quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Futebol e o Jogo de Bicho


Cacalo Fernandes é autor de um livro repleto de crônicas saborosas sobre o futebol. Literatura na Arquibancada destaca uma história curiosa para você.



Crônica: Futebol e jogo de bicho

Futebol e jogo de bicho, por sinal, nasceram quase juntos no Brasil, com a implantação por aqui do regime republicano. O futebol chegou através de Charles Miller e Oscar Cox, filhos de ingleses que apareceram com as primeiras bolas de futebol no final do século 19, depois de andanças pela Inglaterra.

Já o jogo de bicho não precisou de nenhuma semente estrangeira para nascer. Aliás, essa loteria surgiu de um tal de jogo de flores, ideia de um sujeito chamado Manoel Ismael Zevada, que implantou o negócio num sobrado da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. O governo Floriano Peixoto tapou os olhos para a jogatina, entendendo que, “enquanto se jogava, não se conspirava”.

Mas a história das flores não pegou bem. Zevada só começou a ganhar dinheiro quando se associou ao barro de Drummond, um amigo de D. Pedro II, que criou o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro em sua propriedade na Vila Isabel. Nos tempos do Império, o barão deixava todo mundo entrar de graça no Zoológico, mas ganhava uma bela grana de subvenção imperial.

Barão de Drummond
 Com a República, porém, a mina de ouro do barão de Drummond foi para o espaço. Quando o homem estava entrando em parafuso, chegou o senhor Zevada, que propôs uma loteria para segurar as pontas do Jardim Zoológico. E, para sensibilizar o futuro parceiro, trocou as flores pelos bichos. Estava nascendo o jogo do bicho no Brasil.

O negócio funcionava assim: cada sujeito que pusesse os pés no Zoológico concorria a um prêmio 20 vezes maior que o valor do bilhete. O barão e Zevada colocaram um painel na frente do Zoológico, onde seria colocado o desenho de um dos 25 bichos possíveis no jogo.

Bilhete de entrada do Jardim Zoológico de Vila Isabel,
datado de 1895, com o qual se fazia o jogo do bicho.
Reprodução fotográfica MIS.
O painel era fechado por um tapa-vista, que só era retirado no final da tarde, diante de uma ansiosa torcida. Quem tivesse no bilhete o mesmo desenho do painel levava a bolada. Até quem nunca pôde ver um bicho embalsamado pela frente passou a freqüentar o Zoológico.

O jogo de bicho foi um sucesso tão grande que não havia mais bondes para levar todos os interessados para a jogatina. Um ano depois, com todas as classes sociais freqüentando o Zoológico do barão, a polícia resolveu cair de pau. O jogo do bicho passava a ser encarado como qualquer outro jogo de azar, como briga de galo, cartas, dados etc. Legal, só os jogos que exigissem esforço intelectual ou físico do jogador, como o futebol.

O barão de Drummond, apesar da proibição, não quis abrir mão do negócio e partiu para a clandestinidade, montando um escritório no Rio de Janeiro. Como hoje, foram montadas bancas, em que os vendedores recebiam porcentagens. E o jogo do bicho continuou a seguir viagem. O barão ficou envolvido com bichos até o final da vida, em 1897.

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Para conhecer outras histórias deliciosas de Cacalo Fernandes,
acessar o blog http://segredosdabola.wordpress.com/

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