sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Os jornais impressos e o golpe de 1964

Capa de O Esporte de 1945
Reprodução do livro Fotos livro,
Palmeiras x Corinthians 1945 - O jogo vermelho

 Na área esportiva, o primeiro diário a sofrer na pele os reflexos do golpe de 1964 foi O Esporte, que chegara a vender 60 mil exemplares por dia. Afundado em uma grave crise financeira, Lido Piccinini, dono do jornal, vendeu a empresa para T. J. Viana, testa de ferro do presidente Jânio Quadros, logo após a eleição de 1960. No ano seguinte, os novos proprietários investiram 1 milhão de cruzeiros no jornal com a aquisição de carros novos e equipamentos, mas a empresa não se sustentou, até fechar, logo após o golpe de 1964: “O interesse do Jânio com certeza não era em O Esporte, mas no A Hora, diário sensacionalista. Quebraram os dois ao mesmo tempo”, recorda o jornalista Walter Lacerda.
Com a venda de O Esporte, Lido decidiu que nunca mais se envolveria com jornal. Achava que era hora de aproveitar a vida, gastar um pouco dos 80 milhões de cruzeiros ganhos com a venda do diário. Viajou para a Itália, e no terceiro dia de descanso caiu na banheira do hotel e perfurou a costela. Morreu sem poder aproveitar nada do que ganhou com a venda do jornal.
Após o fechamento de O Esporte, Walter Lacerda passou a trabalhar no único jornal que parecia não sentir os efeitos do golpe de 1964. Apesar da crise no mercado editorial, A Gazeta Esportiva atingia tiragens superiores a 100 mil exemplares. Pelos números pode-se perceber que praticamente não havia concorrência, a não ser quando comparado com o Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro.
Página do Caderno de Esportes de O Estado de S. Paulo,
de 31/12/1964
Para acabar com a hegemonia de A Gazeta Esportiva, foi criada em São Paulo, em 1964, a edição de esportes de O Estado de S. Paulo – embrião do Jornal da Tarde –, que circulava após o fim das rodadas de futebol, às dezoito horas do domingo. O torcedor acostumou-se a sair do estádio e ir direto para a porta do jornal e comprar um exemplar. A concorrência com a Gazeta Esportiva estava declarada e, em pouco tempo, o caderno de esportes do Estadão chegava a tiragens de 100 mil exemplares.
Também nessa época, surgiu em São Paulo outro concorrente forte no jornalismo esportivo. O empresário Herbert Levy idealizou um jornal que pudesse concorrer com a Última Hora de Samuel Wainer. O novo jornal teria de ser popular, exatamente como a Última Hora, e seu lançamento, na verdade, tinha como objetivo a campanha de Carlos Lacerda à presidência da República, nas eleições de outubro de 1965.
Estava criado o Notícias Populares, na rua do Gasômetro, 425, no bairro do Brás, centro de São Paulo. Com ele, começava a disputa por profissionais do Última Hora. Jean Melé, um romeno com apurada visão jornalística, foi contratado para comandar o jornal. Vital Bataglia, apesar da pouca experiência, seria o secretário de redação de esportes. Foi tirado do Última Hora, onde trabalhava havia pouco mais de um ano e ganhava 40 mil cruzeiros, para chefiar o esporte do Notícias Populares por 108 mil cruzeiros.
A inexperiência de Bataglia era compensada pelos conhecimentos dos veteranos De Vaney e Arthur Vogel, outro romeno, amigo de Jean Melé, que tinha visão fantástica do futebol internacional. No futebol brasileiro, João Carlos Pibe, comentarista da Rádio Marconi, era o nome forte: “João era uma figura poderosa no relacionamento com jogadores de futebol. Chegou a treinar com os jogadores do Palmeiras e em uma dessas oportunidades chutou o tornozelo do Adhemar Pantera. Ele levava todos os jogadores do Palmeiras à redação. Jogador na redação, só a Gazeta Esportiva tinha esse privilégio. João conseguia isso sem a influência dos cartolas, pois era muito amigo dos jogadores. Depois contratamos Sérgio Baklanos, Darci Higobassi e, logo depois, o editor do Última Hora, Celso Brandão, que trouxe junto o Tão Gomes Pinto. Com todos esses nomes, passamos a ser referência no esporte”, relembra Vital Bataglia.
O Notícias Populares dedicava pelo menos três páginas de cada edição ao esporte. Sete pessoas eram responsáveis pelo trabalho, em uma redação que tinha quase cem profissionais. Com o golpe militar e uma censura ferrenha, o projeto do Notícias Populares acabou afundando, especialmente para os que trabalhavam na seção de esportes: “A censura implicava também na não realização das eleições e o jornal que havia sido criado para alavancar uma candidatura política, ficou sem propósito, pelo menos para os grandes profissionais que trabalhavam ali. A maioria foi para o Jornal da Tarde e, logo depois, para a revista Veja. O que deixou todo esse grupo de jornalistas mais triste foi saber que o trabalho desenvolvido por um time de primeira linha acabara e, de repente, O NP virou jornal do bebê diabo”.

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