sábado, 22 de outubro de 2011

Gabriel García Márquez e o Futebol

Gabriel García Márquez
Felizmente, um dos maiores escritores da atualidade, o colombiano Gabriel García Márquez, deixou entre milhares de seus escritos, vários textos sobre o futebol e também alguns sobre um astro do boxe mundial, Joe Louis. Literatura na Arquibancada, publica abaixo uma série especial sobre esses textos. Na primeira cronica, Gabo, como os amigos o chamam, revela seu interesse pelo futebol, em especial, por um astro do futebol brasileiro que acabara de se transferir para o futebol colombiano. Heleno de Freitas, craque botafoguense, atraía de maneira especial o famoso escritor colombiano, Prêmio Nobel de Literatura, em 1982. No final, links com outras reflexões de "Gabo" no mundo dos esportes.

Heleno de Freitas
O doutor De Freitas
(crônica extraída do livro  Obra jornalística - Vol. 1 - Textos caribenhos,Editora Record, 2006, pgs. 238 e 239)

No primeiro dia do mês em curso escreveu-se nesta seção uma crônica sobre abril. Esperava este jornalista que no transcurso desses trinta dias acontecessem algumas coisas interessantes, entre elas, que Pafúncio se fartasse com um pratarraz de feijão com arroz no boteco do Perico; que Clark conseguisse seduzir a Srta. Lane sem necessidade de transformar-se em Super-Homem e que Tarzan deixasse de praticar suas bobagens atleticamente selvagens.

Parece que no que já transcorreu do mês nada disso aconteceu, como não acontecerá no que falta dele, segundo se pode suspeitar. Quanto ao casamento de Ingrid Bergman, as últimas notícias dão a entender que o diretor Rosselini ainda espera saber com quem se pareça a criança antes de lançar ao pescoço a coleira conjugal. Em síntese, a única coisa que parece ter dado certo naquela crônica de saudação aprilina foi a comprovada reivindicação do Dr. Heleno de Freitas no gramado do campeonato nacional. Um acordo que poderia encher de orgulho o próprio dr. Gallup, não tanto por sua precisão, mas pela circunstância especial de que quem revelou a notícia a respeito do jogador brasileiro jamais se sentou nas gerais de um estádio.

Heleno de Freitas com a camisa do Atlético Barranquilla

Tenho o costume – e isso pode ser uma das formas da inclinação pelo esporte – de observar, nas tardes dos domingos, o rosto daqueles que deixam o estádio. A tarde em que o dr. De Freitas apresentou-se pela primeira vez, é muito possível que, se ele tivesse a capacidade de entender certas interjeições castelhanas, teria regressado ao Brasil no primeiro avião. O tempo passou e no domingo seguinte, depois de treinar incansavelmente com os companheiros de seu time, o dr. De Freitas deve ter chegado à conclusão de que, mais do que tais práticas esportivas, lhe seria melhor uma prática metódica e consciente da gramática castelhana. Foi assim que pôde realizar bem melhor sua segunda apresentação, mostrando-se já capaz de compreender que a gritaria vinda das tribunas não era de aprovação, mas de descontentamento. E já em sua nova apresentação em Barranquilla, de volta de Cáli, o dr. De Freitas mostrava-se capaz de conjugar perfeitamente os tempos simples do verbo “fazer”. “Farei milagres”, declarou à imprensa, ao dar-se conta de que o público queria exatamente isso. Que fizesse milagres. E, segundo me contam alguns que estiveram nesse dia no Estádio Municipal, o que o brasileiro fez foi uma milagrosa atuação. Praticamente, disseram, o dr. De Freitas – que deve ser um bom advogado – redigiu nesta tarde, com os pés, memoriais e sentenças judiciais não apenas em português e espanhol alternadamente, mas também citações de Justiniano no mais puro latim clássico.

Agora ninguém mais discute que abril foi o mês definitivo para o dr. De Freitas, e isso porque ele aprendeu a traduzir para o espanhol toda essa gíria esportiva que tanto prestígio lhe deu em seu país de origem. Como diz um grande contista nosso: “O importante é a gramática.”

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Texto publicado em abril de 1950, no jornal El Heraldo, de Barranquilla.

Gabriel García Márquez teve seu primeiro texto publicado no jornal El Universal, de Cartagena, no dia 21 de maio de 1948. Ali começava uma longa e brilhante trajetória jornalística do autor. Ficou dois anos escrevendo para esse periódico até se transferir, em 1950, para a cidade de Barranquilla, onde passou a escrever para o diário El Heraldo.

Gabriel García Márquez, também conhecido por Gabo, nasceu em 1928, na cidade de Aracataca, Colômbia. Viveu durante vários anos na França, México e Espanha. Na Itália estudou cinema. Romancista reconhecido em qualquer ponto do universo, Gabo recebeu, em 1982, o Prêmio Nobel da Literatura. Em 1967, é publicada sua obra prima “Cem anos de solidão”.

Algumas das obras mais importantes de Gabriel Gárcia Márquez:
Romances, contos e crônicas:
Folhas mortas
Ninguém escreve ao coronel
Cem anos de solidão
Doze contos peregrinos
O general em seu labirinto
O amor nos tempos do cólera
A aventura de Miguel Littin clandestino no Chile
Cheiro de Goiaba: Conversas com Plinio Apuleyo Mendoza
Como Contar um Conto
Crônica de uma Morte Anunciada
Do Amor e Outros Demônios
O Enterro do Diabo: A Revoada
Entre Amigos
Os Funerais da Mamãe Grande
A Má Hora (o Veneno da Madrugada)
A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada
Olhos de Cão Azul
O Outono do Patriarca
Relato de um Náufrago
Oficina de Roteiro de Gabriel García Márquez: Me Alugo Para Sonhar
Notícia de um seqüestro
Viver para contar (memórias)
Memórias de minhas putas tristes
Obra jornalística - Vol. 1 - Textos caribenhos
Obra jornalística - Vol. 2 - Textos andinos.
Obra jornalística - Vol. 3 - Da Europa e da América, 1955 1960
Obra jornalística - Vol. 4 - Reportagens políticas
Obra jornalística - Vol. 5 - Crônicas


Infanto-juvenis:
A última viagem do navio fantasma
Maria dos prazeres
A sesta da terça-feira
A luz é como a água
Um senhor muito velho com umas asas enormes
O verão feliz da senhora Forbes


Acesse os links abaixo para conferir textos do autor sobre o mundo dos esportes:



 (parte2)



 

2 comentários:

  1. Um general do bem, que invadiu os nossos labirintos...
    E invadirá, mesmo que a solidão dure mais de cem anos.
    Que conhece as obras, entenderá.
    Beijo querido.

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  2. Não conhecia esse lado esportivo do Gabo.

    Aliás, há tempos estou me devendo conhecer melhor sua obra. Quem sabe esse post não ajuda no ponta pé inicial...rsrsrs

    Abs!

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