quinta-feira, 6 de outubro de 2011

SER 10 - Talento ou Destino? (parte 8)


Em 2010, o SESC,  de Santos organizou a exposição e vídeo-instalação "É 10!". O evento prestou homenagem aos 70 anos de Pelé e outros craques do mundo que se destacaram vestindo a camisa 10. Para quem não viu, compartilho aqui os textos que produzi para o evento.

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Heróis e Ídolos

Como simples mortais conseguiram transformar-se em verdadeiros ídolos e heróis, adorados por milhares de pessoas em todo o planeta? Essa é uma pergunta que muitos se fazem, especialmente aqueles que não conseguem compreender como um jogo ganhou um poder tão grande sobre homens e mulheres.

Esse cenário, para muitos, indecifrável, começou a mudar quando o futebol deixou de ser tratado apenas como uma atividade esportiva para figurar como um verdadeiro fenômeno cultural em diversas sociedades, passando a ser estudado em detalhes por acadêmicos das mais diversas instituições de ensino no mundo inteiro.

No Brasil, tido como o “país do futebol”, claro que esse assunto seria amplamente explorado por renomados estudiosos, como o antropólogo, Roberto da Matta; o professor de literatura e ensaísta, José Miguel Wisnick; e até mesmo pelo sociólogo, antropólogo e escritor, Gylberto Freire, o primeiro a emprestar seu olhar crítico ao universo do futebol em “O negro no futebol brasileiro”, de Mário Filho, no distante ano de 1947.

A lista é enorme, mas é importante entender porque esse assunto seduz tantos ao mesmo tempo. Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), por exemplo, foram criados núcleos específicos para pesquisas e estudos, tentando decifrar a influência e o poder do futebol em nossa sociedade.

Maurício Murad, coordenador do Núcleo de Sociologia do Futebol da Uerj, criado em 1990, e Ronaldo Helal, começaram a esclarecer algumas questões, em estudo realizado no ano de 1995, estabelecendo inicialmente uma diferenciação fundamental entre heróis e ídolos: “...o herói é quem conseguiu, lutando, ultrapassar os limites possíveis das condições históricas e pessoais de uma forma extraordinária, contendo nessa façanha uma necessária dose de ‘redenção’ e ‘glória’ de um povo. Mas para que sua trajetória heróica alcance este status é necessário que as pessoas acreditem na verdade que as façanhas do herói afirmam. Logo, o mito do herói faz parte de uma relação com os seguidores, os fãs, aqueles que o idolatram. Sem esta relação, este ‘acordo’, o herói não é herói, o que nos leva a concluir, então, que na figura do herói se encontram agrupadas várias representações distintas da coletividade.”

Mas então porque ídolos de outros universos do futebol, como música e dramaturgia, não ganham contornos de heróis? A explicação é simples. No esporte, especialmente no futebol, existe o aspecto “agonístico”, de luta, que todo atleta tem de enfrentar. Seu sucesso depende do “fracasso” do seu adversário, uma competição que acontece dentro de um espetáculo.

Como definiu o sociólogo Ronaldo Helal, “ídolos do esporte e ídolos da música, se transformam em celebridades, porém, só os ídolos do esporte são considerados ‘heróis’”. Importante também é diferenciar celebridades e heróis e para isso, novamente dois estudiosos, como o sociólogo, antropólogo e filósofo francês, Edgar Morin; e Joseph Campbell, estudioso norte-americano de mitologia e religião comparativa, autor de livros consagrados como O Herói de Mil Faces, As Máscaras de Deus e O Poder do Mito, trazem luz à questão ao afirmarem que, enquanto as celebridades vivem somente para si, os heróis devem agir para “redimir a sociedade”.

Por essas observações fica fácil entender por que o futebol se transformou em terreno fértil para a produção de mitos e ritos importantes para diversas comunidades. Nada melhor do que a visão sociológica do especialista, Ronaldo Helal, para explicar o que muitos fazem de maneira instintiva: “Dotados de talento e carisma, o que os singulariza e os diferencia dos demais, estes ‘heróis’ são paradigmas dos anseios sociais e através das narrativas de suas trajetórias de vida, uma cultura se expressa e se revela. De fato, o mito, conforme nos ensina ‘Eco’ (Umberto Eco), é uma ‘projeção na imagem de tendências, aspirações e temores particularmente emergentes num indivíduo, uma comunidade, em toda uma época histórica’”.

Talvez agora fique simples entender o fascínio pela Copa do Mundo, em especial para o povo brasileiro.

Sérgio Settani Giglio em sua dissertação de mestrado, Futebol: Mitos, ídolos e heróis, apresentada em 2007, à Pós-Graduação da Escola de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conseguiu sintetizar esse fascínio de maneira esclarecedora: “O futebol é vivido como um drama, no qual a sociedade se revela. Por isso, em época de Copa do Mundo, pode-se dizer que o país é reverenciado e simbolizado por meio de uma seleção de pessoas que jogam futebol. Os torcedores enquanto participantes desse processo cultural projetam na seleção uma série de anseios, angústias e vontades para, ao final da Copa, dizer que foi campeão junto com a seleção e lembrar que sem a sua torcida e, muitas vezes sem a superstição, o Brasil não sairia vencedor.”

Já para o antropólogo da USP, Luiz Henrique de Toledo, "o futebol é o único esporte que no Brasil transcende os limites espaciais e temporais do ritual esportivo, onde as partidas transformam-se num ‘fato da sociedade’, que estabelece um elo entre as dimensões do ritual e da vida cotidiana, entre o representado e o vivido".

Tratados como deuses ou semideuses do Olimpo, atletas consagrados do mundo inteiro, por intermédio de suas trajetórias de vidas, conquistas e superações, acabam, naturalmente, “emprestando” um pouco de suas divindades. Em seu livro Cultura de massas no século XX: o espírito do tempo, Edgar Morin, analisa a função da mitologia moderna criando em sua obra o arquétipo dos “olimpianos”, uma figura que, definitivamente, explica a adoração que fenômenos do esporte nos causam: “Os olimpianos, por meio de sua dupla natureza, divina e humana, efetuam a circulação permanente entre o mundo da projeção e o mundo da identificação. Concentram nessa dupla natureza um complexo virulento da projeção-identificação. Eles realizam os fantasmas que os mortais não podem realizar, mas chamam os mortais para realizar o imaginário”.




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