sexta-feira, 7 de outubro de 2011

CAMISA 10 - UM SIMPLES NÚMERO?


Em agosto de 2005, convidei meu amigo Vladir Lemos para escrever à quatro mãos um livro despretensioso sobre a mística que envolve a camisa 10. Aceitamos o desafio de Raissa Castro, publisher da Verus Editora. Tínhamos apenas 4 meses para entregar os textos, pois a ideia da editora era lançar o livro no começo do ano seguinte, às vésperas da Copa do Mundo de 2006.



A obra teve boa recepção na mídia brasileira, mas não poderíamos imaginar que alguns meses depois o livro pudesse chegar ao mercado exterior, ainda mais sabendo das dificuldades que qualquer autor brasileiro tem para ser traduzido e publicado lá fora. Pouca gente sabe por aqui, mas nosso Camisa 10 acabou publicado em Portugal, Hungria, Polônia e Japão. Edições primorosas, com rico acabamento.

                                                                   capa da edição na Polônia

                                                                     capa da edição na Hungria

Depois de publicado, autores parecem ter o mesmo hábito de nunca ler a própria obra. Já ouvi todo tipo de justificativa da boca de diversos autores, mas nunca entendi muito bem a razão desse estranho fenômeno ocorrido no processo de produção de um livro. Também me incluo nessa lista dos não leitores das próprias crias. Às vezes, como agora, me pego abrindo um ou outro livro que já escrevi para relembrar as histórias que ele proporcionou após publicado. Neste caso, reler o texto de apresentação escrito pelo meu amigo e poeta de mão cheia, Vladir Lemos, será sempre um enorme prazer, um texto digno de um autêntico camisa 10.

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          Impossível saber se é magia ou fé o que faz a camisa 10 tão diferente de todas as outras. Sim, porque hoje, ao nos depararmos com um time enfileirado ganhando o gramado, carregando nas costas, além da esperança de vitória, uma seqüência mágica de números, não somos capazes de enxergar o dono da camisa 10 como um jogador qualquer.
Impossível pensar em tais algarismos como um pequeno detalhe em meio ao encanto do espetáculo prestes a começar. Apenas um número, pregado na parte de trás da camisa, distribuído aleatoriamente pelo treinador, com uma lógica que a razão não ousaria desafiar.
É claro, nenhum boleiro seria capaz de duvidar que craque que é craque mesmo está habilitado a entrar em campo vestindo qualquer camisa, ostentando qualquer número.
Não! Hoje a magia ou a fé amadurecidas debaixo de tanto suor, de tanto drible, de tanta habilidade, de tantas jogadas, de desenhos capazes de desafiar a razão, fazem com que todos vejam algo de transcendente, de puro fetiche.
Já não é só a torcida que espreita a tal camisa 10. Cada jogador, no íntimo, sempre vai temer por um confronto ao cruzar em campo com um desses predestinados. Até o juiz talvez o encare como autoridade diferenciada entre as quatro linhas e, por isso, redobre a atenção para não ser, repentinamente, enfeitiçado, vítima de seu encanto.
As lentes, cada uma delas, longas, angulares, com filtro... buscam o dono da 10 de maneira diferente. Ali, pouco depois dos limites guardados só para eles, todos os sentidos da crônica o farejam, tentam com talento, quase sempre em vão, esmiuçar o seu poder.
Há uma lógica desafiadora no fato de esse homem estar trajando a camisa 10. Seria mais coerente que ele, ao desfilar tanta importância, conquistasse o direito de ser, claro, o número 1.
Afinal, o que seria de fato a 10?
Um número 1 seguido de uma bola?
É isso! A bola, sinônimo da esférica Terra, que os tais camisas 10 acabam, de certa forma, por dominar.
Sobre os outros, cada camisa mais parece um uniforme, unindo, durante noventa minutos, homens obstinados por uma mesma conquista.
Mas a 10, jamais!
A camisa 10 é assim, divindade e elegância.
Quando passou a ter essa força, não se sabe. Como não se sabe tampouco quantos foram eles e quem são aqueles que realmente a mereceram. Há, aí, também uma finta. Porque alguns que a tiveram, não a mereceram. Outros, por sua vez, carregaram durante toda uma vida um 10 imaginário em suas camisas.
Como encontrá-los, como escolhê-los, como convocá-los? Quem transformou a camisa 10? Quem colocou sobre ela toda essa mística? Foram homens nascidos nos quatro cantos do mundo ou terá sido obra do tão invocado “deus do futebol”?
Seria bom se cada cúmplice dessa história, escrita ao rolar de tantas bolas, não se esquecesse de que vestir a 10 é transcender, é fazer parte de um outro time.
Nesse culto, que beira o religioso, cada torcedor tornou-se devoto de um, de muitos, de todos os camisas 10. Querer dividi-los ou escalá-los é como cometer um pecado, atentar contra a nação da bola, ousar explicar o que faz o futebol maior. Como simples seguidores dessa crença, podemos apenas lembrar, deixar livre nosso olhar curioso e vasculhar a história de cada um, tentar descobrir por que a vida os fez assim, camisas 10. Encarar o desafio de desvendar o ambiente, os sonhos, os obstáculos que eles venceram, além de tantos e tantos adversários...é se dispor a melindrar a torcida, é comprar briga, é ter de fazer do ataque a melhor defesa. Em outras horas, é ter a serenidade para perceber que recolher-se na defesa é o melhor ataque.
Mas com uma coisa, talvez, todos os devotos concordem: houve um momento em que a crença, a magia da camisa 10, se fez mais visível. Tarefa que coube a um menino, muito provavelmente obra também de um “deus do futebol”.
Pelé.
Tudo começou com ele... 

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