sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Futebol no sertão...em cordel.


Literatura na Arquibancada traz pela primeira vez um post sobre literatura de cordel, uma arte encantadora, mas pouco conhecida ou divulgada. E o futebol também pode ser um cordel, e quando ele é feito por craques do gênero, melhor ainda. Conheça o trabalho de dois paraibanos, Valentim Martins Quaresma Neto e Francisco Diniz, no http://www.projetocordel.com.br/. “Futebol no Sertão” é uma pérola. Antes, porém, melhor sabermos o que é cordel...na forma de um cordel...
Capa do cordel
"Ronaldinho, o fenômeno jogando errado".
Crédito: Leontino Quaresma
Literatura de Cordel
É poesia popular,
É história contada em versos
Em estrofes a rimar,
Escrita em papel comum
Feita pra ler ou cantar.

A capa é em xilogravura,
Trabalho de artesão,
Que esculpe em madeira
Um desenho com ponção
Preparando a matriz
Pra fazer reprodução.

Mas pode ser um desenho,
Uma foto, uma pintura,
Cujo título, bem à mostra,
Resume a escritura.
É uma bela tradição,
Que exprime nossa cultura.

7 sílabas poéticas,
Cada verso deve ter
Pra ficar certo, bonito
E a métrica obedecer,
Pra evitar o pé quebrado
E a tradição manter.

Os folhetos de cordel,
Nas feiras eram vendidos,
Pendurados num cordão
Falando do acontecido,
De amor, luta e mistério,
De fé e do desassistido.

A minha literatura
De cordel é reflexão
Sobre a questão social
E orienta o cidadão
A valorizar a cultura
E também a educação.

Mas trata de outros temas:
Da luta do bem contra o mal,
Da crença do nosso povo,
Do hilário, coisa e tal
E você acha nas bancas
Por apenas um real.

O cordel é uma expressão
Da autêntica poesia
Do povo da minha terra
Que luta pra que um dia
Acabem a fome e miséria,
Haja paz e harmonia.

(autor: Francisco Diniz)

Futebol é alegria
E o gol a grande emoção,
O psicólogo defende, 
Faz liberar a tensão.
Nesse campo eu vou entrar,
Leitor eu quero falar
Do futebol no sertão. 

Não pense que falarei
Do futebol dos milhões,
Jogadores que ganharam
Os títulos nas seleções,
Quero falar das peladas,
Partidas bem disputadas
Nas quebradas dos sertões.

Eu sou esse homem torto,
Do andar desaprumado,
Correndo pelo sertão,
Lugar muito iluminado...
Trabalho de sol a sol,
Depois vou pro futebol
E nunca fico cansado.
1

No sítio onde eu nasci,
Marcado pela pobreza,
A começar pelo solo,
São coisas da natureza,
Por isso sofremos tanto
A procura de um campo,
Foi grande a nossa peleja.

Arranjamos um local,
É um campinho pequeno,
Espaço bem desigual,
Sempre subindo e descendo,
Uma pedrinha miúda,
Vermelhinha, pontiaguda,
Bem afiada, um veneno...

Descalço, nesse terreno
E driblando a precisão, 
Sempre com falta de bola,
De chuteira e de meião.
E para ser mais exato
Pedindo aos candidatos
No tempo da eleição...
2

Chegou ao sítio um barão,
Candidato a prefeito,
Fez uma reunião
Bem cordial e com jeito
E disse pra animar:
- Vou o esporte ajudar,
Só preciso ser eleito.

Meninos se eu ganhar
Não haverá mais pobreza...
Eu quero ofertar ao time
Um terno da Portuguesa,
Da qual eu sou torcedor,
Mas ninguém desconfiou
Que tudo era esperteza...

Eu tinha tanta certeza
Que o homem ia deixar
Terno, meião e chuteira,
Cheguei até a sonhar,
Na rede bateu meu pai:
- Meu filho assim você cai
Eu dando soco no ar...
3

Mas ao se aproximar 
O dia da eleição,
Não gosto nem de lembrar,
Tamanha decepção...
O homem chamou o time
E anunciou o crime
Da chuteira e do meião...

Com um calçado na mão,
Começou a explicar:
- O terno eu não consegui,
Calção eu não posso dar,
Só tem meião e chuteira
E eu não vou fazer besteira,
Não posso mais confiar...

Agora eu vou entregar
Somente a do pé esquerdo,
Então depois que eu ganhar,
Acabará o segredo,
Quando eu já for o prefeito
Entrego a do pé direito,
Confiem, não tenham medo.
4

A equipe ficou triste,
Nesse dia não treinou,
O material entregue
A cada um jogador
Depressa foi devolvido
Porque aquele bandido
Graças a Deus não ganhou...

O time todo votou,
Pois ninguém tinha juízo,
Depois que o pleito passou
Fez-se o que foi preciso,
Continuou a treinar,
Toda hora, sem parar
Pra tirar o prejuízo...

Sertanejo pé pesado
Couro grosso, casca grossa
Tem coragem até demais
Esse pessoal da roça,
Começamos a ganhar
Torneio em qualquer lugar,
A vitória era nossa...
5

Fomos a um grande torneio
Lá no Sítio Umarizeiro...
O prêmio era de ponta
Nem troféu e nem dinheiro...
Naquela doce manhã
Ganhamos uma marrã 
Para botar no chiqueiro...

O time com pulso firme,
Alegre, feliz da vida...
Ganhou lá no Sítio Altos
Uma cabrinha parida,
Um bode na Rua Nova,
As conquistas eram a prova
Que a equipe estava unida...

No Sítio Bezerro Morto,
Numa tarde ensolarada:
Uma novilha de porca
Muito gorda, bem cevada
Também engordou a lista
Desse tempo de conquistas
Da equipe consagrada...
6

Na hora da volta olímpica
Quase que deu confusão,
Deixaram o prêmio nas costas
Do pobre do capitão,
O coitado se esforçou
Quase que não completou 
A volta de campeão.

Em fim, choveu no sertão,
Fizemos uma parada,
Fomos cuidar dos roçados
Diminuíram as peladas.
Zé Preto o treinador
Chamou o time e mostrou
Os títulos da temporada...

Uma galeria viva
E também muito esquisita,
Foi chamando cocho, cocho...
E mudou pra bita, bita... 
Galinha, peru, marrã,
Foi essa a melhor manhã
Que eu passei na Bonita...
7

O treino, a dedicação,
O prazer de existir,
O respeito, a alegria
Sempre vão fazer surgir
Equipes de vencedores
Como a dos jogadores
Que listarei a seguir:

No gol ficava Carão,
Burrai e Zé Vaca Magra,
Corró, Antônio Morcego,
Buzica, Chico Chapada,
Valentim, Jiló, Melado
E Luís Arrupiado...
És a equipe formada. 

Dê bola para as crianças,
Ensine-as a amar...
Onde você estiver
Não deixe de apoiar
Essa minha seleção,
Pois igual ao meu Sertão
Outro futebol não há. 
Fim

(Valentim Martins Quaresma Neto)


Sobre os autores:
Valentim Martins Quaresma Neto é formado pela Universidade Federal da Paraíba/CAMPUS V - Cajazeiras - PB/Licenciatura Plena em Letras. Na sua pós-graduação pela Universidade Estadual do Vale do Acaraú - UVA - defendeu a monografia: "A Literatura Popular e Sua Utilização no Ensino Fundamental".







Francisco Diniz é formado em Educação Física pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). É professor de capoeira e webdesigner.

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