segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Para entender o fenômeno futebol

Maurício Murad

Ele é um dos mais respeitados estudiosos sobre o futebol brasileiro. Há 20 anos, Mauricio Murad coordena o Núcleo de Sociologia do Futebol na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Nesta longa trajetória, foram desenvolvidas pesquisas e estudos fundamentais para entendermos melhor o futebol como um fenômeno social. Neste bate papo com o Liteteratura na Arquibancada, Murad revela sua nova paixão literária, com a produção de alguns romances.

Literatura na Arquibancada:
Um de seus livros, A violência e o futebol - dos estudos clássicos aos dias de hoje, traça um panorama da relação histórica entre violência e futebol. O que mudou neste tema desde o fim de suas pesquisas para este livro? Quais evoluções ocorreram em termos de segurança nos estádios?

Maurício Murad:
Pouca coisa mudou. O Estatuto de Defesa do Torcedor, embora incompleto, foi um avanço, como também a segurança dentro dos estádios. Contudo, a infiltração de grupos de vândalos, as agressões violentíssimas, as mortes e o uso das redes sociais para a marcação dos confrontos, sem a atuação prévia da polícia, permanecem quase que inalteradas e pior, em escala crescente.

L.A:
O que está sendo feito em termos de estudos acadêmicos sobre os dois maiores eventos esportivos do planeta que acontecerão por aqui, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos? Quais estudos internacionais recomenda para estudiosos e autoridades públicas brasileiras?

M.M:
Vários estudos estão sendo feitos no Brasil, sobre o Mundial de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Acredito, que a partir de agora, com o calendário definido, esses estudos ganharão mais visibilidade e outros virão. Os estudos realizados na Alemanha, para a Copa de 2006, por universidades e por organismos públicos, principalmente em relação ao legado do evento, são a meu juízo as melhores referências.

L.A:
Quais foram os principais estudos e pesquisas desenvolvidas pelo Núcleo de Sociologia do Futebol da Uerj desde o seu surgimento em 1990?

M.M:
Começamos com a pesquisa sobre Violência e Futebol no Brasil, inclusive fazendo parcerias com o GEPE, Grupamento Especializado de Policiamento dos Estádios, da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Futebol e Artes no Brasil: Cinema, Música e Literatura, Racismo no Futebol Brasileiro e os Olhares Femininos no Futebol, são exemplos de outros estudos realizados pelo Núcleo de Sociologia do Futebol, do Departamento de Ciências Sociais da Uerj, em seu início.


L.A:
Você escreveu um romance infanto-juvenil, em 1994, Todo esse lance que rola, onde explora a história social do futebol brasileiro, a partir do namoro entre dois jovens. O livro, inclusive, foi adaptado para o Teatro. Você acredita que o futebol poderia ser melhor utilizado como instrumento de educação e socialização?

M.M:
Sem dúvida! Acho que o futebol é uma poderosa linguagem, um instrumento riquíssimo, de educação para a cidadania, principalmente com crianças e jovens. Deveríamos aproveitar bem mais essa nossa cultura coletiva e identidade tão importante que é o futebol.

L.A:
Depois de se tornar referência por seus trabalhos de pesquisa científica no campo da sociologia dos esportes (especialmente do futebol), você também passou a escrever romances. Fale um pouco sobre os principais personagens de cada um deles e por que esta decisão de escrever ficção?

M.M:
Tenho três romances já publicados e um “no forno”. Gosto muito de escrever ficção, pela liberdade que dá ao autor e também porque, acho eu, que atinge a um número maior de pessoas. Dos três, só um trata de futebol: Todo esse lance que rola, uma história de namoro e futebol, premiado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) e adaptado para o teatro, na versão de um musical. As fogosas aventuras de J. Ferreira e Os pés de Laura, são os outros. Este último, inclusive, eu considero como sendo a minha obra literária mais madura...Até agora.


L.A:
Em seus romances, o futebol é tema de alguma forma?

M.M:
No primeiro, sim, é todo em torno do futebol. Os outros não, embora ambos tenham uns “pitacos” aqui e ali.

L.A:
O que é futebol para você, um estudioso do esporte?

M.M:
Um esporte maravilhoso, cheio de toques artísticos e linguagens corporais. Além disso é uma das manifestações coletivas mais relevantes e democráticas de povos em diferentes sociedades, regimes políticos e sistemas culturais. Futebol é mais do que uma modalidade esportiva; é um grande e significativo evento das multidões.

L.A:
Quais as leituras obrigatórias de livros sobre futebol na literatura esportiva?

M.M:
É difícil fazer essa seleção, mas vamos lá. Os textos de Gilberto Freyre, como o prefácio ao Negro no futebol brasileiro, de Mário Filho. Este, também, um livro indispensável. As crônicas de Nelson Rodrigues, de Mário Filho, de João Saldanha e de Armando Nogueira, também acho que são fundamentais. O universo do futebol, organizado por Roberto da Matta e outros mais.

L.A:
Por que grandes nomes da literatura brasileira não escrevem mais sobre futebol, como no passado (José Lins do Rego, Nelson Rodrigues, e outros)?

M.M:
Essa é uma grande questão a ser estudada, porque praticamente todos os grandes autores de nossa riquíssima literatura eram muito ligados ao futebol e, no entanto, quase não há textos sobre o assunto. Romances, a bem da verdade, porque contos e crônicas há muitos e muitos exemplos. Poesia também, embora em menor escala. Acho que o preconceito, em torno do futebol, que marcou sua história social, pode ajudar a explicar um pouco. Mas, ainda precisamos aprofundar mais esse assunto. De uns anos pra cá (na última década) houve uma melhora, sem dúvida.



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