segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A memória olímpica brasileira em boas mãos

Katia Rubio
Ela pode ser considerada “camisa 10” quando o assunto é psicologia no esporte. Seu nome é Katia Rubio, Dra. Katia Rubio...E se o assunto for esporte olímpico, o título de doutora é pouco. Ela acaba de retornar da Europa, onde participou de um congresso e aproveitou para gravar mais algumas entrevistas com personagens olímpicos para o projeto fantástico que coordena nos laboratórios da Escola de Educação Física e Esporte, da Universidade de São Paulo (USP). De quebra, tem mais um livro que acaba de escrever e está sendo lançado. O artigo abaixo está postado em seu blog http://blog.cev.org.br/katiarubio/ , que o Literatura na Arquibancada recomenda.

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As aventuras de uma pesquisadora olímpica
Por muito tempo a representação social que se tem de ciência me fez crer que ser pesquisadora fosse ficar dentro de laboratórios, manipulando tubos de ensaio, usando microscópios, descobrindo coisas que apenas seres iluminados são capazes de reconhecer e encontrar.
Foram necessários muitos anos, e bons professores, para eu conhecer a pesquisa social e saber que se pode construir conhecimento de maneira bastante distinta dessa. Nessa forma de se fazer pesquisa não existe, de imediato, um distanciamento entre aquilo que procuro e eu mesma. Isso parece meio esquisito, principalmente depois de passarmos tanto tempo ouvindo a máxima de que ciência se produz se se mantiver distância pessoal daquilo que se pesquisa. Mas, com o passar do tempo é possível observar que é justamente a proximidade com nosso objeto de pesquisa que nos proporciona a humanização da ciência. Fantástico saber que mais do que uma teoria é exatamente essa proximidade que nos move quando estamos “no campo”. Por que não dizer que humanização envolve paixão, isso mesmo, emoção, afetividade. E a medida que o tempo passa também descubro que os melhores textos que leio são aqueles em que os autores são realmente enamorados do que fazem.
Não bastasse isso na pesquisa social somos ainda obrigados a exercitar uma certa porção detetivesca, além de termos que desenvolver a certeza de que certo é a incerteza de não sabermos ao certo o que encontraremos quando estivermos diante daquilo que queremos observar. Ok, posso explicar melhor. Trabalhar, por exemplo, com histórias de vida significa estar sempre pronta a ouvir algo novo, inesperado e que, mesmo não previsto nas minhas perguntas iniciais, ali pode estar a deixa para uma ótima nova pesquisa. Como cantou a Marina Lima, “dentro de cada um, tem mais mistérios do que pensa o outro…”
Embora já trabalhe com histórias de vida há mais de 13 anos essa forma de fazer pesquisa continua a me encantar pela arte do encontro. O não saber e o inusitado são meus companheiros tão constantes quanto alguns membros do grupo de estudo. Isso quer dizer que a cada entrevista o encontro com algo inesperado pode acontecer, seja na forma da abordagem do sujeito, ou mesmo nas memórias que são relatadas. Assim como são aqueles que se aproximam desejando participar das reuniões de trabalho seja, ou não, para depois fazer mestrado ou doutorado. Já perdi a conta de quantos vieram e se foram, mas, assim como os sujeitos da pesquisa, cada um com seu estilo, à sua maneira, deixou uma contribuição, sendo difícil precisar de quem exatamente foi uma idéia. Por isso não canso de repetir… escrevam! As palavras que só são ditas são como o ar que respiramos: tão necessárias, mas se perdem na próxima inspiração.
Algumas entrevistas são verdadeiros prêmios, seja pela dificuldade de consegui-las, pelo teor de seu conteúdo, pela trajetória singular do narrador, pelo estilo da narração ou ainda pela possibilidade de me fazer pensar em algo que eu ainda não tinha visto em qualquer outra entrevista. Depois do texto pronto, apenas quem acompanhou a pesquisa tem idéia do que é o making off de um projeto que envolve mais de um milhar de pessoas.
Meu atual projeto de pesquisa compreende todos os atletas brasileiros que foram a Jogos Olímpicos desde a primeira participação brasileira, ou seja, 1920. De fato ele acumula experiência e dados de outros projetos e remota 10 anos de trabalho contínuo. Não há limites para se chegar a algum atleta que em qualquer modalidade tenha realizado essa façanha. E assim, graças à Fapesp e ao CNPq, eu cruzei o Brasil de ponta a ponta. Já são mais de 500 entrevistas com diferentes gerações olímpicas que somam centenas de horas de memórias emocionadas registradas em vídeo, inclusive de alguns atletas que já morreram.
E quanto mais histórias eu ouço, mais eu entendo as mazelas do esporte olímpico brasileiro em suas diferentes modalidades. Seja do ponto de vista da formação da identidade, da transição de carreira, das políticas públicas, da dor, do caráter das instituições, dos dirigentes, das forças que gravitam em torno do cenário e do circo que se monta a cada período de treinos, concentração ou competição. Entendo mais do que nunca o que é ser atleta olímpico no Brasil, no presente e o que foi no passado porque os atletas me contam sobre suas conquistas. Além disso contam também as mazelas do que é querer ser o melhor, mas sem ter as mesmas condições que os melhores têm e, de repente, encontrar as forças ou bases para poder se surpreender e aos outros também.
Escrevo esse texto em Valkenswaard, na Holanda, após duas ótimas entrevistas: Bernardo Alves e Rodrigo Pessoa. Eles estão por aqui concentrados para os Jogos Panamericanos de Guadalajara e eu aproveitei um congresso na Alemanha para vir até eles. Persigo Rodrigo desde 2004. Uso o termo perseguir porque ele é um dos exemplos de que não bastam todos os recursos materiais para se fazer uma boa pesquisa social. É preciso persistência, paciência e, às vezes, um pouco de sorte. Não dimensionei na previsão de custos as viagens internacionais da minha pesquisa porque não sabia ao certo quantos seriam os atletas a morar fora do país, mas ao longo dos últimos 20 meses descobri que esse número é superior ao que imaginava. A sistemática adotada então foi cercá-los (sempre que possível) quando de sua visita ao Brasil ou, como dessa vez, fazer uma busca apurada aproveitando uma viagem marcada por outro motivo. Pois bem. Alguns chamam isso de maximizar custos. Eu diria que é mais um desafio ao pesquisador: aprender a fazer previsões orçamentárias para o projeto não acabar antes de ficar pronto por falta de verba. E como projeto não é como obra para a Copa… se o dinheiro acabar, não há o que fazer. E não adianta deixar para o final porque licitação, em nosso caso, só funciona para compras acima de 8 mil reais. O crime não compensa, definitivamente. Ou seja, se não viesse para esse congresso teria perdido mais uma oportunidade de conseguir a entrevista com o Rodrigo, e também com o Bernardo, que atualmente mora na Bélgica. São as sortes do caminho.
Chegar a Valkenswaard foi uma aventura possível graças ao convite dos organizadores da Conferência Play the Game, que ocorreu em Colônia, na Alemanha, e a hospitalidade infinita de Maggy e Roland Renson, que me hospedaram em Leuven, na Bélgica, e junto comigo esperaram pacientemente os dias passarem com a resposta de onde seria a concentração da equipe de hipismo para que eu pudesse fazer as entrevistas. O outono é minha estação do ano preferida no Brasil, mas estar esses dias em Leuven observando o avermelhar das árvores, o amarelar da grama, os cogumelos brotarem no quintal e a temperatura cair foi mais do que recompensador. Foi um dos momentos de prazer que a pesquisa reserva.
Lembrei muito nesses dias da minha querida Ana Mesquita, que por duas vezes fez o Canal da Mancha e na segunda bateu o recorde da travessia, recorde esse mantido até hoje. No seu livro A Travessura do Canal da Mancha ela conta da ansiedade que era passar cada dia esperando pela melhor maré, pelas condições do tempo mais adequadas, e que sem essa paciência todo o projeto podia ser perdido. Não bastava apenas sua tenacidade hercúlea para cumprir uma tarefa digna de uma heroína… era preciso uma paciência odisséica para não se perder no canto de uma sereia ou num debate ingênuo com um ciclope. Vento, maré, condições pessoais e desejo institucional precisavam estar perfeitamente casados para que tanto esforço não se perdesse.
Claro que me lembrei muito também dos alpinistas que vão ao Aconcagua ou ao Everest em busca do cume. Quantos meses são gastos para que a expedição possa ocorrer, quantos detalhes são necessários do ponto de vista logístico e operacional para que a montanha possa ser conquistada. E como dizem os alpinistas: a montanha tem a sua própria vontade e cabe ao alpinista respeitá-la e aproveitar quando seus humores permitem a escalada.
Dessa vez tive sorte: vim, esperei, entrevistei. Mas, há também muitas viagens que são realizadas que nos deixam um gosto amargo de tempo perdido, seja pela ausência do entrevistado, pelo imprevisto que faz um atraso se tornar ausência ou a ainda a falta de entendimento do que a pesquisa se propõe.
Volto para casa com a sensação de alma cheia. A conferência foi uma oportunidade rara de encontrar pessoas interessantes, de pensar em projetos futuros e organizar coisas no Brasil. E as entrevistas… bem, essas poderão ser lidas na terceira edição dos Heróis Olímpicos Brasileiros e na Enciclopédia Olímpica Brasileira prevista para 2015. Aguardem.

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Katia Rubio é professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995).
Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.



Lançamento/Serviço:

"OS ESTUDOS OLÍMPICOS E O OLIMPISMO NOS CENÁRIOS BRASILEIRO E INTERNACIONAL" de Katia Rubio e Roberto Mesquita.
Dia 03/11, às 20:00hs
Local:
Sala João Neves da Fontoura (Plenarinho) da Assembleia Legislativa –
Praça Marechal Deodoro, número 101 - Bairro Centro - Porto Alegre/RS.

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