sexta-feira, 21 de outubro de 2011

JT - Um divisor de águas no jornalismo esportivo

Apesar de a ditadura militar ainda engatinhar, criar um jornal com a seção de Esportes dedicada à contestação da cobertura jornalística praticada no mundo do futebol desde os tempos de Charles Miller, poderia representar pura provocação. Se os militares aplicaram um golpe, o surgimento do caderno de Esportes do Jornal da Tarde foi uma verdadeira revolução no jornalismo esportivo brasileiro. O JT, como ficou conhecido, começou a circular no dia 4 de janeiro de 1966 sob a direção de Mino Carta, e tinha o objetivo de informar muito, mas com a maior leveza editorial. A seção de Esportes, comandada pelos jornalistas Tão Gomes Pinto, Sérgio Pompeu e Hamílton Almeida, tinha como missão romper completamente com a linha editorial praticada em décadas anteriores pela maioria dos jornais esportivos do Brasil. A primeira mudança era acabar definitivamente com o duplo emprego. Quem quisesse ser repórter do JT teria de acostumar-se às longas jornadas de trabalho, que chegavam a ultrapassar as 24 horas do dia. Com a exigência, vieram também salários melhores, incomparáveis com os do mercado da época.

O JT tinha obsessão pela notícia, pelo furo, mas com o cuidado extremo do cultivo do texto. Trabalhava-se muito atrás de manchetes e assuntos quentes, que deveriam estar nas bancas a partir das quinze horas. A primeira dessas manchetes foi um furo nacional: “Saí da Quatro Rodas para o recém-fundado JT, cuja primeira manchete foi de matéria do Hamilton Almeida Filho, o Haf. Analisando umas fotos do vestiário do Santos FC, o arguto Haf notou algo no anular direito de Pelé. Mandou ampliar a foto, pegou uma lupa, descobriu: uma aliança. Pelé noivo? Saiu a campo, descobriu que sim. Só que a noiva tinha irmã gêmea ou quase gêmea de tão parecida, e o fotógrafo que a “campanou” fotografou a irmã da noiva. Tudo bem. Nem o Pelé talvez tenha desconfiado. E a manchete do nº 1 do JT foi, em 4 de janeiro de 1966, ‘Pelé casa no carnaval’”, relembra Mylton Severiano da Silva, o “Miltainho”.

A segunda grande manchete surgiu em meados de janeiro, com a provável contratação do astro Garrincha, pelo Corinthians. Provável, porque a contratação ainda dependeria da realização de exames médicos pelo clube. Vital Bataglia, conhecido pelo apelido de “Italianinho” e pelo estilo investigativo das reportagens que produzia, foi escalado para a cobertura. Na manhã do exame, por volta das nove horas, Bataglia e seu fotógrafo Amílton Vieira produziram uma foto de Garrincha com a camisa do Corinthians. Como o jornal deveria estar nas bancas às quinze horas, todas as matérias deveriam estar fechadas até às onze da manhã. Mesmo sem saber do resultado do exame médico, o JT publicou a foto com a reportagem histórica: “Foi nossa primeira grande reportagem de impacto, um recorde de vendas do jornal... Pela primeira vez, usamos uma foto de um jogador de futebol de página inteira. O título do Mino Carta foi de uma felicidade incrível: ‘Veja Mané Corintiano’. Minha pergunta é simples: com esta foto e este título em um jornal de grande penetração, como é que o Corinthians não iria contratar o Garrincha? Poderia estar até de muleta. Naquele dia, Mino Carta sentiu o que ele tinha na mão. O JT, que costumava tirar 70 mil, 80 mil exemplares por dia, esgotou 130 mil exemplares”, relembra Vital Bataglia. Na época, disse o jornalista, não poderia imaginar que o JT estivesse fazendo mais do que uma tiragem espetacular, mas provocando uma profunda mudança nos costumes da imprensa esportiva: “Qualquer jogador que chegasse para um grande clube paulista tinha de ser levado primeiro para a redação de A Gazeta Esportiva, para ali vestir a camisa do novo clube. A foto só saía naquele jornal. Quebramos uma tradição de dezenas de anos de rotina no futebol e na imprensa esportiva”.

José Maria de Aquino
Quebrar regras, subverter os padrões. Quem quisesse fazer parte desse time teria de se acostumar com essas rotinas. Foi assim que o advogado José Maria de Aquino, decepcionado com o universo das injustiças, resolveu trocar o Direito pela vaga de repórter do JT. A oportunidade surgiu pelas influências de seu irmão, Paulo de Aquino, veterano da imprensa, e de seu cunhado, Luís Carlos Secco, que já trabalhava na redação do JT. A primeira grande batalha de Zé Maria na nova função foi nada menos do que a cobertura de toda a preparação para o casamento de Pelé, no carnaval de 1966. Durante mais de uma semana, a luta pela exclusividade da notícia fez Zé Maria começar a descobrir que se quisesse superar a concorrência e vencer no novo jornal – só do grupo Estado, eram quatorze profissionais escalados para a cobertura do casamento do Rei −, teria de ser muito mais do que um simples repórter: “Eu, por exemplo, cheguei a namorar uma empregada que ia constantemente visitar a costureira da noiva.”

Em pouco tempo, a audácia, aliada ao talento de sua equipe, fez do JT uma referência no jornalismo esportivo. Passou a faturar praticamente todos os grandes prêmios jornalísticos destinados às melhores coberturas esportivas da época. É nesse período que aparecem os nomes de Roberto Avalone, Hedyl Valle Jr., Michel Laurence, Mário Marinho e tantos outros craques. Não importava o nome, quem estivesse na rua atrás de notícia tinha consciência de que para se destacar entre tantas feras teria de trazer para a redação grandes reportagens.

Foi assim que quase todos os repórteres do JT começaram a ser temidos por jogadores, técnicos e dirigentes esportivos. Nem mesmo os árbitros de futebol escapavam da fúria implacável da investigação. “Juiz, ladrão e herói”, por exemplo, deu, em 1968, aos jornalistas Vital Bataglia e Hedyl Valle Jr., o prêmio Esso – o Oscar do Jornalismo brasileiro – pela série de sete reportagens produzidas durante meses e que detalhava, passo a passo, como agia um juiz ladrão. Descobriu-se como funcionava o esquema de corrupção do qual participavam o presidente da Federação Paulista de Futebol, João Mendonça Falcão; o responsável pela escala de árbitros, João Etzel; e diversos dirigentes, principalmente do interior do estado de São Paulo, curral eleitoral do cartola da Federação. O termo “herói” surgiu devido à coragem do árbitro João Etzel em denunciar o esquema de corrupção existente na arbitragem.

Michel Laurance
No ano seguinte, a reportagem “Jogador de futebol, um escravo”, produzida por Zé Maria de Aquino e Michel Laurence, também foi premiada com o Esso. 

O texto mostrava como os jogadores de futebol eram maltratados e explorados financeiramente pelos dirigentes.

O sucesso tinha um custo. Em pouco tempo, a equipe do JT começou a provocar reações até mesmo entre companheiros de profissão: “Para o pessoal da época, de A Gazeta Esportiva principalmente, estávamos destruindo o futebol, chamavam-nos de revolucionários. 

Muita gente morreu nos acusando de ter destruído o futebol”, afirma Vital Bataglia.

O árbitro João Etzel, na Copa de 1962.
No “caso Etzel”, Bataglia ainda teria pela frente um encontro épico para o jornalismo esportivo. Por causa das acusações de suborno nas arbitragens feitas no JT, a recém-criada TV Bandeirantes resolveu fazer uma mesa-redonda para discutir o tema com vários craques da mídia esportiva, como Fernando Solera, Walter Abraão, Geraldo José de Almeida, Flávio Iazetti, Oldemário Touguinhó, Geraldo Bretas e, pela primeira vez, com o principal acusado: João Etzel.
Evidente que Vital Bataglia estaria presente, e logo no início percebeu que o encontro não acabaria bem. Fernando Solera, responsável pela condução do programa, apresentou aos telespectadores as razões para que Etzel fosse entrevistado, e de cara perguntou se o árbitro confirmava as acusações que vinha sofrendo na imprensa. A resposta foi histórica e causou constrangimento geral entre os entrevistadores: “Etzel começou com o seguinte discurso: ‘Eu conjuguei o verbo roubar em todas as pessoas durante o meu tempo de arbitragem’. Aí, em cada pessoa verbal, apontava o dedo em direção de cada jornalista integrante da mesa: ‘Eu roubei, tu roubaste, ele roubou, nós roubamos, vós roubastes (o jornalista apontado quase caiu da cadeira), eles roubaram’”. Nesse momento, lembra Bataglia, “o narrador Geraldo José de Almeida pegou o microfone e aos berros tentou acalmar o árbitro: ‘Pelo amor de Deus, não vamos jogar lama no futebol canarinho do Brasil’, disse, e no exato momento em que o narrador terminou de falar, o programa saiu do ar.

Geraldo José de Almeida
Bataglia sentia-se um vencedor, mas sabia que o árbitro teria muito mais a revelar. Na saída da emissora, percebeu que o narrador Walter Abraão estava dando carona para Etzel: “Não quis nem saber, entrei e fui junto. Etzel morava no bairro do Ipiranga. Durante o caminho ele confirmou vários detalhes de subornos que havíamos publicado e ainda revelou outros. No dia seguinte escrevi tudo que o Etzel havia dito em uma lauda e levei para o Walter Abraão confirmar tudo. Pedi, inclusive, que assinasse as laudas. Walter assinou e com isso me livrei de mais alguns processos que já tinha acumulado na carreira”.

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