quinta-feira, 6 de outubro de 2011

SER 10 - Talento ou Destino? (parte 5)


Em 2010, o SESC,  de Santos organizou a exposição e vídeo-instalação "É 10!". O evento prestou homenagem aos 70 anos de Pelé e outros craques do mundo que se destacaram vestindo a camisa 10. Para quem não viu, compartilho aqui os textos que produzi para o evento.

                                                         ********


Perdas

Diz um ditado no meio esportivo que o difícil não é chegar ao topo, mas se manter nele. Talvez por isso a responsabilidade de “ser 10”, no futebol, traga inúmeras implicações sobre as atitudes que tomamos em todos os momentos de nossas vidas.

Não são poucos os que sucumbem à pressão da perfeição, se é que ela existe. Manter-se como o melhor, no esporte, na escola ou no trabalho é parte de uma longa caminhada que está ligada às escolhas que fazemos. Vencer ou perder é consequência dessas escolhas. Saber lidar com o peso dessas decisões determinará o sucesso ou o fracasso de nossas opções.

Ser o melhor, “ser 10” é o fim a ser conquistado, com sofrimentos e desilusões, coragem e heroísmo.

Como se sentem os homens, do futebol ou do cotidiano de tantas atividades profissionais, no momento em que são colocados “sob pressão”? Seria a derrota o maior “fantasma” a ser enfrentado pelos homens?

Foi assim com o italiano Roberto Baggio, ao perder o pênalti decisivo na Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994. É assim com o aluno que estuda com afinco para o vestibular e não vê seu nome na lista de aprovados.

Michael Jordan, astro do basquete mundial, disse certa vez: “errei mais de 9 mil arremessos, perdi mais de 300 jogos, 26 vezes me foi confiado o arremesso da vitória… e eu errei, mas foi por isso que obtive sucesso.”

O que diferencia o homem comum dos vencedores é a forma incansável da luta pelos resultados. Vale a pena parar e refletir: dor e derrota são sempre mais lembradas do que vitórias?

A resposta talvez seja sim. Não fosse assim como classificar a frase de Ghiggia, autor do gol da vitória do Uruguai sobre o Brasil na Copa de 1950?: “Apenas três pessoas, com um único gesto, calaram o Maracanã com 200 mil pessoas: Frank Sinatra, o Papa João Paulo II e eu.”

Ser 10, no futebol ou na vida, representa estar submetido constantemente à pressão pela vitória, ainda mais na atual sociedade, extremamente competitiva. Vencer tornou-se quase uma obsessão. Chegar em segundo é coisa dos fracos.

Em uma sociedade seletiva como a brasileira, chegar em segundo pode significar não obter a vaga ou a promoção em um emprego. Perdedores são malvistos pela sociedade e, por isso, talvez tenha surgido no país a mentalidade e a prática do “jeitinho brasileiro”, aquela em que a meta é ganhar a todo custo, sem medir as consequências. Exemplos não faltam, desde “colar” do amigo inteligente na sala de aula para não decepcionar os pais, até inventar qualificações profissionais em um currículo para conseguir a vaga de um emprego.

Estamos rodeados pelo contexto do “ser o melhor, ser 10”. Não basta estar na lista dos dez mais, dos livros, filmes, música ou até mesmo, do funcionário do mês de uma loja de fast food ou ainda do melhor professor de uma academia de ginástica.

Só o primeiro, só o vitorioso merece os louros.  Só ele terá a foto estampada para todos verem, como se nada e ninguém mais existisse. É assim no futebol, é assim na vida. Derrotas não deveriam deixar um gosto tão amargo na boca, assim como apenas vitórias dos primeiros lugares não deveriam ser tão valorizadas. Superar limites reais não seria então a maior vitória que uma pessoa comum ou um atleta poderia desejar?

Jo Azer, mestre da arte marcial vajramushti há quase 40 anos, propõe uma reflexão muito interessante sobre a maneira como enfrentamos vitórias e derrotas: “Na vida, ocorre um processo evolutivo que pode oferecer mil derrotas com o intuito de que você chegue à única e verdadeira vitória, aquela sobre si mesmo, sobre o seu excesso de individualidade”. E parodiando um filósofo, cita um pensamento que norteia sua vida: “Um verdadeiro homem trata uma pepita de ouro e um pedaço de carvão como a mesma coisa. O ouro ele gasta e o carvão ele queima”.

Fontes:



Nenhum comentário:

Postar um comentário