sábado, 15 de outubro de 2011

Revolução nas ondas do rádio


Mais um personagem "dono do espetáculo", nas ondas do rádio esportivo brasileiro. O texto abaixo faz parte do livro "Donos do Espetáculo - Histórias da Imprensa Esportiva no Brasil" (Editora Terceiro Nome, 2007).

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Em maio de 1941, o rádio esportivo brasileiro conheceria uma de suas maiores estrelas, Oduvaldo Cozzi, que reinou absoluto durante os dez anos seguintes na Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro. O convite para trabalhar na emissora carioca foi feito por Edmar Machado, que conhecia muito bem o gênio que estava contratando. Gênio e genioso, porque além de craque do microfone, Cozzi tinha temperamento forte. Durante os sete anos anteriores ao de sua contratação pela Mayrink, Cozzi perambulou por algumas emissoras de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em 1934, aos 19 anos de idade, decidiu trocar o curso de Direito na Faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo, onde cursava o terceiro ano, por uma vaga de locutor na Rádio Cosmos, da capital paulista. Pouco depois, teve rápida passagem pela Rádio Ipanema do Rio de Janeiro e, em 1935, transferiu-se para a Rádio Transmissora, outra emissora carioca, onde permaneceu por apenas três meses.
A grande oportunidade na carreira de Cozzi surgiu em 1936, quando foi convidado por Gilson e Gesolino Amado para integrar o cast da Rádio Nacional. Começou como speaker de estúdio, passou ao departamento de esportes, onde narrava os jogos e as primeiras corridas de automóvel no Circuito da Gávea, e durante um ano acumulou o cargo de diretor artístico. Foi Cozzi quem, na Nacional, apelidou um dos maiores ídolos da música brasileira, Orlando Silva, de “O cantor das multidões”.

Todos esses detalhes só puderam ser levantados graças aos cuidados das cinco filhas do locutor que ainda moram no Rio de Janeiro e cuidam carinhosamente de tudo o que pertenceu ao pai em vida: “papai tinha fama de popstar. Recebia centenas de cartas de fãs apaixonadas. Até nós, da família, nos beneficiamos, pois aparecíamos em muitas fotos das principais revistas e jornais da época”, relembra Tânia Cozzi. Em uma mala cheia de papéis e documentos, Cozzi guardou diversos jornais e roteiros dos caminhos percorridos em sua longa trajetória profissional. Num dos relatos, revela: “a primeira transmissão de futebol que fiz pela Nacional foi entre as seleções paulista e gaúcha, no estádio de São Januário. Só conhecia três jogadores”.
Oduvaldo Cozzi ficou na Rádio Nacional até 1939, quando se demitiu por desentender-se com a direção artística da emissora: “acumulava o cargo de locutor e diretor artístico. Eles não gostaram de uma contratação que fiz para o cast da emissora. Não sei o que tinham contra o nome de Dorival Caymmi. Fiquei tão chateado com tudo que, logo que pedi demissão, sai caminhando pela avenida Rio Branco. Fiquei desempregado apenas por algumas horas. Para minha sorte, encontrei no caminho Breno Caldas, que ao saber de minha saída da Nacional, convidou-me para assumir a direção da Rádio Gaúcha, de Porto Alegre. No dia seguinte já estava trabalhando no sul do país”.
Cozzi ficou na Rádio Gaúcha de abril de 1939 a janeiro de 1940. Lá fazia de tudo um pouco, inclusive radioteatro. Foi lá também que conheceu e se casou, em janeiro de 1940, com Alba de Rezende, com quem teve cinco filhas. Inquieto, o narrador retornou a São Paulo para cumprir um resto de contrato – apenas dez meses – que tinha com a Rádio Tupi. Para ocupar sua vaga, outra futura estrela do rádio: Pedro Luiz. Cozzi voltou ao sul do país, onde permaneceu por apenas oito meses até pegar novamente o avião e desembarcar no Rio de Janeiro para assumir o comando da Mayrink Veiga.
O rádio esportivo brasileiro não seria mais o mesmo: “Cozzi fez uma revolução no rádio, pelo estilo de transmitir. Era uma voz anasalada. Na verdade, ele imitava em detalhes o consagrado locutor uruguaio, astro do rádio argentino, Lalo Pelicciari, que transmitia mais ou menos assim: ‘falt, puneo o juiz’. Aqui, Cozzi adaptou: ‘Fauuu, puniu o juiz’. Lá Pelicciari dizia: ‘off side’, com firmeza. Aqui, Cozzi repetia: ‘im-pe-di-do’, como se estivesse separando as sílabas de maneira firme e linear”, relembra o também narrador Luiz Mendes. Cozzi copiaria outro modelo de transmissão do astro argentino, colocando atrás dos gols Canarinho e Mário Tereré, então chamados não de repórteres, mas de “pontas”: “Pelicciari lá: ‘abla Canner’. Aqui o Cozzi: ‘fala Canarinho’”.
Em pouco tempo, passou a desfrutar de enorme prestígio nos bastidores da política do futebol. Os principais dirigentes esportivos do país freqüentavam sua casa com regularidade e, aproveitando-se dessa rotina, passou a comprar eventos para transmitir com exclusividade pela Mayrink Veiga, entre eles o Campeonato Sul-Americano de 1942, disputado em Montevidéu, no Uruguai.

Um pouco da voz de Cozzi:


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