domingo, 9 de outubro de 2011

VERSOS DA BOLA

Para deixar o domingão mais "leve"...



O MOMENTO FELIZ

Com o arremesso das feras

E o cálculo das formigas

A Seleção avança

negaceia

recua

envolve.

É longe e em mim.

Sou o estádio de Jalisco, triturado

de chuteiras, a grama sofredora

a bola mosqueada e caprichosa.

Assistir? Não assisto. Estou jogando.

No baralho de gestos, na maranha

na contusão da coxa

na dor do gol perdido

na volta do relógio e na linha de sombra

que vai crescendo e esse tento não vem

ou vem mas é contrário… e se renova

em lenta lesma de replay.

Eu não merecia ser varado

por esse tiro frouxo sem destino.

Meus onze atletas

são onze meninos fustigados

por um deus fútil que comanda a sorte.

É preciso lutar contra o deus fútil,

fazer tudo de novo: formiguinha

rasgando seu caminho na espessura

do cimento do muro.

Então crescem os homens. Cada um

é toda luta, sério. E é toda arte.

Uma geometria astuciosa

aérea, musical, de corpos sábios

a se entenderem, membros polifônicos

de um corpo só, belo e suado. Rio,

rio de dor feliz, recompensado

com Tostão a criar e Jair termimando

a fecunda jogada.

É gooooooooool na garganta florida

rouca exausta, gol no peito meu aberto

gol na minha rua nos terraços

nos bares nas bandeiras nos morteiros

gol

na chuva de papeizinhos picados

celebrando

por conta própria no ar: cada papel,

riso de dança distribuído

pelo país inteiro em festa de abraçar

e beijar e cantar

é gol legal é gol natal é gol de mel e sol.
Ninguém me prende mais, jogo por mil

jogo em Pelé o sempre rei republicano

o povo feito atleta na poesia

do jogo mágico.

Sou Rivelino, a lâmina do nome

cobrando, fina, a falta

Sou Clodoaldo rima de Everaldo.

Sou Brito e sua cabeçada,

com Gerson e Piazza me acrescento

de forças novas.Com orgulho certo

me faço capitão Carlos Alberto.

Felix, defendo e abarco

em meu abraço a bola e salvo o arco.

Como foi que esquentou assim o jogo?

Que energias dobradas afloraram

do banco de reservas interiores?

Um rio passa em mim eu sou o mar atlântico

passando pela cancha e se espraiando

por toda a minha gente reunida

num só vídeo, infinito, num ser único?

De repente o Brasil ficou unido

contente de existir, trocando  morte

o ódio, a pobreza, a doença, o atraso triste

por um momento puro de grandeza

e afirmação no esporte.

Vencer com honra e graça

com beleza e humildade

é ser maduro e merecer a vida,

ato de criação, ato de amor.

A Zagalo, zagal prudente,

E os seus homens de campo e bastidor

Fica devendo a minha gente

Este minuto de felicidade


fonte:

ANDRADE, Carlos Drummond. Quando é dia de futebol. Rio de Janeiro: Record.2002.

Nenhum comentário:

Postar um comentário