domingo, 23 de outubro de 2011

Gabriel Gárcia Máquez e o futebol (parte 2)



Um ano depois de estar jogando na Colômbia, o craque brasileiro, Heleno de Freitas, é alvo do ainda cronista Gabriel Gárcia Márquez. A pena ferina, não perdoa o brasileiro.

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Heleno de ponta a ponta
(crônica extraída do livro Obra jornalística - Vol. 1 - Textos caribenhos,Editora Record, 2006, pgs. 646 e 647)

Dois domingos atrás o público de Barranquilla foi ao Estádio Municipal com o único objetivo de presenciar a volta do dr. Heleno de Freitas. Tenho a impressão de que, mais que as mãos para aplaudir, a torcida levava as gargantas para apupar. Não seria o mesmo Heleno de dois anos atrás o que naquela tarde iria aparecer no gramado. Era um homem completamente diferente, dois anos mais velho, já passado pelo torno de uma consciente e multitudinária análise, cujos resultados ainda são desconhecidos, o que impediu a todos que entendem de futebol atrever-se a dizer se Heleno é um gênio ou um palhaço sem o perigo de ter de se retratar no domingo seguinte.

Heleno de Feitas com a camisa do
Atlético Barranquilla, da Colômbia.

Os dirigentes do Junior mais uma vez trouxeram o advogado brasileiro aos gramados colombianos, e com isso demonstram possuir um inteligente conhecimento da psicologia coletiva. Um público que paga para ver um espetáculo de qualidade é, de certa forma, um público sem esperança, ao qual nenhuma atração promete o futuro. No entanto, sendo Heleno o que está na proa, todo torcedor vai ao estádio como quem leva no bolso um bilhete inteiro de loteria. Porque com Heleno não existe meio-termo; ou, pelo menos, o público não quer isso dele. Se se comporta como charlatão, o público sabe que comprou um bilhete em branco que lhe dá a oportunidade de vaiar. Em nenhum caso uma partida da qual participe Heleno tem probabilidade de se transformar num logro, porque vaiar, da mesma maneira como aplaudir, é uma forma coletiva de reconhecer publicamente um fato.

A torcida deve ter observado, através das fotografias que foram publicadas na imprensa local, que Heleno parecia não ter feito outra coisa no Rio de Janeiro senão engordar. De volta à capital brasileira, onde foi recebido como o personagem principal de um filme de bandidos, com revólveres e socos de ida e volta, o “maestr” – ou o palhaço – descuidou-se de seu regime, guardou no armário, juntamente com o calção e demais artefatos do ofício, suas práticas diárias de ginástica sueca, e ficou à espera de que lhe fosse dada uma absolvição, absolvição que chegou de onde ele menos esperava, ou seja, da episcopal equipe de Régulo Matera. Mas então Heleno começara a engordar. E o público de Barranquilla, que percebeu isso desde a sua chegada, rompeu todos os diques para se permitir mais uma vez o prazer de vaiá-lo.

Como, semanas atrás, me arrisquei a dizer, o Junior agora está completo. Quando vencer, será um time admirável, bem-ajustado, com um moral de cimento armado. Se perder – e oxalá isso aconteça poucas vezes - Heleno se tornará mais uma vez o farsante, o bobalhão da pelota. E com isso o público ficará feliz, já que no futebol se segue a regra de que, quando o time ganha, a torcida também ganha, mas quando perde lhe cabe enfrentar sozinho a borrasca da derrota. Neste último caso, a torcida limita-se a pagar as apostas e a dizer – no caso do Junior – que enquanto Heleno de Freitas estiver na Colômbia as listras vermelhas e brancas não terão vez.

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Texto publicado em junho de 1951, no jornal El Heraldo, de Barranquilla.


Gabriel García Márquez teve seu primeiro texto publicado no jornal El Universal, de Cartagena, no dia 21 de maio de 1948. Ali começava uma longa e brilhante trajetória jornalística do autor. Ficou dois anos escrevendo para esse periódico até se transferir, em 1950, para a cidade de Barranquilla, onde passou a escrever para o diário El Heraldo.

Gabriel García Márquez, também conhecido por Gabo, nasceu em 1928, na cidade de Aracataca, Colômbia. Viveu durante vários anos na França, México e Espanha. Na Itália estudou cinema. Romancista reconhecido em qualquer ponto do universo, Gabo recebeu, em 1982, o Prêmio Nobel da Literatura. Em 1967, é publicada sua obra prima “Cem anos de solidão”.

Algumas das obras mais importantes de Gabriel Gárcia Márquez:


Romances, contos e crônicas:
Folhas mortasNinguém escreve ao coronel
Cem anos de solidão
Doze contos peregrinos
O general em seu labirinto
O amor nos tempos do cólera
A aventura de Miguel Littin clandestino no Chile
Cheiro de Goiaba: Conversas com Plinio Apuleyo Mendoza
Como Contar um Conto
Crônica de uma Morte Anunciada
Do Amor e Outros Demônios
O Enterro do Diabo: A Revoada
Entre Amigos
Os Funerais da Mamãe Grande
A Má Hora (o Veneno da Madrugada)
A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada
Olhos de Cão Azul
O Outono do Patriarca
Relato de um Náufrago
Oficina de Roteiro de Gabriel García Márquez: Me Alugo Para Sonhar
Notícia de um seqüestro
Viver para contar (memórias)
Memórias de minhas putas tristes
Obra jornalística - Vol. 1 - Textos caribenhos
Obra jornalística - Vol. 2 - Textos andinos.
Obra jornalística - Vol. 3 - Da Europa e da América, 1955 1960
Obra jornalística - Vol. 4 - Reportagens políticas
Obra jornalística - Vol. 5 - Crônicas
Infanto-juvenis:
A última viagem do navio fantasma
Maria dos prazeres
A sesta da terça-feira
A luz é como a água
Um senhor muito velho com umas asas enormes
O verão feliz da senhora Forbes

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