domingo, 13 de novembro de 2011

Almir Pernambuquinho - O Pelé branco


Literatura na Arquibancada apresenta agora uma pequena série sobre Almir Morais de Albuquerque, que ficou famoso como Almir Pernambuquinho, um dos mais polêmicos jogadores do futebol brasileiro que morreu tragicamente assassinado, por um grupo de portugueses, no bar “Rio Jerez”, em frente à Galeria Alaska, em Ipanema. Almir se envolveu em uma discussão e acabou morto a tiro. Ele nasceu em Pernambuco, no dia 28 de outubro de 1937 e morreu no dia 6 de fevereiro de 1973 com apenas 36 anos de idade. Jogou em grandes equipes do Brasil (Sport Recife, Vasco, Santos, Corinthians, Flamengo, América do RJ), e do exterior (Boca Juniors, da Argentina, Genoa, da Itália) e chegou a ser chamado de “Pelé branco”, porque utilizou a camisa 10 do rei do futebol, quando Pelé ainda jogava pelo Santos.

Almir ganhou fama de valente, catimbeiro e brigão. No livro autobiográfico Eu e o Futebol, confirma não apenas esses adjetivos como também, logo em seu primeiro capítulo, afirma que iria contar a história de um “marginal do futebol”. O depoimento de Almir foi um dos mais contundentes na história do futebol brasileiro. Parecido com ele, somente o de Floriano, no início da década de 1930 com o seu Grandezas e Misérias do Futebol Brasileiro. Almir não poupou ninguém. Falou abertamente sobre doping (que ele mesmo teria se submetido várias vezes), compra de juízes e vários outros “podres” dos bastidores do mundo da bola. Não poupou nem mesmo a equipe mais famosa do planeta, da qual fez parte, o fantástico Santos campeão mundial interclubes.
O livro lançado em 1973, pelo selo Biblioteca Esportiva Placar, na verdade, foi uma coletânea de artigos lançados na revista, fruto do depoimento dado por Almir aos jornalistas Fausto Neto e Maurício Azedo. O livro é um documento histórico, encontrado somente em sebos. Neste primeiro post, o prefácio assinado pelo jornalista e amigo pessoal de Almir, Fausto Neto. Um relato que dá toda a dimensão do personagem Almir, dentro e fora dos gramados. Sua trajetória e final trágico.
 Uma amizade da estrada dos Remédios a Copacabana
                Fausto Neto

Parece que o vejo, menino ainda, com a farda do Colégio Americano Batista ou nas peladas da estrada dos Remédios. O corpo franzino e as canelas finas pareciam feitos de ferro. Já naquele tempo Almir não levava desaforo pra casa. Pancada em futebol, mesmo de marmanjo, não ficava sem resposta.

Almir começava uma carreira de craque nos juvenis do Sport Club Recife. Eu, um foca, fazia a resenha do jogos do campeonato para um jornal e uma emissora de rádio. Assim, estreitamos uma amizade que, logo, logo, seria interrompida por alguns anos.

Seu futebol era grande demais para a província. E, além disso, ainda estava viva a escrita, no Recife e no Rio, de que todo ponta-de-lança bom no Sport tinha um destino: o Vasco. Pelo menos para o empresário Cier Barbosa, que contava nos dedos a sucessão de estrelas, e essa verdade era o bastante para uma nova tentativa.

O primeiro foi Ademir Meneses, uma transação caríssima na época, feita através do próprio pai, o velho Antonio Meneses, o Muriçoca. Depois, Vavá, que Cier mandara direto também dos juvenis. Entre um e outro, um terceiro pernambucano, Amorim, brilhou rapidamente, mas acabou no Palmeiras.
 Mais cedo que Ademir e Vavá, Almir se transformou num ídolo. Um ídolo diferente, que superava os limites de sua torcida, a do Vasco, para ser o jogador festejado de todas as torcidas, pela valentia e catimba com que se impunha aos adversários mais fortes, mais experientes.

Saldanha diz com precisão que ele exerceu um papel muito importante no comportamento do jogador brasileiro em competições internacionais. E lembra que, com a coragem dele e de Paulo Valentim, num jogo histórico em Buenos Aires, a imagem do jogador comportado, ou covarde, que aceitava tudo, deixou de existir. A partir de então, o Brasil começou a impor a força de seu futebol, fossem quais fossem as tendências do inimigo: na bola ou no pau.

Dividindo a coragem e a violência, um sujeito temperamental. Que podia romper uma amizade, mesmo antiga, bruscamente, se desconfiasse da fidelidade ou do caráter do amigo. Mas era, antes de tudo, um respeitador. E quando cedia aos argumentos de um fisicamente mais fraco que ele, baixava a cabeça, antes de comentar e aceitar o que lhe era imposto: “É...eu te respeito”.
Almir, na decisão entre Flamengo x Bangu
Entre o juvenil do Sport e a última batalha campal no América – brigou com todo o time do Olaria, em Bonsucesso, no campo e depois na rua -, Almir teve uma vida de aventuras. Uma vida que ele próprio muitas vezes admitiu como “maravilhosa, que muito rico jamais conseguirá gozar igualmente”.

Casou, teve filhos, correu mundo, ganhou títulos, enriqueceu e ficou famoso. Em todos os clubes por onde passou eternizou seu nome com episódios notáveis. Sua personalidade e desassombro não tiveram limites: foi o mesmo Almir no Vasco, no Corinthians, no Boca, no Fiorentina, no Genova, no Santos, no Flamengo e no América.
Almir com a camisa do Corinthians
Depois que a estrela de craque deixou de brilhar, e ele começou a ser visto com o respeito e a admiração dos que já não viam nos campos um jogador tão valente e dedicado, nossa amizade voltou a se estreitar novamente. Aí ele já estava desobrigado dos treinamentos, das concentrações, das viagens, dos jogos.

- Agora estou como quero – me disse, mais de uma vez, enquanto tomava seus aperitivos diários no bar do Quincas, na Constante Ramos, em Copacabana, Rio. Quase todas as semanas, pelo menos uma vez estávamos juntos. Eu, ele, o Motor, o Nei, o Russo, o falecido Perereca, o Pedrinho, o Dario. Ou no bar ou no seu apartamento, na rua Dias da Rocha, que era também uma espécie de refúgio de conterrâneos. Onde a mesa era sempre farta, com o próprio Almir preparando uma comidinha nordestina.

O mundo ficou pequeno para ele depois que as pernas pararam de correr atrás da bola nos campos. Sempre de bermuda, sandália e camisa esporte, não tinha muitas opções. Bebia no bar e em casa. Ia a um cinema de vez em quando. Às vezes, dava um pulo à Barra da Tijuca para comprar goiamuns e siris, que preparava como ninguém.

O futevôlei no posto 6 ou um jogo no Maracanã, e assim mesmo quando o Santos vinha ao Rio com o Pelé, eram as outras alternativas. Não gostava de sair à noite. Era desconfiado e visado. Detestava ser identificado como ex-jogador e muitas vezes chegou a ser grosseiro com os estranhos que insistiam em lhe pagar uma bebida. Depois das 10, era quase impossível tirá-lo de casa. Mas o destino seria cruel com Almir. E ele acabou morrendo de madrugada, num bar que pouco freqüentava, desarmado como sempre andou, nas mãos de dois bandidos.

 Meses antes de morrer, ele me confessou várias vezes a sua preocupação com a ociosidade. “É o diabo”, repetia “eu não sei fazer nada”. Tinha esperanças de voltar ao futebol como técnico ou auxiliar. Mostrava-se esperançoso no sucesso de Dida, aquele ponta-de-lança famoso do Flamengo no tricampeonato de 53/54/55. “Se o Dida acertar o pé, vou pra lá como auxiliar dele. Depois, o resto é por minha conta. Conheço tudo de futebol”.

A renda mensal dos imóveis já era pequena para as despesas. Nos últimos anos, vendera alguma coisa. Mas o dinheiro chegava e sumia com a mesma facilidade. Não sabia negar uma ajuda a um amigo ou a um necessitado, mesmo estranho. De resto, uma simplicidade que contrastava com a vida agitada e fascinante do corre-mundo.

Quando Placar publicava os últimos capítulos da vida de Pelé, ele me chamou um dia e comentou: “Olha, mago, o negão tem muita coisa a dizer, mas não pode fazê-lo agora. Ele ainda está jogando. Você entende, é uma questão de ética. Se ele abrir a boca agora, vai ser um Deus nos acuda. Você vai ver só no dia em que ele puder falar”.

Estranhei a observação. Meio acanhado, advertindo que aquilo não era uma crítica ao Pelé, Almir propôs contar não somente a sua vida, mas tudo o que vira nos bastidores do futebol. Conversamos sobre o assunto em outras ocasiões. Lembrei repetidas vezes que aquilo era um negócio muito sério, a julgar pelas coisas que ele me contava e que o grande público não conhecia. Nem eu mesmo, como jornalista.

- Olha, mago, digo e assino.

Assim, surgiu o livro de Almir. Foi um trabalho árduo, paciente. Durante quase três meses eu e Maurício Azêdo estabelecemos intervalos para esclarecer detalhes sobre datas, nomes e números. Ele gravou um depoimento que pode ser considerado o mais importante até hoje feito por um jogador, pela sua essência. São denúncias que expõem os crimes e os dramas cometidos contra o jogador e que se escondem sob a alegria e a falsa euforia do futebol profissional.

Quando Almir foi assassinado, a maioria dos capítulos já havia sido publicada. E todo o trabalho estava concluído. Durante essa fase, houve contestações e avais aos depoimentos. Aplausos e críticas. Mas a maioria preferiu o silêncio, porque Almir não omitiu nomes e sempre se mostrou disposto a enfrentar os contestadores.

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O dia estava amanhecendo quando o telefone tocou na minha casa. Minha mulher atendeu e voltou sobressaltada:

- Que desgraça. Mataram o Almir.

Dei um pulo da cama. Segurei-a pelos braços: “Você está brincando”. Levantei-me como um louco, admitindo que a notícia era um trote. Brincadeira de mau gosto de algum desocupado, àquela hora da madrugada.

Mas era tudo verdade. Estendido no calçadão da avenida Atlântica, Almir tinha a face tranqüila de quem não guardava ódio. Horas depois, nos encontramos, eu, o Ademir, o Vavá e o Adésio, seus conterrâneos, para cuidar do enterro. A Fugap financiou tudo; Gilbert, outro ex-jogador, e então presidente da entidade, foi de uma presteza fora do comum.

Às 10 horas do dia 7 de fevereiro, três gerações do futebol brasileiro e um grupo numero de amigos levavam Almir para o túmulo. Perdido em meio à multidão, Almirzito, seu filho mais velho, tinha a reação de um adulto. “Eu quero ser meu pai”, disse para quase todos os que procuravam confortá-lo.

A caminho do canteiro 229, do Cemitério São João Batista, no Rio, na ala que dá para a rua Real Grandea, só se ouviam soluços, cortados somente no momento em que sua mãe, dona Dedé, desabafou: “Para que tanta glória? Eu preferia meu filho desconhecido e pobre, mas vivo”.

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