segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Almir Pernambuquinho - "O Pelé branco" (2)


Este é o segundo post que o Literatura na Arquibancada faz para a pequena série sobre Almir Morais de Albuquerque, que ficou famoso como Almir Pernambuquinho, um dos mais polêmicos jogadores do futebol brasileiro. Almir morreu tragicamente assassinado, por um grupo de portugueses, no bar “Rio Jerez”, em frente à Galeria Alaska, em Ipanema, após se envolver em uma discussão e acabar morto a tiro. Ele nasceu em Pernambuco, no dia 28 de outubro de 1937 e morreu no dia 6 de fevereiro de 1973 com apenas 36 anos de idade. Jogou em grandes equipes do Brasil (Sport Recife, Vasco, Santos, Corinthians, Flamengo, América do RJ), e do exterior (Boca Juniors, da Argentina, Genoa, da Itália) e chegou a ser chamado de “Pelé branco”, porque utilizou a camisa 10 do rei do futebol, quando Pelé ainda jogava pelo Santos.
Almir ganhou fama de valente, catimbeiro e brigão. No livro autobiográfico Eu e o Futebol, confirma não apenas esses adjetivos como também, logo em seu primeiro capítulo, afirma que iria contar a história de um “marginal do futebol”. O depoimento de Almir foi um dos mais contundentes na história do futebol brasileiro. Parecido com ele, somente o de Floriano, no início da década de 1930 com o seu Grandezas e Misérias do Futebol Brasileiro. Almir não poupou ninguém. Falou abertamente sobre doping (que ele mesmo teria se submetido várias vezes), compra de juízes e vários outros “podres” dos bastidores do mundo da bola. Não poupou nem mesmo a equipe mais famosa do planeta, da qual fez parte, o fantástico Santos campeão mundial interclubes.
O livro lançado em 1973, pelo selo Biblioteca Esportiva Placar, na verdade, foi uma coletânea de artigos lançados na revista, fruto do depoimento dado por Almir aos jornalistas Fausto Neto e Maurício Azedo. O livro é um documento histórico, encontrado somente em sebos. Neste segundo post, Almir explica como ganhou fama de violento, um testemunho que não esconde nenhuma das facetas que acompanharam o jogador, e muito menos, do verdadeiro ambiente que cerca um jogador às vésperas de entrar em um campo de futebol, seja dia de decisão ou dia de um jogo qualquer.

 Um marginal entre o amor e o ódio

Eu fui um marginal do futebol. Joguei como profissional durante onze anos no Brasil, na Argentina e na Itália. Aqui no Brasil e na Argentina, uma legenda me acompanhou: a de violento. Fiz muitos gols, construí jogadas para muitos artilheiros, ajudei alguns clubes a conquistar títulos – o Vasco, o Santos, o Flamengo –, cheguei a ser chamado de “Pelé branco” quando o Corinthians me contratou cheio de esperança, em 1960, mas só fui amado pela torcida dos clubes onde joguei.
Para as torcidas adversárias e para uma parte da crônica esportiva, eu era apenas isso: um marginal. Alguns cronistas, como Armando Nogueira, do “Jornal do Brasil”, contribuíram para que esse conceito se firmasse. Armando, a quem nem sequer conhecia e de quem nunca tive raiva, disse mais de uma vez em sua coluna, muito lida e respeitada, que eu não passava de um criminoso, um celerado.

Para muitos que não me viram jogando, persiste a impressão de que eu não passei disso: um bandido. Até hoje, no Maracanã principalmente, sei que muitos torcedores lamentam a minha ausência ao verem um jogo engrossar, o pau cantar feio.

- Está faltando um Almir aí no campo.

Muitos episódios de minha carreira ajudaram a formação dessa imagem a meu respeito. Eu quebrei a perna de um companheiro de profissão, Hélio, do América do Rio de Janeiro, que depois desse acidente nunca mais voltou a jogar bola. Briguei com o time inteiro do Bangu, quando o meu clube, o Flamengo, perdeu a decisão do Campeonato Carioca de 1966.
Paralisei o time do Milan aqui no Maracanã, em 1963, nos dois jogos em que o Santos se sagrou bicampeão mundial de clubes: dei um chega-para-lá em Amarildo, que jogava por eles, chutei a cabeça do goleiro Balzarini, e assim abri caminho para a nossa vitória. Dei muito soco e pontapé em jogadores da seleção do Uruguai, inclusive o zagueiro William Martínez, um grandalhão muito do folgado, quando o Brasil se sagrou vice-campeão sul-americano de 1959, em Buenos Aires. Agredi jogadores de outros times, briguei com tantos que até perdi a conta.
Cena do tumulto causado por Almir, que saltou com Leivas e
William Martinez e, na queda, pisou o estômago do goleiro uruguaio.
Na foto, Didi, jogador conhecido por sua calma e elegância em campo,
dando uma "voadora" em jogador uruguaio. Apesar da briga generalizada, 4 jogadores foram expulsos, dois de cada seleção: Almir e Orlando os brasileiros.
Por certo, poucos jogadores participaram de tantos episódios violentos como eu. Daí a fama que peguei: marginal, violento, celerado, bandido.

(...)

...a imagem que deixei não foi a de craque, e sim a de marginal. Os que criaram esse conceito de mim não sabem o que um jogador enfrenta no futebol. Não sabem, por exemplo, que há épocas em que o jogador vive apenas do bicho das vitórias, e que cada jogo tem que ser travado como uma guerra, porque dele depende a subsistência da família, o pagamento da prestação de um apartamento, a boa roupa, o automóvel, o conforto. Os caras que conhecem o futebol por dentro, como o João Saldanha, sabem o que o bicho representa. Lá dentro do campo não tem isso de amigo, companheiro. É a lei do cão: ou eles ou nós.

Eu queria que esses caras fossem a uma concentração, às vésperas de jogo importante, ou ao vestiário, no começo ou intervalo de uma partida, para ver quanta pressão psicológica é feita sobre os jogadores. Para ver quanto medo e quanta tensão dominam cada um deles.
Posso falar porque sempre fui um jogador frio. Mas vi muita paúra nos vestiários, até mesmo em jogos comuns, que não decidem nenhum título. Antes do jogo há o aquecimento nos vestiários, a gente troca idéias, brinca, um mexe com o outro, mas não se consegue disfarçar a tensão. Eu, por exemplo, acompanhava tudo com naturalidade: só calçava as chuteiras na hora de entrar em campo, ficava de camisa, calção e meias, bem tranqüilo, sem pressa. Ia ao mitório sem preocupação, e logo ouvia atrás um cara assobiando uma música qualquer. Eu nem olhava para ver quem era: o cara não estava alegre, não, era medo puro. Com medo ou sem medo, é preciso decidir as coisas lá no campo, sabendo que o bicho está em jogo: ou eles ou nós.

Muitas vezes o jogador tem que definir as coisas antes mesmo de a bola entrar em jogo. Tem que se chegar perto do adversário e advertir que não vai haver moleza, eles que se cuidem porque a parada é de vida ou morte.

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