sexta-feira, 7 de outubro de 2011

SER 10 - Talento ou Destino? (parte15)


Em 2010, o SESC,  de Santos organizou a exposição e vídeo-instalação "É 10!". O evento prestou homenagem aos 70 anos de Pelé e outros craques do mundo que se destacaram vestindo a camisa 10. Para quem não viu, compartilho aqui os textos que produzi para o evento.

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Estrangeiros que encantaram o Brasil

Como não se bastasse a fantástica produção de craques da 10 pelo território brasileiro, durante várias décadas de existência do futebol no país, houve espaço ainda para aqueles que atravessaram fronteiras e mares para se tornarem ídolos de grandes torcidas brasileiras. No atual mundo globalizado, este fenômeno tornou-se natural, especialmente na Europa, onde equipes inteiras, como na Inglaterra, muitas vezes não tem sequer um único jogador nascido no país disputando seus campeonatos nacionais.

No Brasil, apesar da tradição acolhedora de todos os povos e corações, foram poucos os homens especiais que obtiveram “autorização” para vestir a principal camisa de uma equipe de futebol. Tiveram de superar-se dentro de campo, conquistar a imensa massa de torcedores e vencer, especialmente, o nacionalismo enraizado do brasileiro. Ser 10 estrangeiro é mais uma barreira dentro das várias responsabilidades atribuídas a esses homens. Por causa do “bairrismo” e patriotismo extremado, seria praticamente impossível imaginar um argentino ou uruguaio fazendo história por algum clube brasileiro, mas quis o destino mágico desta camisa também permitir tal exceção.

Foram poucos, mas espetaculares. Permitir, por exemplo, que um uruguaio, após o histórico “Maracanazzo”, na Copa de 1950, pudesse se tornar um dos maiores camisas 10 do futebol brasileiro seria praticamente impossível. Mas essa foi uma história real. Pedro Virgílio Rocha desembarcou no Brasil, no início da década de 1970, para jogar pelo São Paulo Futebol Clube, com um currículo invejável de sete títulos uruguaios, três Libertadores e dois mundiais interclubes, todos conquistados pelo Peñarol, considerado na década de 1960 um dos melhores times do continente americano. Além da tradicional garra e raça, característica marcante do futebol praticado em seu país de origem, Pedro Rocha deixou em várias gerações a imagem marcada do 10 clássico, estilo elegante, passes precisos, cobranças de faltas perfeitas e, principalmente, gols inesquecíveis.

Pedro Rocha tinha além do currículo invejável, a “recomendação” do rei do futebol, pois logo após o término da conquista do tricampeonato, no México, em 1970, Pelé afirmou que o uruguaio era, naquele momento, nada menos do que um dos cinco melhores jogadores do mundo. Apesar de todas as virtudes, Rocha teve que esperar também a “autorização” para poder vestir a 10 da equipe, pois quando chegou ao São Paulo, a camisa já tinha um dono especial e rebelde, Gérson. A paciência traria recompensas. Com a volta de Gérson ao Rio de Janeiro, Rocha virou ídolo no tricolor paulista até 1977, ano em que deixou o clube aos 35 anos de idade. Incansável, teve tempo ainda para jogar até os 38 anos, com a camisa do Coritiba, um clube mexicano e outro da Arábia Saudita .

Se para um uruguaio seria complicado vencer com a 10, o que pensar de um argentino? Entre tantos “hermanos” que tentaram a sorte em terras brasileiras, o caso do pequeno e ligeiro Carlito Tevez, apesar do curto espaço de tempo que permaneceu por aqui é algo quase inexplicável.  Tevez formou a química perfeita e criou uma forte identidade com uma das torcidas mais exigentes e apaixonadas do país. Vestir a 10 que um dia pertenceu a Rivellino e Neto seria naturalmente uma honra, mas o grande problema era ser um representante digno dessa façanha.

Com seu jeito especial de jogar, Tevez conquistou o coração da Fiel torcida corintiana, que até hoje sonha um dia poder tê-lo de volta. Nem mesmo as falcatruas que envolveram sua contratação milionária pelo iraniano Kia Joorabchian mancharam a imagem do pequeno craque argentino em terras brasileiras. Apesar da identidade criada com a torcida do Corinthians, Tevez também sentiu na pele todo o preconceito que um jogador argentino poderia ter aqui. Chegou a pensar em deixar o clube alegando ser discriminado pelos árbitros brasileiros que, segundo ele, o ofendiam a cada jogo.

Ser 10 em terras estrangeiras é ser obrigado a vencer muitas batalhas, dentro e fora dos campos. Há de ser um guerreiro para superar tais obstáculos. Talvez, por isso um sérvio conseguiu “desabrochar” toda a magia e talento ao vestir uma camisa 10 em um clube brasileiro.

Dejan Petkovic, ou simplesmente, “Pet”, como passou a ser tratado no Brasil, sabia muito bem o sentido exato de uma guerra. Nasceu na extinta Iugoslávia e cresceu no futebol daquele país cercado pelos conflitos entre os vários povos que formavam a nação. No Estrela Vermelha de Belgrado, em 1991, começou sua projeção mundial. Foi para a Espanha, jogar pelo Real Madrid, mas não teve o sucesso esperado. O temperamento complicado do craque sérvio provocou desentendimentos com diversos dirigentes, não só do Real como também de outros clubes espanhóis para os quais foi emprestado como Sevilla e Racing Santander.

Precisou um clube baiano, o Vitória, para resgatar o talento de Pet. Desembarcou em Salvador, em 1998, e ao lado de Bebeto e Túlio formou a equipe bancada por um banco. Especialista em cobranças de faltas, escanteios, lançamentos, passes e chutes precisos, Pet encantou ao povo baiano e, por tabela, provocou a cobiça de grandes clubes da região Sudeste , como o São Paulo FC, que chegou a oferecer dois de seus melhores jogadores, França e Dodô, para ter o craque sérvio. O negócio não aconteceu e começou aí uma longa jornada de Pet ao redor do mundo. Ficou cinco anos no futebol carioca, onde jogou dois anos pelo Flamengo (2000/2002), foi para o arquirrival Vasco da Gama e depois para o Fluminense. No período do Vasco chegou a sair temporariamente para jogar na China, e antes de vestir a camisa do tricolor carioca, foi faturar dólares no futebol árabe. Esse entra e sai de clubes trouxe para Pet uma imagem negativa no futebol brasileiro. Entre 2007 e 2008 perambulou por Goiás, Santos e Atlético Mineiro, e em nenhum deles, conseguindo manter-se como titular, segundo ele, devido a constantes contusões.

Sete anos depois de sua primeira passagem pelo Flamengo, em 2009, Pet retornou ao clube. Se ser 10 é pertencer a uma elite repleta de místicas, com o craque sérvio a magia se fez. Exigiu trocar a 10 pelo supersticioso número 43, tempo do jogo em que marcou um gol histórico, de falta, contra o Vasco, na decisão do campeonato carioca de 2001, um dos mais bonitos e marcantes de sua carreira e eternamente lembrado pela imensa torcida rubro-negra.

A magia estava de volta. Pet caiu nas graças do povo novamente. O reconhecimento aconteceu com a premiação do melhor meia-esquerda do campeonato brasileiro de 2009. Pet só não fez chover pelos gramados do país. Enlouqueceu os torcedores do Flamengo com seus gols olímpicos, contra Palmeiras e Atlético Mineiro e ajudou de maneira decisiva, com suas cobranças de faltas, escanteios e assistências precisas, o clube arrancar do quase rebaixamento para o título brasileiro.

Como reconhecimento, Pet foi o quinto estrangeiro a ser incluído no hall da fama instalado no Maracanã e ainda recebeu o título de benemérito e cidadão do Estado do Rio de Janeiro, na Assembleia estadual.

Só mesmo um 10 para trilhar caminhos tão tortuosos até a glória.

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