sexta-feira, 7 de outubro de 2011

SER 10 - Talento ou Destino? (parte 12)


Em 2010, o SESC,  de Santos organizou a exposição e vídeo-instalação "É 10!". O evento prestou homenagem aos 70 anos de Pelé e outros craques do mundo que se destacaram vestindo a camisa 10. Para quem não viu, compartilho aqui os textos que produzi para o evento.

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10 que encantaram o Brasil

Muitos deles não se consagraram com a 10 da seleção brasileira, nem por isso deixaram de ser amados e idolatrados pelos torcedores dos clubes em que jogaram. Cada qual em seu estilo e comportamento, arrastaram verdadeiras multidões para os estádios brasileiros. Acostumaram-se a viver o céu e o inferno a cada jogo que faziam. Mais do que um número nas costas, carregavam o peso da fama e do talento atribuídos a eles. Vencer era estar de bem com a vida, poder sair às ruas como qualquer outro cidadão no dia seguinte ao de um clássico. Perder era viver o inferno, cobranças injustificadas, críticas arrasadoras. Perduram como ídolos até hoje porque eram frutos de uma paixão, e como toda relação amorosa, aprenderam a experimentar, a cada gol e a cada jogada espetacular, ou nas derrotas, sentimentos de amor e ódio. Como na vida normal, tornaram-se inesquecíveis pelas alegrias e tristezas proporcionadas em tantos corações.

Zizinho, por exemplo, ganhou fama de jogador espetacular e talento inquestionável, apesar de ter sido um dos condenados pelo fracasso brasileiro na Copa de 1950, realizada no Brasil. A história só não o condenou para sempre porque o rei do futebol, Pelé, mais tarde afirmou que Zizinho fora a sua inspiração. Basta ver também a frase feita pelo jornalista italiano, Giordano Fattori, do conceituado Gazzeta dello Sport, logo após assistir à vitória brasileira contra a Iugoslávia, no Maracanã, em 1950: “O futebol de Zizinho me faz recordar Da Vinci pintando alguma coisa rara”. Virou Mestre Ziza para a grande maioria dos que o viram em campo desfilar seu talento, pelo Flamengo, São Paulo e Bangu. Craque sempre presente na lista dos maiores camisas 10 que o Brasil já teve, Zizinho viveu seus dias de glória, no Flamengo, nas décadas de 1940 e 1950, nem por isso teve o respeito merecido por tanta dedicação. Acabou negociado, às escondidas, pelos dirigentes do clube, após 12 anos como titular absoluto nos 145 jogos que fez com a camisa do rubro-negro carioca.

Vestir a 10 é estar pronto para as juras de amor e os atos de descaso o tempo inteiro. Ademir da Guia, por exemplo, ganhou tanto respeito e reconhecimento do clube em que atuou durante 16 anos e 866 jogos - recorde absoluto até hoje -, que acabou virando estátua no Palmeiras. Por outro lado, jamais entendeu o menosprezo recebido com a camisa da seleção brasileira, em 1974. Ademir estava no auge, esbanjava técnica e capacidade, mas só foi convocado depois de muita pressão. Os jogos foram acontecendo no Mundial e Ademir só virou titular contra a Polônia, quando o Brasil lutava apenas pelo terceiro lugar, e ainda assim, foi substituído no início do segundo tempo. Para muitos, pura injustiça com um craque “cerebral”, apelidado de “Divino”, que jogava em ritmo completamente diferente ao de qualquer outro, um “falso lento”.

Filho de uma linhagem de craques na família, como o pai Domingos da Guia e o tio Luís Antonio, no Bangu, Ademir, com seu jeito especial de “desfilar” em campo, despertou sentimentos de poetas consagrados, como João Cabral de Mello Neto: "Ademir impõe com seu jogo/ o ritmo do chumbo (e o peso),/ da lesma, da câmara lenta,/ do homem dentro do pesadelo.// Ritmo líquido se infiltrando/ no adversário, grosso, de dentro,/ impondo-lhe o que ele deseja,/ mandando nele, apodrecendo-o.// Ritmo morno, de andar na areia,/ de água doente de alagados,/ entorpecendo e então atando/ o mais irrequieto adversário".
 Ou ainda frases eternas como a de Armando Nogueira: “Ademir da Guia tem nome, sobrenome e futebol de craque”.

Como na vida, para ser 10 em algo, nem sempre é necessário demonstrar genialidade em tudo que se faz. No futebol, muitas vezes essa relação é criada a partir de uma química inexplicável entre o que o jogador faz no gramado e a massa de torcedores nas arquibancadas. O caso de Neto é exemplar nesse aspecto. Ser especialista em cobranças de falta e dono de um chute potente e certeiro, pode parecer pouco para se tornar ídolo de uma grande torcida como a do Corinthians. Mas foi isso que aconteceu. Neto transformou-se no “xodó” da Fiel torcida corintiana, símbolo de raça, rebeldia, um verdadeiro guerreiro capaz de entregar a vida para vencer e honrar a camisa que veste. Quis o destino que Neto sucedesse a camisa de um dos maiores ídolos do clube, Rivellino. Acostumados às comemorações inesquecíveis do camisa 10, punho cerrado, escorregando de joelhos pela grama, e ainda, pendurado nos alambrados, os milhares de fanáticos torcedores talvez não saibam que essa “identificação” tenha origem num simples diálogo ocorrido nos vestiários de treinamento do Parque São Jorge.

Neto reparou que o armário nº 10 do vestiário estava sempre fechado até que resolveu perguntar ao roupeiro do time, Sr. Paulo, se aquele fora o armário de Rivellino. O roupeiro fez que sim com a cabeça e foi então que Neto implorou: “Então eu gostaria muito de ficar com o armário dele. Seria a realização de um sonho de criança”. Paulo, um veterano apaixonado pelo Timão, precisou de muita conversa para finalmente aceitar o pedido, não sem antes obrigar o herdeiro da 10 de Rivellino a fazer um acordo: “Enquanto eu e você estivermos juntos aqui, você vai dar tudo o que puder por esta camisa. Tem que amá-la, lutar por ela. Não quero títulos, quero garra, você já veste a camisa que foi dele e agora terá seu armário, seu refúgio, você vai ter que honrá-lo”.

Parece ter dado certo. Naquele ano, Neto fez sua melhor campanha no clube, e deu ao Corinthians o seu primeiro título de Campeão Brasileiro.

Coincidências que podem parecer insignificantes, mas quando o assunto é a magia que uma camisa 10 pode exercer nos homens que tiveram o privilégio de usá-la, tudo é possível. Como não notar que vários craques brasileiros da 10 tinham nomes como o do rei Pelé, com apenas quatro letras? Assim foi com Neto, do Corinthians; Dicá, da Ponte Preta; Dida, do Flamengo; Alex, do Palmeiras e até mesmo, um herdeiro do maior 10 de todos os tempos do Santos, Pita.

Mero acaso, claro.  Mas como explicar o talento do mineiro Dirceu Lopes?

Seu único “pecado”, talvez, foi ser craque do Cruzeiro numa época em que camisas 10 pareciam brotar pelos gramados brasileiros. Dirceu Lopes jogou na época em que Pelé, Ademir da Guia e Rivellino estavam no auge. Mas isso não foi problema para ele. Se o Botafogo tinha Gérson e Jairzinho, o Santos, Pelé e Coutinho, o Cruzeiro tinha Dirceu Lopes e Tostão, uma dupla que impôs respeito e a única capaz de desbancar a superequipe do Santos, em 1966. Dirceu e seus companheiros conseguiram a proeza de, não só vencer o Santos de Pelé e companhia, como conquistar o título brasileiro daquele ano, chamado de Taça Brasil, com uma goleada histórica por 6 a 2, no primeiro jogo realizado no Mineirão. Só no primeiro tempo o placar apontava 5 a 0 para os mineiros, com dois gols dele, o pequeno e ágil Dirceu Lopes.

Baixinho mesmo. Dirceu tinha apenas 1,62m de altura, compensados com a agilidade e velocidade com que jogava em campo. Eram históricas suas arrancadas do meio-de-campo até a área adversária, com dribles desconcertantes. Dirceu Lopes em campo era certeza de jogo com belas jogadas e gols. Durante 12 anos seguidos, de 1964 a 1976, tornou-se o grande herói cruzeirense nas 487 partidas oficias que disputou. Eleito o melhor “meia”, dos campeonatos brasileiros de 1970, 1971 e 1973, só não servia na seleção de Zagallo, tricampeã no México,que o cortou da equipe, segundo o técnico, por causa do “excesso” de jogadores de sua posição.  

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