sexta-feira, 7 de outubro de 2011

SER 10 - Talento ou Destino? (parte 14)


Em 2010, o SESC,  de Santos organizou a exposição e vídeo-instalação "É 10!". O evento prestou homenagem aos 70 anos de Pelé e outros craques do mundo que se destacaram vestindo a camisa 10. Para quem não viu, compartilho aqui os textos que produzi para o evento.

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10 que não eram 10

Na história do futebol brasileiro, nem sempre o craque do time teve o privilégio e a honra de ser o 10 de sua equipe. Pura coincidência. Tostão, por exemplo, craque do Cruzeiro era um legítimo 10, mas jogou, coincidentemente, durante dez anos na equipe mineira, entre 1963 e 1972, ao lado de outro craque da camisa, Dirceu Lopes. Nem por isso, Tostão poderia deixar de ser lembrado como um autêntico 10. Tostão, nome de uma moeda de valor baixo que circulou no Brasil na primeira metade do século passado XX, tinha o talento escondido em um corpo franzino, dono de estilo elegante e extraordinária visão de jogo. Quando deixou o Cruzeiro, em 1972, para jogar pelo Vasco da Gama, na maior transação do futebol brasileiro da época, só poderia receber a camisa representativa dos grandes craques. Tostão virou o 10 do Vasco, mas por pouco tempo, pois uma contusão grave no olho o afastou definitivamente dos gramados.

As virtudes de um grande 10 não estão escondidas apenas na camisa que usam. Há de ter talento acima de tudo e, com uma boa dose de imaginação, basta vê-lo em campo com a camisa que diferenciava os homens comuns dos mortais. Waldir Pereira, ou simplesmente, Didi, craque que começou no Fluminense, depois campeão absoluto no Botafogo e seleção brasileira é o exemplo perfeito desta “magia”. Não foi à toa que recebeu do cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues o apelido de “Príncipe Etíope”. Era preciso, frio e estava sempre ao lado de um rei. Foi assim ao lado de Pelé, na conquista do bicampeonato mundial, em 1958/1962, e de outras “lendas” do futebol, como Di Stéfano e Puskas, no poderoso Real Madrid, no final da década de 1950.

A elegância com que “desfilava” pelos gramados tornou-se sua marca registrada, mas além de gênio, também foi um criador, afinal, é dele a jogada batizada de “folha seca”, técnica que consistia numa forma de se bater na bola, numa cobrança de falta, com o lado externo do pé, hoje chamada de “trivela”. Era assim que a bola ganhava um caminho inesperado até chegar ao gol, semelhante a uma folha caindo.

Ser 10 no futebol é também deixar a todos de boca aberta na execução de uma jogada. Garrincha eternizou a camisa 7, mas se os “deuses” dos estádios o tivessem escolhido para reinar com a 10, não seria uma heresia. Na infância, a genética parecia comprometer o sucesso nos gramados, pois Garrincha tinha as pernas tortas. O que parecia “defeito” virou a principal arma para aterrorizar seus marcadores. Não havia antídoto contra os dribles de Mané Garrincha; todos sabiam que ele sairia para a direita, mas ninguém conseguia detê-lo. As pernas tortas não o impediram de conquistar o mundo, nas Copas de 1958 e 1962, com a seleção brasileira, e durante décadas no Botafogo, mas uma artrose nos dois joelhos transformou-se em um verdadeiro martírio para o craque. A dor e a vida pessoal atribulada, além da dependência do álcool, justificaram a trajetória triste deste “anjo das pernas tortas”.

O título de sua biografia, Estrela solitária, escrita por Ruy Castro, resume definitivamente a história de Garrincha, dentro e fora dos gramados. A maneira intensa de viver, aliada a sua simplicidade, levou-o a três casamentos e 14 filhos. Aclamado como a “alegria do povo”, também foi reverenciado e eternizado após sua morte precoce, em 1983, pelo poeta Carlos Drummond: “Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho”. 

Garrincha só não soube driblar as barreiras que a vida coloca nos caminhos de todo ser humano. Ser genial, quando se é uma figura pública, tem o seu custo. Tudo que se constrói dentro das quatro linhas de um gramado parece desaparecer com atitudes ou declarações feitas fora de campo. Gérson, o “canhotinha de ouro”, viveu esse “inferno” quando decidiu aceitar o convite de um fabricante de cigarros, depois que já havia encerrado a carreira como jogador, para ser garoto propaganda do produto. Com o slogan criado na campanha, “gosto de levar vantagem em tudo”, surgiu a “lei de Gérson”, representante da malandragem brasileira, do “jeitinho” e corrupção. Gérson nunca se arrependeu de fazer o comercial, mas concordou que a recusa teria evitado muitos dissabores e eternas justificativas que sempre foi obrigado a dar. Em campo, ao contrário da “lei” maliciosa, era genial e genioso, craque “cerebral”, falante ao extremo, tanto que ganhou apelido de “papagaio”. Dono de lançamentos precisos, especialmente de longas distâncias, tinha um diferencial de outros meio-campistas talentosos: era combativo, sem se esquecer de atacar. Com ele em campo o Botafogo viveu dias de glórias, como o bicampeonato carioca e a Taça Brasil, em 1968. No ano seguinte, deixou a camisa 8 do alvinegro carioca para ser o camisa 10 do tricolor paulista, clube que não sabia o que era o sabor de um título havia 13 anos. Com liderança e genialidade, Gérson ajudou o São Paulo a conquistar o bicampeonato paulista, em 1970/71.

Tornar-se líder em clubes de massa não é missão para qualquer um, ainda mais para aqueles que jogaram em períodos “negros” da política brasileira. Depois dos “anos de chumbo”, da ditadura militar, nas décadas de 1960 e 1970, no início dos anos 80 o Brasil conheceu, além de um craque de bola, um líder que daria início a novas relações profissionais no futebol. Ele não precisou ser o 10 de sua equipe para exercer influência sobre os demais. Sócrates não pensou duas vezes em se juntar ao movimento das “Diretas Já”, em 1984, até porque, no Corinthians, foi responsável e líder de outro movimento histórico que ficou conhecido como “Democracia corintiana”. Além do calcanhar “mágico”, Sócrates acabou com a lenda de que jogador de futebol teria de ser eterno escravo das duras leis impostas por dirigentes e cartolas do esporte. Lutou, e ainda luta, pela criação de mecanismos que permitam aos jogadores de futebol, uma melhor formação cultural para não terem o mesmo fim da grande maioria dos atletas profissionais: o desemprego e a miséria absoluta.

Dentro da representação mística do 10, no mundo do futebol, havia ainda aqueles que, ao contrário de Sócrates, Gérson ou Didi, não faziam a menor questão de se mostrarem líderes ou respeitadores das regras e convenções impostas na rotina de todo craque. Romário, o baixinho com futebol de gente grande, é um legítimo 10, pelo menos para aqueles que adoram histórias de “craque problema”, “ídolo rebelde”, ou qualquer outra alcunha que represente a transgressão.

Romário tornou-se irreverente pela mistura da genialidade que tinha para fazer gols com o total desprezo que sempre demonstrou ter com as regras. Enquanto jogou, fazia questão de dizer a quem quer que fosse que “acordar cedo” para treinar, não era com ele. Polemizou com grandes figuras do futebol brasileiro, jogadores ou técnicos, como Pelé, Zico, Zagallo e Felipão; ou no exterior, com Johann Crujyff, todo-poderoso no Barcelona. Não teve o menor constrangimento de defender dirigentes inescrupulosos, como Eurico Miranda durante anos no Vasco, clube que o revelou para o futebol, como também de vestir a camisa dos principais rivais no Rio de Janeiro, como o Flamengo e o Fluminense. Cobrado por um simples torcedor, não teve nenhuma dúvida em trocar “sopapos” com o camarada em um dia de treino. Mas havia também no baixinho camisa 11, uma capacidade incrível de fazer o que o amante do futebol mais aprecia em um jogo: gol, muitos gols. Romário forçou a barra na contabilidade para encerrar a carreira com a marca de mil gols. Nem precisava, basta recordar seus momentos mágicos na Copa que ganhou praticamente sozinho, em 1994.

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