sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Quintana e o futebol



Existem pessoas que costumam ter sempre por perto um livro para reler. No meu caso, não perco de vista Mário Quintana - Poesia Completa, da Editora Nova Aguilar. Poesia, pelo menos para mim, deve ser lida assim, ao acaso, sem hora marcada para sentar e começar a ler sem parar. Quintana viveu quase 88 anos dedicados à poesia sem nunca ter escrito uma linha sequer sobre o tema futebol. Sempre tive curiosidade de descobrir algo a respeito, pelo menos uma entrevista, uma história curiosa, qualquer coisa...
Acabei encontrando na página dedicada ao seu centenário, em 2006 (http://www.clicrbs.com.br/especiais/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&espid=34&section=Home), um artigo escrito por Antonio Goulart, jornalista e pesquisador gaúcho e grande amigo do poeta.


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Quintana, o apostador

Mario Quintana foi o protótipo do sujeito desligado do futebol, aliás, de qualquer esporte. Não torcia por nenhum clube. A dupla Gre-Nal nada representava para ele. Nem mesmo os jogos de uma Copa do Mundo, que agitavam a redação do jornal onde trabalhava, interferiam no seu costumeiro cismar poético.

Há, no entanto, em sua biografia uma particularidade pouco conhecida que, de certa forma, desmente tudo isso. Sou testemunha de que o nosso poeta maior cultivou, durante anos, com meticulosa rotina, uma estreita relação com o futebol ou, mais precisamente, com a loteria esportiva, hoje chamada de loteca.

Foi na segunda metade da década de 70, quando começou a participar, todas as semanas, do concurso de apostas. Claro que jamais prestou atenção nos nomes das equipes e menos ainda entrou numa casa lotérica para preencher um volante. Anos mais tarde, Quintana chegou a tomar gosto pela loteria de números, a Loto. Mas, quanto à esportiva, descobrira uma forma mais prática e simples de fazer a sua fezinha no jogo.

Todas as quintas-feiras à noite, ao encerrar seu expediente, passava pelo setor de esportes do antigo Correio do Povo para participar do "bolão" que o editor Paulo Moura e eu organizávamos. Era o apostador mais assíduo e pontual. Chegava sempre com a cota certa na mão: uma nota de dez. Às vezes, contrariando a regra, tinha que revirar os bolsos à procura do dinheiro, tirando para fora vários papéis com rabiscos, endereços, cartas amassadas, rascunhos de poemas, mil coisas.

Cuidadoso (ou desconfiado?), Quintana nunca deixava de conferir se seu nome realmente ficara anotado na lista, repetindo, invariavelmente, o mesmo alerta: "Não esqueça de colocar aí o PG (pago)!". Jamais se preocupava em dar palpite ou em saber que tipo de aposta iria ser feita. "Confio cegamente nos entendidos em futebol", costumava dizer.

Na segunda-feira, a primeira coisa que fazia ao entrar na redação era se aproximar da nossa mesa para, discretamente, perguntar: "Como é, foi desta vez que ficamos ricos?". Diante da invariável resposta negativa ou da informação de que havíamos feito apenas nove ou dez pontos, tinha sempre um consolo: "Até que fomos bem. Da próxima vez vai dar, com certeza".
Nunca me ocorreu perguntar ao poeta o que faria com a parte dele, se um dia acertássemos os 13 pontos.

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Os únicos rastros de Quintana e o esporte:

Loteria A loteria – ou o jogo do bicho, seu filho natural – jamais engana. Porque a gente não compra bilhete: compra esperança. 
(De A Vaca e o Hipogrifo)

Esporte – O único esporte que pratico é a luta livre com o meu Anjo da Guarda.
(De Porta Giratória)

Elegia Urbana – Rádios. Tevês. Gooooooooooooooooooooooooooolo!!! (O domingo é um cachorro escondido debaixo da cama).
(De Apontamentos de História Sobrenatural)

                                               


Seiscentos e sessenta e seis

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil
das horas.


Fonte: 
Mario Quintana - Poesia Completa, p. 479 / Editora Nova Aguillar



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