quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O poeta-barbeiro e o futebol


Eulajose Dias de Araújo é um dos grandes nomes da literatura paraibana. Poeta, ficou famoso também pelo apelido de “poeta-barbeiro”, pois ele e o irmão eram conhecidos em João Pessoa pela barbearia que mantinham na cidade.

Sua obra é extensa, poemas belíssimos, mas Eulajose deixou em versos – como não poderia ser de outra forma –, a razão para não parar de escrever poemas: “Não me conformo\em fazer uma\só poesia\por dia. Só me conformo\fazendo uma poemaria\nunca me conformaria\com uma poesia,\só uma poemaria”.

Eulajose também deixou uma preciosidade em versos sobre o futebol, antes de sua morte em 1988.
Para saber mais sobre Eulajose, Literatura na Arquibancada sugere a leitura de “Dilúvio de palavras – Antologia poética dos cinqüenta anos” (Editora A União, 1985)



PALAVRASBOLAS


As palavras não são
bolas de futebol,
mas eu jogo com
as palavras como
se bolas elas fossem….



Futebolescas as palavras
se tornam bolas
para todos os acertos
de concordância ou sintaxe,
gramática jogando
com matemática quase.



Gol de pensamento
são as palavras no tempo,
ou no tempo de tempo,
ou no tempo de tempo,
são as palavras:



palavrasbolas paraboladas
jogando palavreadas


O Reitor da Universidade Mundial do Futebol


Se o futebol tivesse uma Universidade Mundial do Futebol, e a escolha de seu Reitor tivesse de ser feita pelo saudoso escritor Jocelyn Brasil, sua decisão seria fácil. Para entender sua preferência, leia a crônica que ele escreveu, publicada no livro: “Você pensa que entende de futebol? Eu também!” (Editora Aleutianas, 1997) e concorde ou não com sua escolha e argumentos.


Magnífico Reitor

Que Rei é esse?
Roberto Freire, o legítimo, em seu “Viva eu, Viva tu e Viva o Rabo do Tatu”, escreveu:
“Nossos atletas são homens nascidos na camada chamada popular, isto é, na mais pobre, isto é ainda, na que representa a maioria do nosso povo. Desenvolveram suas aptidões e talentos para esse esporte (o futebol), brincando, jogando – movidos internamente por sua natureza lúdica – nos campinhos das várzeas, ou nas areias das praias”.

O futebol não pertence a Rei nenhum. É democrata. Se alguém se embriaga no exibicionismo de um título pomposo, no mínimo, é um tolo. Reis do futebol? Fantasia dos deslumbrados ante a criatividade dos iluminados pelo talento. 

Está aí essa ilustração de um jornal francês de 1925. Essa gente assistiu a versatilidade de Araken e Feitiço, do Paulistano, e ficou de boca escancarada. Pátria de tantos Reis, eles chamaram de Reis de Futebol aqueles rapazes brilhantes no trato da bola. Em 38, já chamaram Leônidas da Silva de Rei.

O Brasil é Academia, ou melhor, a Universidade do Futebol. Em Universidade não vicejam testas coroadas, não existe isso de um ser absoluto. A Universidade é dirigida por um Reitor.

Os franceses, tarados pela negritude da pele, viciados em gerações que sofreram sob o guante real, ao verem um negro serelepe traçando o caroço com certa desenvoltura, entenderam de apelidá-lo de Rei do Futebol.

Quá! Quá! Quá!

Eu não aceito essa coroa. Ela agride visceralmente os meus sentimentos democráticos. “Nossos atletas são homens nascidos na camada chamada popular”. E lá não há lugar para coroa.

Mário Filho
O senhor Edson refastelou-se na prebenda francesa, está bem. Mas, por amor de Deus, acabemos com essa tolice. O nosso futebol é, sim, o maior do mundo, o que é devido à prática democrática da liberdade, a que se entregam os nossos jogadores, inventando gols. Foi Mário Filho, o Galileu de nosso futebol, quem afirmou que “os outros fazem gols, enquanto os brasileiros os inventam”.

Peço a palavra. A imprensa esportiva mundial, reunida num boteco qualquer da Inglaterra, por votação democrática, elegeu a Seleção Brasileira de 1970 como sendo o mais perfeito, o melhor time do mundo, de todos os tempos. Eles reconheceram a exuberância de nosso futebol, patenteada na atuação daqueles jovens que fizeram com que a CBF entrasse em posse definitiva da Copa Jules Rimet.

Quem teria sido o jogador mais brilhante daquela Copa? Quem foi que dirigiu o solo magistral daquela orquestra?

Solto aqui uma confidência. Não contente em ler e ouvir cronistas que estiveram presentes àquela Copa e, por observação própria, haver considerado Eduardo Gonçalves o cérebro daquela conquista, invoco um testemunho irrefutável. Jerônimo Bastos sabia futebol de trás para diante. Foi o chefe da Delegação Brasileira naquela Copa. Houve um blá-blá-blá após a disputa da Copa: Quem teria sido o autor daquele feito brilhante? Zagalo ou João (Saldanha)? Não resisti à tentação. Provoquei o meu grande amigo: “Jerônimo, me diz uma coisa: quem ganhou a Copa? O João ou o Zagalo?” O meu velho companheiro da FAB, o Brigadeiro Jerônimo, respondeu de bate pronto: “Foi teu colega cabeçudo”. Era assim que ele me chamava. Em seu entender, Tostão também era um cabeçudo.

Não estou advogando, mas, até aparecer outro, o jogador que deu aquele passe para o Clodoaldo, e o outro para o Pelé, contra a Inglaterra, não hesito em afirmar, foi um jogador simplesmente genial. E, atenção, não tem nada de obscurecer Rivelino ou Gérson. Tostão é Tostão.

Poderá acontecer, amanhã ou depois. Poderá aparecer um jogador tão brilhante, de técnica tão apurada quanto o Tostão. Leiam em “O homem e a bola”, a fotografia colorida que Armando Nogueira tirou da consagração popular de Tostão. O povo entende de futebol, Zagalo não, comprovado pela vaia com que Manaus lhe presenteou em 18 de dezembro de 1996.

Doa a quem doer, o maior lance de futebol de que se tem notícia foi aquela bola enfiada pelo Tostão para o Clodoaldo, na partida contra o Uruguai (1970). Ele nunca foi chamado de Rei. Aquilo foi um lance de PhD, que permanecerá por muito tempo na Enciclopédia do Futebol do Mundo.

Aquela equipe, tida como a maior do mundo, na opinião de quem inventou o futebol, foi elaborada aonde? Foi aqui, entre Oiapoque e o Chuí, na (permitam-me o orgulho) Universidade Mundial do Futebol.

Em Universidade não existe Rei. Os Reitores são as autoridades. Nossa Universidade apresentou em 1970 (e ele ainda está por aí, a cantar jogadas) o seu Reitor.

Tiremos o chapéu para Eduardo Gonçalves, o Tostão, o Magnífico Reitor da Universidade Mundial do Futebol.


Sobre Jocelyn Brasil
Jocelyn Brasil e Pedro Zamora eram as mesmas pessoas. Jocelyn escreveu durante vários anos sobre futebol, especialmente no Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro. Entre os vários livros publicados, escreveu algumas importantes obras para o esporte brasileiro, a maioria encontrada somente em sebos: “Tim o Estrategista” (Editora Gol) “O Livro de Tostão” (Editora Gol), “ A Hora e a Vez de João Saldanha” (Editora Gol” e “Assim falou Nenen Prancha “ (Editora Critica). Há ainda o título do qual Literatura na Arquibancada selecionou um texto precioso de Jocelyn Brasil, ou melhor, Pedro Zamora, pois é com esse pseudônimo que ele assina “Você pensa que entende de futebol? Eu também! (Edições Aleutianas, 1997).

Para saber mais sobre Jocelyn Brasil, acesse: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jocelyn_Brasil

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Um jeito inteligente de educar e formar leitores


Literatura na Arquibancada fala agora sobre um tema importantíssimo na literatura brasileira. A formação e a educação dos jovens por intermédio de livros que tenham o esporte como "gancho". E não há no país alguém mais capacitado para isso do que o jornalista e escritor Raul Drewnick, uma figura humana incrível que merece todos os elogios possíveis.

Raul Drewnick nasceu em São Paulo, em 1938. Jornalista e escritor, trabalhou durante muitos anos no jornal O Estado de S. Paulo onde teve uma coluna que o consagrou como um dos maiores cronistas brasileiros. Também trabalhou para a revista Veja.

Há vários anos, começou a escrever livros voltados para o segmento infanto-juvenil. Já são vários os títulos e, claro, o futebol não poderia ficar de fora de sua prosa. Entre os vários títulos publicados estão: “A hora da decisão” (Editora Ática,2003), “A grande virada” (Editora Ática, 2010) e o mais recente deles, “O goleiro fantasma” (Editora Lazuli e Companhia Editora Nacional, 2011).
Corintiano dos pés a cabeça, Raul Drewnick é apaixonado por futebol, daqueles que ficam passando de um canal para outro no domingo, em busca dos programas esportivos. A paixão é tão forte que ele brinca: “Se eu for a um psicanalista, ele vai dizer que o meu problema é que sou um futemaníaco, um futemaluco, um futefanático”.

Na apresentação de sua trajetória, em “O goleiro fantasma”, a explicação de onde e como surgiu esse fascínio pelo futebol:
  
“Os livros e o futebol encantaram a infância de Raul Drewnick. Tão forte foi esse fascínio que, se lhe perguntavam o que gostaria de ser quando adulto, ele respondia: escritor ou jogador. Para ser escritor, preparava-se lendo livros de aventuras. Para ser jogador, corria atrás da bola nos campinhos do bairro. Por duas vezes, sem dizer nada em casa, foi treinar entre os infantis do Corinthians. Quando chegou em casa levando uma ficha para jogar no time do seu coração, a mãe ficou furiosa, rasgou a ficha e o proibiu de voltar aos treinos. Dali em diante ele seria torcedor, apenas. E, como torcedor, acompanhou pelo rádio a maior tragédia do futebol brasileiro: a derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã. Nesse dia, escolheu-se covardemente um culpado: o goleiro Moacir Barbosa. Perseguido, apontado nas ruas, ele carregou essa cruz até o fim da vida. O episódio, pela sua dimensão humana, marcou profundamente Raul, que, não podendo ser jogador, se encaminhou para o jornalismo e a literatura. Raul publicou mais de vinte livros, para adultos e jovens. Este, inspirado na história do goleiro Barbosa, pode ser lido com prazer tanto pelos jovens quanto pelos adultos”.

“O goleiro fantasma” conta a história de um fantasma que aparece num início de noite e aterroriza dois garotos que estão jogando futebol num campinho. Depois do susto, eles começam a investigar e descobrem que o aparecimento do horripilante espectro pode estar ligado à história de um goleiro amaldiçoado e expulso do bairro depois de uma derrota. A magia do futebol, suas glórias e seus dramas estão neste livro que o Literatura na Arquibancada recomenda.

                                                                                  
Capítulo 1 (Um fantasma no meio do campo)

O jogo tinha acabado. Mas, num canto do campinho de terra, Alexandre e Miguel continuaram batendo bola. Os outros meninos começavam a ir embora, discutindo o placar: 12 a 7, na opinião de um dos times, que comemorava com estardalhaço, e 12 a 12, na opinião do outro, que não parava de reclamar:
– Pô, os caras bateram na gente sem dó, o tempo inteiro, e aquele bananão do seu Avelino não apitava nada – lastimou-se um garoto pálido, com jeito de riquinho.
Um gorducho que tentava fazer cara de mau apoiou:
– A gente devia ter tirado o apito dele. Cinco pênaltis pra nós, e ele não deu. Cinco!
Sorrindo, Alexandre e Miguel, os melhores jogadores do time vencedor, ouviam as queixas.
– Cinco! – repetiu o gordinho. – Um pior do que o outro. Esse último, agora no fim, foi demais. Olha aqui o que o cara fez na minha canela, dentro da área. Vê só a marca da pancada. Ai, tá doendo até agora. Já inchou. Olha, aperta aqui, pra ver. Aaaiii! Não precisava apertar tanto.

Vendo a cena, Alexandre e Miguel pararam de bater bola e passaram do sorriso ao riso escancarado. Era uma delícia jogar contra aquele timeco da rua de cima. Melhor freguês eles não iam achar nunca. Ô gente ruim de bola!
Depois de engasgar de tanto rir, Alexandre recuperou o fôlego e brincou com Miguel:
– Guegué, essa turma aí não ganha nem de defunto. É o pior time do bairro.
Miguel não concordou:
– Do bairro? Esse é o pior time do mundo!
Os dois começaram a gargalhar de novo. Aquele pessoalzinho da rua de cima era engraçado mesmo. Quanto mais apanhavam, mais eles queriam jogar. Viviam jurando vingança, prometendo que na próxima vez iam ganhar de goleada da rua de baixo, mas na hora do jogo era o vexame de sempre: derrota e choradeira.
– Você já viu que eles sempre dão um jeito de pôr a culpa em alguma coisa? – perguntou Miguel.
– É. Se a chuva não molhasse, se o sol não ardesse, se a bola não atrapalhasse...Hoje parece que o culpado foi seu Avelino.
– Mas foram eles que escolheram seu Avelino pra juiz, não foram, Alê?
– Foram, Guegué. E seu Avelino mora na rua deles. A gente podia até criar caso.
– Criar caso pra quê? Aqueles fresquinhos não ganham de nós nem se jogarem com vinte e dois em vez de onze e nem se o juiz marcar pênalti toda vez que o nosso goleiro botar a mão na bola.

Recomeçaram a fazer embaixadinhas, mas continuaram falando dos fresquinhos – os garotos da rua de cima eram chamados assim porque moravam em casas grandes, bonitas, na parte nova do bairro, e eram filhos de gente importante: advogados, engenheiros, médicos, professores universitários.

Na rua de baixo, onde Alexandre e Miguel moravam, só havia casas antigas, sobradinhos de pintura descascada, e quem morava neles eram operários, camelôs, homens que viviam de trabalhos eventuais, pequenos comerciantes. Os meninos da rua de cima cursavam o colégio pago, os da rua de baixo estavam na escola pública.

Era por isso que Alexandre – filho de um eletricista nem sempre empregado – e Miguel – filho de um pedreiro quase sempre desempregado – gostavam tanto de ganhar daqueles empertigadinhos. E era por isso, também, que eles continuavam treinando passes  e controle de bola, embora todos os outros garotos e até o sol das seis horas já estivessem abandonando o campinho.

A mãe de Alexandre e a mãe de Miguel começaram a chamar os filhos. Eles eram vizinhos. Moravam em duas casas moribundas e geminadas que ficavam a poucos metros dali. Os dois respondiam que já estavam indo, mas não iam nunca. Continuaram batendo bola, ensaiando passes, fazendo embaixadas.

Eram apaixonados por futebol e sentiam que nele talvez estivesse sua grande oportunidade na vida. Não iam muito bem na escola, porque já trabalhavam para ajudar nas despesas familiares. Sempre ouviram dizer que não havia futuro para quem não estudava, mas achavam que, se quisessem continuar derrotando os almofadinhas da rua de cima, a bola, para eles, talvez fosse um caminho mais fácil do que os livros.

Só que depois que as mães, cansadas de gritar seus nomes, ameaçaram ir buscar os dois e enchê-los de tapas, eles finalmente resolveram atender os chamados. Haviam passado embaixo de uma das traves de madeira tosca e sem rede e estavam a poucos passos dos carcomidos portões das casas quando de repente, como se tivesse nascido da treva que já começava a cobrir o campinho, apareceu no caminho deles um vulto fantasmagórico.

Era uma figura impressionantemente feia. Alexandre e Miguel nunca tinham visto nada igual, a não ser em filmes de terror. Os cabelos pareciam feitos de palha suja , apesar da escuridão nascente, exibiam um sinistro brilho ruivo. Os olhos eram de um azul glacial, e os lábios tão grossos e vermelhos que davam a impressão de terem sido esmurrados um minuto antes. Em contraste, o nariz era tão pequeno que quase só se viam os dois furos, como as narinas de uma caveira.

Os meninos puderam vê-lo bem nos quinze ou vinte segundos em que ele ficou na frente deles, pavoroso como um espantalho, cambaleante como um bêbado, misterioso como uma assombração.

Não era muito alto, mas a mão que estendeu para eles, para fazê-los parar, era enorme, como se pertencesse a alguém duas vezes maior. Os lábios carnudos abriram-se um pouco, lentamente, como se a palavra que ia sair deles os estivesse machucando, mas Alexandre e Miguel não esperaram para ouvir nada.

Aterrorizados, saíram em disparada. Alexandre passou pelo lado direito do espectro, Miguel pelo esquerdo, e quando a horrenda figura abriu os braços para segurá-los, cada um deles estava escancarando o portão de sua casa com a barriga, no embalo, como se os dois tivessem acabado de arrebentar a fita de chegada numa vertiginosa prova de cem metros rasos.

Mais sobre Raul Drewnick

É autor também, entre outros, dos livros abaixo:


Um time inteligente



“A equipe de futebol é o muro do frontão 
subitamente inteligente. 
É a tabela de bilhar dotada de gênio”
(Jean Giradoux)


Sobre Jean Giradoux

Diplomata, romancista e escritor de peças teatrais. Francês nascido na vila de Bellac, criador de uma modalidade impressionista de teatro, original mas excessivamente marcada pela formação literária do autor. Estudou na École Normale Supérieure e quando jovem viajou extensivamente pela Alemanha, Itália, Balcãs, Canadá e Estados Unidos, onde passou um ano (1906-1907) como instrutor na Harvard. Retornou à França e lutou na I Guerra Mundial, onde ferido duas vezes, tornou-se o primeiro escritor a ser premiado pela Legião de Honra. Seguiu a carreira diplomática e tornou-se conhecido como autor de vanguarda com romances como Suzanne et le Pacifique (1921), Siegfried et le Limousin (1922) e Bella (1926). Começou teatrólico com Siegfried (1928), adaptado do romance homônimo, que lançou o diretor Louis Jouvet, com quem trabalhou até a segunda guerra mundial e morreu em Paris. Suas peças sempre caracterizaram-se par apresentar pares de opostos como o homem e Deus, em Amphitryon 38 (1929), o mundo pagão e o Antigo Testamento, em Judith (1931), a mulher e o homem, em Sodome et Gomorrhe (1943). Seguindo a tradição clássica, escreveu as peças Électre (1937) e Cantique des cantiques (1938) e foi autor de roteiros para o cinema como La Duchesse de Langeais (1942) e Les Anges du péché (1944). Postumamente ainda foi montada sua peça inédita La Folle de Chaillot (1946).


O Mozart do futebol


Ele é considerado o maior jogador austríaco de todos os tempos. E para alguns historiadores europeus um dos atacantes mais completos do mundo. Em dezembro de 1998, 60 anos depois de sua morte precoce, foi eleito o atleta austríaco do século 20. Mas Sindelar foi uma das grandes estrelas do futebol que a II Guerra Mundial roubou de todos nós, torcedores. Morreu precocemente e de forma trágica, aos 36 anos.

Mathias Sindelar é dono de uma das histórias mais densas do futebol. Único filho homem de uma proletária família judia, o pequeno Motzl, como era conhecido, nasceu em 10 de fevereiro de 1903, na Vila de Koslov, situada na atual República Tcheca. O pai era pedreiro, e a falta de trabalho no vilarejo forçou a família a trocar de endereço. Sindelar e suas três irmãs mudaram-se para Viena, capital do Império Austro-Húngaro, mas o único lugar possível para a família viver eram as ruas poluídas pelas centenas de fábricas de tijolos do pequeno distrito industrial de Favoriten.

E foi nesse cenário, onde também não faltavam os terrenos baldios de terra batida, que o garoto loiro e franzino deu os primeiros chutes em uma bola. Talvez tenha sido pela precariedade do local em que era obrigado a jogar futebol que Sindelar desenvolveu a habilidade do improviso, do drible, da precisão nas jogadas.

Sindelar perdeu o pai em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, e com apenas 14 anos virou chefe de família. Para não perder contato com a bola, trabalhava como mecânico enquanto defendia o time de base do Hertha de Viena. Seis anos depois transferiu-se para o Áustria Viena, poderoso time da classe média judia. Foi nesse período que Sindelar ganhou o curioso apelido Homem de Papel por causa do corpo frágil e da precisão nos passes e dribles.

A estréia pela seleção austríaca, em 1926, não poderia ter sido melhor. Dois gols na goleada por 7 a 1 contra a Suíça. Nos dez anos seguintes, a Áustria passou a ser considerada a melhor seleção de toda a Europa, o adversário mais temido por outras equipes. Ganhou o título de Wunderteam, sinônimo de “time maravilhoso”. Sindelar era o líder da seleção austríaca, estrategicamente montada pelo técnico Hugo Meisl, considerado o Pai do Futebol Austríaco. A tática, a mais simples possível, era trocar passes precisos até que surgisse uma falha na defesa adversária. O caminho para o gol era invariavelmente traçado pelos pés de Sindelar.

Entre 1931 e 1933 foram 16 jogos, 12 vitórias. Entre elas duas goleadas humilhantes: 6 a 0 sobre a Alemanha, em Berlim; e 8 a 2 sobre a Hungria, em Viena.

Ao derrotar a Áustria do craque Sindelar, na semifinal de 1934, a Itália de Meazza bateu uma seleção cujo país havia sofrido um golpe militar que instaurou uma ditadura fascista e católica que condenou a nação a um caos econômico. A Áustria vencida era um time esgotado física e emocionalmente. 

Crédito:
www: wieninternational.at
Em março de 1938, meses antes da Copa seguinte, com a anexação da Áustria pela Alemanha, a carreira de Mathias Sindelar aproximava-se do fim. No jogo comemorativo pela unificação, perdeu várias chances de gol e, no segundo tempo, marcou um dos gols da vitória do Ostmark da Áustria sobre o Altreich da Alemanha. Desafiou o Terceiro Reich. Negou-se a defender o time de Adolf Hitler.  

Em 23 de janeiro de 1939, antes de completar 36 anos, morreu. Uma morte repleta de versões e mistérios. Gustav Harmann, amigo de infância, aguardava-o para o café da manhã quando o viu entrar na casa de Camila, considerada sua namorada para alguns e amante para outros. Preocupados com a demora do amigo, Harmann decidiu bater à porta de Camila. Sem resposta, o jeito foi arrombá-la. A tragédia já havia se consumado. Sindelar e Camila foram encontrados mortos, junto a dois copos e uma garrafa de conhaque. A autópsia revelou morte por intoxicação por óxido de carbono, mas as especulações cresceram, e até a hipótese de fuga de gás nas chaminés e intoxicação por medicamentos foi levantada. No meio de tantas especulações, a Gestapo, polícia nazista, decidiu encerrar as investigações. Esse ato fez gerar a lenda de que Sindelar teria sido morto, assassinado pelos nazistas. A tese de suicídio não era descartada pelos amigos de infância porque Sindelar, quando se machucara gravemente no joelho, ficara desesperado e teria tentado se matar quando soube que nunca mais poderia jogar futebol.

Enterro de Sindelar.
Crédito: www.austriafans.at
Lenda ou fato, a verdade que entrou para a história é a morte de um mito do futebol e da resistência ao exército alemão. Sob a vigilância das tropas nazistas, mais de 40 mil pessoas foram dar adeus ao Homem de Papel que representou muito mais do que um jogador para o povo do seu país. Tornou-se um símbolo, tanto que passou a ser tratado pelos jornalistas como o Mozart do Futebol. Para compreender melhor o significado de Sindelar no universo do futebol, o escritor vienense Friedrich Torberg escreveu o poema “Balada de morte de um jogador de futebol”:

Ele jogou como ninguém havia feito antes
Cheio de inteligência e imaginação
Fazia-o com facilidade, um toque de luz e descontração
Ele sempre jogou, nunca lutou.

Fonte:
“A magia da camisa 10”
(André Ribeiro e Vladir Lemos, Verus Editora, 2006)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sua excelência, a torcida.


Literatura na Arquibancada destaca mais um artigo escrito pela psicóloga do esporte, Dra. Katia Rubio, em seu blog http://blog.cev.org.br/katiarubio/2011/sua-excelencia-a-torcida/. Uma bela reflexão sobre o comportamento das torcidas, logo depois de ela ver as reações dos torcedores após o jogo entre Corinthians e Figueirense, pelo campeonato brasileiro. Imaginem o que poderá acontecer, no próximo domingo, rodada final do Brasileirão!

                                                                                   ****

Faço parte de uma família que carrega uma forte tradição no futebol. Pai, mãe, irmã, tios e tias, primos e primas e agora, até sobrinhas, comungam a mesma opção clubística. E toda tradição, como nos afirma Eric Hobsbawn, foi um dia inventada por alguém, atendendo a alguma intenção. Antes mesmo de conhecer os autores da área sociocultural do esporte que vão apontar as influências sociais e culturais na construção do fenômeno esportivo vi na minha própria família a influência que o esporte, e mais especificamente o futebol, é capaz de exercer em sua dinâmica. Tenho um primo chamado Rivelino, isso mesmo, não é Roberto, é Rivelino; o gato de uma prima, após um jogo histórico, passou a se chamar Tobias, e por aí vai.

Não imaginava durante a infância que minha profissão quando adulta estaria relacionada ao esporte. Praticante assídua de diferentes modalidades cheguei a fazer jornalismo pensando em me tornar uma jornalista esportiva, mas a vida me levou para outras paragens embora a paixão pelo esporte e todo esse universo nunca tenham me abandonado.

Muitas das minhas lembranças de jogos estão relacionadas com a família e amigos reunidos para assistir jogo, torcer pelo time e sair às ruas para festejar. Sou de um tempo que a rivalidade entre torcidas e torcedores não passava de discurso acalorado ou infinitas piadas que tanto podiam se relacionar com a vitória como com a derrota, do próprio time ou do adversário. Lembro também de meu pai contar de suas idas ao Pacaembu e das tantas vezes em que sentou ao lado de torcedores do time adversário e de compartilharem o amendoim e as impressões sobre o jogo de forma gentil, cordial. Como não sou desse tempo, creiam, eu ouvia tudo isso e ficava pensando em preto e branco, como se as imagens descritas por ele estivessem em um filme mudo, com homens trajando terno e chapéu e as mulheres vestidos acinturados e sapatos combinando com a bolsa. Quando vou ao Museu do Futebol de São Paulo (um dos museus de esporte mais incríveis que já visitei no mundo) e observo o acervo relacionado com os anos 1930 e 1940 vejo materializada a imagem que fazia do futebol e da sociedade da época. O estádio do começo do século XX, lugar da aristocracia urbana, foi sendo invadido pela classe trabalhadora que honrou esse espaço sagrado prestigiando as pelejas com o devido respeito ao público que lá se dirigia para assistir e honrar a tradição de uma competição.

E a informalidade que assolou os muitos espaços sociais também chegou ao futebol. O respeito antes dispensado ao adversário foi aos poucos se transformando em rivalidade incontida, e em curto tempo inimizade contenciosa. E os estádios, campo com instalações destinadas a competições esportivas; para os romanos, arena, carreira; para os gregos, medida itinerária correspondente a 185 m.; todos, passou a ser um campo definido por regras sociais e delimitações físicas. E as novas gerações, criadas dentro de um clima belicoso, já não mais assistem a um espetáculo, mas vão ao campo para matar ou morrer, materializando a disputa simbólica que uma competição esportiva poderia representar.

Das muitas situações que a sociedade contemporânea me proporciona capazes de me surpreender, e também me indignar, a atitude dos torcedores do futebol é sem dúvida aquela que mais me faz lembrar do texto de Freud “Mal-estar na civilização”. Não farei aqui digressões e elucubrações a respeito da psicanálise, mas, por esse texto se referir à distinção entre civilização e cultura, não posso deixar de pensar no que o velho Sig escreveu nos anos 1930 observando a tudo o que ocorria com as “massas” na Alemanha pré-nazismo, muito embora ele já observasse a passagem da natureza à cultura em seu artigo “Totem e tabu” de 1921. Observou Freud que todo indivíduo, em sua essência, é inimigo da civilização, uma vez que neles estão presentes tendências anti-sociais, anti-culturais e destrutivas. Isso se justificaria porque como ser social, o ser humano precisa da comunidade, mas a civilização trava uma luta incessante contra esse ser que procura ser único e livre, buscando substituí-lo pelo poder do coletivo. Ou seja, o indivíduo deve ser sacrificado para o bem da sociedade.
Tudo isso para falar sobre o que vejo hoje do torcedor.

Há uns anos recepcionei um grupo de professores estrangeiros que vieram para um congresso no Brasil e me pediram para assistir a um jogo de futebol. Olhamos a tabela e vimos um jogo que aconteceria no domingo, mas para nosso azar um dos times estava com sua torcida insatisfeita. E para nossa surpresa essa torcida, desrespeitando as mais nobres tradições do esporte bretão, foi de amarelo ao estádio e assistiu ao jogo de costas para o gramado, desrespeitando as cores de seu uniforme e bandeira. Tanto o Prof. Richard Cashman, da Austrália, conhecedor dos Estudos Olímpicos e um dos grandes intelectuais dos Jogos Olímpicos de Sydney, quanto o Prof. Eckhart Meinberg, da Universidade de Colônia e um dos papas da ética no esporte, custaram a entender o que ocorria ali no estádio. Tentei de todas as formas lhes explicar que aquilo era um ato de desagravo da torcida em relação à conduta do time, considerado pouco empenhado nos jogos, mas minhas explicações foram inúteis. E o jogo morno terminou com protestos de torcedores e espectadores de forma geral. Embora torcedores isolados considerassem absurdo tudo aquilo, o que prevalecia era a força do grupo, da massa.

E as coisas inusitadas não param por aí. Mais do que representar alguém que defende o time escolhido por si, ou pela família, para gostar e defender o torcedor vive hoje uma espécie de insanidade em dia de competição. Não falo apenas daqueles que vão ao campo para cantar o hino do time, gritar pelos jogadores em campo, comemorar os gols feitos ou lamentar pelos sofridos. Falo também daqueles que do conforto de suas poltronas, alocadas diante de aparelhos de TV 40 polegadas que recebem imagens pelo pay per view, gritam como se parte do corpo fosse extirpado a golpe de machado ou pelo golpe de um dragão acuado. Acompanho em diferentes bairros, em diversas cidades brasileiras, jogos de distintos campeonatos e, surpreendentemente observo um comportamento inusitado se repetir: a firme disposição em torcer, não para o próprio time, mas por aquele que pode de alguma forma prejudicar o meu adversário.

Precisei de algum tempo para entender que torcida é como maré, ela pode variar conforme o dia, a lua e as condições climáticas… tudo depende de quem joga, e não precisa ser necessariamente o seu time, mas o time do qual se é adversário. Isso significa que os sinais antes emitidos pelos espectadores a partir de seus lares podem representar muito mais que a vitória do próprio time. Ouvir um “CHUPA PORCO” ou “CHUPA CORINTHIANS” de um desavisado do condomínio ao lado, que assistiu pela TV aberta a cena avassaladora e foi favorecido pelos dramáticos alguns segundos que separam a mesma cena da TV a cabo, precisa ser confirmado antes da comemoração ou do lamento pelo ocorrido. Feito isso serão necessários alguns momentos para que a equação se processe:


E assim, mais um espetáculo foi criado a partir do futebol brasileiro – manifestações pulmonares e vocais capazes de desafiar os mais possantes amplificadores elétricos. Visto em primeira instância isso poderia ser tomado como um ato de desagravo e desrespeito aos vizinhos que professam crenças diversas, porém, rapidamente essas manifestações da livre expressão passaram a ser esperadas pela massa torcedora que forma a maior torcida do país a partir do momento que o time corre o risco de ser campeão.

E assim, a depender da tabela e da rodada do campeonato, torcidas se formam e transformam pelo país afora como o rodar de um caleidoscópio, alterando seus gritos pró ou contra alguém. Afinal, diante da impossibilidade do próprio time ser campeão, o melhor programa é torcer contra o arqui-rival. E aquele termo, que décadas atrás seria considerado uma ofensa sem precedentes entre os senhores e senhoras bem vestidos que ocupavam as arquibancadas dos estádios, CHUPA, hoje é motivo de riso para os que não entendem ao certo o que é sentir o disparar do coração quando o próprio time faz um gol. E então as atenções se deslocam do gramado para qualquer outro espaço onde sua excelência, o torcedor, faz seu próprio espetáculo.

Sobre Katia Rubio:
É professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995). Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.

Castilho: um goleiro fora série


O aniversário do goleiro Castilho passou praticamente despercebidos pela grande mídia. Um goleiro que fez história no futebol brasileiro, especialmente no Fluminense e Seleção Brasileira. No tricolor carioca têm o recorde de participações pelo clube com 696 jogos, e pela seleção participou de quatro Copas do Mundo. Não é pouco. Conquistou pelo Fluminense e pela seleção muitos títulos importantes. Durante toda essa trajetória sua qualidade técnica misturou-se com a fama de goleiro que tinha muita sorte. Não era só isso.


Dentro e fora dos gramados um de seus maiores amigos foi Telê Santana. Particularmente, tenho uma história que ficou marcada em minha memória. Telê era um homem “calejado” pela vida e durante o processo de produção de sua biografia (Fio de Esperança, Cia dos Livros), não o vi se emocionar por quase nada durante sua longa carreira como jogador e técnico profissional, contudo, o único personagem que o fez chorar durante as gravações foi relembrar o final trágico do amigo que se suicidara no dia 2 de fevereiro de 1987. Telê sofria com o afastamento forçado do futebol e entrou em depressão profunda, logo no início de seu tratamento e quando ainda estava sob o efeito de antidepressivos, lembrava-se constantemente de Castilho. 

Telê chora, no velório do amigo Castilho.
Crédito: arquivo tese "O último vôo do heroi", de Paulo Kastrup.

Apesar da distância do acontecimento, Telê chorava quando se lembrava do amigo, que se jogara do sétimo andar de um edifício. Afirmava que Castilho chegara ao gesto extremo porque também estava deprimido e ninguém havia percebido.

Como uma homenagem aos 90 anos de Castilho, Literatura na Arquibancada reproduz abaixo, trecho de uma obra espetacular, talvez a melhor e mais completa que já se produziu no Brasil, sobre esta posição inglória do futebol: “Goleiros – Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1”. O autor é o jornalista Paulo Guilherme, um craque com as palavras que deixou a vida de Castilho eternizada com um texto de primeira.

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A vida de Castilho foi marcada por encontros e desencontros com a sorte. A força invencível à qual se atribuem os diversos acontecimentos da vida proporcionou a ele eventos de extrema felicidade e outros de profunda angústia. Dias de dor, sofrimento, sacrifício, conquistas, reconhecimento, alegria e solidão. Castilho experimentou na vida pessoal o que vivia diariamente como goleiro. Andou sempre na corda bamba, alternando alegrias e tristezas, como se freqüentemente defendesse um pênalti e logo em seguida tomasse um frango.

Castilho ganhou fama no Fluminense como um goleiro de muita sorte. Quando não fechava o gol com suas defesas extraordinárias, o imponderável acabava por lhe ajudar. Castilho fazia defesas sobrenaturais, era capaz de evitar o gol apenas com o olhar, mantendo-se estático no meio da meta e observando a bola chocar-se contra a trave. Em um jogo contra o América, em 1951, foram quatro bolas batidas em seguida na trave. As traves naquela época eram de madeira e tinham o formato quadrado. Muitas bolas, que poderiam tocar na trave e entrar se ela fosse como hoje, arredondada, acabam batendo e partindo para longe do gol.


Por causa da boa sorte, Castilho ganhou o apelido de “Leiteria”. O codinome aludia não só à infância do goleiro, que chegou a trabalhar no ramo dos laticínios, mas também à notoriedade alcançada na época por um entregador de leite do bairro das Laranjeiras, sede do Fluminense, que por duas vezes teve seu bilhete premiado na Loteria Federal. “Leiteiro” e “sujeito de sorte” viraram sinônimos no Rio por algum tempo.

A torcida do Fluminense passou a acreditar na força sobre-humana do goleiro. Castilho virou “São Castilho”, o primeiro goleiro do Brasil a ser “santificado” pelos torcedores por causa dos “milagres” que fazia debaixo das traves. O título carioca de 1951 foi uma prova de que o Fluminense contava com um goleiro que valia por dois. O time não era lá grande coisa. A diretoria não tinha dinheiro para fazer grandes contratações e decidiu apostar nos garotos vindos dos juvenis. A meta de Castilho era testada inúmeras vezes em cada partida. Mas o goleiro não se abalava com o assédio dos adversários. Sempre bem colocado e transmitindo segurança e confiança para seus zagueiros, Castilho livrava o Fluminense do massacre. E a sorte também fazia a sua parte.

Equipe do Fluminense, na final do campeonato carioca de 1951.

Desde menino, Castilho nunca foi muito ligado aos estudos. Gostava mesmo era de jogar bola como ponta-esquerda dos times de várzea nos bairros onde passou a infância, primeiro em São Cristóvão, depois em Olaria. A vida no subúrbio era difícil para sua família. O pai, Ezequiel, tinha um pequeno comércio no bairro e a mãe, Mariana, precisava cuidar dos filhos. Castilho começou a trabalhar aos doze anos em uma carvoaria para ajudar na renda doméstica, e aos treze teve de largar os estudos para trabalhar em uma leiteria. Acordava cedo e subia no lombo de um burrico para distribuir leite aos fregueses. Sua mãe morreu quando ele tinha quinze anos, e Castilho teve de seguir trabalhando muito. Mas sempre que podia, passava o tempo livre jogando bola. Dois anos depois, foi levado pelo pai de Ademir de Menezes ao Olaria e, logo em seguida, para o Fluminense.

Castilho na equipe do Fluminense,
campeã estadual de 1957.

Se lhe faltou oportunidade nas escolas, Castilho fez do campo de futebol a sua sala de aula. Logo percebeu que para se destacar n o seu trabalho precisaria treinar muito e estudar os mínimos detalhes do jogo. Castilho era muito observador. Da sua posição enxergava bem o jogo, as características de cada adversário, os macetes dos atacantes na hora de chutar, as deficiências dos seus zagueiros, as possibilidades táticas de sua equipe. Essa capacidade de observação acabaria por transformá-lo em um treinador respeitável no futuro.

Castilho, pela seleção brasileira, na Copa de 1954.

Sua visão de jogo era marcada por uma anomalia de visão. Castilho era daltônico, não enxergava as cores como as outras pessoas. O que para muitos poderia ser um problema, para ele se tornou uma ajuda extra no seu trabalho. As bolas de couro alaranjadas que se usavam no início dos anos 50 eram mais fáceis de ser percebidas por sua visão dicromática. Nos jogos noturnos, Castilho também enxergava melhor a bola. Aprendeu que o goleiro tem que ser como um bom tenista e estar sempre com o olho grudado na bola, nunca desviar seu olhar dela para nada: “Não se deve parar de olhar a bola nem quando ela está nas mãos do gandula. Ela é nossa maior inimiga, e só vigiando-a o tempo todo que nós deixaremos de tomar o ‘frango do fotógrafo’, aquele que levamos por uma distração, por estarmos conversando”.


O goleiro logo percebeu a importância das cores no futebol e pediu para a diretoria do Fluminense que alterasse o seu uniforme. Até então, os goleiros jogavam com camisas escuras, pretas ou azul-marinho. Castilho percebeu que dessa forma o goleiro se tornava ponto de referência para o atacante. Os jogadores podiam entrar na área com a bola dominada e com o canto do olho já sabiam onde o goleiro estava. Assim, ficava mais fácil mandar a bola para o outro lado. Para Castilho, o goleiro devia estar muito bem camuflado. Por isso, passou a usar um uniforme cinza-claro, que se confundia com o cimento das gerais do Maracanã que, sob a ótica do atacante, fazia pano de fundo para o gol.


(...)
As mãos de Castilho.
Crédito: arquivo tese "O último vôo do heroi", de Paulo Kastrup. 

Em 1957, Castilho precisava fazer uma cirurgia para corrigir o dedo mínimo da mão esquerda, que tinha sido fraturado quatro vezes e calcificado de maneira errada – era ligeiramente virado para fora. Uma junta composta de cinco médicos levantou duas possibilidades de tratamento: colocar um enxerto ou fazer uma cirurgia para correção do eixo. Castilho teria de ficar pelo menos três meses sem jogar. O goleiro não gostou de nenhuma das duas propostas. Não queria sair do time em um momento tão importante do Campeonato Carioca, no qual o Fluminense lutava por mais um título. Foi então que ele apresentou uma solução rápida e inusitada: cortar o mal pela raiz, ou seja, amputar o dedo da mão:

“O fato concreto é que, no meu entendimento, meu dedo continuaria imóvel, e isso me roubava a autoconfiança. Foi quando pensei na amputação parcial. Só com ela eu me sentiria novamente confiante. Dr. Paes Barreto foi contrário à operação. Ficou então determinado que, para que houvesse a operação eu teria de assinar um termo de responsabilidade. Vivi um drama durante 48 horas. De um lado a minha convicção de que só a amputação resolveria o meu problema. No outro lado minha senhora e os médicos não concordavam. Telefonei para o Dr. Paes Barreto e fui franco. Se não houver operação não poderei mais continuar jogando, assim não confio mais em mim. No dia seguinte dei entrada na Casa de Saúde. Eram oito horas. Paes Barreto já me esperava. Antes da anestesia, ainda ouvi sua última frase: “Castilho, você é louco!”.

Castilho com o dedo amputado.
Crédito: arquivo tese "O último vôo do heroi", de Paulo Kastrup.

E foi assim, sem metade do dedo mínimo da mão esquerda, que Castilho ergueu por duas vezes a taça de campeão do mundo, na Suécia e no Chile.

Castilho deixou o Fluminense em 1965 e até hoje foi o jogador que mais vezes vestiu a camisa do tricolor carioca, com 696 jogos. Ele passou um ano no Paysandu, onde encerrou a carreira em 1966 para se tornar técnico de futebol. Foi um ótimo treinador, tendo como maiores méritos o feito de levar o Operário de Campo Grande (MS) ao terceiro lugar do Campeonato Brasileiro de 1977 e ser campeão paulista com o Santos, em 1984. 

Dirigiu várias equipes do Brasil e o futebol árabe. E foi justamente na véspera de embarcar para os Emirados Árabes Unidos, onde tinha assinado contrato para dirigir uma equipe local, que Castilho voltou a ocupar as páginas dos jornais. O Brasil ficou chocado ao saber que o grande goleiro do Fluminense havia se suicidado.

Busto de Castilho, na sede do Fluminense.

Chocado com a perda do amigo, Telê Santana, ex-companheiro de clube, resumiu quem foi o goleiro que defendeu com toda a dignidade a posição: “Se o Fluminense tivesse de homenagear um profissional, teria que levantar o busto de Castilho na frente da sua sede. Ele carregou o time nas costas. Foi o melhor goleiro que já vi.”

Fonte:
“Goleiros – Heróis e anti-heróis da camisa 1”, de Paulo Guilherme 
(Alameda Casa Editorial, SP, 2006)

Para quem ainda quiser conhecer a vida de Castilho mais detalhadamente, Literatura na Arquibancada também recomenda a leitura de sua biografia, uma tese de mestrado de 2003, da Universidade Gama Filho, escrita por Paulo Fernando Kastrup, “O último vôo do herói: Castilho, o herói Anti-Macunaíma”. Infelizmente, o material não foi publicado, mas está lá, nos arquivos da Universidade Gama Filho para quem quiser conferir.

domingo, 27 de novembro de 2011

O jogo do "fala muito"


Por André Ribeiro

Quem estava ligado na televisão ou no rádio neste domingo durante a transmissão do jogo entre Corinthians e Figueirense teve a exata dimensão do outro Corinthians existente na capital paulistana. Outro Corinthians? Como assim? Explico. O Corinthians havia feito a sua parte na rodada, vencendo o Figueirense por 1 a 0. O título estava em suas mãos. A torcida no estádio e em todo o país estava prestes a comemorar mais um título brasileiro. Mas, mesmo com o apito final do árbitro, ninguém poderia comemorar porque no Rio de Janeiro, o jogo entre Vasco e Fluminense, empatado em 1 a 1 até aquele momento, teria ainda mais cinco minutos de tempo extra. Foram os cinco minutos mais silenciosos do planeta. Mas, de repente, um barulho ensurdecedor estourou no ar. Gol do Vasco e a definição do título ficou para a última rodada.

No prédio em que moro, e tenho a certeza que em muitos outros lugares, a cena foi a mesma. Gente na janela gritando “chuuuuuuupa Corinthians”... “Toma gambazada...”. Um barulho ensurdecedor, gritos histéricos, rostos transtornados colocados pelas janelas, todos torcendo contra o Corinthians...Quer dizer, todos não, porque a torcida do Corinthians é enorme e, então, parecia que dois Corinthians estavam em campo, um jogando para sua própria torcida e outro de todos os outros times que não tem mais nenhuma chance de chegar ao título.

Começou um zumzumzum danado. O porteiro do prédio, palmeirense, se arvorou: “Agora quero ver vocês ganharem de nós”...Na padaria, o balconista emenda de primeira logo ao me ver: “Aê Corinthians, quero ver como vai ser domingo...”. Curioso isso. Na padaria, perdemos o nome de batismo e passamos a ser conhecidos pelo time que torcemos...É um tal de: “aê São Paulo, aê Palmeiras, aê Corinthians...”. Só o futebol é capaz de causar esse tipo de reação nas pessoas.

Para não deixar passar batido os comentários pessimistas, não sei exatamente o porquê, dei como resposta as mesmas duas palavras, emendada com o gesto das mãos do treinador corintiano, Tite, ao treinador do Palmeiras, Felipão: “Fala muito...Fala muito...”.

Aconteceu no primeiro semestre, no jogo entre o Corinthians e Palmeiras, nas semifinais do campeonato paulista. Uma imagem que rendeu muita polêmica, dentro e fora do gramado. O fato é que, naquele dia, falando muito ou não, o Corinthians acabou vencendo o Palmeiras, nos pênaltis.

O “fala muito” disparado contra aqueles que queriam tirar uma “lasca” da minha alegria de “quase campeão” ficou rondando meus pensamentos. O fato é que todos esses anticorintianos é que “falam muito”, mas também é fato que o jogo do próximo domingo será o jogo do “fala muito”, novamente.

Alguém tem alguma dúvida de que para o Palmeiras, e em especial para o técnico palmeirense, esse será o jogo mais importante do campeonato?

Conhecendo o “estilo Felipão”, alguém duvida que, se o Palmeiras vencer e tirar o título praticamente ganho do maior rival, o treinador não irá devolver o “fala muito” para Tite e por tabela, para TODOS os torcedores corintianos que estarão assistindo ao jogo?

Alguém duvida que, se esses milhares de “fala muito”, anticorintianos, não irão falar para sempre do dia em o Corinthians virou o time do “fala muito”???

Agora, se o contrário acontecer, e o Corinthians faturar mais um título, a história da final do campeonato brasileiro será eternizada com mais um dos tantos batismos já feitos pelos torcedores, como “a batalha dos aflitos”, “a invasão corintiana” e tantas outras.

Será o título do “fala muito”, porque, com certeza, não haverá um corintiano entre os quase 30 milhões existentes nesse país que deixará de ironizar seu rival apontando com as mãos e falando: “fala muito...fala muito...”

E chega de “falar muito”. Agora é esperar o que a história irá escrever.

Quando os olhos não deixam ver o futebol


“Futebol de ouvido”, uma crônica do poeta mineiro Ricardo Aleixo, mostra como o futebol tem tantas maneiras de ser “sentido”. Ainda mais para ele que, ainda jovem, perdeu praticamente toda a visão. Tudo aconteceu em 1978 e desde lá sua relação e impressão do futebol mudou, incrivelmente, para melhor.

O texto de Ricardo Aleixo faz parte de uma coletânea, “A bola entre palavras”, organizada pelo madrilenho Adolfo Montejo Navas, que mora no Brasil há 22 anos e que chegou a jogar pelo Real Madrid quando garoto (1967-1969).

 “A bola entre as palavras”, como o próprio organizador diz na apresentação da obra é “uma reunião articulada de escritores, críticos, artistas plásticos, gráficos e tradutores”. Adolfo Navas reuniu textos de um time de primeira: Cristovão Tezza, Eduardo Coimbra, Lula Vanderley, Manuel da Costa Pinto, Martín Kohan, Reynaldo Damazio, Ricardo Aleixo, Teixeira Coelho, Vanderley Mendonça, Wolfgang Bock e Yamandú Canosa.

Futebol de ouvido

A oralidade sempre foi muito importante para mim. E a visualidade também. Minha mãe me contava que desde pequeno, antes mesmo de aprender a ler, eu gostava de recortar revistas e fazer pequenas colagens e montagens, movido pelo prazer de jogar com as imagens e as letras. Já por volta dos 14 anos, no colégio, comecei a me interessar pelas artes plásticas, sem contudo considerar-me nem mesmo um candidato a artista. Tal coisa nunca me passou pela cabeça. Perto dos 17 anos foi que, sabe-se lá por qual motivo, escrevi uma fornada de poemas e compus minha primeira canção. Nessa época, com efeito, o âmbito artístico que mais me interessava era, de longe, o futebol.

Poema-obra de Ricardo Aleixo.
Eu comecei a jogar bola ali pelos onze anos, e o aprendizado conformou, também, se posso dizer assim, minhas primeiras lições de poética. Outra vez comecei pela oralidade. É que, em nossa casa, ouvíamos muito as transmissões radiofônicas de futebol. Porque minha família era muito pobre, e as entradas para as partidas eram muito caras. Agora veja: o futebol entrou em minha vida não exatamente como um esporte, mas como uma prática narrativa, destacando-se, aqui, o fato de que no Brasil os locutores de futebol são chamados de narradores – uma impropriedade, uma vez que só se pode narrar o que efetivamente já ocorreu, não é verdade? Não sou o único a saber o quanto é impressionante o contraste entre o jogo real, visto na televisão, que é frio, distante, e sua “narração” por meio do rádio, que é ardente, fabulada – quando não fabulosa, capaz de abrir para o ouvinte novos planos perceptivos, em relação ao que se passa no gramado.

O certo é que tudo se transformou para mim quando ouvi, pela primeira vez, a “narração” de um jogo do Palmeiras. O locutor falava rápido, muito rápido, rapidíssimo. Bastava, no entanto, que Ademir da Guia, o camisa 10, assumisse a posse de bola para que a transmissão se desacelerasse, ou melhor, se tornasse cadenciada. Ainda me lembro das palavras do locutor/narrador quando isso acontecia: “Ademir, o filho do Divino Mestre!”, cada sílaba escandida solenemente.
Meu pai me disse, mais de uma vez, porque o alegrava falar desse assunto, que o grande craque palmeirense era filho de Domingos da Guia, considerado o criador de um estilo de jogo a que, no Brasil, damos o nome de “clássico”. Era, o futebol da família Da Guia, considerado elegante, apolíneo, em oposição ao estilo dionisíaco, mais baseado na força, ou, ainda – casos bem raros - , no virtuosismo dos grandes dribladores. O estilo de Ademir sempre fascinou os poetas: Décio Pignatari o chamou, numa crônica, de “Admirável”, e João Cabral lhe dedicou um belíssimo poema.

A mim, também, essa alternância de ritmos ao longo da partida parecia fascinante. Para quem, como eu, acompanhava o jogo pelo rádio – não tínhamos TV em casa -, a “narração” sugeria uma música plena de informação verbal. Um dia, tive a sorte de adquirir um exemplar da revista Placar, na qual constava uma sequência de fotos de Ademir: ele amortece a bola no peito, ela pousa suavemente no gramado e os dois seguem, como que atados um ao outro. Bom, recortei as fotos e fui com elas para um dos muitos terrenos baldios que havia, na época, perto da minha casa, na periferia de Belo Horizonte. Gastava horas e horas naquilo.
Como resultado, o futebol se transformou na minha grande aventura estético-existencial de todos os dias, até os 18 anos, quando, já indeciso entre a arte e o futebol, fui atingido no olho direito por uma bolada – um “pombo sem asas”, como se diz popularmente -, numa daquelas reles peladas que, de acordo com Nelson Rodrigues, podem ser “de uma complexidade shakespeareana”. Perdi parte da visão, depois de 5 cirurgias tão invasivas e dolorosas quanto inúteis, mas nem isso apaga a maravilha que era tentar ser, naqueles primeiros anos da década de 1970, um aprendiz de poeta-camisa 10.





Sobre Ricardo Aleixo:
Ricardo Aleixo, nasceu em 1960, em Belo Horizonte, Minas Gerais. É torcedor do América mineiro. Tema recorrente em sua obra poética, o futebol foi sua mais prazerosa atividade até 1978, quando foi atingido no olho direito por uma bolada que lhe roubou quase totalmente a visão. Desde 2006 é professor de Design Sonoro na Universidade Fumec. É poeta, compositor, cantor e performador. Ensaísta, artista visual e sonoro. Consultor para projetos editoriais em mídia impressa e eletrônica. Co-curador da ZIP/"Zona de Invenç˜ao Poesia &", ao lado de Chico de Paula. Co-editor da “Coleção Elixir”, da Tipografia do Zé, junto com Flávio Vignoli. Publicou os livros “Festim” (1992), “A roda do mundo” (1996 e 2004, com Edimilson de Almeida Pereira), “Quem faz o quê? (1999), “Trívio” (2001), “A aranha Ariadne” (2003), “Máquina zero” (2004), “Céu inteiro” (2008) e “Modelos vivos” (2010). Prêmios e outras distinções: “Prêmio Literatura para todos” (categoria Poesia, 2010); “Prêmio Bonsucesso” (categorias Melhor espetáculo e Melhor trilha sonora, para “Quilombos urbanos”, da Cia. SeráQuê?, 2000); “Bolsa para escritores com obras em fase de conclusão” (Fundação Biblioteca Nacional, 2004, com o projeto do livro de ensaios “Palavras a olhos vendo: Escritos sobre escritas”, inédito); “Bolsa Petrobras Cultural”, com o projeto do livro de poemas “Modelos vivos”; inclusão dos livros “Trívio” e “A roda do mundo”, respectivamente, nos vestibulares da UNI-BH, de 2002, e da UFMG, de 2004.

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