quinta-feira, 6 de outubro de 2011

SER 10 - Talento ou Destino? (parte 6)



Em 2010, o SESC,  de Santos organizou a exposição e vídeo-instalação "É 10!". O evento prestou homenagem aos 70 anos de Pelé e outros craques do mundo que se destacaram vestindo a camisa 10. Para quem não viu, compartilho aqui os textos que produzi para o evento.

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Paixão

Eles foram capazes de despertar em bilhões de pessoas um sentimento que até hoje nem homens e nem mulheres sabem explicar o seu verdadeiro significado. Seria paixão ou amor o que os amantes do futebol nutrem pelos donos de um simples número?

Para tentar chegar a alguma conclusão é preciso lembrar que o futebol se tornou ao longo do tempo e especialmente para o brasileiro, muito mais do que uma simples prática esportiva, um verdadeiro fenômeno cultural capaz de atrair e seduzir milhares de seguidores, dentro e fora dos gramados. A paixão chegou ao ponto de estudiosos e intelectuais tratarem o esporte como parte da alma nacional. Alguns, como o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, apelidaram o Brasil de "Pátria de Chuteiras". Outros, como o ex-ministro da Educação, Ney Braga, disseram que o futebol era a alma do povo brasileiro.

Dentro dessa imensa paixão chamada futebol, alguns poucos foram “eleitos” pelos fanáticos torcedores. A maior parte deles, escolhida para vestir e desfilar seu talento com a 10.

Sentimentos instintivos nos seres humanos, paixão e amor estão intimamente ligados ao futebol.  E só eles podem explicar essa estranha relação entre homens, uma camisa, um número e um craque de bola.

Então, vejamos se a definição de amor e paixão responderia a essa estranha relação.

Paixão: é passageira, chega com tudo, mas não dura tanto tempo.

Amor: demora a chegar, mas dura muito tempo, é sincero.

Quantas vezes você, torcedor e amante do futebol, do craque, de um camisa 10, viveu essa situação com seu ídolo?

Talvez outra definição estimule ainda mais a reflexão: amor vem de eterno, e paixão de fogo consumidor. O fogo, como tantos craques do futebol, apaga, e a paixão também. Dizem os poetas que a paixão é uma doença do amor.

Aristóteles definia que "as paixões são estados de alma acompanhados pelas sensações de prazer e de desprazer, sentimentos que têm suas raízes na gratificação ou mesmo na frustração do desejo". Quantas vezes já nos sentimos assim por causa de vitórias ou derrotas provocadas por nossos ídolos do futebol?

Outro craque da filosofia fala do sentimento vivido tantas vezes no mundo da bola. O alemão Kant afirmou: “a paixão é uma doença por intoxicação ou por deformação que precisa de um médico interno ou externo da alma, o qual, todavia, não sabe em geral prescrever uma cura radical”.

Tovar Tomaselli, psicólogo clínico, formado pela Universidade Paulista e psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae, e que exerce a psicanálise individual para adolescentes e adultos há 25 anos, explica que, na visão psicanalítica, a paixão está mais próxima de uma visão kantiana no que se refere à doença, uma vez que o sujeito apaixonado, seja por outro humano, ou pelo dinheiro, pela política, ou mesmo pela religião, está exclusivamente orientado pelo “princípio do prazer”, além de totalmente distanciado da realidade. No universo do futebol, ficamos “doentes” quando nossos ídolos partem ou ainda não correspondem às nossas expectativas. Se não nos trazem mais prazer, antes que essa paixão faça ferir, colocamo-nos de lado.

Há frase emblemática que nos faz refletir sobre a relação entre o futebol e a vida:

“No amor, há fascinação pelo objeto; na paixão, há servidão”.


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