sábado, 8 de outubro de 2011

Profissão: Publisher

Existem três personagens fundamentais para que um livro exista: autor, leitor e editor. O primeiro, mesmo que "navegue" solitário na arte da criação literária, escreve com a cumplicidade do leitor. Contudo, sem a participação efetiva de um bom editor, dificilmente um livro será aceito pelo mercado.

Se escrever é uma arte, como poderia ser definido o trabalho de um editor ou de um publisher, a figura responsável por lapidar e produzir um livro? Literatura na Arquibancada pretende ouvir nomes importantes do mercado editorial para que você, leitor, tenha a dimensão do trabalho destes profissionais e uma visão abrangente do mercado de livros esportivos no país.

Para abrir essa série especial, um carioca da gema, "gente boa" toda vida, botafoguense até debaixo d'água e amante confesso de livros. Seu nome é Cesar Oliveira, proprietário do site www.livrosdefutebol.com, um site pioneiro no gênero, e editor de diversos livros de futebol já publicados ou "em produção". Destaque para os livros publicados: Quem derrubou João Saldanha, de Carlos Ferreira Vilarinho; 21 Depois de 21, de Rafael Casé e Paulo Marcelo Sampaio e Quarentinha, o artilheiro que não sorria, de Rafael Casé.

César Oliveira


"Fazer livros é tão gostoso quanto ler"
Literatura na Arquibancada:

Como você analisa o atual mercado editorial de livros com temas ligados ao esporte, especialmente o futebol? 

Posso falar de futebol. Nem me preocupo com os outros esportes, pra falar a verdade.
Acho que deveríamos ter - nós, editores – , perfeita noção da enorme responsabilidade de editar num País sem leitores. E sem torcedores leitores. Não é tarefa fácil e que deve ser exercida com amor e tesão. Como dizia Nelson Rodrigues, sem isso não se chupa nem chicabom. Dificilmente um livro de futebol vira best-seller, porque o torcedor médio simplesmente não lê. Ele vai ao estádio torcer, compra camisa pirata, toma cerveja e sacaneia os "inimigos". Mas ler...   

Literatura na Arquibancada:
Por que decidiu ser um editor de livros sobre futebol? 

Por achar, quixotescamente, que algum maluco tinha que fazer isso... e direito. Por acreditar que dá pra fazer com qualidade, desde que com os pés bem plantados no chão. Por achar que dá pra fazer sem quase infartar (como aconteceu com Milton Pedrosa). Por achar que o livro eletrônico e a tiragem sob demanda vão resolver muitas questões importantes. Por achar que o sistema hoje vigente e reinante está morto e fedendo, precisa ser reinventado.

Literatura na Arquibancada:
Fale de sua rotina como editor. Como tudo acontece?

É uma ralação só; e bom demais. Parece a história que João Saldanha contava do namoro do macaquinho com a girafa. Mas namorar não é bom?
Editor de livros de futebol do meu tamanho – time pequeno e sem patrocinador –, bate o escanteio e corre pra cabecear. Hoje, pra dividir tarefas, arrumei um sócio-administrador e criei a "Pébola - Casa Editorial", que jocosamente chamo de "holding" do selo "LivrosdeFutebol.Com".
Sonho com o momento em que vou poder apenas ler originais, inventar assuntos para que alguém escreva livros (como fiz com "O artilheiro que não sorria" (que inventei a partir do título e encomendei o texto ao Rafael Casé - e, recentemente, com dois companheiros do Memofut) e fazer o planejamento editorial, me envolvendo um pouco menos com a insanidade de buscar patrocínio e supervisionar toda a produção. Mas eu chego lá; tenho só 59 anos e não pretendo morrer antes dos 90, então... tenho bastante tempo. 

Literatura na Arquibancada:
Lembre alguma experiência positiva e outra negativa na empreitada de publicação de um livro.

O dia de lançamento de um livro é sempre um orgasmo múltiplo. Desde 1980, quando me envolvi com livros na FGV Editora, fui picado pelo outro lado do mercado (antes, era só leitor). Fazer livros é tão gostoso quanto ler. Já fiz mais de 60, em várias funções sendo cinco de futebol. Até 2014, a Pébola tem 30 projetos interessantes para lançar. Inclusive as crônicas de Mario Filho dos anos 40-50 e a biografia do "mestre" que será escrita por Marcos Eduardo Neves.

Experiências negativas a gente acumula mesmo sem querer: o autor que fica pê da vida porque você não quer editá-lo (todo autor ruim se acha um potencial harrypotter)... Aquele que manda desaforos quando percebe que você editou "outro" antes do dele... O irresponsável com o rigor na pesquisa, que escreve uma besteira sem tamanho sobre um fato público e notório como, por exemplo, um gol brasileiro numa final de Copa... E o erro de revisão que passa na cara de todo mundo, só pra sacanear. Tenho vontade de cavar um buraco e nunca mais sair, de tanta raiva.

Literatura na Arquibancada:
Fale sobre seu projeto mais recente: “Friedenreich”.

Me senti um felizardo quando, em meio à biblioteca e documentos do editor Milton Pedrosa, da Editora Gol, achei a autobiografia e mais de cem fotos históricas que Arthur Friedenreich vinha preparando para lançar. Um susto e uma alegria enormes que não pude extravasar, porque eram 3 horas da manhã quando abri uma pasta e li "Friedenreich – el Tigre" na primeira página da biografia. Minha vontade era subir na janela do escritório e gritar um tonitruante "PQP!". O projeto - e seu respectivo orçamento - foi apresentado a algumas empresas que me procuraram logo depois da entrevista ao Esporte Espetacular. Alea jacta est

Raridade encontrada por Cesar Oliveira e que fará parte da biografia de
Arthur Friedenreich, na foto, ao lado de Leônidas da Silva, o Diamante Negro.
Literatura na Arquibancada:
Quais os 5 melhores livros nacionais e os 5 estrangeiros para você?

Brasileiros:
1 - O Negro no Futebol Brasileiro (Mario Filho)
2 - Gigantes do Futebol  Brasileiro (João Máximo/Marcos de Castro - a 1ª edição)
3 - Os Reis da Bola (Arakem Patusca)
4 - Gol de Letra (MIlton Pedrosa)

5 - A Dança dos Deuses (Hilário Franco Jr.)

Estrangeiros (ou "de estrangeiros"):
1 - Jogo Sujo (Andrew Jennings)
2 - Soccernomics (Simon Kuper)
3 - How to Score (Ken Bray) - cujos direitos comprei para lançar em 2014

4 - Como Eles Roubaram o Jogo (de David Yallop)
5 - Como o Futebol explica o Mundo (de Franklin Boer)
Literatura na Arquibancada:
Cite algum trecho de obra inesquecível que já tenha lido.

No campo do futebol, o trecho em que Friedenreich conta o dia em que ele e amigos ouviram "o barulho da bola dos ingleses batendo no muro" de um clube paulistano, é sensacional. Mas para conhecer o trecho completo, você, leitor, têm que esperar o dia 18 de junho do ano que vem, quando lanço o livro em São Paulo.
 
Literatura na Arquibancada:
Quais os caminhos para que novos autores consigam publicar livros ligados ao esporte, por exemplo, com a sua editora?

O caminho deve ser o ineditismo e a qualidade. O compromisso fechado com a história e a memória do futebol brasileiro. A pesquisa cuidadosa e o texto instigante. 

 

Um comentário:

  1. André:
    Grato pela oportunidade de externar opinião no seu blog. Tomara que os leitores saiam do imobilismo e falem. Para o bem ou para o mal.
    Boas leituras,
    Cesar

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