domingo, 30 de outubro de 2011

Pelé, Neymar e Messi juntos...Só em ficção?



Estreando o espaço para textos de ficção, André Argolo, repórter de primeira, dono de texto primoroso, escreveu especialmente para o Literatura na Arquibancada um conto, segundo ele mesmo o definiu: “em forma de épico de Camões (bastante influenciado por um escritor português, o Gonçalo Tavares, e seu livro Uma Viagem à Índia)”.
Para quem conhece André Argolo nas letras, nenhuma novidade a qualidade de sua prosa. E para quem não o conhece, basta ler para se encantar...

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Vai que virou verdade o Pelé no Santos para o Mundial Interclubes de 2011…

E então o que era só homenagem vira ação, afinal:
Pelé levanta-se do banco de reservas, confortável, aquecido
- faz muito frio no Japão em dezembro -,
e diz ao treinador à beira do campo, em tom normal,
“vou entrar”.

O treinador nem se volta por completo a Pelé
É confuso, uma decisão do jogador,
e quem dá ordens ali é ele!
Mas o jogador é Pelé
e a questão não é quem entende mais de futebol
mas a quem pertence a autoridade de fato
       (patentes podem ser claras, mesmo quando não estão).

O jogo vale o título mundial interclubes do ano de 2011.
Em campo, Santos e Barcelona.
Em campo, os melhores jogadores de futebol do momento.
Messi é argentino e joga pelo clube espanhol,
Neymar é brasileiro e defende o time brasileiro.
São astros e tudo gira em torno deles, a única bola também
                   (Pelé no banco, sorrindo, torcendo, aplaudindo até então).

Nas arquibancadas, governantes, monarcas, jornalistas,
marceneiros, mecânicos, bancários, faxineiros,
traficantes, ditadores, policiais que também os protegem
donos de times russos, russos donos de times ingleses,
mães, pais, irmãos e namoradas e esposas e filhos
dos que estão em campo, comemorados ou xingados
                                     (a eles, dói menos em japonês)

Tocou Pink Floyd antes da partida, quase ninguém notou.
Só Bono Vox e Shakira balançaram as cabeças, se entreolharam.
Tocaram os hinos nacionais do Brasil e da Espanha.
Fazia frio e os atletas perfilados balançaram pernas,
mãos no coração, só Pelé cantou
    (viu-se também depois, na televisão).

Pelé tira o agasalho à beira do campo.
Em nada seus movimentos entregam sua idade:
Setenta e um anos.
Nem precisou da metade para ser o Atleta do Século 20
e nem precisava provar mais nada
apenas decidiu que sim.

O treinador conversa com alguém;
alguém leva um bilhete ao árbitro-assistente;
o árbitro-assistente digita um número na placa digital,
e a levanta, com o número oito iluminado de uma cor
de uma outra, o número que entra, o dez negro, de branco.

Há e não há naquele momento mais nada.
Há e não há mais Neymar e Messi.
Cada um já havia feito até ali, muito.
Cada um já havia marcado um gol.
Esperava-se que um dos dois desempatasse a partida.
Há ainda os outros, que fazem desses o que podem ser:
Iniesta, Xavi, Paulo Henrique Ganso, Villa, Borges,
Puyol, Léo, Elano, Danilo, Mascherano, e ainda há outros.
Mas há um Pelé agora, um que ninguém mais pôde ser:
o Pelé. Messi enxuga uma lágrima.
Pep Guardiola se senta no banco do Barcelona.
Ele que foi jogador do técnico Pepe, o Canhão da Vila,
ouviu tanto sobre Pelé que foi como ver um fantasma:
Dom Quixote em seu cavalo diante dele.
E ele um moinho.

Pepe assistindo ao vivo de sua casa em Santos
Lima ao seu lado, ninguém fala nada.
Pelé é o foco de quase todas as câmeras.
Ninguém registra a cara de Messi
e a lágrima seca. E Neymar sorri.
Pelé dita ordens após abraçar e beijar
e agradecer Elano, que sai para o Rei entrar.

Puyol pensa em ajoelhar-se – foi o que confessou
anos mais tarde, em documentários sobre esse dia.
Villa lembra-se do avô
“o negro mágico brasileiro”, dizia.
Poderia ser que jogasse algo, que tentasse um chute;
poderia ser como El Cid a vencer morto os inimigos;
mas Pelé está vivo, bem vivo. E em campo.

Um a um no placar,
vinte minutos do apito final,
o que ninguém realmente esperava
corre até sua posição original
e pede a bola a Ganso, que obedece.

É só um primeiro toque,
preciso e necessário, de volta ao garoto.
E nesse movimento Neymar avança
E recebe a bola, e domina adiante.
E o zagueiro, atrasado, atrapalhado, atira-se.
Neymar é derrubado na área.
A penalidade é a máxima
            (pena de morte não existe no futebol).
Quem bate o pênalti? Quem toma decisão assim?

O estádio faz um silêncio japonês.
Guardiola segue sentado.
O treinador do Santos senta-se no gramado.
Pepe levanta-se para pegar água.
Pelé tem as mãos na cintura, dez às costas,
Ganso de um lado, Neymar do outro, gol à frente.
Messi tem as mãos na cintura no meio do campo,
dez nas costas, dez à frente, ninguém por perto.
E ele chora novamente, sem fechar os olhos,
para ver bem o que ninguém nunca poderá esquecer.

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André Argolo é de Santos, onde trabalhou em jornais e algumas emissoras de TV, entre elas a TV Mar e TV Tribuna. Foi repórter na TV Globo, entre 1998 e 2000; na TV Cultura, entre 2002 e 2006, no programa Grandes Momentos do Esporte. Também foi repórter na TV Bandeirantes, entre 2006 e 2007 e mais recentemente, no canal ESPN Brasil, onde trabalhou com esportes de aventura. Em 2008 fez o documentário As passagens de Charles Darwin e Richard Burton pelo Brasil, recontadas por meio de esportes de ação e aventura para o programa TRIZ Viajantes Radicais. André Argolo mantêm o blog www.qualquerquoisa.com.br




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