quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Em campo, futebol e cultura (parte 3)



Algumas publicações despretensiosas podem com o passar dos anos tornarem-se documentos históricos. Revirando meus arquivos encontrei uma revistinha surrada pelo tempo, editada pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, no distante ano de 1982. Pode não ter sido pioneira, mas com certeza, foi uma das primeiras publicações em que o futebol era discutido por intelectuais, gente do mais alto gabarito, coisa impensável nas décadas anteriores àquele período da publicação (e ainda hoje, em alguns casos).

Assinam artigos magníficos na revista gente que o editor, Nelson Merlin, definiu assim em seu editorial: “...temos aqui o miserável futebol de Plínio Marcos, os subterrâneos inconscientes meticulosamente analisados pelo Dr. Carlos Byington, o desacerto generalizado dos que estão com outros dramas para resolver e não vão conseguir nunca virar o jogo, como em Josué Guimarães. E nesses ataques e contra-ataques, José Celso Martinez Correa, irriquieto, propõe o Teatro como um esporte das multidões, Luís Fernando Veríssimo, arguto, vira o corpo e avança na carnificina das origens, João Batista de Andrade, sem esperanças, fala de um namoro impossível com as câmeras, Djalma Limongi Batista, de “Asa Branca”, se permite sonhar na fantasia do Cinema. Rubem Braga faz o seu retrato do time. Antonio Callado acerta uma diferença com Zeffirelli e os italianos. Carlos Moraes, ex-padre, ex-preso político, bate bola no seminário e na cadeia. João de Scantimburgo constata que a massa, se passa fome, quer circo, e o professor José Sebastião Witter estimula a necessidade de se estudar a fundo fenômeno de tal dimensão”.

Postaremos aqui, em série, alguns destes artigos. Este é o terceiro, assinado pelo jornalista e escritor Carlos Moraes, uma história imperdível.


Desacatando o crime


Fui criado num ponto perdido do vasto pampa gaúcho. Numas coxilhas tais que a gente tomava banho, se penteava e botava roupa nova só para ver um automóvel passar. Foi já taludito, num bairro de Bagé, que entrei em contato com o futebol. E como ele foi se entreverando tanto na minha vida acho que só o Dr. Byington explica.

Ano passado quis publicar a pobre história de um time varzeano de um bairro operário de Bagé. A primeira editora tentada recusou delicadamente: tem muito futebol. A Brasiliense arriscou publicá-lo em sua profícua coleção Jovens do Mundo Inteiro, e em dois meses o livro vendeu toda a edição (cinco mil exemplares). Logo A Vingança do Timão ganhava o Jabuti de literatura infanto-juvenil e hoje está na terceira edição. E nas muitas cartas que recebo a meninada diz por que gosta do livro: tem bastante futebol.

Mas não é do livro que eu quero falar. É da biografia do autor. Como sabem, a biografia do autor é o momento mais delicado de um livro. A minha não tinha 20 linhas, mas vejam quanto futebol:

Nasci em Lavras do Sul, faz tempo. Quando o Brasil ficou campeão do mundo em 1958, eu já tinha algo em comum com Pelé: a idade. Tinha também uma baita vontade de vestir a camiseta nº 9 do Sport Club Internacional de Porto Alegre.

Mas que nada: quando, em 1962, o Brasil se sagrou bicampeão mundial no Chile, eu me encontrava em Porto Alegre, sim, mas pacificamente me formando em Filosofia.

Em 1966, quando nossa Seleção fazia aquele vexame n Inglaterra, eu, desiludido, renunciava às vãs glórias do mundo e ingressava na vida religiosa.

Tanto que, naquela tarde de julho de 70, quando a cidade inteira de Bagé festejava o glorioso tri no México, eu tentava, lá dentro da igreja, segurar a atenção dos fiéis com um intenso e improvisado sermão sobre o futebol como a grande festa da paz futura.

A Copa de 74, aquele outro vexame na Alemanha, me encontrou em São Paulo como repórter da falecida revista Realidade. Na de 78 eu já era o que ainda sou: editor da revista Psicologia Atual.

Na de 82, aqui estou, sofrendo. Ensinando, nos intervalos, meu filho a chutar com os dois pés. Na esperança de que ele, aos 42 do segundo tempo, dê mais um título ao Corinthians no campeonato paulista do ano 2.000.

Em todo caso, acho uma vergonha isso de um homem da minha idade, ex-sacerdote e ex-presidiário, ter copas do mundo como referências básicas de sua vida. Mas é verdade. E foi verdade também na missa da Copa de 70. Os fiéis entraram na igreja ainda crepitantes da comemoração. Não me lembro se o Evangelho do dia era sobre o filho pródigo ou o bom samaritano. Sei que de repente eu estava falando sobre o futebol como a maravilhosa e catártica guerra de uma nova civilização. Uma guerra sem vítimas fatais, de ódios passageiros, onde os soldados brigam de calças curtas e, no fim, se dão as fardas de presente. Vinte anos depois, numa entrevista sobre o mesmo assunto com o analista junguiano Carlos Byington, ele confirmava com profundidade minhas comovidas intuições daquela tarde.

Quando me perguntam como agüentei 14 anos de seminário na mais completa reclusão, sempre respondo: já tinha três coisas adoráveis, reza, livro e futebol. Tanto que, em 71, quando fui condenado à prisão de verdade, por (ai, meu Deus) Guerra Psicológica Adversa, foi assim que consolei mamãe no fim das 12 horas de julgamento: ora, depois de 14 anos de seminário, que é mais um? Na cadeia, a reza era angustiada, o livro escasso, mas o futebol, ah o futebol, era infindável. Inventávamos todos os tipos de campeonatos, copas, liças, justas e torneios. O Cacuruto, uxoricida reincidente e pessoa não muito sutil, sugeriu até que a gente fizesse um campeonato entre os diversos parágrafos e incisos do Código Penal. Não me lembro direito os números e os crimes do Código. Mas seria mais ou menos assim: a turma do 616, assalto à mão armada, contra a turma do 417, estelionato. Os do 112, abigeatários (ladrões de ovelha), contra os do 894, inadimplentes da pensão da mulher. Mas o Código não chegou a virar taça. Não sei se foi o Cabo Napoleão ou o próprio Juiz de Direito que protestou feio. E quase fomos autuados por desacato ao crime.

Não consigo me lembrar de mim sem futebol no meio. Nem como padre deixei de jogar. Uma vez rezei a missa de sétimo dia pelo falecido presidente de um clube da paróquia e cobrei uma vaga na ponta-direita. No primeiro jogo fui marcado por um tal de nêgo Lubisa, diminutivo carinhoso de Lobisomem, um facinoroso lateral esquerdo. E que logo começou a apelar. À certa altura, revidei. No intervalo, o técnico bronqueou: que é isso, reverendo, padre tem que ser como Jesus mandou. Quando batem na canela esquerda, ele vai e apresenta a direita.

Não consigo me lembrar de mim sem futebol no meio.

Carlos Moraes

Carlos Moraes, gaúcho de Lavras do Sul, ordenado em 1966, trabalhou como padre na diocese de Bagé. Durante o governo Médici, foi julgado e preso com base na Lei de Segurança Nacional. Depois de deixar o sacerdócio, já em São Paulo dedicou-se ao jornalismo, trabalhando nas revistas Realidade, Psicologia Atual e Ícaro. Em 1981 foi agraciado com o Prêmio Jabuti com o livro infanto-juvenil A vingança do timão. Escreveu também Como ser feliz sem dar certo e Desculpem, sou novo aqui, ambos editados pela Editora Record.



Também é autor de Agora Deus vai te pegar lá fora: anotações de um padre preso numa cidade sem zoológico, Rio de Janeiro: Record, 2004. Nessa obra (também recomendada pelo Literatura na Arquibancada, Carlos Moraes, também fala de ponta a ponta sobre o futebol, sua grande paixão. Em um trecho da obra ele diz que causou estranheza aos presos e aos policiais entrar no presídio com uma bola na mão e na outra a Bíblia: “Às vezes me pergunto se, ao me rever, não falo mais de futebol que de Deus. Me desculpo achando que a história de todo menino brasileiro é, em campo ou em sonho, uma história de futebol. Mesmo assim acho uma imaturidade isso de sacudir a minha vida e só cair bola, drible, passe, pênalti, córner, futebol. Bem que, às vezes, Deus cai junto, participa, entra em campo e diria até que ao meu lado combateu contra certos adversários. Pelo menos em duas ocasiões isso claramente aconteceu”. Um livro imperdível.


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