segunda-feira, 7 de novembro de 2011

32 ANOS - Plínio Marcos e o futebol

Plínio Marcos

Nos últimos anos virou moda no futebol brasileiro a contratação de jogadores com idade acima dos 30 anos. Normalmente, jogadores que partiram daqui para fazer o famoso “pé de meia”, garantir o futuro, como costumam dizer, porque no mundo da bola, todos sabem: “vida de jogador é curta”. Mas também sempre existiram aqueles que nunca foram para qualquer outro país e perambulam pelos quatro cantos do país atrás de uma oportunidade para jogar pela pura sobrevivência. Há ainda aqueles que não conseguem ficar longe dos gramados, porque não sabem (ou não conseguem) enxergar o momento de parar definitivamente. Exemplos não faltam. Pedrinho (ex-Vasco da Gama e Palmeiras), é o caso mais recente. Voltou a jogar pelo Olaria, no Rio de Janeiro. Mas há ainda uma legião de jogadores espalhados pelo país defendendo clubes da segunda, terceira, quarta divisão, submetendo-se a qualquer tipo de situação, normalmente, clubes sem estrutura, precários.

Pedrinho com a camisa do Olaria
O texto abaixo, escrito pelo jornalista, cronista e dramaturgo Plínio Marcos há quase 30 anos, prova que pouca coisa mudou no mundo da bola nestas três décadas. Troque as infiltrações mencionadas por Plínio Marcos, por avançadas técnicas cirúrgicas...Troque as boletas por suplementos mil...Troque algumas situações e verá como o texto é tão atual. Plínio Marcos confessou em vida que seu sonho sempre fora o de ser jogador de futebol: “Queria mesmo era ser jogador de futebol. Cheguei até a jogar no juvenil da Portuguesa Santista, no Jabaquara. Inclusive, entrei para a Aeronáutica seduzido pela ideia de jogar no time dela.” Plínio jogava na várzea santista, como ponta-esquerda e quem o viu em campo afirma que era bom jogador. Plínio Marcos era torcedor de um clube da segunda divisão, o tradicional Jabaquara, tratado carinhosamente como “Jabuca” e, talvez, por isso, tenha visto tantas das situações apresentadas em seu belíssimo texto. Vale a pena reler a “pena” cortante de Plínio Marcos, que nos deixou no dia 19 de Novembro de 1999.

Para saber mais sobre Plínio Marcos, visite http://pliniomarcos.com/

Plínio Marcos com a camisa do "Jabuca"
Trinta e dois anos

Trinta e sete, trinta e oito, trinta e nove ou quarenta, nem ele mesmo sabia mais sua idade, mentiu tanto, tantos e tantos anos fazendo trinta e dois anos, só trinta e dois, nunca mais de trinta e dois, e mesmo com trinta e dois, com mil e um papéis provando os trinta e dois anos de idade, papéis falsificados, mas que pareciam de verdade, e mesmo assim, mesmo com trinta e dois, foi cada vez mais difícil arrumar um clube, assinar contrato, ganhar o salário miserável no ofício de jogar bola, a bola, a bola que rolou por toda sua vida, e ele rolou atrás da bola, rolou pro alto, nos grandes clubes, depois rolou pra baixo, sempre mais pra baixo, cada vez mais pra baixo, sempre com trinta e dois anos, sempre com a ilusão de voltar, não pra seleção, não pras manchetes dos jornais, não pros braços das mulheres, não ser ídolo, mas voltar, pra divisão especial, talvez pelo menos pra primeira divisão, não na segunda divisão, no clube pobre, no clube miserável, que não treina, que não concentra, que não come, que não paga, não no ócio, no ócio, na solidão de uma praça miserável, pobre, não nunca mais na solidão, na pobreza, nunca mais na bola miúda, pequena, jogada por cabeças de bagre, sem passado, sem presente, sem futuro, sem esperança, sem retrato no jornal, com emprego, emprego público, no banco, na coletoria, e a bola pobre no domingo, miúda, miserável, uma bola que rola quadrada, quadrada, rola quadrada, como se fosse a bola de um esporte, a bola de um esporte qualquer, não a bila da vida e da morte, a bola que rola pra cima, pra baixo, a bola que dá e tira, a bola que leva o craque, a bola que rola o craque, a bola que enrola o craque.

Trinta e sete, trinta e oito, trinta e nove, quarenta. Ninguém sabe. Trinta e dois nos papéis. Papéis arrumados nas mãos porcas de um intrujão, de um intrujão que decide a idade do boleiro, arruma o time pro boleiro, trata o preço do boleiro, divide as luvas do boleiro com o técnico do clube que contrata o boleiro e jura pela alma do boleiro que só ele só tem trinta e dois anos, trinta e dois, sempre trinta e dois, nunca mais do que trinta e dois. Um, dois, três, oito, dez anos com trinta e dois e pras pernas, pobres pernas, rotas, estilhaçadas pelos mercúrios, embrutecidas pelas infiltrações de líquidos calcificantes nos ossos esmagados, pras pobres pernas rotas e tristes não parecerem mais tristes com trinta e sete, trinta e oito, trinta e nove, quarenta, a boleta, a boleta, a maldita boleta, sempre a partir dos trinta e oito anos, a boleta, as varizes não atrapalham, as pancadas não doem, as desilusões, a solidão, a maldita solidão não pesa nas pobres pernas rotas e tristes, e o coração e o pulmão, o estômago, o fígado, os intestinos, tudo tem trinta e dois anos. Trinta e dois anos, nunca um a mais, sempre os trinta e dois anos. Ameaçado, triste, solitário, ocioso, dias e dias à espera de mais um domingo nesses longos trinta e dois anos. Trinta e dois anos que começaram quando a perna não foi onde a cabeça mandou, quando a perna se estilhaçou, sozinha, sem pancada, sem bola, se moeu andando, se torceu de boba no piso duro do campo. Malditos trinta e dois anos. Maldita bola que rola, que leva o craque, que engole o craque, que rola pra cima e pra baixo, que é tão mansa no seu rolar antes dos malditos trinta e dois anos, quando a cabeça pensa e a bola rola mais ligeira, e a perna já não estica toda, já não alcança a bola, o pé não afaga a bola que rola, rola, rola e não volta pra buscar o craque, que sempre fez dela o que quis, que ainda menino escapou com ela da miséria, da pestilência, da fome, do anonimato e de tudo o que é uma vida de condenação dos que são os lesados da sociedade. Mas a bola que deu a glória, as taças, os retratos nos jornais, as viagens maravilhosas n os trens de luxo, não volta pra quem chegou aos trinta e dois sem perceber. Pra quem se vê obrigado a estacionar nos trinta e dois anos. Parar nos trinta e dois anos, mesmo que o patrão das horas do seu tempo seja um maldito intrujão que nunca foi amante carinhoso da bola e que vive das ligeiras voltas que a bola, maldita bola, começa a dar na idade em que a perna do craque não vai onde a cabeça ordena.

Então a boleta, a boleta, a maldita boleta que vem na mão do técnico, que tem responsabilidades, que pediu a contratação, que precisa daquelas velhas pernas moídas correndo com trinta e dois anos, jurou para os dirigentes que as experiências daquelas pernas de trinta e dois anos seriam de valia e que ainda serviam, mesmo moídas, rotas, trituradas, estilhaçadas, embrutecidas e manchadas por trinta e dois anos. Sempre trinta e dois, enquanto o pulmão estufar com a boleta. Uma, duas, três, mil, quantas o coração frio de brio e de esperança agüentar as boletas, que vem na limonada, no café, na água, na mão do técnico. Na segunda divisão, ninguém examina o craque, ninguém se admira do craque de trinta e dois anos correr como se fosse menino, tem menino correndo como se tivesse já trinta e dois anos. O que conta é quem chega primeiro nas divididas, quem decide todas, quem dá sem dó nos adversários, como se eles fossem inimigos. Aos trinta e dois anos, já se sabe onde a pancada dói mais, onde o pontapé fere mais fundo, onde os músculos se estilhaçam, e então, aos trinta e dois anos, só se bate no lugar certo de arrebentar, de parar, de sufocar, de sufocar pra equilibrar. E todos batem, batem sem dó, batem nos meninos pra que eles fiquem com as pernas moídas, estilhaçadas, rotas, embrutecidas, tristes pernas de trinta e dois anos.  Tristes pernas, movidas a infiltrações calcificantes, as boletas, malditas boletas, que dão nojo de bebida, náusea, nojo, indiferença por mulher, mas que fazem as pernas rotas, tristes, moídas, estilhaçadas e estiradas correrem como se tivessem os trinta e dois anos.

Trinta e sete, trinta e oito, trinta e nove, ou quarenta, nem ele mesmo sabe mais sua idade, mentiu tanto, tantos e tantos anos fazendo trinta e dois anos, nunca mais de trinta e dois anos, e mesmo com trinta e dois anos, com mil e um papéis, falsificados, mas que pareciam de verdade, provando seus trinta e dois anos, foi difícil arranjar clube, e agora não dava mais pra recuar, recusar, protestar. Tinha que fazer as pernas rotas, estilhaçadas, picadas e embrutecidas pelas infiltrações calcificantes, manchadas pelo mercúrio cromo, tinha que fazer as pernas correrem como se tivessem trinta e dois anos mesmo. E ele mais uma vez aceitou a boleta que corria à roda na mão do técnico. Corria escancarada, sem limonada, sem café, sem água. Corria a boleta sem cerimônia. Era um clube de segunda divisão. Maldita segunda divisão. Pra ser o fim só faltava o craque ter que comprar a própria chuteira e as boletas. E ele pegou a boleta. Pegou uma, outra e mais outra. Naquele domingo, as pernas dele estavam com trinta e dois anos demais, com muitos trinta e dois anos. E ele tomou uma, duas, três, quatro boletas. E caminhou com as pernas pesadas, coração apertado, pulmões secos, vistas turvas. Caminhou na penumbra do túnel que levava do vestiário ao campo, caminhou sozinho, caminhou na penumbra da sua própria vida. Parou embaixo da escada pra esperar o resto do time, abriu bem os olhos e lá no alto da escada a grama do campo, a luz, a luz de um sol forte de calor de quarenta graus, e os raios do sol vieram, vieram, vieram vindo contra os olhos dele, como se fossem ardidas agulhas multicoloridas, e foram ferindo os olhos dele, a alma dele, apertando o coração, sugando o ar dos pulmões, apertando o peito, o saco, pesando nas pernas como se de repente elas, rotas, estilhaçadas e picadas e embrutecidas pelas infiltrações calcificantes, já não suportassem mais aqueles tantos trinta e dois anos, e a luz vinha cada vez em raios mais pontudos, multicoloridos, arder seus olhos, e vinha o estridente som do apito do juiz chamando os times pro campo. E o apito crescia, incomodava, doía nos tímpanos, na falta de vontade, na angústia de ter que subir a escada, aquela maldita escada, escada do calabouço pra arena. E o apito, apitado, apitado, ecoava estridente na sua alma rota, estilhaçada, picada, triste, e um a um os companheiros ligeiros e indiferentes passavam por ele, subiam os degraus do túnel pro campo de três em três, e com fúria de vencedores saudavam a torcida, e os rojões, os vivas, as palmas explodiam e martelavam a cabeça dele, sozinho, parado, encostado na parede, suando frio, pálido, roto de corpo e alma. A mão do técnico lhe ofereceu outra boleta. E ele foi. Não tinha como recusar. As pernas cansadas não podiam parar. Se as pernas rotas, estilhaçadas, picadas e embrutecidas por tantas infiltrações calcificantes parassem, ele ficaria na indigência, era preciso continuar tendo trinta e dois anos.

Trinta e dois anos, como atestavam os papéis falsificados, mas que pareciam verdadeiros. E ele tomou mais uma, mais uma, mais uma das malditas boletas e arriou a meia, puxou a camisa pra fora do calção, e o apito continuava a ser apitado, chamando os times para o meio do campo, e ele foi subindo os degraus da maldita escada, e os raios multicoloridos do sol foram se embaralhando, e as cores das camisas dos times onde ele jogou bailavam em sua frente, como mil e uma bandeiras agitadas por furiosas torcidas. Branco, verde, vermelho e azul, azul e branco, vermelho, vermelho, vermelho, vermelho e azul, azul e vermelho, amarelo e vermelho, vermelho, vermelho, vermelho e branco, branco, branco, azul, vermelho, vermelho, vermelho, e a escada, ele nunca tinha reparado que aquela escada tinha tantos degraus e que ele tinha jogado em tantos times, usado tantas camisas, vestido tantas camisas vermelhas, vermelhas, luminosas, ardidas como o som do apito, doídas como a vaia, brancas e quentes, amarelas e quentes como o calor do sol, ásperas como a grama, frias como o suor, brandas como os olhos fechados, girando como a bola, como a bola, como a bola, girando como o estádio, como o estádio, como as pessoas e como a bola, como a bola. E de repente, ele caiu. As pernas rotas, estilhaçadas, picadas e embrutecidas por tantas infiltrações calcificantes não suportaram mais o peso do corpo que se arriou pra sempre.

Texto extraído da revista SP Cultura (Em campo, futebol e cultura), 1982, SP, Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, pgs. 67-71.

Nenhum comentário:

Postar um comentário