sexta-feira, 7 de outubro de 2011

SER 10 - Talento ou Destino? (parte 13)


Em 2010, o SESC,  de Santos organizou a exposição e vídeo-instalação "É 10!". O evento prestou homenagem aos 70 anos de Pelé e outros craques do mundo que se destacaram vestindo a camisa 10. Para quem não viu, compartilho aqui os textos que produzi para o evento.

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10 que encantaram o mundo

Ser dono da 10 e campeão mundial não é, obrigatoriamente, uma exigência feita aos craques que se consagraram no futebol sob a mística dessa camisa. Quis o destino que vários deles jamais desfrutassem desse prazer, mas nem por isso deixaram de encantar torcedores dos quatro cantos do planeta. Há casos excepcionais.

O argentino Alfredo Di Stéfano, por exemplo, começou a jogar em uma época que sequer havia numeração nas camisas, e nem por isso o craque argentino, que desfilou seu talento no Real Madrid, no início dos anos 1960, conseguiu um título mundial, mesmo tendo sido o único jogador do mundo a vestir a camisa de três seleções diferentes: Argentina, Colômbia e Espanha. Polêmico como a maioria dos grandes gênios da camisa 10, Di Stéfano protagonizou cenas históricas no mundo do futebol.

Em 1948, insatisfeito com os salários que recebia, decidiu se unir a vários atletas de diversos países da América do Sul e partir para a Colômbia, onde seria criada a primeira “liga pirata” do futebol. Pirata porque a Fifa, entidade maior do futebol mundial, não reconhecia o campeonato. O nome da equipe em que Di Stéfano jogava caracterizava bem a situação do argentino na época: Milionários !!!

Após excursionar pela Europa com essa mesma equipe, em 1952, enfrentou e deixou encantados os dirigentes do Real Madrid, de onde só sairia após encerrar a carreira, em 1964. Sua fama e prestígio eram tão grandes que, em 1963, durante a realização da Pequena Copa do Mundo, em Caracas, Venezuela, foi sequestrado pelo grupo guerrilheiro Forças Armadas da Libertação e solto dois dias depois.

Seu apelido dizia tudo: “La Saeta Rubia (A Seta Loira). Jogava tanto que é considerado um dos jogadores mais completos, ao lado de Pelé e de Maradona. Além do talento, Di Stéfano deixou um legado para futuras gerações: a paixão pelo seu instrumento de trabalho. Depois de ser homenageado pelo Real Madrid, como presidente de honra, em seu palacete próximo ao estádio Santiago Bernabeau, em Madri, mandou instalar nos jardins o busto de uma bola com a inscrição: “Graças, Vieja” (Obrigado, Velha).

São homens com o talento de Di Stéfano que fizeram da 10 um número especial, mais do que isso, um “estado de espírito” dentro de um campo de futebol. O húngaro Ferenc Puskas teve de superar as agruras vividas na infância sob um forte regime militar instaurado em seu país, na década de 1950. Foi obrigado a jogar pelo Honved, clube do Exército Vermelho da Hungria, base da seleção, e lá, por conta do tronco forte e da estatura baixa, ganhou o apelido de Major Galopante. Para se ter ideia da força e poderio da seleção húngara, entre 1943 e 1956, eles jamais perderam um único jogo para qualquer outra seleção do mundo.

Puskas era o gênio da equipe, habilidoso ao extremo e dono de um pé esquerdo formidável. Na Copa de 1954, o castigo dos “deuses dos estádios”. Apesar de massacrar seus adversários, a Hungria acabou derrotada na final para os alemães. Para se ter noção da verdadeira epopéia alemã, até um filme com o título, “O milagre de Berna”, foi produzido. Rebelde como a grande maioria dos gênios da 10, em 1956, Puskas abandonou seu país, revoltado com o domínio soviético. Após dois anos suspenso, foi ser herói na Espanha, pelo Real Madrid, ao lado de Di Stéfano e do brasileiro Didi. Naturalizou-se espanhol e disputou a Copa de 1962 por este país. Novamente não conseguiu sentir o sabor de um título mundial. Injustiça? Talvez.

Puskas foi o único jogador no mundo a chegar bem próximo da marca de 1.281 gols marcados por Pelé. Em 1300 jogos, fez 1.176 gols. Fez menos que o rei, mas se tornou também recordista de gols do século XX, premiação conferida pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS). No final de vida, a magia da 10 também o traiu. Com Alzheimer, ficou internado durante anos. Passou dificuldades financeiras e foi obrigado a leiloar objetos pessoais, entre eles, uma camisa sua autografada por Pelé quando completou 75 anos. Morreu em 2006, virou nome do estádio do país que um dia o recusou como cidadão. Para reparar o “erro” histórico, teve o nome eternizado no estádio municipal de Budapeste e a camisa 10 aposentada para sempre pelo clube que o revelou, o Honved.

São vidas “intensas” como as de Di Stéfano e Puskas que trazem significado ainda maior para a camisa 10. Outros não tão famosos como eles também foram capazes de encantar o mundo. Haggi, um romeno camisa 10, na Copa de 1994, nos Estados Unidos, foi capaz de surpreender muitos críticos com o futebol magnífico exibido no torneio. Embora sua seleção caísse nas quartas-de-final, o apelido recebido após a competição de “Maradona dos Cárpatos”, em referência ao craque argentino e a região onde se situa a Romênia, pode explicar o tamanho de seu futebol.

A mística e magia da 10 espalhou-se pelo mundo desde que Pelé a consagrou. E já que outros “parecidos” com o rei do futebol surgiram pelo planeta, não seria impossível, por exemplo, que a Holanda visse surgir um novo ídolo depois de Cruyjff.

Contrariando o ditado que “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”, quis o destino que um negro, cabelo rastafári e características completamente diferentes de seu ídolo na infância, Cruyjff, fosse um legítimo 10. Gullit possuía uma combinação fatal de força e talento. No primeiro ano com a camisa do Milan, levou a bola de ouro do torneio e não parou mais de encantar ao mundo, especialmente, quando vestia a camisa laranja da Holanda e se juntava a outros fenômenos como Frank Rijkaard e Marco van Basten.

Gullit entrou para a história como um 10 “diferente”. Além de músico – tinha uma banda de reggae, Revelation Time, onde cantava e tocava contrabaixo -, era também politizado ao extremo, contrariando a regra de que “todo jogador de futebol era sinônimo de burrice”. Transformou-se em um dos maiores ativistas contra o racismo e o sistema de apartheid da África do Sul, chegando a dedicar a conquista da bola de ouro, de 1989, ao líder africano Nelson Mandela, preso havia anos pelo regime de Petrória. Foi além, distribuindo aos jornalistas presentes ao estádio San Siro, um contundente manifesto público contra as barbáries do regime sul-africano.Também como outros gênios da 10, Gullit não conseguiu conquistar uma Copa do Mundo. Em 1994, ano que poderia ser o de sua consagração em um mundial, abandonou a concentração da seleção, um mês antes da competição, após desentendimentos com o técnico holandês, Dick Advocaat.

A genética do 10 também é curiosa. Como poderia o futebol alemão “gerar” um craque baixinho e habilidoso, subvertendo o tradicional estilo “tanque germânico”? A resposta ao mundo foi dada com a trajetória de conquistas de Lottar Matthäus, no Borússia Monchengladbach, Bayern de Munique, ambos na Alemanha; e depois na Itália, a partir de 1988 com a camisa da Inter de Milão. Na seleção, Matthäus tornou-se recordista em número de jogos disputados, 25, em quatro edições, entre 1982 e 1998. Embora já tivesse disputado duas copas, a de 1990 foi a consagração de Matthäus, que, embora incansável na marcação, terminou a competição como artilheiro de sua equipe, mesmo jogando ao lado de estrelas como Klinsmann, Littbarski, Hassler e Vöeller. Não foi à toa que recebeu de seus amigos de profissão o apelido mais próximo do que realmente era capaz de fazer no gramado: Super-Homem. Incansável, arrancou de um de seus treinadores, o consagrado Giovanne Trapattoni uma frase que diz tudo sobre seu estilo e importância para uma equipe: “Eu admiro Platini. Eu admiro Maradona. Mas, para ganhar, eu necessito de Matthäus”.

 Se pelo planeta, os 10 surgem de tempos em tempos, no Brasil continental impressiona o número de jogadores que conseguiram se destacar com o “manto sagrado” herdado do rei Pelé. Quem poderia imaginar que um menino alto e magro, que nasceu e cresceu na pequena cidade chamada Paulista, no Nordeste brasileiro, e que para ajudar a família vendia doces e bebidas nas praias do Recife, poderia conquistar o mundo com seu futebol genial?

Rivaldo driblou todas as dificuldades impostas pela infância pobre, além do trauma da morte do pai, atropelado por um ônibus, quando tinha apenas 16 anos, para se tornar o melhor do mundo, em 1999. O caminho rumo ao topo foi árduo. Como um retirante, perambulou por pequenos clubes brasileiros, como o Mogi-Mirim, no interior paulista, para “explodir” no Palmeiras, supercampeão nos anos 1990.

Sua vida foi uma gangorra, cheia de altos e baixos, desconfianças o tempo inteiro sobre sua verdadeira competência. Ignorado no Corinthians foi ser campeão pelo arquirival, Palmeiras. Acusado de ser o responsável pela perda da medalha de ouro, na Olimpíada de Atlanta, em 1996, desapareceu das convocações para a seleção brasileira principal. Ressurgiu no futebol, na Espanha, primeiro pelo La Corunã, e logo a seguir, no Barcelona, onde com atuações e gols espetaculares reconquistou a fama de craque.

Mesmo com a derrota para a França, na Copa de 1998, todos reconheceram seu talento nas partidas anteriores que qualificaram o Brasil para a final do torneio. Nas eliminatórias para a Copa de 2002, voltou a ter o futebol questionado. Para a mídia havia dois Rivaldos, um, o craque do Barcelona, o outro, o camisa 10 com pouco brilho com a camisa da seleção brasileira. Bastou a Copa de 2002 terminar para que todos voltassem a afirmar a genialidade de Rivaldo, especialmente, pela sua atuação no jogo decisivo contra a Alemanha.

No retorno ao Barcelona, as chamas do inferno ardiam novamente. Desentendeu-se com o técnico da equipe, Louis van Gaal e foi embora para a Itália, para jogar pelo Milan. O inferno, porém, prosseguiu. De melhor do mundo à reserva de luxo...Um ano depois, em 2003, deixou o Milan para retomar a trajetória de retirante nordestino pelo mundo da bola. Voltou ao Brasil, para o Cruzeiro, retornou à Europa, para o futebol grego, e finalmente, para o desconhecido e insignificante futebol do Uzbequistão. Para preservar a gratidão ao clube que o fez de vitrine aos grandes, tornou-se presidente e dono do Mogi-Mirim.   

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