sábado, 19 de novembro de 2011

A falta de consciência negra com Andrade


Amanhã é “Dia da Consciência Negra” e no mundo do futebol há muitos “injustiçados” e esquecidos na história do esporte. José Leandro Andrade, craque da seleção uruguaia é um deles. Um pioneiro negro que viveu dias de glórias, mas terminou na mais profunda miséria. No texto abaixo, extraído do excelente site português, http://museuvirtualdofutebol.webs.com/aslendas.htm, toda a trajetória deste ícone do futebol mundial. Aproveite a visita e também leia a história de outro negro importantíssimo na história do futebol mundial: Eusébio, chamado também de "Pelé português".
José Leandro Andrade
José Leandro Andrade é considerado o primeiro grande jogador negro da história do futebol. Ele nasceu a 3 de Outubro de 1901 em Salto, começando a dar os primeiros pontapés na bola no bairro de Palermo, no Uruguai.

Seleção do Uruguai que venceu os
Jogos Olímpicos de Paris em 1924
Atuava tanto como médio volante como zagueiro (direito ou esquerdo) e cativou o mundo com a sua eficácia, elegância, inteligência e técnica de jogar futebol, o que o tornou num dos jogadores mais brilhantes da história.
Iniciou a sua carreira no Misiones, passando depois pelo Bella Vista, Nacional, Peñarol e Wanderers, todos times uruguaios. Seria no Nacional que viveria alguns dos anos mais felizes da sua carreira, vencendo os campeonatos do seu país de 1922 e 1924. Pelo Nacional participou em várias digressões pela Europa e pelos Estados Unidos da América, e reza a lenda que o famoso intérprete de jazz norte-americano Louis Armstrong ter-se-á inspirado no “Pelé dos anos 20” (como Andrade foi um dia apelidado) para criar o seu estilo artístico.
Além de um fabuloso jogador Andrade era um não menos fabuloso bailarino, sendo que por diversas vezes integrou cortejos carnavalescos no seu país. Após a sua retirada dos gramados partiu para Paris, onde se tornou um célebre bailarino de cabarets. Adorava a folia e a vida boêmia.

O nascimento do mito Maravilha Negra

Seria no entanto ao serviço da seleção do Uruguai que Andrade atingiu a fama planetária que fez dele um dos maiores jogadores de futebol da história.
Numa altura (anos 1920) em que o Campeonato do Mundo ainda não havia surgido, cabia aos Jogos Olímpicos a tarefa de reunir as melhores seleções do Mundo de quatro em quatro anos para apurar... o campeão do Mundo. É verdade! Naquela época os torneios olímpicos de futebol tinham a dimensão e importância daquilo que é hoje em dia o Campeonato do Mundo da FIFA.
Em 1924 coube à cidade de Paris organizar as Olimpíadas de Verão desse ano. O torneio de futebol viria a ser amplamente dominado pela seleção do Uruguai, uma equipe que com a sua beleza e arte futebolística encantou os europeus.

Os jogadores da Celeste entrando em campo para
disputar o jogo decisivo dos Jogos Olímpicos de 1928
Dúvidas não existiam: o Uruguai era a melhor e mais poderosa equipe do Mundo do momento.
Uruguai: a equipe que venceu o
primeiro Campeonato do Mundo da FIFA
Na final do torneio olímpico os uruguaios venceram no Stade des Colombes a Suíça por 3-0. O maestro, o craque, dessa equipe era um negro (o primeiro negro a pisar um gramado da Europa) com movimentos felinos de encantar, e seu nome: José Leandro Andrade. Cedo, os jornalistas e torcedores franceses trataram de rebatizá-lo, chamando-o de A Maravilha Negra. E assim nascia um mito do futebol.
Quatro anos mais tarde seria novamente peça fundamental na revalidação do título olímpico (ou Mundial, como era considerado naquele momento) da celeste (nome pelo qual é conhecida mundialmente a seleção do Uruguai), desta feita nos Jogos Olímpicos de Amesterdã, tendo na final derrotado a Argentina por 2-1. Andrade era naquele instante o melhor jogador do Mundo.

Vencedor do primeiro Mundial da FIFA... em casa

Em 1930, o Uruguai organizou o primeiro Mundial da história. Uma espécie de presente da FIFA ao país que praticava o melhor futebol do planeta. Na qualidade de bicampeã olímpica a equipe da casa partia assim como favorita para levantar a primeira taça do Mundo da FIFA. Já em final de carreira, e castigado por lesões crônicas, Andrade foi mesmo assim chamado para integrar a equipe uruguaia que disputou esse Mundial. A sua experiência e qualidade eram fundamentais para o triunfo da celeste. Ao lado de jogadores como Cea, Castro, Nazazzi e Scarone, Andrade venceria o Campeonato do Mundo, após a sua seleção ter derrotado na final os grandes rivais da Argentina por 4-2.
Pelo Uruguai jogou 43 vezes (só perdeu três jogos) e marcou um gol. Morreu só e na miséria em 1957 um homem que é tão grande como Eusébio, Pelé, Garrincha, Maradona ou Di Stéfano.
Um Deus da bola.
Abaixo, um belo texto de Luís Freitas Lobo extraído do seu livro Os Magos do Futebol, que descreve o ídolo José Leandro Andrade.
imortal José Leandro Andrade
Na trilha do Maravilha Negra

Entrelaçado pelo cacimbo da noite que caíra sob a Cidade das Luzes, El Loco Romano desembrulhou mais uma vez o papel já amarrotado para confirmar a morada que o seu amigo José Leandro Andrade, companheiro de dribles e tijeras nas canchas de Montevidéu, lhe dera tempos atrás para que quando fosse ao Velho Continente não se esquecesse de o visitar. Vivia-se no início da década de 30. Era tempo de magia na brilhante noite de Paris, ainda levitada pela aura dos loucos anos 20, enebriada pelo esplendor excêntrico, negro e hipnotizante de Jossephine Baker, mito da Bélle Époque, rainha dos cabarets onde dançava e seduzia ao ritmo da Revue Negre. Ninguém imaginava que um outro negro, vindo do outro lado do oceano, nascido no bairro pobre de Cachimba, tornado célebre nos estádios de futebol, fosse capaz de ofuscar o seu brilho.
Quando chegou à morada que Andrade lhe indicara, Romano abriu os olhos de espanto. Na sua frente estava um suntuoso apartamento. Pensou: devo ter-me enganado. Mesmo assim, tocou à campainha, surgindo uma bela donzela que só falava francês, e do que Romano lhe disse só percebera a mágica frase: mesié Andrade. E eis que a Maravilha Negra, como lhe chamaram os jornalistas gauleses que o viram nos Jogos Olímpicos de 1924, surge vestindo um longo quimono de seda, por entre uma luxuosa habitação decorada por peles, estatuetas em ouro, cheiro a perfume caro e abat-jours milionários.
Durante a época de futebolista, num tempo em que atravessar o oceano durava meses, nunca quisera sair do Uruguai onde sempre jogou. Depois de abandonar o futebol, rumou à mágica capital francesa, onde alternou uma vida de boêmia com a de artista de variedades, no qual era exímio bailarino, dançando e deslumbrando com o seu corpo alto, moreno e musculoso, tornando-se desejado por muitas mulheres, da mais fina sociedade, que o admiravam quase como um amuleto.
Entre os homens, apesar de, no início do século, o futebol ainda não cativar grandes paixões, nenhum esquecera a sua deslumbrante aparição com a fantástica seleção uruguaia nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924. Nesse tempo nunca a Europa vira um negro jogar futebol. Ele fora o primeiro. Poucos dos que o viram jogar estarão hoje vivos, mas para a história fica o registro de um zagueiro com fôlego e talento infinito, que marcava o atacante e depois, acariciando a bola, subia pelo seu flanco com a elegância de um bailarino, driblando num jogo de cintura que parecia dança. Conta-se que num jogo atravessara meio-campo com a bola dominada na cabeça. Quando na postura defensiva, roubava a bola, pela terra e pelo ar, guardando-a nos labirintos de músculos das suas pernas de dançarino, com um estilo que, naquela época, era algo nunca visto, sobretudo se executado com a beleza plástica de Andrade.
Já nesse tempo era um amante da boêmia que sonhava conhecer a bela e provocante Josephine Baker. No carnaval saía bailando com um tamborim, nos gramados, dançava com uma bola presa aos pés, alheio aos conselhos dos seus pais que insistiam em dizer-lhe para estudar, como fizera o seu dedicado irmão Nicasio. Mas Andrade vivia noutro mundo. 

Sublime, forte como uma árvore centenária, ágil como um felino, deslumbrou o mundo com o seu futebol de encantar serpentes.
Anos depois, sob as estrelas de Paris, manteve a mesma personalidade feita de grandezas e tristezas. Apesar de venerado pelos mais finos olhares femininos, nas noites do Pigalle, Andrade era um homem impossível de prender. O amor pelas mulheres, para ele, ia e vinha em cada noite. Anos depois, regressaria à sua Montevidéu, a bordo do Valdívia, célebre navio, vestindo uma gabardina cruzada, chapéu de galã, e cachecol de fina seda. Mais do que às essências perfumadas da douce France, Andrade pertencia à maresia rude da costa uruguaia, onde o sol queima e a noite se ilumina nos tangos de Gardel. Com o passar do tempo foi ficando, no entanto, cada vez mais isolado. Os seus olhos foram escurecendo e com o silêncio a sua alegria desvaneceu-se. Acabaria por morrer tuberculoso, só, em 1957, na mais profunda miséria, mas sem nunca pedir nada, nem esperar que o auxiliassem, apesar de desde há tempos a doença o ter começado a minar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário