quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Futebol e Literatura


Parte de um estudo interessante sobre futebol e literatura, a praia do Literatura na Arquibancada, feito por Andrêya Garcia da Paixão Morgado e apresentado durante o III Colóquio de Estudos Linguísticos e Literários (Celli), em 2007. O trabalho tem o título: UM BATE-BOLA ENTRE FUTEBOL E HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA e tem ótimas dicas de leitura sobre o futebol.

O FUTEBOL NA CULTURA BRASILEIRA
A escolha por esse assunto deve-se, principalmente, ao fato de esse ser um esporte de grande importância cultural, econômica e identitária para o Brasil, sendo, assim, uma prática relevante da cultura brasileira. Pensemos em cultura como construção humana constituída por um sistema simbólico e pelas ações e experiências sociais dos homens, sejam crenças, costumes e mitos, entre outros, seja manifestações humanas materiais – obras de arte ou artefatos. Tomemos, então, o esporte em seu aspecto lúdico, como um fenômeno sócio-cultural. Logicamente, portanto, o futebol faz parte da cultura. No caso do Brasil, o futebol não só faz parte, como tem grande importância. Construída ideológica e politicamente, esta pode ser sentida e medida de várias formas na cultura brasileira. Sua presença é marcante na linguagem do povo e em manifestações artísticas como o cinema, a música, o teatro, a dança e a literatura. A mídia tem o futebol como um de seus principais assuntos: há muitas publicações exclusivas sobre o assunto, cadernos diários em jornais (isso desde, aproximadamente, 1930), programas televisivos, inúmeros sites de internet e é presença constante em anúncios publicitários. O futebol é ainda [...] uma dimensão da cultura brasileira construída no dia-a-dia, nas conversas de segunda-feira entre colegas de escola e de trabalho, nos desafios e nas apostas anteriores aos jogos, no reconhecimento do outro, que veste a camisa do clube do coração, um irmão na dor e na alegria (ANTUNES, 2004, p. 17).
Há uma relação peculiar entre o futebol e a identidade nacional brasileira. Um exemplo é que a imagem do Brasil como um país onde há democracia racial plena foi difundida em especial através do futebol. Intelectuais, Estado e mídia viram no futebol uma das maiores manifestações da cultura popular brasileira; este se tornou símbolo nacional, o que é reforçado constantemente. Isso também porque, como afirma o antropólogo Roberto DaMatta, que estuda o futebol como um fenômeno cultural brasileiro. O futebol não é apenas uma modalidade esportiva com regras próprias, técnicas determinadas e táticas específicas [...] O futebol é uma forma que a sociedade brasileira encontrou para se expressar. É uma maneira (sic) do homem nacional extravasar características emocionais mais profundas, como paixão, ódio, felicidade, tristeza, prazer, dor, fidelidade, resignação, coragem, fraqueza e muitas outras (DAMATTA apud CARRANO, 1998, p. 35).
A construção da interdependência entre o futebol brasileiro e a identidade nacional abrangeu também o jeito de jogar do brasileiro – o chamado futebol-arte – e o fator emocional do esporte, o qual se verifica nas celebrações dos torcedores, no envolvimento da maioria dos brasileiros quando há competições internacionais e até mesmo na forma de organização administrativa do esporte.
Por outro enfoque, é uma atividade socioeconômica de peso, visto que, além de propiciar a ascensão social dos atletas e profissionais das comissões técnicas e movimentar altas somas monetárias no mercado esportivo, na publicidade e em outros setores diretamente ligados ao futebol, participa, indiretamente, da renda de uma grande parcela da população brasileira.
A importância desse esporte para a cultura nacional, conforme comentamos, provocou mudanças inclusive na aceitação de se discutir o assunto no âmbito acadêmico. Houve discussões a seu respeito no início do século XX entre literatos, em jornais, principalmente, quando o futebol ainda era elitizado e estava no início de sua popularização. Mais tarde, nas décadas de 60 e 70, após a consagração do Brasil como campeão mundial no esporte, o interesse por discutir o assunto aumentou. Contudo, só recentemente houve um aumento respeitável de pesquisas e artigos nas ciências sociais que o têm como objeto, isso porque esse esporte "transformou-se em fenômeno social de grande importância, envolvendo uma complexa rede de relações sociais e de interesses, às vezes mais, às vezes menos divergentes" (ANTUNES, 1994, p.109).

O FUTEBOL E A HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA
Se a discussão do futebol aos poucos tomou corpo nas ciências sociais, desperta interesse pesquisar também sobre fenômeno tão instigador da cultura brasileira e sua representação literária. Empreendemos um levantamento dos trabalhos que se atentaram ao tema e, embora parcial, incompleto, oferece um esboço do que já se falou sobre o futebol na literatura e em que medida isso foi preocupação para a história literária. Antes de prosseguir, cabe delimitar, ainda que de forma tênue, alguns conceitos. O termo história/História tem várias acepções, mas aqui se toma o sentido de estudo e narração sistemática do passado, dos fatos considerados significativos. Quando se fala em história da literatura brasileira, temos especificados quais fatos são registrados ou explicados – os fatos literários, ou seja, os movimentos estéticos, os gêneros, os estilos, as obras literárias e seus autores – e o local cujos fatos têm seu registro e estudo: o Brasil. Assim, a história da literatura brasileira é, grosso modo, o registro e estudo das obras literárias do Brasil.
A história literária narra e registra os fatos significativos da literatura. Isso é relativo – que fatos são significativos para o historiador e/ou seu meio? O que ocorre, portanto, é que a história literária tradicional, freqüentemente, isolou ou desqualificou indivíduos que, por idéias, raça, sexo ou nacionalidade não se adequaram ao sistema construído, criando a ilusão de uma só história, uma única tradição, e negando o impacto das estruturas sociais na literatura (LEMAIRE, 1987, p. 59). Tanto o isolamento de que fala Ria Lemaire quanto a negação, total ou parcial, da influência do social na obra de arte perpassam a história literária, podendo deixar à margem autores, estilos literários e temas.
Mesmo que historiar a literatura ou quaisquer aspectos da sociedade e da cultura humana não permita uma visão total, é indispensável que busquemos dar atenção a temas que integram a cultura de um país e sirvam como elemento de identificação para a idéia de uma nação e tenham tantas relações sócio-econômicas culturais, como é o caso do futebol no Brasil. Afirmamos isso porque a literatura recria, representa e envolve as práticas culturais de um país, das quais muitas contribuem para a construção da idéia de nação de um povo. Logo, para empreendermos a tentativa de entender um povo e suas identidades, é necessário que se olhe para sua realidade e para diferentes representações feitas por sua literatura, não apenas no tocante a temas e valores considerados tradicionalmente literalizados.

Os trabalhos encontrados, nenhum estritamente de história literária, são apresentados e comentados a seguir. Os dois primeiros não são acadêmicos, ao passo que os demais são.

 1. Gol de letra: o futebol na literatura brasileira
A obra foi publicada por Milton Pedrosa em 1967, inaugurando a Editora Gol, e teve uma única edição – esse é um dado relevante para se pensar no pequeno interesse que houve por investigar a representação literária do futebol. O prefácio é de Paulo Rónai, no qual ele informa que o livro é, além de “uma antologia do futebol nas letras brasileiras”, resultado de pesquisas do jornalista e escritor, após considerar que “é impossível que um assunto tão empolgante para a quase totalidade dos brasileiros não tenha deixado marcas na literatura” (p. 5). Pedrosa introduz a antologia com um artigo cujo nome é a segunda parte do título da obra, em que comenta, inicialmente, sobre aspectos sócio-econômicos do futebol. Em seguida, define o que considera literário: “produção de genuíno cunho artístico-literário, já fixada em livro e divulgada em revistas e jornais a partir da introdução do futebol na vida do País”, em contraposição ao que seria “literatura especializada, obrigatória, (sic) sobre futebol” (p. 13), o que seria, basicamente, o jornalismo esportivo.
O autor somente lista, então, autores, vários consagrados já na época, que citaram o futebol em obras de ficção e poesia. Ele afirma que eram poucas as obras, até aquele momento, em que o futebol assumia papel primordial (p. 16) e que “esse esporte, hoje nacional, ainda não foi capaz de interessar os autores brasileiros na medida correspondente ao prestígio e à penetração que alcança nas camadas da população brasileira” (p. 16). Embora a afirmação já não corresponda tanto à realidade atual, ela pode ser estendida ao interesse dos intelectuais brasileiros em relação ao futebol na literatura.
A postura dos literatos e intelectuais também é comentada por Pedrosa, a partir da discussão da reputação do esporte na sociedade brasileira, que teria piorado na proporção de sua popularização, do pensamento eurocêntrico da intelectualidade e da falta de mercado para a literatura que tematizasse o futebol. Em relação ao primeiro ponto, Milton Pedrosa informa que escritores “eram censurados publicamente em razão de sua participação na vida esportiva, ou por se manifestarem na simples condição de torcedores” (p. 20). Em relação ao segundo assunto, ele filia o bom conceito do futebol entre a classe dominante no início do século a sua origem bretã – européia. Já no que se refere ao último ponto, Pedrosa coloca que grande parte dos apreciadores do esporte não tinha interesse pela leitura ou acesso a ela, conseqüência principalmente do índice de analfabetismo do país.
O organizador da antologia ainda rebate a afirmação de que o futebol iguala classes sociais e reforça a crítica à alienação dos intelectuais com o comentário duro de Fábio Lucas de que “falsos problemas geram soluções falsas: a literatura, ao invés de expressão da vida, se tornara numa caricatura da vida, na imitação servil de padrões estéticos distantes, no dilaceramento (sic) piégas de reprimidas emoções” (LUCAS apud PEDROSA, 1967, p. 34). Não se pode mais generalizar dessa maneira a literatura nem a intelectualidade brasileira, mas há que se refletir no quanto essa herança influencia a pesquisa e a história da literatura no Brasil.
Após o artigo, aparece a reunião de textos e excertos feita por Pedrosa. Sua pesquisa culminou na seleção de textos de autores canônicos e de outros com menor consagração à época. Conforme se pôde perceber, o princípio norteador da antologia era apresentar textos que tivessem o futebol como tema principal ou importante. Com exceção de Lima Barreto e Graciliano Ramos, os autores que aparecem na antologia são simpáticos ao esporte – o que aponta para um critério também ideológico, tendo relação com a posição de Milton Pedrosa.
A seleção é organizada conforme gênero e por ordem alfabética dos nomes dos autores. Na ordem, são cinco contos, excertos de quatro romances e de três textos de dramaturgia, dez poemas e 37 textos entre artigos, crônicas literárias e excertos de ensaios. Antes de cada texto, o organizador faz um comentário contendo pontos interessantes, ou de julgamento estético ou resumindo o que se apresentará ao leitor. Por vezes, cita outras obras em que determinado autor tenha incluído o futebol. A antologia é, em resumo, um panorama da literatura que tematizou o esporte compreendendo o período do final do século XIX à década de 60.

2. Onze em campo e um banco de primeira
Essa obra, organizada por Flávio Moreira da Costa pela primeira vez em 1986 e publicada pela editora Relume-Dumará, após revisão, em 1998, é uma antologia de contos. As duas antologias aqui apresentadas foram escolhidas porque, além de a mais recente dialogar com a de 67, essas são resultado de pesquisa sobre a presença do futebol na literatura brasileira e não são restritas aos objetivos de serem apenas publicações temáticas com fins pedagógicos ou para atingir determinado nicho de mercado (o que não significa que também não tenham esses objetivos).
Costa abre o livro com um artigo intitulado “Jogo preliminar: Ficção x Futebol”, em que o amplo uso de termos ligados ao futebol sobressai. Ele comenta a importância do futebol para a cultura brasileira e identidade nacional e discute a brasilidade do esporte. A multifacetação do assunto e as possibilidades de discussão em diversas áreas do conhecimento também são comentadas. A partir daí, o organizador discorre sobre a, segundo ele, ainda pequena produção artística que tratam do tema em questão. Um “mero levantamento” (p. 10) de escritores é recusado, mas isso é feito em relação à música popular, ao teatro, às artes plásticas e ao cinema. Duas causas dessa “falta, praticamente na marca do pênalti” (p. 11) são dadas: o futebol seria uma expressão em si mesmo e é um fenômeno de massa. Ao afirmar que há pouco de arte que tematiza o futebol, Costa reitera o que Milton Pedrosa colocou em seu trabalho de 1967, embora com diferentes explicações para o fato. O organizador tenciona ir além da obra de Milton Pedrosa, citando-a e afirmando que, para evitar a repetição, fez sua própria escalação, optando por um único gênero literário – o conto – e por textos recentes. Após pesquisar para a elaboração da primeira edição da antologia e descobrir que “havia muito pouco material disponível” (p. 12), alguns textos foram encomendados. Na primeira edição (1986), entre textos já publicados e feitos sob encomenda, eram onze; na segunda edição, são 16, os quais não têm, como no livro de Pedrosa, comentários individuais que os antecedam e a ordem em que foram colocados na antologia é, aparentemente, aleatória.
Segundo Costa, os contos são “todos de autores com livros publicados e com reconhecimento da crítica” e que, com sua pesquisa, percebeu haver, a despeito de considerar a quantidade pequena, “material literário de boa qualidade sobre o ex-esporte bretão” (p. 12). Suas palavras apontam, pois, para a qualidade estética como critério para a seleção dos textos. Apesar de discutível o fato de serem considerados bons somente os autores que publicaram livros e que tenham algum reconhecimento dos críticos, é interessante (para questionamentos, inclusive) o critério de sua pesquisa. A
antologia pretende ser e se configura, em última análise, como uma amostra da ficção recente que tem o futebol como matéria principal.

3. Futebol futebóleres: uma representação do esporte na literatura brasileira nas
décadas de 1910 e 1920.
Esse trabalho é a dissertação de mestrado de João Carlos Alfredo, defendida em 1996 no curso de pós-graduação em Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. A orientação foi de Berta Waldman. Como o próprio título indica e a introdução do trabalho confirma, a dissertação é uma síntese periódica dos textos mais significativos no que se refere ao tratamento dado ao futebol (p. 9). Os textos selecionados são literários, mas o autor também se atentou a textos não-literários dos autores escolhidos, Lima Barreto, Monteiro Lobato e Antonio de Alcântara Machado.
A dissertação é composta, em grande parcela, de teorizações feitas acerca do esporte (primeiro capítulo) e, em sua última parte (segundo capítulo), das análises dos textos. Essa análise tomou o futebol como elemento estruturador das obras e o debate ideológico resultante disso. Alfredo enfatizou a questão do nacionalismo e da recepção do esporte no Brasil. Seu trabalho de pesquisa, embora seja essencialmente relacionado à estruturação dos textos que tratam do futebol, tem um sentido histórico, porque busca as primeiras manifestações da literatura em relação a essa atividade esportiva no país.

4. Ficção e futebol: culturas em movimento
Professor da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Pedro Brum Santos efetivou algumas pesquisas sobre a relação entre futebol e literatura. Santos coordenou um projeto intitulado Ficção e futebol: culturas em movimento, no qual foi feito um levantamento de textos literários que elegeram o futebol como tema. O projeto culminou num artigo de mesmo nome, publicado na Revista Letras, e num material organizado em 1998 que, além de discutir o futebol no Brasil e a questão da representação desse esporte na literatura, apresenta resenhados diversos trabalhos literários e outras publicações relacionadas ao assunto. Este último fez parte do relatório de pesquisa “Identidade do futebol e expressões da narrativa literária”. Também resultado dessas pesquisas, há o artigo “De poesia e de aves: relações entre literatura e futebol”, em que o autor analisa três poemas cuja temática é o futebol. Os autores são João Cabral de Melo Neto, Affonso Romano de Sant’anna e Luiz de Miranda, refletindo sobre as diferentes formas de representação do esporte nos textos literários.
Como lida com a história literária e a identidade, Santos deu a suas pesquisas um caráter historiográfico, embora não se restrinja a isso e abarque a análise do texto literário em si.

5. Rastros do cotidiano: futebol em versiprosa de Carlos Drummond de Andrade
Analisando as crônicas de Carlos Drummond de Andrade sobre futebol reunidas no livro “Quando é dia de futebol”(Record, 2002), Fabio Mario Iorio comenta, a partir de cada texto do escritor, sobre a evolução do futebol e como Andrade registrou essa manifestação cultural no Brasil. Esse trabalho foi sua tese de doutoramento na Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob orientação de Beatriz Rezende. Segundo Iorio, As crônicas traçam a tensão entre o texto e o contexto, relacionando futebol e política, desdobrada em arte e mídia. Delimita a geração Maracanã até os anos 80, assinalando sua contribuição pelo discurso do oprimido (IORIO, 2006, p. 2006). A tese de Iorio aponta para a importância de se analisar as manifestações culturais por meio do estudo da literatura.

6. Outros trabalhos
Devido ao restrito acesso a tudo o que foi produzido nas universidades acerca do futebol como assunto literário, foram encontrados, para este levantamento, dados sobre outros quatro trabalhos, entre dissertações e teses na área de Letras, cujo foco foi o futebol e a literatura. A pesquisa foi feita junto ao acervo de Teses e Dissertações do CNPq. Fica-se apenas na listagem breve por não se ter tido acesso integral aos trabalhos.
a) Futebol e palavra – tese de Ivan Cavalcanti Proença publicada em 1981 pela editora José Olympio, em que o autor discute, basicamente, a influência do esporte na língua portuguesa falada no Brasil.

b) O mundo do futebol nas crônicas de Nelson Rodrigues – dissertação de Mestrado defendida por Marcelino Rodrigues da Silva em 1997 na Universidade Federal de Minas Gerais. Silva, segundo o resumo de seu texto, faz um estudo semiológico dos “processos pelos quais foram produzidos os sentidos que o imaginário coletivo brasileiro atribui aos personagens, instituições e acontecimentos do universo futebolístico” a partir da representação que Nelson Rodrigues faz do esporte em suas crônicas esportivas.

c) A construção de estratégias textuais nas crônicas esportivas de Luis Fernando Veríssimo – dissertação defendida por Vera Lúcia Aparecida Rezende em 2002, também na UFMG.

d) Nelson Rodrigues e o futebol: nos lances de bola, os traços da alma – tese de Doutorado de Serafina Maria Simas Pereira de Souza Pondé pela Universidade Federal da Bahia defendida em 2002, na qual a autora faz um estudo estéticoestilístico das crônicas esportivas de Nelson Rodrigues.

e) Crônica de futebol: lirismo e drama – dissertação defendida em 2003 por Angela Ignatti Silva na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em que Silva analisou a representação do futebol em crônicas de Carlos Drummond de Andrade e de Nelson Rodrigues. Seu enfoque foi na presença do lírico nos textos drummondianos e do dramático nos textos rodrigueanos ao tratar do esporte.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Com o rastreamento dos estudos literários em busca do que se falou sobre o futebol na literatura brasileira, conclui-se que os trabalhos encontrados enfocam os aspectos estéticos, ideológicos e políticos das representações do esporte nos textos. Os recortes cronológicos ou simplesmente a escolha de autores representativos na maior parte das pesquisas sugerem, por um lado, uma preferência pelos momentos iniciais do esporte no Brasil e, por outro, a preferência por textos de escritores canonizados. Então, há muitos autores e obras a serem estudados a fim de termos uma visão mais ampla do esporte, suas implicações sócio-culturais e a recriação literária disso.
Os trabalhos apresentados não podem ser filiados estritamente à história literária, mas isso não lhes reduz o mérito. Ora, apesar de as pesquisas de história literária ficarem, muitas vezes, restritas a padrões tradicionais ditados por publicações feitas no eixo Rio-São Paulo e fora do Brasil, em que os temas literários recebem pouca atenção, principalmente os de pouca tradição na literatura, ficou evidente que é possível minimizar a ainda diminuta curiosidade dos Estudos Literários para com o tema.
Mais importante do que afirmar que a história da literatura brasileira não se preocupou na medida necessária com o tema futebol e fez pouco em relação à representação de outras práticas culturais brasileiras é ressaltar a importância de que consideremos e historiemos os registros literários dessas práticas. Histórias literárias por temas se fazem necessárias, juntamente com outras perspectivas dos estudos literários, para uma melhor compreensão da literatura e da cultura do Brasil. A fragmentação de uma abordagem assim da literatura é vantagem quando se leva em consideração que é mais interessante para o estudo de cultura tão multifacetada como a brasileira.
Uma última consideração, para fechar este trabalho e abrir a partida de discussões: as antologias, os estudos acadêmicos por nós encontrados e a lacuna que se mantém em relação ao futebol na literatura servem se não como história literária, como material para que ela seja feita a partir de uma abordagem menos totalizante e elitista.
Sem dúvida, o “ecletismo teórico, uma ótica interdisciplinar e comparativista e um [...]
fascínio temático” (MENDONÇA & ALVES, 2003, p. 1) respondem de forma
interessante às necessidades teóricas para o entendimento da literatura e da cultura
brasileiras.

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