segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dia D: Dia de Drummond - O futebol e o poeta



No dia D, dia de Drummond, algumas reflexões do poeta sobre o tema: Vitória x Derrota. Vencer e perder é o resumo do jogo que tanto encantou Drummond em vida. Todos os fragmentos abaixo, foram extraídos do livro Quando é dia de futebol. Rio de Janeiro: Record, 2005.

                                                               
E chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estaremos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, a derrota estabelece um jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo.

Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo. (pg.181)
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Não me venham insinuar que o futebol é o único motivo nacional de euforia e que com ele nos consolamos da ineficiência ou da inaptidão nos setores práticos. Essa vitória no estádio tem precisamente o encanto de abrir os olhos de muita gente para as discutidas e negadas capacidades brasileiras de organização, de persistência, de resistência, de espírito associativo e de técnica. (pg. 37)

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Diante de tamanha angústia adormecida, porém não pacificada, fica-se na dúvida: o esporte será hoje uma fonte de prazer individual e coletivo, ou mais uma contribuição valiosa para as estatísticas mortuárias? (...) O torcedor, na sua impotência, joga ainda mais do que o jogador...

O sofrimento esportivo se agrava com os equívocos de linguagem e os golpes publicitários, assumindo formas políticas e belicosas que espantariam os próprios e inocentes torcedores, se eles se detivessem a examiná-las. (...) Os sofrimentos, irritações e depressões que provoca estão longe de ser imaginários, e perturbam nosso perturbado viver. Somos campeões do mundo, é verdade, mas isso não nos deve torturar mais do que, por exemplo, as misérias do subdesenvolvimento. O campeão não é campeão 24 horas por dia; chega uma hora (...) de não sofrer mais do que o estritamente necessário (...) não somos 60 milhões de campeões. (pg. 43)

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Hoje,

manuscritos picados em soluço,
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não-ter-sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?
É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza...
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa...
no jogo livre e sempre novo que se aprende...
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho...
Nem heróis argivos nem parias...
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
(pg. 85-87)

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