terça-feira, 18 de outubro de 2011

Clarice Lispector e o Futebol

Clarice Lispector

Que bom seria se nossos grandes autores da atualidade escrevessem mais sobre a maior paixão popular do brasileiro: o futebol.

Quem poderia imaginar que a enigmática e introspectiva Clarice Lispector, uma das maiores autoras brasileiras do século 20 pudesse se interessar pelo tema futebol?

Pesquisando aqui e acolá, encontramos no blog do mestre em literatura, especialista e pesquisador da obra de Clarice Lispector, professor Miguel Leocádio Araújo (recomendamos a leitura de seu blog (http://paginasefolhas.blogspot.com) um material espetacular, três resenhas maravilhosas, aqui reproduzidas em um único artigo, com a respectiva autorização do mestre autor do texto.

Prof. Miguel Leocádio Araújo
Como ele mesmo afirma em seu blog, "Miguel Leocádio Araújo é professor, às vezes pesquisador, às vezes tradutor, sempre leitor. Sou Graduado em Letras, Especialista em Investigação Literária e Mestre em Literatura Brasileira (todos pela UFC)".

O que você lerá a seguir, gostando ou não da obra de Clarice Lispector, é uma obra prima para quem um dia pretende escrever sobre o tema futebol.

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CLARICE LISPECTOR E O FUTEBOL:

A HORA DA ESTRELA SOLITÁRIA

 (artigo postado em 29/05/2009)

"O futebol tem uma beleza própria de movimentos que não precisa de comparações". Esta frase poderia tranqüilamente vir de um abalizado admirador do futebol ou de qualquer torcedor minimamente atento à dimensão de arte que se chegou a atribuir a um bom jogo com bons jogadores, não viesse ela de Clarice Lispector. Aliás, a escritora declarava repetidamente ser uma pessoa comum, como qualquer outra, uma brasileira simples, mesmo tendo nascido na distante Ucrânia. E, como a brasileira que afirmava ser e de fato o foi, ela não ficou incólume às seduções deste esporte capaz de mobilizar uma nação, talvez muito mais do que outras manifestações de massas, por mais que isso desagrade a muitos. Sobretudo em tempo de Campeonato Brasileiro ou de Copa do Mundo. Imagine Clarice, diante da TV, assistindo aos jogos do Brasil na última Copa, na Alemanha, ou das Copas que ainda estão por vir...

Para alguns, isso é algo difícil de imaginar. É que a representação da autora em circulação no imaginário de uma parcela considerável de leitores, admiradores e devoradores da prosa clariceana é freqüentemente associada a outras questões: a existência e suas contingências, a condição humana sempre às voltas com seus mistérios, a condição feminina e seus desvãos, a indefectível angústia, a morte, a solidão, os limites da linguagem, entre outros temas considerados profundos e complexos. Tal associação cristalizou uma imagem bastante específica da escritora, como se ela não tivesse tido a possibilidade de uma existência comum, cotidiana. Daí talvez ser difícil vincular Clarice ao futebol, pelo menos para alguns, o que, muito longe de considerarmos algo ruim, nos serve de mote para pensar na possibilidade do inesperado ou na distante experiência do outro.

João Cabral de Melo Neto, por exemplo, escreveu um poema sobre a amiga ("Contam de Clarice Lispector"):

Um dia, Clarice Lispector
intercambiava com amigos
dez mil anedotas de morte,
e do que tem de sério e circo.

Nisso, chegam outros amigos,
vindos do último futebol,
comentando o jogo, recontando-o,
refazendo-o, de gol a gol.

Quando o futebol esmorece,
abre a boca um silêncio enorme
e ouve-se a voz de Clarice:
Vamos voltar a falar na morte?

O poema cabralino reafirma aquela imagem de Clarice interessada em discutir e rir da “Indesejada das gentes”, como disse um dia Manuel Bandeira; e o futebol entraria só de soslaio, como uma narrativa que finda para dar lugar à busca dos sentidos da morte.

Porém, há elementos pouco explorados da biografia de Clarice que a aproximam, como a muitos brasileiros, do tema do futebol, como algo que se encrava no cotidiano.

Mas é vasculhando os escritos dela que se podem encontrar indícios da possibilidade à qual me referi antes. E explico melhor aos poucos.

Em entrevistas e crônicas, Clarice Lispector chegou a se declarar absoluta torcedora do Botafogo.
Ao entrevistar Marques Rebelo, ela, para desviar-se de um assunto sobre o qual aparentemente não gostava de falar – a sua alardeada densidade como ficcionista –, pergunta qual era o time de Rebelo, que rapidamente se afirma como torcedor do América (“A única paixão de minha vida”, segundo a sentença do entrevistado). Clarice revela que é Botafogo e é logo chamada de “cartola” pelo escritor, no que ela simplesmente cala, como se consentisse... Era o final da década de 1960; e a entrevista era para a sessão "Diálogos possíveis com Clarice Lispector", da revista Manchete. Ao que parece, dialogar sobre futebol também era possível para ela, que era uma escritora considerada difícil...

Em Entrevistas (Rocco, 2007), publicação que reúne a maior parte das conversas aparecidas em De corpo inteiro (1975), mais 19 inéditas em livro, Clarice encontra-se com dois ícones do futebol brasileiro: Zagallo e João Saldanha.

Ao dialogar com o primeiro, a entrevistadora, revelando uma franca admiração, inicia por afirmar: “Sendo você bicampeão mundial e bicampeão carioca, Zagallo, eu, se dependesse de mim escolheria você para técnico da seleção brasileira.” Zagallo mostra-lhe o braço com os pêlos arrepiados de emoção. O gelo estava logo quebrado, para começo de conversa. E ela nem imaginava o que Zagallo se tornaria para a Seleção Brasileira décadas depois.
A entrevista, realizada num banco do jardim da sede do Botafogo, foi animada a risos e cumplicidade, já que a escritora estava no quartel-general do seu time do coração (selvagem?), às vezes sendo instada a sair da condição de entrevistadora à de entrevistada, mesmo que escolhesse o que responderia ou calaria. Outras vezes, ela interfere nas respostas de Zagallo (com afirmações, entre parênteses, sobre si mesma), certamente estimulada pelo papo franco e descontraído.

Algumas das perguntas ao atleta eram completamente genéricas e difíceis de responder, tais como: “Zagallo, qual é a coisa mais importante para você?”, “Qual é a coisa mais importante para você como pessoa?” ou “O que é o amor, Zagallo?” Já outras dirigiam-se mais especificamente ao esporte: “Zagallo, qual seria a melhor tática, o melhor sistema para o selecionado brasileiro na próxima copa?” Entre brincadeiras e assuntos mais sérios, como o futebol, o diálogo entre Clarice e Zagallo dá a medida de como a escritora vibrava com o esporte.

Com João Saldanha a conversa chegou a detalhes técnicos, já que o entrevistado da vez era treinador da seleção brasileira que iria para a Copa de 1970, quando seríamos tricampeões. Clarice cita vários jogadores, como Garrincha e Pelé. Uma de suas perguntas está bastante próxima dos paradoxos encontráveis em muitas de suas obras, sendo bastante curiosa: “Por que a bola não parece redonda para todos? Pois quando chega junto de certos jogadores ela é extremamente quadrada.” Esta foi uma maneira clariceana de evocar a pouca habilidade de certos jogadores à época. E a resposta de Saldanha foi extremamente objetiva, o que satisfaz a entrevistadora: “Futebol é uma arte e em arte prevalece o talento. Uns têm mais, outros menos. Eis a razão.” Um outro aspecto era o registro do conhecido lado engraçado de João Saldanha. Ao ser perguntado pela ficcionista se ele acreditava que se podia ganhar “no grito”, ele responde com desenvoltura: “Se isto fosse possível, a Itália seria imbatível. Ninguém grita mais alto que italiano. Afinal de contas, eles cantam ópera.


Como se não bastassem as entrevistas e toda a mitologia que envolve o nome de Clarice Lispector (com ou sem futebol), numa crônica de 1968, ela afirmou ser leitora do famoso e admirado cronista esportivo Armando Nogueira pelo fato de ele "escrever bonito", mesmo que não entendesse todo o jargão descritivo de uma partida. Esta crônica, por sinal, chama-se “Armando Nogueira, futebol e eu, coitada” e foi escrita em resposta a um comentário de Nogueira em que dizia que trocaria uma vitória de seu time por uma crônica de Clarice sobre o futebol... Pois bem, Clarice, em tom sério, beirando a dramaticidade, escreve que não perdoaria, nem por brincadeira, que se trocasse uma vitória do Botafogo por um romance inteiro dela, sobre futebol... Virtudes de torcedor devotado? Ou melhor, de uma torcedora devotada?
Apesar de sempre dizer que não entendia de futebol, ela entregava-se com uma "ignorância apaixonada" ao seu time e ainda tinha que contemporizar as divergências entre um filho botafoguense e outro flamenguista, tarefa nada fácil para quem já optara pelo primeiro time. O mais curioso é que Clarice relatou que, na verdade, gostava de assistir a jogos pela TV e que só uma vez na vida foi ao estádio para ver, de "corpo presente", uma partida de seu time. Segundo sua própria afirmação, isso a tornaria uma "brasileira errada".

E para não dizer que Clarice Lispector não colocou em ficção algo relacionado ao futebol, basta lembrar que no conto “À procura de uma dignidade”, de Onde estivestes de noite (1974), a personagem, Sra. Jorge B. Xavier, inicia sua via crucis perdida nas galerias do Maracanã, em busca de uma conferência qualquer que não sabia ao certo se ali se realizaria. Desorientada, a protagonista chega à área "verdadeira" do estádio: o campo. Mas, na verdade, encontra um "espaço oco de luz escancarada e mudez aberta, o estádio nu, desventrado, sem bola nem futebol. Sobretudo sem multidão." A nudez daquele espaço é a própria imagem do que há de mais triste no futebol, para os torcedores mais filosóficos: um estádio vazio. E Clarice inesperadamente captou esta imagem, mesmo só tendo ido uma única vez na vida a uma partida de futebol in loco. Coisas de artista...


Fonte:

Sugestão de leitura para conhecer Clarice Lispector:
(resenha da biografia escrita por Benjamin Moser)



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