos, e que tocava sempre que se fazia um gol. Bem, quase sempre...porque, se o gol era do Flamengo, a gaitinha soava forte e musical; o mesmo não acontecia quando era gol contra o seu time do coração. Mas também, ora essa, Ary nunca tinha escondido dos ouvintes sua tendência a torcedor rubro-negro. Quando transmitia jogos de seu time, os ouvintes já nem estranhavam se a figura invadia o campo pra xingar o juiz, abandonava o microfone para incentivar os jogadores ou mesmo emprestava sua gravata pra servir de tala pra um jogador chamado Jaú, que machucou a clavícula num lance contra um time inimigo.

Tem ainda mais uma história bem engraçada, envolvendo uma aposta feita pelo flameguista Ary e outro compositor, o fluminense Haroldo Barbosa. Como conta o escritor Ruy Castro: "Em 1953 ou 1954, os dois apostaram o bigode num Fla-Flu. Quem perdesse teria o bigode raspado pelo outro, com imprensa e tudo. Haroldo ganhou, e a história, anos depois, acabou num samba: "Flamengo já parou de perder por aí / Eu vi o Haroldo Barbosa raspar o bigode do Ary. / Às vezes, com dez homens ele vence / Mas, também com onze, perdeu para o Fluminense".
Fonte:


Outra dica interessante para conhecer a paixão de Ary Barroso pelo futebol é o site www.arybarroso.com.br . O texto abaixo faz parte da coletânea de textos sobre Ary Barroso.

O Ary de sempre
Antônio Maria

Quando se vai escrever sobre Ary Barroso, é necessário tomar certas precauções para que, ante o seu magnetismo pessoal, não se cometa a facilidade do elogio generalizado.

Ary, um homem cheio de erros e acertos, que, embora tenha feito coisas lindas (mais das vezes), fez coisas sem beleza, também. Não se lhe negue, todavia, uma grande e rara personalidade, capaz de anular quem à sua volta estiver, fazendo coro. Viveu de uma aguda sensibilidade, que se derramou em suas fabulosas melodias, conhecidas aqui como na China.

Ninguém, até hoje, fez, em música e pela música do Brasil, o que fez esse mineiro inquieto, vagotônico até a medula, trabalhador incansável do seu êxito em vida e da imortalidade da sua obra. Sua passagem à posteridade foi certa e merecida. Se, daqui a cinqüenta anos ninguém por aqui se lembrar mais de sua "Aquarela", um escocês será capaz de tocar em gaita-de-fole a grande melodia da segunda parte.

Numa entrevista feita em 1946 para a "Revista do Rádio", dizia-me, após tiras os óculos e esfregar as mãos no rosto (o rosto de pele mais seca que existiu), que estava cheio de projetos. Que esperava, ansiosamente, por um busto em Ubá, uma medalha de "Honra ao Mérito" e uma volta gloriosa a Câmara Municipal. Queixava-se de que não dormia, e que em sua cabeça rodavam tratores e chocavam-se automóveis. Pensava no filho, Flávio Rubens, que fora caçar e preocupava-se. Desta feita fiz uma série de perguntas, e, em sete respostas, Ary liquidava o assunto música.

No futebol brasileiro, ninguém poderá esquecer sua gaitinha, que tocava quando havia gol. Deixou o microfone porque quis, e ainda não foi devidamerite substituído. Nunca foi empolado e sabia falar a mesma linguagem dos ouvintes.

Reconhecia que a pessoa que mais autoridade exercia sobre ele era Yvonne, sua esposa.

Gostaria de viver até quando não flcasse ridículo, e foi o compositor
nacional mais divulgado no mundo; a sua característica marcante era o fato de, ao ser entrevistado, empolgar-se tanto com o assunto, que, após verificar que se excedera na declarações, saía-se com esta ressalva:

- "Se publicar, eu desmentirei!"

Este senhor foi exatamente o Ary Barroso de sempre.

Antônio Maria
(Jornalista e compositor)

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