sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A HORA DO FUTEBOL


Não há dúvida de que a crônica brasileira pode ser dividida entre antes e depois do surgimento de João do Rio, pseudônimo de João Paulo Alberto Coelho Barreto. Carioca, nascido no dia 5 de agosto de 1881, o Rio de Janeiro era tudo em seu mundo literário. João do Rio conseguiu como ninguém retratar a “alma” do povo carioca, nas duas primeiras décadas do século 20. É autor de diversos livros, entre os quais A alma encantadora das ruas, Cinematógrafo e Vida vertiginosa. Na crônica abaixo, vê-se um João atento para um tema que se tornaria a maior paixão do povo brasileiro: o futebol. Como faz falta na crônica esportiva contemporânea, o olhar e o talento de um João do Rio...

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João do Rio
Charge: J. Carlos
Revista Careta, 1910

É o novo ground. O Clube de Regatas do Flamengo tem, há 20 anos pelo menos, uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e a saúde da alma. Fazer esporte há 20 anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos meninos arranjava um haltere. Estava perdido. Rapaz sem pince-nez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era homem estragado.
E o Clube de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos esportes. O Flamengo era o parapeito sobre o mar. A sede do clube estava a dois passos da casa de Júlio Furtado, que protetoramente amparava o delírio muscular da rapaziada. As pessoas graves olhavam “aquilo” a princípio com susto. O povo encheu-se de simpatia. E os rapazes passavam, de calção e camisa de meia, dentro do mar a manhã inteira e a noite inteira.
Então, de repente, veio outro clube, depois mais outro, enfim uma porção. O Boqueirão, o Misericórdia, Botafogo, Icaraí estavam cheios de centros de regatas. Rapazes discutiam muque em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a musculatura herculeana dos braços. Era o delírio do rowing, era a paixão dos esportes. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos. Faltava apenas a sagração de um poeta. Olavo Bilac escreveu a sua celebrada Salamina.
- Rapazes, foi assim que os gregos venceram em Salamina! Depois disso, há 16 anos, o Rio compreendeu definitivamente a necessidade dos exercícios, e o entusiasmo pelo futebol, pelo tênis, por todos os outros jogos, sem diminuir o da natação e das regatas, é o único entusiasmo latente do carioca.
Rendamos homenagem às Regatas do Flamengo!
O meu velho amigo, fraco e pálido, falava com ardor. Interrompeu-se para tossir. Continuou:
- Pois é este clube que inaugura hoje o seu campo de jogos. Haverá acontecimento maior? O Rio estará todo inteiro ali...Engasgou-se. O automóvel que passara a correr pelo palácio de José Carlos Rodrigues, onde se realizava a primeira recepção de inverno do ilustre jornalista, estacara. Estávamos à porta do novo campo de jogos. E o meu velho amigo precipita-se. A custo acompanhei-o por entre a multidão e, imprensado, quase esmagado, icei-me à arquibancada. Mas o aspecto era tal na sua duplicidade, que logo eu não soube se devia olhar o jogo do campo em que Galo triunfava, ou se devia comover-me diante do frenesi romano da multidão.
Não! Há de fato uma coisa séria para o carioca – o futebol! Tenho assistido a meetings colossais em diversos países, mergulhei no povo de diversos países, nessas grandes festas de saúde, de força e de ar. Mas absolutamente nunca eu vi o fogo, o entusiasmo, a ebriez da multidão assim. Só pensando em antigas leituras, só recordando o Coliseu de Roma e o Hipódromo de Bizâncio.
O campo do Flamengo é enorme. Da arquibancada eu via o outro lado, o das gerais, apinhado de gente, a gritar, a mover-se a sacudir os chapéus. Essa gente subia para a esquerda, pedreira acima, enegrecendo a rocha viva. Embaixo a mesma massa compacta. E a arquibancada – o lugar dos patrícios no circo romano, era uma colossal, formidável corbelha de belezas vivas, de meninas que pareciam querer atirar-se e gritavam o nome dos jogadores, de senhoras pálidas de entusiasmo, entre cavalheiros como tontos de perfume e também de entusiasmo.
(...)
Os gritos, as exclamações cruzavam-se numa balbúrdia. Os jogadores destacavam-se mais na luz do ocaso. E de todos os lados subia o clamor da turba, um clamor de circo romano, um clamor de Hipódromo no tempo em que era basilissa Teodora, a maravilhosa....
Nervoso, agitado, sem querer, ia também gritar por Galo, que vencia e que eu via pela primeira vez. Mas o delírio chegara ao auge. O meu velho amigo dizia, quase desmaiado:
- Venceu o Flamengo por um escore de 4 x 1.
À porta, 500 automóveis buzinavam, bufavam, sirenavam. E as duas portas do campo golfavam para frente do Guanabara mais de seis mil pessoas arrasadas pela emoção paroxismada do futebol.


*
Nota do autor, Luís Martins:
excluída parte mundana do texto (relação das senhoras e senhoritas presentes ao espetáculo).

Crônica:
A hora do football, publicada no livro Pall-Mall Rio, o inverno carioca de 1916 (lançado em 1917).

Extraído do livro:
João do Rio – Uma Antologia (seleção e apresentação de Luís Martins) .
José Olympio Editora. 3ª edição/2005

Recomendo a leitura do link abaixo sobre a evolução do gênero Crônica.



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