quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Uma mesa de debates do barulho

Integrantes da mesa redonda, Resenha Facit
fonte: ABI - Associação Brasileira de Imprensa


No final de 1963, surgiu no Rio de Janeiro, um programa que iria inovar as discussões em torno da maior paixão do brasileiro. Uma verdadeira seleção de craques da imprensa esportiva fora convocada para formar a mais famosa mesa-redonda da televisão brasileira.

A Grande Resenha Facit, da TV Rio, foi criada por acaso, no dia em que Luiz Mendes, que se tornou âncora do programa, entrou na sala de Walter Clark, o todo-poderoso da TV Rio, no exato momento em que várias pessoas assistiam a uma mesa-redonda com a participação de cronistas políticos como Oliveira Bastos, da Tribuna de Imprensa, Villas Boas Correa, do Correio da Manhã, Carlos Castelo Branco (Castelinho), do Jornal do Brasil, e Murilo Melo Filho, da revista Manchete. Todos, na sala, em silêncio, acompanhavam atentamente o debate. No intervalo, Luiz Mendes comentou com Walter: “Esses caras só se reúnem de quatro em quatro anos, quando tem eleição. Por que não fazemos um programa esportivo, uma mesa-redonda igual a essa, mas com figuras da crônica esportiva?”. Walter Clark olhou para Luiz Mendes e não disse nada; o debate político voltou, e no intervalo seguinte o diretor da TV Rio disse: “Ô gaúcho (era assim que Clark o chamava), você sabe que encontrou um veio de ouro?”
Luiz Mendes
fonte: ABI - Associação Brasileira de Imprensa
Clark continuou a conversa e deixou claro a Mendes que queria o programa no ar em quinze dias. Começou então a escolha dos nomes. Clark sugeriu Armando Nogueira, que trabalhava como articulista do Telejornal Pirelli. Mendes indicou João Saldanha, comentarista da Rádio Guanabara. O terceiro integrante seria José Maria Scassa, um “flamenguista doente”, que ficaria responsável por trazer o patrocínio para o programa, pois era amigo pessoal do sueco Gunar Görenson, diretor do Flamengo e dono da empresa Facit, fabricante de máquinas de calcular para escritório. Clark indicou mais um nome de peso: Nelson Rodrigues.
O time estava montado, cada jornalista escolhido representaria uma paixão do torcedor carioca. Saldanha, o Botafogo; Nelson, o Fluminense; Scassa, o Flamengo; e como Armando Nogueira também tinha uma queda pelo Botafogo, estava faltando um vascaíno para completar a equipe. Foi então que surgiu a indicação de Vitorino Vieira, vascaíno e funcionário da Facit. Com o tempo, novos feras foram incorporados ao time, como o produtor Augusto Melo Pinto, Alain Fontan, francês que trabalhava na agência de notícias France Press no Rio de Janeiro, Hans Henningsen, jornalista espanhol radicado no Rio de Janeiro, que Nelson Rodrigues apelidou de “o marinheiro sueco”, Mário Vianna, Abrahim Tebbet e o médico da seleção brasileira, Hilton Gosling.
Tudo pronto, a mesa-redonda transformou-se em programa obrigatório aos domingos para o torcedor carioca e eterno modelo para gerações futuras. Pouco tempo depois, em 1966, o nome do programa foi alterado para Grande Revista Esportiva Facit e sua exibição feita por uma nova emissora: TV Globo. Nessa nova fase, o programa teve a apresentação de Luís Alberto, já que Luiz Mendes ficou na TV Rio.
Nelson Rodrigues:
"A nossa resenha ensina mais sobre o país do que Os Sertões no princípio do século”
Para se ter noção do que os debates protagonizados na mesa-redonda representaram até 1969, período em que foi ao ar, basta reler a definição de Nelson Rodrigues: “Se a Mesa Facit existisse no tempo de Euclides da Cunha, este a teria preferido a Canudos – a nossa resenha ensina mais sobre o país do que Os Sertões no princípio do século”.
Curiosamente, apesar do sucesso enorme do programa esportivo na televisão, Luiz Mendes confessa que a idéia criativa surgiu em um momento de desespero pessoal: “Dei a idéia do programa na esperança que fosse implantado porque precisava aparecer. Os clubes cariocas proibiram a presença da TV nos estádios. Muita gente estava sem trabalho, inclusive eu. Foi o único momento de minha longa carreira em que temi pelo futuro”.
Mal sabia Luiz Mendes que dias muito piores estavam chegando. Em 1964, estoura o golpe militar, arrastando para o fundo do buraco um número enorme de grandes veículos de comunicação, entre rádios, jornais e televisões. Luiz Mendes sofreu na pele as primeiras conseqüências do governo “revolucionário”, por sua origem gaúcha e pela proximidade que tinha com o presidente deposto João Goulart. Obrigado a ler um manifesto contrário a Jango por militares que invadiram os estúdios da TV Rio, Mendes esquivou-se com essa: “Minha função na TV Rio é narrar futebol e boxe”.
Inconformados com a recusa, os militares insistiram, dessa vez com João Saldanha, também presente à cena. A resposta do velho comunista não poderia ser outra: “Eu não sei ler nada em televisão, só faço coisas de improviso”. Mendes também tinha uma razão especial para sua negativa. Durante a campanha de João Goulart ele era o narrador dos jingles da propaganda política do candidato.
A crise no governo refletia-se diretamente nas redações de jornais, rádios e televisão. A Rádio Mayrink Veiga acabou fechada porque pertencia ao grupo de Leonel Brizola. A poderosa TV Excelsior, que voava alto no mercado das comunicações, teve fim melancólico. Dois anos após o golpe, o controle acionário do grupo já pertencia ao grupo Folha da Manhã. Mário Wallace Simonsen, proprietário da empresa, suicidou-se em Paris, em 1965. No dia 30 de setembro de 1970, a Excelsior fechou as portas.
A TV Continental também entrou em crise. Rubens Berardo, seu proprietário e deputado pelo PTB, não contava com a simpatia do novo governo militar. O departamento de esporte, um dos carros chefe da emissora, começava a ser desmantelado pela falta de anunciantes.


Jornalistas também passaram a ser perseguidos. João Saldanha, por exemplo, teve de fugir pelo telhado do prédio do jornal Última Hora. Convidado a participar de diversos programas de rádio, jornal e televisão, Saldanha tentava driblar a perseguição dos militares que peregrinavam pelas várias redações. Em um fim de tarde em que estava na Rádio Nacional, recebeu de Jorge Curi, chefe do esporte da emissora, a proibição de falar ao microfone da rádio governista. A resposta veio ao estilo de Saldanha: “Olha Curi, manda os teus militares enfiarem este microfone no rabo”.

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