sábado, 15 de outubro de 2011

Ao mestre com carinho


No dia do professor, nada mais justo do que prestar homenagem a um dos maiores mestres da bola no país. No dia 26 de julho de 2011, Telê completou 80 anos de vida. No texto abaixo, um trecho emocionante captado para sua biografia, relançada pela editora Cia dos Livros (atual B4 Editores). Por incrível que pareça, a música que Telê mais gostava tem tudo a ver com o dia de hoje...

André Ribeiro, no último contato que teve
com o mestre, durante as  gravações de  um documentário
Ainda um fio de esperança
(por André Ribeiro)                                      
                                                                         (...) Os banhos de cachoeira na cidade de Rio Acima, onde costumava passar os finais de semana, não eram suficientes para satisfazer o treinador. Telê sempre foi um homem muito ativo. A doença lhe tirou os maiores prazeres de sua vida. Primeiro sua profissão e depois, os prazeres da mesa, por causa das restrições alimentares. As delícias da cozinha mineira estavam proibidas. Para quebrar essa rotina, numa manhã de domingo, em abril de 1999, Telê resolveu dar um passeio em sua terra natal. Queria rever os amigos de infância, os lugares onde viveu e estudou. Queria andar pelas ruas onde começou a jogar suas primeiras peladas, enfim, queria estar perto das coisas que deixara para trás na pequena Itabirito.

A disposição de Telê mudava visivelmente quando o assunto era futebol. Voltar à cidade onde tudo começou nem se fale. Ivonete estava preocupada com essa escapada do marido. Caminhou até a porta do carro que o levaria e recomendou aos acompanhantes que não o deixassem fazer extravagâncias. Renê dirigiu durante os vinte quilômetros que separavam Rio Acima de Itabirito. Por uma estrada de terra com paisagens exuberantes, Telê começava a narrar suas aventuras por aqueles lugares maravilhosos, repleto de verde e montanhas. Seus olhos brilhavam de emoção.

À medida que se aproximava de Itabirito, parecia chegar cada vez mais próximo de um paraíso. As lembranças iam surgindo pouco a pouco a cada cenário que se deparava pela estrada estreita e sinuosa que o conduzia à sua terra natal. Cada curva parecia conter um pedaço de sua história de bom caipira mineiro. Quando já estava bem próximo da entrada de Itabirito, Telê avistou as instalações da Usina Queiroz Júnior, onde seu pai tinha trabalhado. Pouco mais a frente, apontou com orgulho a casinha branca onde funcionava a Cooperativa, local de seu primeiro emprego. Estava tudo ali, quase tudo como era antes.

Mais alguns metros e o estádio do Usina Esperança, onde tinha jogado por um curto período estava novamente à sua frente. Com a mão na tela que separa o campo, passou a observar um jogo de veteranos que transcorria naquele exato momento. Seus olhos brilhavam como se estivesse voltando aos tempos em que corria por aquele gramado, talvez, porque a camisa e as cores do Esperança fossem idênticas às do Fluminense carioca.

Telê ia explicando tudo que via pela frente. Cada detalhe do velho campo parecia mais importante do que as inúmeras conquistas obtidas durante sua carreira profissional no gigantesco e monumental Maracanã.

Pouco tempo depois, mais à frente, avistou a rua onde nascera. Em seguida, o carro parou bem em frente à casa onde fora criado por sua tia Maria. Nesse instante, um senhor alto, de cabelos brancos e camisa vermelha aproximou-se. Os dois trocaram olhares e numa fração de segundos já estavam abraçados. Luizinho cresceu junto de Telê nas ruas de Itabirito. As lembranças da infância começavam a ser narradas em um ritmo alucinante.

O regime rígido e controlado por Ivonete, seria quebrado em poucos minutos. Logo surgiu uma senhora, esposa de Luizinho, convidando Telê para entrar em sua casa. Na mesa, já estava colocada uma travessa repleta de pequenos pastéis. Mas não era um pastel qualquer, era o famoso pastel de angu, marca registrada da pequena cidade e orgulho dos itabiritenses. Telê estava autorizado por sua esposa a comer apenas um; somente um pastelzinho de angu não poderia fazer mal. Mas comeu um, dois, três, até chegar ao quinto pastel. Parecia uma criança lambuzando-se com doces.

O tempo passava e ele tinha de ir embora, para um encontro marcado com outro antigo amigo. Celso Matos, companheiro inseparável de futebol e antigo prefeito da cidade, esperava por ele em um restaurante localizado à beira da estrada. No caminho, ao passar pelo estádio do União e do Itabirense, os olhos de Telê pareciam viajar no tempo. Em poucos minutos estava sentado ao lado de Celso. A conversa foi quase totalmente dedicada aos tempos de Telê no Itabirense e do rival União. Os duelos entre os eternos rivais da pequena cidade eram lembrados com muito saudosismo. Pelo papo, era fácil descobrir de onde vinham a paixão e o fascínio que Telê sempre teve pelo futebol e por suas raízes. 

Falou-se de tudo um pouco. Telê aparentava cansaço, pois saíra bem cedo de Rio Acima e já era quase final de tarde. Com a voz trêmula, ainda restava um desafio para Telê: “Você se lembra do hino do Itabirense, Telê?”, perguntou o amigo Celso.
O próprio Celso antecipou a resposta e começou a cantarolar os versos do hino. Telê emendou sem vacilar:

Itabirense heróico
de alma e coração
rendemos às tuas cores
a nossa devoção.

Se tu és combatido
mas sabe se erguer
porque não podem te negar
é o direito de viver.
O teu passado sangra de dores
e que transformam em lindas flores.

Tua bandeira não é sem glória
di-lo passado de tua história [bis]

O sol quando aparece
aquece a todo mundo
desde o palácio d’oiro
aos trapos mais imundos.

                         Se tu és combatido
                         mas sabe te erguer
                         o que não podem te negar
                         é o direito de viver.



Telê cantarolou o hino com os olhos vermelhos como quem está prestes a chorar. Homem durão, jamais chorou em público, nem mesmo quando perdeu duas copas do mundo. Como já havia afirmado que não costumava chorar pelas coisas boas da vida, Telê preferiu lembrar o trecho do hino que fazia referência ao “direito de viver”. Era a única exigência que ele fazia da vida.

(...)

A biografia de Telê poderia ser encerrada neste momento com o título deste livro. Uma frase que reflete toda a situação vivida pelo treinador: Fio de esperança –que alimentava, dia após dia, seu sonho de uma nova vida.

Mas, a lembrança de uma noite enluarada na varanda de sua confortável casa no condomínio de Rio Acima, trouxe uma última e fundamental observação para que tornasse possível entender tudo o que Telê Santana vivera dentro e fora dos campos de futebol.

Ao lado de Ivonete, dos netos, dos filhos Renê e Sandra, de Rafaela, sua nora, Telê parecia distante das conversas que surgiam naquele cenário paradisíaco. Algumas capivaras saíam de suas tocas para nadar no rio que brilhava bem em frente à casa da família. Todos correram para mostrar a cena inédita ao autor, um assumido caipira paulistano. Telê sorriu ao saber que eu jamais havia visto uma capivara. Voltou para sua cadeira e continuou a ouvir sua música predileta.

Percebi que não era a primeira vez que aquele CD era colocado no aparelho de som. Os versos da canção de Ataulfo Alves, “Meus tempos de criança”, ecoavam constantemente pela casa. Indagado por que o fascínio por aquela canção, Telê afirmou que sua admiração por Ataulfo era tão grande que decidiu conhecer a terra natal do compositor um dia. Ao lado de Clodovê, seu irmão mais novo, e de Emílson, seu amigo e ex-companheiro de Fluminense, viajou, em janeiro de 1995, à pequena cidade de Miraí, interior de Minas, onde Ataulfo Alves nascera. Quando chegou, o visitante ilustre foi homenageado pelos moradores que se encontravam na praça onde havia um coreto. Descobriu-se que Telê sempre fora apaixonado pela música de Ataulfo e, por isso, os amigos insistiram para que ele subisse no coreto e cantasse alguma música do compositor. Telê novamente cantarolou os versos da canção:

            Eu daria tudo que tivesse
            Pra voltar aos dias de criança
            Eu não sei por que a gente cresce
            Se não sai da gente essa lembrança.

            Aos domingos missa na matriz
            Da cidadezinha onde eu nasci.
            Ai eu era tão feliz
            No meu pequeno Miraí.

            Que saudade da professorinha
            Que me ensinou o bê-á-bá,
            Onde andará Mariazinha
            Meu primeiro amor onde andará?

            Eu igual a toda meninada
            Quanta travessura que eu fazia
            Jogo de botões sobre a calçada
            Eu...

Seu sonho e promessa estavam realizados.

Agora sim era possível compreender tamanha admiração por aquela canção tocada insistentemente na varanda de sua casa em Rio Acima. Mas devia existir algo mais nos versos dessa música tão apreciada por Telê.

Na manhã seguinte, bem cedinho, um aparelho de som, bem baixinho, rompeu o silêncio que toma os quatro cantos da imensa casa. Na varanda, solitário com os seus pensamentos, Telê estava sentado, ouvindo mais uma vez a canção de Ataulfo. Ninguém teria coragem de interromper aquele momento de reflexão. Sabe Deus por onde andariam seus pensamentos.

Poderiam estar nas conquistas dos títulos mundiais interclubes no Japão...

Poderiam estar na fatídica derrota para a Itália na Copa do mundo de 1982...

Poderiam estar em algumas das discussões ou polêmicas que sempre fizeram parte da sua vida de treinador...

Mas poderiam estar, simplesmente, na força da frase final da música que tocava baixinho:

Eu era feliz e não sabia!


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Para ler mais sobre Telê Santana, aqui no Literatura na Arquibancada, basta clicar nos links abaixo:

http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/07/mais-um-ano-sem-o-mestre-tele-santana.html

http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/04/saudades-de-mestre-tele-santana.html


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