sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Gabriel Gárcia Márquez e Joe Louis.



Além das postagens feitas aqui sobre a paixão de Gabriel Gárcia Márquez pelo futebol, abaixo um texto em que o escritor colombiano revela seu gosto pelo boxe. Gabriel Gárcia Márquez, com a maestria de sempre, transforma a queda de um mito do boxe, Joe Louis, em uma crônica de primeira.

Joe Louis

Para todos que tinham Joe Louis como um dos mais atraentes mitos da infância, o melancólico fim de comédia que está vivendo o Demolidor de Detroit é quase a derrota de um amável aspecto de nós mesmos.

Ao lado do pastor que por duas vezes anunciou, falsamente, a chegada do lobo e que nos ensinava a não mentir; ao lado dos algaravães que nos arrancariam os olhos se olhássemos além do que nos era permitido, e que nos obrigavam a ser discretos, Joe Louis constituía o formidável mito que nos ensinava, dia após dia, como aspirar ao prêmio da superioridade.

Ele teve, além do mais, a vantagem de sobreviver aos outros. Muito depois de o pastor do lobo ter sido reduzido a uma simples e divertida lição de moral e os algaravães a pacíficos animais de olhos arregalados e bico longo, que cantavam com ritmo e dividiam o dia em espaços iguais, Joe Louis continuava sendo o que sempre fora desde seu primeiro dia. Logo deixaria de ser um mito para transformar-se num objeto de toda a nossa confiança, um animal infalível e metódico, que respondia sempre da mesma maneira, como um relógio faz com a sua corda, sem que uma única vez fosse perturbado seu extraordinário mecanismo de orangotango bem azeitado.


Nós todos percorremos às avessas o caminho de Joe Louis. Primeiro, o conhecemos como uma entidade mitológica surgida da terra, gotejando a substância mineral que dele fazia um ser superior às outras criaturas, movendo-se num mundo onde o real era tudo o que estava em volta de sua força desproporcional, e o irreal ele próprio, movendo-se como uma besta colossal em torno do adversário, que dela só conhecia a cada coice de mula que o aniquilava.

Depois, quando começamos a ler as biografias sintéticas que se publicavam antes de cada encontro, Joe Louis se tornando cada vez mais humano, mas, pela mesma razão, mais inverossímil e fantástico. Antes se aceitava que seu privilegiado organismo de semideus mulato fizesse tombar as muralhas que se interpunham diante dele, exatamente como um Josué armado de instrumentos mais convincentes do que a demolidora trombeta que o guerreiro bíblico soprou diante de Jericó. Pouco depois tornou-se ainda mais inacreditável, e isso quando se soube que todo o seu poderio era o resultado de um regime de vida especial e que seus recursos residiam nos mesmos órgãos com os quais o sapateiro ao lado fazia sapatos e o pedreiro da esquina colocava seu tijolo.

Chegou um instante em que parecia impossível a Joe Louis perder uma só luta. Então houve um intenso trabalho para a imaginação, que nos mostrou um Joe Louis patriarcal, sentado entre os cacos dos seus adversários dando lições de prudência e de força, como um monarca negro cuja soberania não emanava nem de Deus nem do povo, mas da ginástica praticada com uma furiosa determinação.

Mas aconteceu o contrário. Quando o colosso beijou a lona, todo o mundo lhe caiu em cima, num doloroso afã de destruição; e agora todos os principiantes aspiram rematar a sua glória, hoje colocada em leilão público.

Lá embaixo, nos subúrbios da fama onde agora Joe Louis se encontra, todos nós que o tínhamos na conta de um dos mais valiosos mitos de nossa infância temos agora, forçosamente, de sentir algo dessa dor sem medida que deve estar sentido o colosso que, depois de haver aplicado os melhores socos do mundo para poder instalar bares de negros no Harlem e para dividir, aos punhados, dinheiro entre seus companheiros de raça, vem assestando os piores murros e, o que é mais triste, recebendo-os para poder pagar seus impostos.

Joe Louis, em 1948.

Perfil Joe Louis
Joseph Louis Barrow (La Fayette, Alabama, 13 de maio de 1914 – Las Vegas, Nevada, 12 de abril de 1981). É considerado um dos maiores pugilistas de todos os tempo. Louis manteve o título dos pesos pesados durante doze anos (1937-1948), defendendo-o em 26 lutas. Uma de suas lutas que marcou a sua carreira foi contra o alemão Max Schmelling, em 1938. Essa luta foi uma revanche de dois anos antes, quando Louis sofreu uma das piores derrotas de sua carreira para ele. Ganhou também contornos políticos depois que Hitler utilizou a vitória de Schmelling como propaganda do nazismo, provando que a raça ariana era superior. No fim, Louis venceu e manteve o seu título de campeão mundial.
Deixou os combates por dois anos. Quando voltou a calçar as luvas, Louis fez dez combates na tentativa de reconquistar o título mundial. O lutador conseguiu oito vitórias, mas perdeu para Ezzard Charles, em 1950, e anunciou que não lutaria mais. No ano seguinte, porém, enfrentou Rocky Marciano e foi nocauteado de novo. "Sou seu fã", disse Marciano, após o combate.O motivo pelo qual Joe lutou com Rocky Marciano foi o fato de estar tendo problemas financeiros em consequência de um golpe bancário aplicado pelo sócio de seu empresário.


Joe Louis, em 1973

Nos anos seguintes, Joe Louis virou árbitro de lutas e consumiu muita
cocaína, tendo sido hospitalizado para tratamento. Ele também esteve internado para tratamento de distúrbios nervosos. Começou a ter alucinações de que a Máfia estaria tentando matá-lo com gás venenoso. Certa vez, ao entrar num quarto de hotel, ele tapou todas as entradas de ar com maionese. Chegava a montar uma barraca em cima da cama para se sentir mais protegido.

Morreu em 12 de abril de 1981, aos 66 anos, de ataque cardíaco.


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