sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A eterna polêmica



Vale a pena ler a crítica a respeito do livro Os 100 melhores jogadores brasileiros de todos os tempos feita pelo respeitadíssimo jornalista Flávio Araújo, veterano do rádio esportivo brasileiro, autor do belíssimo O Rádio, o futebol e a vida e que escreve atualmente para o site ribeiraopretoonline.com.br.

O tema como diz a frase, "dá pano pra manga", e sei bem disso porque quando eu e Vladir Lemos decidimos escrever a Magia da Camisa 10 recebemos bordoadas por todos os lados. Mas refletir é sempre bom...

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Quantos foram os melhores em todos os tempos?

Em minhas mãos o resultado de um trabalho que posso rotular como uma missão impossível.
Um livro sobre futebol, mas um livro que trás já em seu título o axioma da impossibilidade, ou seja, de expressar em seu conteúdo a verdade.
“Os 100 melhores jogadores brasileiros de todos os tempos.”
Seus autores são cronistas esportivos consagrados e que muito conhecem dessa iguaria que nós, os amantes, chamamos de futebol.
André Kfouri e Paulo Vinícius Coelho, dois brilhantes componentes de uma geração que se não posso chamar de nova – para mim, são -até pela posição e consagração já obtidas na ação profissional de cada um merecem o destaque de que gozam.
Mas, entraram numa fria com esse livro.
Se o objetivo é tão somente escrever mais um livro, divulgá-lo em profusão como devem ter feito com as ferramentas de que dispõem e depois colher resultados materiais na venda do mesmo, okei.
Não tenho nada com isso e não vou criticá-los por essa ótica.
Tem gente fazendo merchandising profissional na crônica esportiva em planos bem mais altos e lucrativos sem despertar críticas ou comentários que a deslustre.
É o tipo da matéria, porém, que não admite erros.
O título do livro é enfático e não teoriza em torno do tema: afirma e ponto.
A partir dai passa a ser material de consulta para gerações futuras.
O retrato sem retoques de uma época.
Sei lá quantos anos mais o futebol continuará sendo para os brasileiros e por que não, para os habitantes deste planeta com forma de bola uma referência de cultura popular .
Acredito que daqui a decênios a obra de Kfouri e Coelho será objeto de consultas, de opiniões, de apostas, comentários e tudo o mais que um trabalho desse vulto possa envolver.
Mesmo sendo absolutamente refratário a certo tipo de cotação de valores em confronto através do mundo virtual. As tais votações pela internet onde Maradona pode suplantar Pelé.
A escolha de quem foi melhor que quem só poderia ser feita por testemunhas que viveram as épocas e descreveram o que viram.
Assim mesmo com muita pesquisa e com o devido confronto de opiniões de gerações diferentes.
E olhe lá.
Como é possível alguém que nasceu neste século opinar sobre o valor e a qualidade futebolística de quem atuou no início do século passado?
A propósito, e por exemplo, sei que Friedenreich foi um dos maiores jogadores que o Brasil já teve.
Que fez o gol com o qual o país ganhou o Campeonato Sul-Americano de 1919 e que à época teve um significado maior do que a conquista de uma Copa do Mundo, guardadas as proporções de quem o viu e de quem as vê.
Mas, como então escolher Fried entre os 100 melhores e deixar Neco fora da lista?
Cheguei a conhecer pessoas que me contaram do brilhantismo do futebol de Neco e que sem ele o gol de Fried não teria sido marcado.
Logo ...
Os autores do livro se eximem bem dessas culpas e delas se abstraem até com a publicação de um capítulo com injustiças que a relação cometeu.
O que significa, em última análise, que não endossam de forma absoluta as escolhas.
Ali estão, porém, apenas 3 injustiçados.
Estão listados, Tesourinha, ponteiro revelado pelo Internacional gaúcho e que cheguei a ver jogar pelo Vasco.
Era realmente dos melhores que tivemos e deveria estar na lista dos melhores do futebol brasileiros.
Outro: Edu, o genial ponta-esquerda do Santos, um pouco também do Corinthians e da seleção brasileira.
Como poderia estar ausente de uma lista que atesta apresentar os 100 melhores do país em todos os tempos?
A injustiça maior do livro, porém, é a ausência de Mauro Ramos de Oliveira na centena de valores escolhidos.
Fica a impressão que os votantes, internautas obviamente, não viram futebol antes de uma certa época o que viria em contraponto com a escolha de jogadores de períodos bem mais antigos.
Domingos da Guia, por exemplo, que sempre foi considerado o maior zagueiro brasileiro de todos os tempos.
É aí que existe a necessidade do confronto entre os que viram todos ou os que viram apenas alguns.
Vi Domingos da Guia em final de carreira, vi Mauro, vi Luis Pereira e vi Aldair do começo ao fim.
Dizer qual o melhor só por uma questão de gosto pessoal e com um peso que definisse uma votação justa entre eles.
Como negar tudo o que se disse sobre o divino Domingos da Guia?
Quando o vi estava em fim de carreira e o que mais me lembro foi do baile que levou de Liminha, atacante que viera do Ipiranga para o Palmeiras.
Também vi Valdemar de Brito em fim de carreira, mas sei que foi um dos maiores jogadores que tivemos.
Como seu irmão mais velho, Petronilho, que nunca vi jogar, mas que o próprio Leônidas afirmava ser o inventor da bicicleta.
Nenhum destes e muitos outros não estão nos 100 melhores no livro em tela.
Diria que tendo visto mais Mauro do que Domingos optaria por escolhê-lo à frente do próprio Luis Pereira que também vi do começo ao fim e foi um imenso zagueiro.
Quer saber?
Tudo seria mais honesto e consentâneo com a realidade se o livro não afirmasse que contém a lista dos 100 melhores jogadores brasileiros de todos os tempos.
Bastaria que informasse que ali estão 100 dos melhores jogadores brasileiros de todos os tempos e não os melhores.
Perderia então a publicação o caráter de ser uma enciclopédia de consultas definitivas e ficaria como mais uma boa publicação com histórias sobre grandes valores do grande futebol brasileiro.
De resto, injustiças à parte, o livro é interessante, agradável de se ler e pleno de histórias que fazem parte desse imenso cabedal até hoje não bem explorado literariamente que é o futebol do Brasil.
Que produziu ao longo de decênios dezenas de craques tão bons ou até superiores que a relação contida na centena que o livro divulga como sendo os melhores de todos os tempos.

E POR FALAR EM INJUSTIÇAS

Um grande livro sobre o futebol brasileiro é o levantamento da vida da seleção brasileira desde o seu nascedouro em 1914 até o ano de 2006 quando foi lançado.
Jogo a jogo da seleção principal com citação também dos adversários, erro e ausência em muitas enciclopédias.
Também inclui algumas seleções de base e dados estatísticos diversos como aquele que indica quais os jogadores que serviram a principal seleção do país.
Ali estão em ordem alfabética os valores que já defenderam o Brasil, desde o que jogou uma só vez, e foram muitos, até ao que detém o recorde de 143 atuações, Cafu.
Estão também os que fizeram apenas um gol até o que atingiu a marca de 95 e que todo mundo sabe quem é.
Pois não é que na relação dos jogadores que atuaram pela seleção do Brasil não consta o nome do goleiro Marcos?
Lá estão o Marcos Carneiro de Mendonça, goleiro do Brasil na conquista do Sul-Americano de 1919 e também Marcos Assunção, o que de vez em quando faz gols de falta com a camisa do Palmeiras.
Mas, não está o Marcos que merecia até uma hagiografia pela devoção que lhe é dedicada pelos torcedores do Palmeiras.
Mas, não pelo clube e sim pela seleção e pelo seu contributo ao mundial de 2002 em primeiro lugar.
Na enciclopédia tão bem apresentada por Antonio Carlos Napoleão e Roberto Assaf, da Editora Mauad, Marcos Roberto Silveira Reis, o Marcos do Palmeiras nunca existiu para a seleção brasileira. 
Justifica-se um esquecimento desses?
Creio que para os autores não, pois tentei por mais de uma vez uma explicação dos mesmos e não recebi nenhuma resposta.
Um esquecimento desse vulto torna o todo da obra passível de questionamento, pois, se um valor desse vulto foi esquecido quantos de menor importância podem ter ficado de fora?
Pode isso?
Não pode, mas está no livro, ou melhor, não está.

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