quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Culpados, até que se prove o contrário...


Árbitro de futebol tem muito da vida de um goleiro: acertar é obrigação, errar é crime. Dependendo da situação, do momento em que o erro é cometido, toda uma trajetória vitoriosa pode ir por água abaixo. Os “homens de preto”, como ficaram conhecidos no meio do futebol (hoje são de todas as cores, assim como os goleiros), são figuras polêmicas, donos de um poder que o torcedor extrapola em seu julgamento. Falíveis, como qualquer ser humano, no futebol, são crucificados pela menor falha. 
João Antonio
Neste conto, escrito por um ícone da literatura brasileira, João Antonio, vê-se o drama vivido por um árbitro em um jogo de futebol.
Ninguém melhor do que João Antônio para dar contornos dramáticos a este personagem do futebol. João Antonio ficou famoso no meio jornalístico e literário pela capacidade de retratar proletários e marginais que habitam as periferias das grandes cidades. João nasceu em São Paulo, em 1937 e morreu no ano de 1996, na cidade do Rio de Janeiro.
Literatura na Arquibancada recomenda a leitura do livro lançado por um de seus grandes amigos, Mylton Severiano, “Paixão de João Antonio” (Editora Casa Amarela, 2005) e também os links: http://www.releituras.com/jantonio_menu.asp

Vida e obra de João Antonio é leitura obrigatória para quem conhecer diversas facetas do povo brasileiro.
A seguir, o conto “Juiz”, publicado no livro A palavra é...Futebol, (organização Ricardo Ramos, Editora Scipione, 1990).

Cachorro!
A multidão ferve e grita. E xinga de vagabundo a homossexual, ladrão e negro. Passando por bunda-mole, imbecil, safado, arrombado, tratante, comprado e vendido.

Debaixo de um mormaço sem brisa, sem árvores e sem refresco, o herói entra em campo. Antes de qualquer gesto seu, é vaiado por todas as bocas, por todos os olhos, em saraivada, os punhos da galera socando o ar. O menor dos palavrões, um xingo grosso mandado, com raiva, para cima de:

– Sua mãe está fazendo a vida na casa de Zulmira, vagabundo! Lazarento!

Metido no uniforme preto, certinho, brilhante, mangas compridas, o poeta do momento sua no pescoço, nuca, carapinha, sovaco, nas partes, nos nove buracos do corpo e nos quatro cantos do corpo. Procura que procura, sem coçar a carapinha, manter as coisas, sustentar uma categoria e uma limpeza de caráter que não são suas e lhe estão longe.

Jacarandá sopra o apito, os jogadores se colocam e o jogo começa. Cinco minutos, não mais, o público do Vitorino dá trégua ao herói, se voltando contra um bandeirinha a quem atribui novas qualidades infamantes. Sexuais, na maioria.

No sexto minuto, a peça fraqueja, primeira vez, deixa de apitar uma falta do meia-armador visitante. O estádio lhe cai de pau:

– Negro sem-vergonha! Ladrão do meu dinheiro!

Suando e correndo, o pinta está a medo e a perigo. O povo engrossa xingos zangados, primeiros sacos plásticos ameaçam, voando da galera para a grama, nas laterais.

Parada. Era uma parada. O gajo planejara – seria rápido, mutável, aparentando firmeza e decisão. Dissimularia. Escalado para apitar aquele jogo, conhecendo na pele a rixa Londrina-Curitiba, Jacarandá acreditava – a princípio – na sua picardia e capacidade de manobra, teria um comportamento pendular, trocaria de política conforme as crises e as mudanças do vento. Acontece que em Londrina até os ventos são quentes.

Inda mais – o povo-povo não lhe perdoava a cor. Mulato, o poeta tinha pela frente noventa minutos de taxações violentas. Inda mais. Era encontro do Londrina contra a equipe forte da capital e o herói tentava compor com os dois lados, politicamente. Uma vela para Deus, uma vela para o capeta; uma vela para Deus, uma vela para o capeta; uma vela para Deus, uma vela para o capeta.

Destrambelhou-se no sexto minuto e a partir daí meteu o olho arisco em cima do meia-armador do clube visitante. Na primeira oportunidade, meteu-lhe um cartão amarelo e, manhoso, tratou de expor quase metade do cartão vermelho no bolso da camisa preta, como lembrança ameaçadora. (Para os jogadores do clube da capital, é claro.)

Vista grossa para os locais, olho vivo e punitivo pregado nos visitantes. Mas os de fora deram para jogar melhor, investindo sempre e, num lance na área pequena, em que estava enfiado o meia-armador, houve porrada feia e Jacarandá não apitou um pênalti contra o Londrina. O clube visitante chiou, o capitão da equipe, físico taludo, foi às falas com o poeta. Dissimulando, mãos para trás, feito um colegial, o capitão sapecou-lhe um esporro. Uma esparrela redonda, arretada, exemplar, inteiriça:

– Cachorro, filho da mãe, morfético! Você apita essa porcaria direito ou vou lhe espetar lá fora! Acabo com sua raça, seu negro!

O meia-armador aproveitou o embalo, serviu-se. Foi se chegando para a peça, mãos jogadas para trás:

– Você está na caixinha, safado, negro salafrário! Mas não perde por esperar.

Jacarandá passou a correr atrás de uma ordem que ele mesmo bagunçou, no começo. Tropeçando, desnorteando-se em erradas, ia precariamente, desmoralizado. Dando azar, picotando a partida com interrupções fora de hora, repetidas, que irritavam. O jogo caiu para o marasmo. Na marca dos trinta minutos, os jogadores não queriam nada com a bola, o povo vaiava tudo, incomodado pelo calorão do estádio sem árvores e sem brisa. O sol batia de chapa, castigava as caras aporrinhadas, azedas.

O meia-armador tesourou o centroavante londrinense e Jacarandá vacilou, deixou correr frouxo. Vacilou, dançou. O povo da galera explodiu:

– Expulsa, ladrão! Bota pra fora! Vagabundo, sua mãe está se virando na casa de Laura! Lazarento!

 O gajo ensaia nova composição. Numa falta dos visitantes, expulsa um lateral esquerdo, até ali o jogador melhor comportado dos vinte e dois. Engole novo esporro do capitão da equipe que ameaça com um bolo de jogadores. Forma-se a roda, a casa de caboclo, Jacarandá no centro. Disfarçadamente, alguém lhe chuta o cotovelo e o herói não esconde uma careta.

O tenderepá* se dissolve, ele antecipa o final do primeiro tempo, rouba três minutos, é o primeiro a sair de campo, orelhas ardendo, passo meio corrido. Nem os bandeirinhas estão falando com Jacarandá e a peça tem quinze minutos para ouvir, em solidão e medo, no vestiário dos árbitros, os comentários das rádios, que o taxam de incompetente, pulso froxo e figura lamentável. A linguagem esportiva expunha, com gozo, momentos de seu gritado brilhareco tradicional, empostado, gula pelos efeitos frenéticos:

– Sua Excelência, Jacarandá Bandeira, é responsável por uma partida de futebol que descambará fatalmente ou para o marasmo ou para a violência. Esta contenda poderá tomar rumos imprevisíveis.

O herói ouvia encolhido, imaginando composições novas com as duas equipes. Que alguma o salvasse. Voltou a campo e teve, em quarenta e cinco minutos, que ouvir cerca de duzentas vezes o mesmo xingo. O negro gritado com nojo e escárnio, acompanhado de vários complementos – safado, ladrão, cascateiro.

Não se distrair, evitar uma visão e um pensamento que o apavoravam. O gajo teimava em não olhar para a galera, fixar e dançar os olhos só no jogo. Mas houve um momento. Deu, sem querer, de olhos para o povo e o pensamento ruço lhe correu, dando frio no espinhaço. Aquela gente furiosa não iria esfolá-lo vivo?

A multidão lhe atirava coisas, além de nomes. Perdido o rebolado, Jacarandá deu para interromper suas corridas, coçar a carapinha já não disfarçando que tudo estava por um fio. Correu para a marca do escanteio e lhe acertaram, em cheio, um saco plástico de água que estalou como um soco.

Vinte minutos, nova discussão – expulsou o centroavante dos visitantes. Levou xingamentos reforçados e ameaças de uma boa surra. Daí para frente, o ritmo se precipitou. Cartões amarelos, fuás, polícia interferindo, jornalistas botando mais lenha no fogo com suas máquinas e fios. Jacarandá Bandeira levou dois trompaços do capitão visitante na marca dos quarenta e cinco minutos finais. Teria sido surrado não saísse pulando, bufando, suando, escafedendo-se, enfiando-se no vestiário dos juízes. Ali, escondido, medroso, apequenado, deixou o tempo correr, banho mais longo de sua vida.

Uns pensamentos lhe batiam, arrevesados. Onde, em que teria errado? Nas composições, nas manobras, na parcialidade – ou não fora nada disso, a bronca do povo não estaria mais voltada para a cor de sua pele e o errado não teria sido ele, ao se meter no mundo das arbitragens, jogadas afinal do domínio dos brancos naquele futebol em que o negro entrava como jogador e força de trabalho? Isso, talvez isso, certamente assim, nada mais. Onde errara, não havia feito o joguinho e as vontades da equipe local, não fizera o joguinho que lhe pediram, as coisas não haviam pendido sempre para o clube da terra? Onde estava o erro? Mas esses pensamentos não tinham linha reta na cabeça de Jacarandá, embaralhavam-se repetidamente na carapinha molhada. O herói talvez desconfiasse, em confusão, que havia feito, de uma maneira ou outra, bobagem grossa ao se meter em jogadas de brancos.

Contava e já contava com a proteção policial. A bem dizer, até a temia – afinal, o jogo não dera um ganhador – e a polícia era local.

Esfriou mais. Um dos bandeirinhas lhe boquejou, baixo, sinistramente. Provável, na saída do Vitorino. Encontraria um dirigente do clube visitante para um acerto de contas. Na base do conversar e discutir. Só que o cartola, violento dono de rinhas, fazia fama pelas soluções lançando mão de um trinta e oito de cabo de madrepérola. O herói  tremia debaixo do chuveiro. Arrepiado, arrepiadinho.

Jacarandá Bandeira está só. E bem. Dá um tempo. Dá mais um tempo. Depois mais um.
De tempo em tempo, duas horas, e já com a lua no céu, o gajo enfrentou a saída do estádio. Lá fora, na noite quente, deu sinal com o braço, o táxi ia parando.
Aí, saídos Jacarandá não viu de onde, o pegaram.

– Negro safado!

Foi batido até o desmaio e recordado à ponta de cigarro. Descobriram, furiosos, que só desmaiara e a tunda dobrou, rápida, maciça, antes da chegada dos cassetetes da polícia. Então, os surradores deram no pé, em várias direções e um deles ainda escarneceu numa ponta de rua mal iluminada. O xingo ficou, indo e voltando, na caixa de pensamento de Jacarandá Bandeira. Doendo.

– Negro!

(*) tenderepá - forma não dicionarizada de "tendepá" (briga, rixa)

Este conto escrito por João Antonio também serviu de argumento para o filme produzido pela Luz de Arte & AICTV (Associação Internacional de Cinema e TV). Mais detalhes, acessar:
http://www.aictv.com.br/releases_e_filme/o_juiz-22.html. Assista ao filme.
  

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