quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Cego é aquele que só vê a bola

Corinthians, campeão de 1914

Um bate papo com João Paulo Streapco, autor de uma Dissertação apresentada recentemente ao Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. O título de sua tese é “Cego é aquele que só vê a bola” - O futebol em São Paulo e a formação das principais equipes paulistanas: S. C. Corinthians Paulista, S. E. Palmeiras e São Paulo F. C.
(1894-1942)

A tese estará disponível para acesso na biblioteca digital da USP (www.teses.usp.br) a partir da próxima semana. Caso você queira acessá-la imediatamente em pdf, siga o link abaixo dos amigos do Ludopédio:

São Paulo Futebol Clube, no extinto Estádio da Floresta, em 1931.
Literatura na Arquibancada:
Por que escolheu o surgimento dos três grandes clubes de São Paulo
(Corinthians, Palmeiras e São Paulo) como eixo temático de sua tese?

João Paulo Streapco:
A pesquisa, em sua origem, se propunha a ser uma pesquisa de história social do futebol, em São Paulo. Percebíamos a existência de representações sociais que vinculavam o Corinthians aos grupos populares da cidade, o Palmeiras à comunidade ítalo-paulistana, em especial aos grupos que ascenderam socialmente, o São Paulo às elites.
Também, por uma questão metodológica, tivemos que criar “recortes”, limitar o tamanho da pesquisa, razão pela qual preferi pesquisar aqueles clubes que possuem o maior número de simpatizantes. É necessário informar, que ao longo da pesquisa, verificamos que a origem e organização das comunidades de simpatizantes das três equipes se assemelham, mesmo que seus simpatizantes não gostem desta afirmação. Novas pesquisas, sobre os demais clubes de futebol da cidade, podem indicar se possuem estruturas parecidas como as do “trio-de-ferro”.

L.A.:
Qual a razão deste título: "Cego é aquele que só vê a bola"?

J.P:
O título deriva de uma crônica de Nelson Rodrigues, intitulada “O divino delinqüente”, e que foi publicada no livro “À sombra das chuteiras imortais”. Para Nelson Rodrigues, o futebol apresentava uma “complexidade shakesperiana” que excedia a bola ou o campo em si. E ao longo da pesquisa, o que buscamos foi exatamente esta complexidade que existe em torno do futebol e que simpatizantes e praticantes pouco se atentaram.

Estádio do Velódromo Paulistano, no início do século 20

L.A.:
Qual a influência de cada um desses clubes, na formação da sociedade paulistana?

J.P:
Os três clubes fazem parte de um contexto histórico, marcado pela acelerada industrialização e urbanização da cidade, em que uma cultura urbana paulistana foi criada por seus moradores. Aliás, precisamos lembrar que os outros clubes que não aparecem neste estudo fazem parte deste processo, também. E os conflitos entre os grupos que chegavam à cidade, entre aqueles que já estavam inseridos, entre ricos, classes médias e operários, marcaram a construção desta cultura urbana paulistana, ainda na primeira metade do século XX. Neste sentido, o futebol se transformou em um microcosmo da sociedade que se construía, um espaço ritualizado onde os grupos sociais expunham suas demandas e se faziam mostrar para os demais grupos e autoridades públicas.
Associação Atlética das Palmeiras, em 1915.
L.A.:
Sua tese traz um capítulo sobre a relação entre o futebol de várzea e o futebol "oficial". O que pretendeu mostrar com isso?

J.P:
As evidências encontradas ao longo da pesquisa sugerem a formação de um campo profissional de futebol desde as primeiras décadas do século XX, e não apenas a partir da década de 1930, como sustenta o senso comum. Este campo profissional que gerava bons lucros para aqueles que o controlavam, entretanto, só se manteve com o desenvolvimento do futebol praticado nos pequenos clubes populares dos bairros periféricos ou que margeavam as várzeas da cidade, pois destes clubes populares saíam os grandes jogadores que atuaram pelo futebol oficial, desde a década de 1910. Na prática, sobreviveram no futebol oficial/profissional, aqueles clubes que tinham interesse e sabiam onde encontrar bons jogadores para a disputa dos campeonatos. Na década de 1910, esta prática recebia o nome de “cavar” jogadores.

Palmeiras x Corinthians, em 1921.

L.A.:
Em seu estudo, você analisa o preconceito racial existente na sociedade do início do século 20. Onde e como os clubes analisados em sua tese entram nesta análise?

J.P:
Antes de responder a sua questão, preciso indicar duas situações.
Corinthians e Palmeiras foram fundados em contexto histórico diferente do contexto de fundação do São Paulo. Os dois primeiros foram fundados por imigrantes ou filhos de imigrantes para que pudessem praticar o futebol em 1910 e 1914, respectivamente. O São Paulo, em 1935. Nesse período de cerca de vinte anos, a comunidade negra da cidade se organizou e passou a pressionar por mudanças na mentalidade racista da época, o que gerou a possibilidade de jogadores negros atuarem pelos clubes do futebol oficial/profissional. Também, os jogadores do futebol oficial passaram a pressionar pela regularização da atividade profissional de jogador de futebol. Foi nesse contexto, que os clubes fundados pelas elites paulistanas abandonaram o futebol, enquanto os clubes fundados por imigrantes começaram a se abrir para os jogadores negros. Quando o São Paulo foi fundado, e isto vale para o homônimo São Paulo da Floresta, fundado em 1930, jogadores negros já atuavam por Corinthians e Portuguesa e foram contratados como profissionais pelas duas equipes com o nome de São Paulo. O que percebemos com isto, é que o espaço que se abriu à comunidade negra na estrutura do futebol oficial/profissional que se organizava naquela época, foi o espaço que Arlei Damo definiu de “pé-de-obra”, sem possibilidades de ascensão nas hierarquias dos clubes. Embora resistisse a este processo de abertura à comunidade negra, na década de 1930, na década seguinte, o Palmeiras já contava com jogadores negros em suas formações.
Equipe do Corinthians, tricampeã de 1930.
L.A.:
O que destaca como mais curioso e importante na formação dos três clubes analisados?

J.P:
Os três clubes possuem estruturas organizacionais parecidas.
Roberto Damatta as compara com o formato de um cometa: um núcleo duro formado por dirigentes de origem elitista e associados de classe média, enquanto a calda é formada pelos milhões de simpatizantes que consomem o produto futebol sem nunca colocar os pés dentro dos clubes.
A direção dos clubes não costuma ser democrática e as decisões são tomadas em reuniões fechadas pelos membros deste chamado núcleo duro.
Todos formaram enormes comunidades de simpatizantes que compartilham representações sociais específicas, que são ritualizadas e rememoradas a cada partida disputada e as fundações remetem a um passado mítico que tem por função solidificar a solidariedade do grupo. Estas representações sociais indicam que os conflitos sociais vivenciados na cidade de São Paulo, na primeira metade do século XX, foram agudos e deixaram reflexos nos descendentes de seus habitantes.
Por fim, a idéia de que a sociedade paulistana não se preocupa com a própria memória, precisa ser redimensionada, pois o volume de material disponível para a pesquisa sobre o futebol é muito grande, inclusive nos clubes. Inclusive, o Corinthians já possui um Memorial bem organizado que disponibiliza ao pesquisador, todos os documentos e informações solicitados. Os demais ainda precisam avançar neste sentido.

L.A.:
Seu projeto de pesquisa levou seis anos para ser concluído. Como foi esse processo? Quais fontes utilizadas? Quais as dificuldades para o trabalho? Qual é a rotina para se fazer uma tese bem argumentada?

J.P:
O primeiro passo de toda pesquisa científica é organizar um projeto que indique um problema, hipóteses de explicação e objetivos que justifiquem sua realização. No caso de uma pesquisa histórica, o segundo passo é levantar as fontes documentais. Ao longo dos dois primeiros anos percorremos os arquivos da cidade, em busca destas fontes e as descobrimos em arquivos públicos, clubes e coleções particulares formadas desde a década de 1920, por colecionadores ou familiares de ex-jogadores, dirigentes e jornalistas. No momento em que fazíamos este trajeto, encontramos simpatizantes dos clubes estudados, o que permitiu percebermos a existência das representações sociais já mencionadas e o contato com obras publicadas pelos clubes, que sustentavam estas idéias. Ainda, percebemos que o volume documental sobre o tema é enorme, o que realçou aquela idéia da “complexidade shakesperiana” que discutimos anteriormente. Por que a sociedade paulistana preservou tantos documentos, se preocupou tanto com a memória de seu futebol? A resposta nos parecia óbvia: por sua importância para estas populações. A questão era entender como uma atividade de lazer se transformou em um grande espetáculo ritualizado de grandes proporções.
A grande vantagem de se realizar uma pesquisa de seis anos de duração é a possibilidade de amadurecer as idéias, confrontar documentos, relatos e memórias. Quando ingressei no programa de pós-graduação da FFLCH-USP, já tinha realizado um vasto levantamento bibliográfico e sabia onde encontrar as fontes. A maior dificuldade da pesquisa foi organizar o volume de informações encontradas e criar um eixo explicativo, o que só foi possível nos últimos meses do prazo regular da universidade, com a ajuda de toda a comunidade acadêmica que estuda o tema futebol e dos colecionadores com os quais entrei em contato.

L.A.:
Há alguma "grande descoberta" feita em suas pesquisas?

J.P:
Não sei se entendi o que quer dizer com “grande descoberta”. Mas a percepção de que o negócio futebol já existia no início do século XX, de que a memória do futebol é “disputada” por simpatizantes, jogadores e dirigentes esportivos desde a década de 1910, que a idéia de um futebol elitizado neste período é equivocada, são descobertas que considero relevantes para a compreensão do fenômeno futebol, no momento em que o país se prepara para a realização da Copa do Mundo.

L.A.:
O tema escolhido para sua tese ainda causa "estranhamento" no meio acadêmico?

J.P:
Não. Inclusive, preciso indicar que sua realização só foi possível porque existe na atualidade uma postura de aceitação e respeito aos que pesquisam o tema. A própria USP possui um laboratório temático que realiza pesquisas sobre futebol e é coordenado pelo professor Dr. Flávio de Campos. A leitura da dissertação permite perceber o quanto sua realização se deve aos pesquisadores, que nas décadas de 1980 e 1990, enfrentaram as resistências que existiam sobre o tema na universidade. Não apenas por “abrirem” o campo, mas pelas descobertas e propostas de cada um deles.

Sobre o autor:
João Paulo Streapco
É membro do Memofut (Grupo Memória e Literatura do Futebol) e do GIEF (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre o futebol). O GIEF é formado por pesquisadores das áreas de Antropologia, Educação Física, Geografia e História, para que pesquisadores, estudantes e interessados debatam e descubram novas perspectivas analíticas para estudar o Futebol.

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