segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dia D: Dia de Drummond - O futebol e o poeta



No dia D, dia de Drummond, algumas reflexões do poeta sobre o tema: Vitória x Derrota. Vencer e perder é o resumo do jogo que tanto encantou Drummond em vida. Todos os fragmentos abaixo, foram extraídos do livro Quando é dia de futebol. Rio de Janeiro: Record, 2005.

                                                               
E chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estaremos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, a derrota estabelece um jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo.

Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo. (pg.181)
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Não me venham insinuar que o futebol é o único motivo nacional de euforia e que com ele nos consolamos da ineficiência ou da inaptidão nos setores práticos. Essa vitória no estádio tem precisamente o encanto de abrir os olhos de muita gente para as discutidas e negadas capacidades brasileiras de organização, de persistência, de resistência, de espírito associativo e de técnica. (pg. 37)

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Diante de tamanha angústia adormecida, porém não pacificada, fica-se na dúvida: o esporte será hoje uma fonte de prazer individual e coletivo, ou mais uma contribuição valiosa para as estatísticas mortuárias? (...) O torcedor, na sua impotência, joga ainda mais do que o jogador...

O sofrimento esportivo se agrava com os equívocos de linguagem e os golpes publicitários, assumindo formas políticas e belicosas que espantariam os próprios e inocentes torcedores, se eles se detivessem a examiná-las. (...) Os sofrimentos, irritações e depressões que provoca estão longe de ser imaginários, e perturbam nosso perturbado viver. Somos campeões do mundo, é verdade, mas isso não nos deve torturar mais do que, por exemplo, as misérias do subdesenvolvimento. O campeão não é campeão 24 horas por dia; chega uma hora (...) de não sofrer mais do que o estritamente necessário (...) não somos 60 milhões de campeões. (pg. 43)

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Hoje,

manuscritos picados em soluço,
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não-ter-sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?
É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza...
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa...
no jogo livre e sempre novo que se aprende...
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho...
Nem heróis argivos nem parias...
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
(pg. 85-87)

domingo, 30 de outubro de 2011

Pelé, Neymar e Messi juntos...Só em ficção?



Estreando o espaço para textos de ficção, André Argolo, repórter de primeira, dono de texto primoroso, escreveu especialmente para o Literatura na Arquibancada um conto, segundo ele mesmo o definiu: “em forma de épico de Camões (bastante influenciado por um escritor português, o Gonçalo Tavares, e seu livro Uma Viagem à Índia)”.
Para quem conhece André Argolo nas letras, nenhuma novidade a qualidade de sua prosa. E para quem não o conhece, basta ler para se encantar...

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Vai que virou verdade o Pelé no Santos para o Mundial Interclubes de 2011…

E então o que era só homenagem vira ação, afinal:
Pelé levanta-se do banco de reservas, confortável, aquecido
- faz muito frio no Japão em dezembro -,
e diz ao treinador à beira do campo, em tom normal,
“vou entrar”.

O treinador nem se volta por completo a Pelé
É confuso, uma decisão do jogador,
e quem dá ordens ali é ele!
Mas o jogador é Pelé
e a questão não é quem entende mais de futebol
mas a quem pertence a autoridade de fato
       (patentes podem ser claras, mesmo quando não estão).

O jogo vale o título mundial interclubes do ano de 2011.
Em campo, Santos e Barcelona.
Em campo, os melhores jogadores de futebol do momento.
Messi é argentino e joga pelo clube espanhol,
Neymar é brasileiro e defende o time brasileiro.
São astros e tudo gira em torno deles, a única bola também
                   (Pelé no banco, sorrindo, torcendo, aplaudindo até então).

Nas arquibancadas, governantes, monarcas, jornalistas,
marceneiros, mecânicos, bancários, faxineiros,
traficantes, ditadores, policiais que também os protegem
donos de times russos, russos donos de times ingleses,
mães, pais, irmãos e namoradas e esposas e filhos
dos que estão em campo, comemorados ou xingados
                                     (a eles, dói menos em japonês)

Tocou Pink Floyd antes da partida, quase ninguém notou.
Só Bono Vox e Shakira balançaram as cabeças, se entreolharam.
Tocaram os hinos nacionais do Brasil e da Espanha.
Fazia frio e os atletas perfilados balançaram pernas,
mãos no coração, só Pelé cantou
    (viu-se também depois, na televisão).

Pelé tira o agasalho à beira do campo.
Em nada seus movimentos entregam sua idade:
Setenta e um anos.
Nem precisou da metade para ser o Atleta do Século 20
e nem precisava provar mais nada
apenas decidiu que sim.

O treinador conversa com alguém;
alguém leva um bilhete ao árbitro-assistente;
o árbitro-assistente digita um número na placa digital,
e a levanta, com o número oito iluminado de uma cor
de uma outra, o número que entra, o dez negro, de branco.

Há e não há naquele momento mais nada.
Há e não há mais Neymar e Messi.
Cada um já havia feito até ali, muito.
Cada um já havia marcado um gol.
Esperava-se que um dos dois desempatasse a partida.
Há ainda os outros, que fazem desses o que podem ser:
Iniesta, Xavi, Paulo Henrique Ganso, Villa, Borges,
Puyol, Léo, Elano, Danilo, Mascherano, e ainda há outros.
Mas há um Pelé agora, um que ninguém mais pôde ser:
o Pelé. Messi enxuga uma lágrima.
Pep Guardiola se senta no banco do Barcelona.
Ele que foi jogador do técnico Pepe, o Canhão da Vila,
ouviu tanto sobre Pelé que foi como ver um fantasma:
Dom Quixote em seu cavalo diante dele.
E ele um moinho.

Pepe assistindo ao vivo de sua casa em Santos
Lima ao seu lado, ninguém fala nada.
Pelé é o foco de quase todas as câmeras.
Ninguém registra a cara de Messi
e a lágrima seca. E Neymar sorri.
Pelé dita ordens após abraçar e beijar
e agradecer Elano, que sai para o Rei entrar.

Puyol pensa em ajoelhar-se – foi o que confessou
anos mais tarde, em documentários sobre esse dia.
Villa lembra-se do avô
“o negro mágico brasileiro”, dizia.
Poderia ser que jogasse algo, que tentasse um chute;
poderia ser como El Cid a vencer morto os inimigos;
mas Pelé está vivo, bem vivo. E em campo.

Um a um no placar,
vinte minutos do apito final,
o que ninguém realmente esperava
corre até sua posição original
e pede a bola a Ganso, que obedece.

É só um primeiro toque,
preciso e necessário, de volta ao garoto.
E nesse movimento Neymar avança
E recebe a bola, e domina adiante.
E o zagueiro, atrasado, atrapalhado, atira-se.
Neymar é derrubado na área.
A penalidade é a máxima
            (pena de morte não existe no futebol).
Quem bate o pênalti? Quem toma decisão assim?

O estádio faz um silêncio japonês.
Guardiola segue sentado.
O treinador do Santos senta-se no gramado.
Pepe levanta-se para pegar água.
Pelé tem as mãos na cintura, dez às costas,
Ganso de um lado, Neymar do outro, gol à frente.
Messi tem as mãos na cintura no meio do campo,
dez nas costas, dez à frente, ninguém por perto.
E ele chora novamente, sem fechar os olhos,
para ver bem o que ninguém nunca poderá esquecer.

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André Argolo é de Santos, onde trabalhou em jornais e algumas emissoras de TV, entre elas a TV Mar e TV Tribuna. Foi repórter na TV Globo, entre 1998 e 2000; na TV Cultura, entre 2002 e 2006, no programa Grandes Momentos do Esporte. Também foi repórter na TV Bandeirantes, entre 2006 e 2007 e mais recentemente, no canal ESPN Brasil, onde trabalhou com esportes de aventura. Em 2008 fez o documentário As passagens de Charles Darwin e Richard Burton pelo Brasil, recontadas por meio de esportes de ação e aventura para o programa TRIZ Viajantes Radicais. André Argolo mantêm o blog www.qualquerquoisa.com.br




Dia D: Dia de Drummond (4)


Na série sobre as homenagens ao dia D, o dia de Drummond, o texto abaixo não é específico sobre o tema futebol, mas sobre o maior "princípio" que ele carrega: torcer.


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TORCIDA DA SUA VIDA

Mesmo antes de nascer, já tinha alguém torcendo por você. Tinha gente que torcia para você ser menino. Outros torciam para você ser menina. Torciam para você puxar a beleza da mãe, o bom humor do pai. Estavam torcendo para você nascer perfeito. Daí continuaram torcendo... Torceram pelo seu primeiro sorriso, pela primeira palavra , pelo primeiro passo. O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. E o primeiro gol, então? E, de tanto torcerem por você, você aprendeu a torcer. Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel. Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante. Começou a torcer até para um time. Provavelmente, nesse dia, você descobriu que tem gente que torce diferente de você. Seus pais torciam para você comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes, estudar inglês e piano. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana. Seus amigos torciam para você usar brinco, cabular aula, falar palavrão.

Eles também estavam torcendo para você ser bacana. Nessas horas, você só torcia para não ter nascido. E por não saber pelo que você torcia, torcia torcido. Torceu para seus irmãos se ferrarem, torceu para o mundo explodir. E quando os hormônios começaram a torcer, torceu pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso. Depois começou a torcer pela sua liberdade. Torcia para viajar com a turma, ficar até tarde na rua. Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa. Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã, para as idéias dos professores e para qualquer opinião dos seus pais. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço.

Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Torceu para ser médico, músico, advogado... Na dúvida, torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol. Seus pais torciam para passar logo essa fase. No dia do vestibular, uma grande torcida se formou. Pais, avós, vizinhos, namoradas e todos os santos torceram por você. Na faculdade, então, era torcida pra todo lado. Para a direita, esquerda, contra a corrupção, a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina. E, de torcida em torcida, um dia teve um torcicolo de tanto olhar para 'ela'... 

Primeiro, torceu para ela não ter outro. Torceu para ela não te achar muito baixo, muito alto, muito gordo, muito magro. Descobriu que ela torcia igual a você. E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho. Torceram para ganhar a geladeira, o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel. E, daí pra frente, você entendeu que a vida é uma grande torcida. Porque, mesmo antes do seu filho nascer, já tinha muita gente torcendo por ele. Mesmo com toda essa torcida, pode ser que você ainda não tenha conquistado algumas coisas. Mas muita gente ainda torce por você!!!

sábado, 29 de outubro de 2011

Dia D: Dia de Drummond (3)


Na contagem regressiva para o dia D, dia de Drummond, mais um texto escrito pelo poeta sobre o tema futebol. Uma crônica que só mesmo o poeta poderia escrever e que foi encontrado nos arquivos do Jornal do Brasil do dia 18/06/1974.

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Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranqüilidade.

Bem-aventurados os que, por entenderem de futebol, não se expõem ao risco de assistir às partidas, pois não voltam com decepção ou enfarte.

Bem-aventurados os que não têm a paixão clubista, pois não sofrem de janeiro a janeiro, com apenas umas colherinhas de alegria a título de bálsamo, ou nem isto.

Bem-aventurados os que não escalam, pois não terão suas mães agravadas, seu sexo contestado e sua integridade física ameaçada, ao saírem do estádio.

Bem-aventurados os que não são escalados, pois escapam de vaias, projéteis, contusões, fraturas, e mesmo da glória precária de um dia.

Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura.

Bem-aventurados os fotógrafos que trocaram a documentação do esporte pela dos desfiles de modas, pois não precisam gastar tempo infindável para fotografar o relâmpago de um gol.

Bem-aventurados os fabricantes de bolas e chuteiras, que não recebem as primeiras na cara e as segundas na virilha, como os atletas e assistentes ocasionais de peladas.

Bem-aventurados os que não conseguiram comprar televisão a cores a tempo de acompanhar a Copa do Mundo, pois, assistindo pelo aparelho do vizinho, sofrem sem pagar 20 prestações pelo sofrimento.

Bem-aventurados os surdos, pois não os atinge o estrondar das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo.

Bem-aventurados os que não moram em ruas de torcida institucionalizada, ou em suas imediações, pois só recolhem 50% do barulho preparatório ou comemoratório.

Bem-aventurados os cegos, pois lhes é poupado torturar-se com o espetáculo direto ou televisionado da marcação cerrada, que paralisa os campeões, ou do lance imprevisível, que lhes destrói a invencibilidade.

Bem-aventurados os que nasceram, viveram e se foram antes de 1863, quando se codificaram as leis do futebol, pois escaparam dos tormentos da torcida, inclusive dos ataques cardíacos infligidos tanto pela derrota como pela vitória do time bem-amado.

Bem-aventurados os que, entre a bola e o botão, se contentaram com este, principalmente em camisa, pois se consolam mais facilmente de perder o botão da roupa do que o bicho da vitória.

Bem-aventurados os que não confundem a derrota do time da Lapônia pelo time da Terra do Fogo com a vitória nacional da Terra do Fogo sobre a Lapônia, pois a estes não visita o sentimento de guerra.

Bem-aventurados os que, depois de escutar este sermão, aplicarem todo o ardor infantil no peito maduro para desejar a vitória do selecionado brasileiro nesta e em todas as futuras Copas do Mundo, como faz o velho sermoneiro desencantado, mas torcedor assim mesmo, pois para o diabo vá a razão quando o futebol invade o coração.



Dia D: Dia de Drummond (2)



Uma super dica do Literatura na Arquibancada para quem quer conhecer o trabalho de Carlos Drummond de Andrade sobre o tema futebol. Trata-se da tese de doutorado em Letras de Fabio Mario Iorio, na UFRJ, em 2006.

RASTROS DO COTIDIANO: FUTEBOL EM VERSIPROSA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE é leitura obrigatória para os admiradores de Drummond e também para se descobrir que o autor não escrevia apenas poemas sobre o futebol. Leia um pequeno trecho desse importante estudo para a literatura sobre o futebol.


Em 2002, a Editora Record editou o livro Quando é dia de futebol de Carlos Drummond de Andrade, como resultado de uma pesquisa e seleção de textos feitas pelos netos Luiz Maurício Graña Drummond e Pedro Augusto Graña Drummond, reunindo as raras crônicas futebolísticas desde 1931. O projeto editorial foi se configurando a partir de uma consulta preliminar de Luiz Maurício sobre os dados importantes dos textos de Carlos Drummond de Andrade, estabelecendo uma lista de assuntos abordados e pessoas mencionadas. Como um dos temas mais citados era o futebol, ele e o irmão Pedro Augusto realizaram de forma mais completa a pesquisa desse material jornalístico específico, que se concentra entre 1954 a 1986.

A edição do livro reúne as crônicas, alguns poemas e trechos de cartas familiares, percorrendo os arquivos pessoais de Carlos Drummond de Andrade, do colecionador Edgard de Almeida Loural (doado à Biblioteca Central da PUC-RJ) e do acervo da Biblioteca Nacional. Os textos seguem a cronologia de suas produções, abordando principalmente os momentos da seleção brasileira masculina nas competições oficiais da Federation International of Football Association - FIFA e completando a coletânea com as homenagens aos maiores jogadores do futebol profissional: Pelé e Garrincha.

Ainda se encontram pedaços de crônicas que relacionam o futebol com outros assuntos e episódios da sociedade, destacando inclusive a sua linguagem codificada e uma de suas principais influências na adolescência do torcedor: o futebol de botão. O comentário final do livro pertence a Edmílson Caminha, que resume o foco da abordagem, sublinhando ainda a correspondência na comemoração centenária entre o cronista e o primeiro grêmio carioca, Rio Football Club.

A dimensão do futebol nos textos de Carlos de Drummond de Andrade é ampla, traça uma leitura paralela aos cronistas esportivos mais destacados, de Nelson Rodrigues a João Saldanha, o primeiro com seu discurso épico-lírico de olhar barroco e o segundo situado nos liames do ideológico e do especialista com a moderna linguagem da crônica futebolística, sustentando na afetação simbólica um saber singularizado.

Carlos Drummond de Andrade e seus ilustres companheiros têm no futebol a rica contribuição da arte popular para o debate reflexivo da sociedade brasileira. Drummond relaciona também o futebol e a poesia, aproximando–se do outro mineiro, Paulo Mendes Campos.


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Mais detalhes da obra e do trabalho de Carlos Drummond com o tema futebol, ver o link abaixo, sobre a tese de doutorado de Fabio Mario Iorio.

http://www.letras.ufrj.br/ciencialit/trabalhos/2006/fabiomario_rastros.pdf

Dia D: Dia de Drummond


Hoje, 31 de outubro, dia de Drummond, o Literatura na Arquibancada dará sua colaboração reunindo alguns textos do poeta relacionados com o tema futebol. Abaixo a programação organizada pelo Instituto Moreira Salles. E mais abaixo, o primeiro texto da série Drummond e o Futebol. O poeta era vascaíno.

                                                     
Fonte: http://ims.uol.com.br/radio/D796

No dia 31 de outubro de 1902, nascia o grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Para comemorar a data, o Instituto Moreira Salles lança a ideia de instituir um Dia D – Dia Drummond –, que passa a fazer parte do calendário cultural do país. Assim como os irlandeses (e hoje o mundo inteiro) festejam a vida do escritor James Joyce todos os anos no dia 16 de junho com o Bloomsday, os brasileiros começarão a homenagear um de seus maiores poetas sempre no dia de seu nascimento. O objetivo do IMS é promover e difundir a sua obra. Para isso, convida parceiros e amigos para comemorar a data, em todo o Brasil, a partir deste ano.

Com curadoria de Eucanaã Ferraz e Flávio Moura, a programação do IMS e também das instituições parceiras estão disponíveis no site http://www.diadrummond.com.br. O site também terá conteúdo especial, como o filme Consideração do poema, produzido pelo IMS justamente para a data, no qual nomes importantes da cultura brasileira leem poemas de Carlos Drummond de Andrade, entre eles Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Hatoum, Fernanda Torres, Adriana Calcanhotto, Cacá Diegues, Antonio Cícero, Paulo Henriques Brito, Chacal e Marília Pêra. Como a ideia primordial é envolver a maior quantidade de pessoas na comemoração, o IMS também contará com a participação de anônimos admiradores da obra do poeta, que poderão enviar por e-mail seus próprios vídeos com leituras de poemas. O material resultará em um novo filme. Um terceiro vídeo também produzido pelo IMS estará disponível no site: No meio do caminho (2010) conta com 11 versões em língua estrangeira do poema mais conhecido de Drummond declamadas por personalidades das mais variadas áreas como David Arrigucci Jr., Matthew Shirts, Jean-Claude Bernardet e Heloisa Jahn.

Os filmes Consideração do poema e No meio do caminho serão exibidos também no centro cultural do IMS-RJ e nas instituições parceiras: escolas, universidades, livrarias, bares, museus, TVs, centros culturais. O IMS criou adesivos temáticos que serão distribuídos nos principais pontos culturais.


Poema da noite
Futebol
Carlos Drummond de Andrade

Futebol se joga no estádio? 
Futebol se joga na praia, 
futebol se joga na rua, 
futebol se joga na alma. 

A bola é a mesma: forma sacra 
para craques e pernas-de-pau. 
Mesma a volúpia de chutar 
na delirante copa-mundo 
ou no árido espaço do morro. 

São vôos de estátuas súbitas, 
desenhos feéricos, bailados 
de pés e troncos entrançados. 
Instantes lúdicos: flutua 
o jogador, gravado no ar 
- afinal, o corpo triunfante 
da triste lei da gravidade.

Links para a série sobre o Dia D, Dia de Drummond:

http://www.literaturanaarquibancada.com/2011/10/dia-d-dia-de-drummond-o-futebol-e-o.html

http://www.literaturanaarquibancada.com/2011/10/dia-d-dia-de-drummond-2.html

http://www.literaturanaarquibancada.com/2011/10/dia-d-dia-de-drummond-3.html

http://www.literaturanaarquibancada.com/2011/10/dia-d-dia-de-drummond-4.html

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Gabriel Gárcia Márquez e Joe Louis.



Além das postagens feitas aqui sobre a paixão de Gabriel Gárcia Márquez pelo futebol, abaixo um texto em que o escritor colombiano revela seu gosto pelo boxe. Gabriel Gárcia Márquez, com a maestria de sempre, transforma a queda de um mito do boxe, Joe Louis, em uma crônica de primeira.

Joe Louis

Para todos que tinham Joe Louis como um dos mais atraentes mitos da infância, o melancólico fim de comédia que está vivendo o Demolidor de Detroit é quase a derrota de um amável aspecto de nós mesmos.

Ao lado do pastor que por duas vezes anunciou, falsamente, a chegada do lobo e que nos ensinava a não mentir; ao lado dos algaravães que nos arrancariam os olhos se olhássemos além do que nos era permitido, e que nos obrigavam a ser discretos, Joe Louis constituía o formidável mito que nos ensinava, dia após dia, como aspirar ao prêmio da superioridade.

Ele teve, além do mais, a vantagem de sobreviver aos outros. Muito depois de o pastor do lobo ter sido reduzido a uma simples e divertida lição de moral e os algaravães a pacíficos animais de olhos arregalados e bico longo, que cantavam com ritmo e dividiam o dia em espaços iguais, Joe Louis continuava sendo o que sempre fora desde seu primeiro dia. Logo deixaria de ser um mito para transformar-se num objeto de toda a nossa confiança, um animal infalível e metódico, que respondia sempre da mesma maneira, como um relógio faz com a sua corda, sem que uma única vez fosse perturbado seu extraordinário mecanismo de orangotango bem azeitado.


Nós todos percorremos às avessas o caminho de Joe Louis. Primeiro, o conhecemos como uma entidade mitológica surgida da terra, gotejando a substância mineral que dele fazia um ser superior às outras criaturas, movendo-se num mundo onde o real era tudo o que estava em volta de sua força desproporcional, e o irreal ele próprio, movendo-se como uma besta colossal em torno do adversário, que dela só conhecia a cada coice de mula que o aniquilava.

Depois, quando começamos a ler as biografias sintéticas que se publicavam antes de cada encontro, Joe Louis se tornando cada vez mais humano, mas, pela mesma razão, mais inverossímil e fantástico. Antes se aceitava que seu privilegiado organismo de semideus mulato fizesse tombar as muralhas que se interpunham diante dele, exatamente como um Josué armado de instrumentos mais convincentes do que a demolidora trombeta que o guerreiro bíblico soprou diante de Jericó. Pouco depois tornou-se ainda mais inacreditável, e isso quando se soube que todo o seu poderio era o resultado de um regime de vida especial e que seus recursos residiam nos mesmos órgãos com os quais o sapateiro ao lado fazia sapatos e o pedreiro da esquina colocava seu tijolo.

Chegou um instante em que parecia impossível a Joe Louis perder uma só luta. Então houve um intenso trabalho para a imaginação, que nos mostrou um Joe Louis patriarcal, sentado entre os cacos dos seus adversários dando lições de prudência e de força, como um monarca negro cuja soberania não emanava nem de Deus nem do povo, mas da ginástica praticada com uma furiosa determinação.

Mas aconteceu o contrário. Quando o colosso beijou a lona, todo o mundo lhe caiu em cima, num doloroso afã de destruição; e agora todos os principiantes aspiram rematar a sua glória, hoje colocada em leilão público.

Lá embaixo, nos subúrbios da fama onde agora Joe Louis se encontra, todos nós que o tínhamos na conta de um dos mais valiosos mitos de nossa infância temos agora, forçosamente, de sentir algo dessa dor sem medida que deve estar sentido o colosso que, depois de haver aplicado os melhores socos do mundo para poder instalar bares de negros no Harlem e para dividir, aos punhados, dinheiro entre seus companheiros de raça, vem assestando os piores murros e, o que é mais triste, recebendo-os para poder pagar seus impostos.

Joe Louis, em 1948.

Perfil Joe Louis
Joseph Louis Barrow (La Fayette, Alabama, 13 de maio de 1914 – Las Vegas, Nevada, 12 de abril de 1981). É considerado um dos maiores pugilistas de todos os tempo. Louis manteve o título dos pesos pesados durante doze anos (1937-1948), defendendo-o em 26 lutas. Uma de suas lutas que marcou a sua carreira foi contra o alemão Max Schmelling, em 1938. Essa luta foi uma revanche de dois anos antes, quando Louis sofreu uma das piores derrotas de sua carreira para ele. Ganhou também contornos políticos depois que Hitler utilizou a vitória de Schmelling como propaganda do nazismo, provando que a raça ariana era superior. No fim, Louis venceu e manteve o seu título de campeão mundial.
Deixou os combates por dois anos. Quando voltou a calçar as luvas, Louis fez dez combates na tentativa de reconquistar o título mundial. O lutador conseguiu oito vitórias, mas perdeu para Ezzard Charles, em 1950, e anunciou que não lutaria mais. No ano seguinte, porém, enfrentou Rocky Marciano e foi nocauteado de novo. "Sou seu fã", disse Marciano, após o combate.O motivo pelo qual Joe lutou com Rocky Marciano foi o fato de estar tendo problemas financeiros em consequência de um golpe bancário aplicado pelo sócio de seu empresário.


Joe Louis, em 1973

Nos anos seguintes, Joe Louis virou árbitro de lutas e consumiu muita
cocaína, tendo sido hospitalizado para tratamento. Ele também esteve internado para tratamento de distúrbios nervosos. Começou a ter alucinações de que a Máfia estaria tentando matá-lo com gás venenoso. Certa vez, ao entrar num quarto de hotel, ele tapou todas as entradas de ar com maionese. Chegava a montar uma barraca em cima da cama para se sentir mais protegido.

Morreu em 12 de abril de 1981, aos 66 anos, de ataque cardíaco.


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Luiz Mendes: O Craque da Palavra



Por André Ribeiro
O último encontro com mestre Luiz, como costumava tratá-lo, foi uma lição de vida. De São Paulo, quando liguei para agendar um encontro com ele para o livro “Donos do Espetáculo – Histórias da Imprensa Esportiva no Brasil”, como sempre, foi modesto: “Mas eu? Quem sou eu para fazer parte deste time que você está escalando?”. Luiz parecia querer evitar a entrevista, não por causa da deferência que era feita a ele de integrar o time de profissionais mais experientes da imprensa esportiva brasileira, mas por conta de seu estado de saúde. Como todo repórter, insisti, dizendo que o papo seria breve e que ele, Luiz, não poderia ficar de fora de um livro que pretendia contar a história da imprensa no Brasil. Apelo aceito, toquei a campainha do apartamento 901, na Rua Aires Saldanha, em Copacabana, onde morava havia anos. Já havia estado ali alguns anos antes, em 1998, para entrevistá-lo para o livro sobre o Diamante Negro, pois Luiz, era o único narrador ainda vivo que havia narrado um jogo do craque rubro negro. Diferente desta vez, Luiz não atendeu a porta. Fui recebido pela assistente do lar que recomendou que eu aguardasse. Ouvi de longe a conversa dela com Luiz, no quarto que ficava no corredor. 
Ao entrar no quarto, começava a entender suas razões para evitar a entrevista quando liguei. Ele estava deitado na cama. Um cobertor leve cobria-lhe o corpo. Nunca mais poderia esquecer daquele cenário. Na cabeceira, ao lado da cama, ao invés de aparelhos ou remédios para ajudar na recuperação de um doente, estava um aparato de aparelhos da rádio Globo que permitiam a ele continuar a fazer seus comentários e transmissões. Na frente da cama, um aparelho de televisão para assistir aos jogos que a rádio transmitisse. E, claro, um microfone, instrumento que durante tantos anos ele segurou. Sem graça, lancei um papo furado: “Poxa mestre, o que está acontecendo?”. Luiz pediu para que eu me ajeitasse à beirada da cama. Estava sorrindo, aquele sorriso que quem o conhece, jamais se esquece. Pegou em minhas mãos, apertou-as com força e olhando nos meus olhos disse: “Entendeu agora porque não queria que viesse aqui?”. Percebendo que nada daquilo pelo o que estava passando estava o incomodando, fiz a pergunta: “Mas o que aconteceu?”. Luiz relatou a cirurgia que havia acabado de fazer. Levantou o cobertor e mostrou-me as ataduras que cobriam a perna com o pé amputado: “Diabetes”, disse ele.

Prontamente, Luiz se acendeu para o que mais gostava de fazer: falar sobre futebol. “Então, do que você precisa de mim?”. Não me senti constrangido em ficar ali, mesmo no estado de saúde em que ele se encontrava, porque Luiz parecia feliz com tudo aquilo. Ficamos ali por cerca de três horas conversando, histórias que me ajudaram imensamente a construir meu livro. No final, pediu desculpas por não poder me acompanhar até a saída. Pediu-me um abraço e uma recomendação: “não esqueça de mandar um exemplar quando o livro ficar pronto”.
Aquele momento tornou-se inesquecível para mim. Decidi, então, convidá-lo para escrever o prefácio do livro e que mais abaixo você poderá conferir. Suas palavras elogiosas só me trouxeram enormes lições, como a simplicidade e a gratidão por tudo recebido. Nunca encontrei palavras para agradecer-lhe este prefácio maravilhoso.
Também abaixo, leia um pouco das histórias que Luiz contou, a mais marcante para mim, agora em seu momento de partida é a cena do avião que dispara panfletos pelas praias cariocas anunciando sua chegada ao rádio brasileiro. De onde estiver agora, com certeza Luiz Mendes deve estar jogando panfletos novamente agradecendo por tudo que viveu por aqui. E sorrindo, sempre... Fique com Deus mestre !!!
Luiz Pineda Mendes, gaúcho da cidade de Palmeira das Missões, de 20 anos, desembarcou no Rio de Janeiro, a capital da República, atrás de um objetivo.
Luiz Mendes, como ficou nacionalmente conhecido, era apenas uma promessa da Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, e estava no Rio para transmitir a partida da Seleção Gaúcha contra a Seleção Paulista. No Sul do país, soube da inauguração da Rádio Globo, e já que estava por lá, não custaria nada tentar uma vaga na nova emissora. Luiz procurou o locutor chefe da emissora, Rubens Amaral, um dos diretores da rádio, exatamente em 2 de dezembro, dia da sua inauguração. O encontro aconteceu na sorveteria Americana, que ficava ao lado do Hotel Serrador, entre as ruas Álvaro Alvim e Senador Dantas, no centro do Rio de Janeiro. A primeira pergunta de Rubens foi para saber se o garoto gaúcho tinha alguma experiência. Luiz Mendes apresentou um crachá da Rádio Farroupilha e veio a pergunta: “Você é locutor da Farroupilha?”. Luiz confirmou e recebeu o convite: “Então apareça amanhã, às três horas da tarde”. O gaúcho saiu feliz da vida com a resposta e, pontualmente, compareceu à emissora conforme o combinado, imaginando que seria submetido a algum teste. E surpreendeu-se com o que ouviu: “Recebi o convite para retornar no dia seguinte, novamente às três horas da tarde, só que dessa vez, para começar a trabalhar no programa Chá das três, apresentado pelo locutor Luiz de Carvalho. Minha missão era ler os textos comerciais da produção”.

Luiz Mendes só não começou a trabalhar no esporte por causa de seu sobrenome. É que na equipe esportiva da emissora trabalhava como comentarista Alberto Mendes, que exigiu do chefe da equipe, Gagliano Neto, que o novato gaúcho trocasse de nome. Luiz Mendes preferiu continuar a ler comerciais e foi dessa forma que atraiu a atenção de um dos maiores anunciantes na Rádio Globo da época.
Antonio Paraíso havia criado na emissora a expressão “faixa nobre”, para designar o espaço dedicado aos grandes programas, e Luiz Mendes tornou-se o favorito do dono da empresa A Exposição, primeira loja de departamentos e uma das pioneiras dos crediários no Brasil, pela forma com que narrava os textos da campanha comercial da empresa, especialmente o que dizia: “Basta ser um rapaz direito para ter crédito na A Exposição”.
O dono de A Exposição solicitou então que Luiz Mendes lesse os comerciais durante as transmissões esportivas. No dia 1º de maio de 1946 houve a festa do trabalhador no estádio de São Januário, com a presença do novo presidente da República, Eurico Gaspar Dutra. O local estava entupido de tanta gente para ver Flamengo e São Paulo. Gagliano Neto, além de chefe da equipe, era o locutor principal da emissora. Faltavam poucos minutos para a partida começar e nada de Gagliano chegar. Até que um telefonema revelou que o narrador estava com dois pneus de seu carro furados em uma estrada de Petrópolis. Imediatamente, Luiz Mendes prontificou-se a narrar a partida. Foi emocionante. Com apenas 22 anos, o jovem gaúcho fez então a locução de um clássico repleto de estrelas como Nilton Canegal, Norival, Biguá, Bria e Jaime do Flamengo; além de Luizinho, Sastre, Remo, Leônidas e Teixeirinha, do São Paulo.

Naqueles tempos, as Organizações Globo eram chamadas de Empresa Jornalística Brasileira, e no dia seguinte à transmissão improvisada Luiz Mendes recebeu a proposta oficial de Roberto Marinho, o todo-poderoso da empresa, para ser o locutor número um de futebol da Rádio Globo. Segundo Luiz Mendes, Roberto Marinho confidenciou-lhe que estava descontente com algumas atitudes de seu principal locutor: “Gagliano arrumava anúncios para as transmissões e ele mesmo ia cobrar. Tirava a comissão dele e aí pagava o da rádio”.
A estreia oficial de Luiz Mendes nos microfones da Rádio Globo foi precedida de uma grande campanha publicitária, de fazer inveja a qualquer marqueteiro da atualidade: “As praias do Rio de Janeiro, especialmente em Copacabana, ficavam apinhadas de gente, metade da cidade ia para as praias. Colocaram um avião soltando um boletim com os seguintes dizeres: ‘Estréia na Rádio Globo o mais jovem locutor esportivo, Luiz Mendes, o craque da palavra’”.

Prefácio do livro 
Donos do Espetáculo – Histórias da Imprensa Esportiva no Brasil


A literatura esportiva no Brasil tem crescido satisfatoriamente nos últimos tempos.  Até há poucos anos, contavam-se nos dedos as obras que focalizam os esportes, embora a abrangência social que os jogos esportivos alcançam, justifique plenamente que o assunto seja destacado da forma mais ampla possível. Aos poucos, porém, foram surgindo escritores com a coragem de assumir trabalhos dedicados principalmente ao futebol – maior paixão popular do Brasil. Eu mesmo já me aventurei com duas obras e me considero satisfeito com os resultados obtidos. Na minha trajetória de sessenta anos de atividades em jornais, rádios e emissoras de televisão, cheguei a testemunhar a presença de figuras importantes da literatura brasileira no meio da crônica esportiva, numa demonstração de que respeitáveis nomes da nossa inteligência também se deixam envolver pelas mesmas emoções vividas pelo povo do nosso país.  O famoso escritor José Lins do Rego chegou a ter uma coluna no Jornal dos Sports do Rio de Janeiro que se intitulava Esporte e Vida.  O grande autor de Menino de Engenho mantinha presença diária nas páginas do referido jornal.  Nelson Rodrigues, o polêmico autor de Vestido de Noiva, não só escrevia diariamente em diversos órgãos da imprensa nacional, como participava aos domingos de uma mesa redonda na televisão, num programa que era comandado por mim.  O poeta Vargas Neto, considerado o maior em poesias regionais do Rio Grande do Sul, autor de Gado Xucro e Tropilha Crioula, não só publicava uma coluna de futebol na imprensa como foi, por muitos anos, Presidente da então Liga Carioca de Futebol.


A chegada de gente ilustre das lides literárias brasileiras ao recinto da crônica esportiva valorizou a atividade, trazendo para o nosso meio uma importância que até ali não tínhamos. Isso despertou na juventude de nosso país o interesse pelo jornalismo esportivo e foram surgindo novos escritores com indiscutível valor profissional como é o caso do autor de Os Donos do Espetáculo, que escolheu o caminho das biografias e da história de alguns setores que fazem o suporte maior do futebol. Refiro-me ao jovem André Ribeiro que nos entregou duas preciosidades que foram os livros Diamante Negro, biografia de Leônidas da Silva e Fio de Esperança contando a vida de Telê Santana.  Agora ele abre nova cortina nas janelas dos registros do mais popular dos esportes com este esplendido livro Os Donos do Espetáculo – Histórias da Imprensa Esportiva do Brasil. Penso que este livro servirá muito para todos os estudantes de comunicação que desejam ingressar no jornalismo esportivo. Como escola e como exemplo. Aqui figuram todos os nomes que nos pouco mais de cem anos da existência do futebol no Brasil, desde Charles Miller até os dias atuais, ajudaram a construir a grandeza futebolística do nosso país, a começar dos primeiros e tímidos passos e prosseguindo pela gloriosa conquista de cinco títulos mundiais. Sinto-me particularmente honrado por ter meu nome referido neste livro, principalmente por integrar um imenso exército de companheiros cujos serviços tanto ajudaram o Brasil a se tornar o mais importante país do mundo no mapa do futebol internacional. Sei que André Ribeiro não vai parar por aí.  Será muito bom que ele continue a mostrar para todas as gerações de brasileiros, tudo aquilo que forma a frondosa árvore plantada um dia por Charles Miller e regada por tantos outros que a fizeram fecundar,crescer e se tornar eterna.

LUIZ MENDES, 02/08/2007

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O multimídia Mauro Beting



Ele escapou da sina dos filhos de famosos que “dormem” na história familiar e construiu uma carreira sólida, independentemente do sobrenome que carrega e que poderia lhe abrir muitas portas em qualquer empresa. Mauro Beting é uma “figuraça”, gente boa demais e extremamente competente em tudo o que faz. E olha que não é pouca coisa o que este palmeirense fanático faz no seu dia a dia. Como consegue arrumar tempo para tudo isso? Confira nessa entrevista imperdível...


“Sou um cara de madrugada.
Produzo melhor quando não sou incomodado por nada.”

Literatura na Arquibancada:
Você escreve para vários veículos de comunicação. Como é o processo de criação dessas colunas? Como é feita a apuração, a que horas escreve, enfim, qual a rotina diária de produção?

Mauro Beting:
Estou no futebol desde junho de 1990. Copa da Itália. Entrei direto como colunista na Folha da Tarde, que virou Agora S.Paulo. Lá fiquei com coluna diária até outubro de 2006, quando fui para O Lance!, onde escrevo pelo menos três vezes por semana. Ainda tenho blog no Lancenet!. Mais coluna semanal no Yahoo!. Uma mensal na revista Fut! Mais colaborações para outros veículos e, muita honra, cerca de seis ou sete orelhas, prefácios e apresentações de livros de futebol, esporte, jornalismo por ano. 
Primeiro crachá. Primeiro emprego. 1987. Mauro Beting trabalhava como produtor na chefia de reportagem. Fazia matérias especiais para o Jornal de São Paulo. Como ele mesmo diz: "As reportagens eram boas. O produtor, confesso, não. Em outubro, comecei a produzir também o Crítica & Autocrítica. Todo domingo à noite. Bem à noite"
Enfim, escrevo diariamente há 21 anos. E ainda suo todo dia. Para fazer uma média, por semana, digamos, são sete textos. Um eu gosto. Outro passa. Os outros cinco não gosto. Sou um cara de madrugada. Produzo melhor quando não sou incomodado por nada. Mas adoro escrever com música. Ou mesmo vendo futebol. Me ajuda ver uma bola rolando ou o som dela para escrever. Dependendo do texto, e sou um cara que gosta de trabalhar com estatística e dados históricos, a apuração demora mais. Uso alguns softwares, uma rede de amigos, colegas e colaboradores, e, hoje, uma internet que não deixar mentir – tanto. Tenho um ótimo acervo de livros, um excelente banco de imagens, um bando de dados bastante complexo. Mas tudo, hoje, pode ser feito com a ajuda da internet. Até mesmo para a captura mais rápida de imagens. E, sim, parte do processo de apuração passa pelo meu trabalho em rádio (Bandeirantes), TV (Band, Bandsports e Esporte Interativo) e, para resumir, nos quase 10 lugares onde trabalho normalmente. 
Primeiro programa ZICO NA ÁREA,
no ESPORTE INTERATIVO ao lado de Bebeto e Zico.
Mas o essencial para cumprir essa pauta louca é não ter rotina. Ela que estressa tanto quanto trabalhar com o que não se gosta. Como sou apaixonado por tudo que faço, fica mais fácil me virar.  



L.A:
Fale sobre seus livros. Como surgiram? (Bolas e Bocas e Os 10 mais do Palmeiras)

M.B:
A pretensão de ter um texto publicado como livro (não me considero “escritor”) vem de 2002. Coleciono frases de futebol desde 1994. Tenho material para uns cinco livros. Mas precisava do primeiro. Fui atrás de uma editora que não me deu bola. Quando a LeiaSempre me pediu um livro em dois meses, ele estava praticamente pronto. Lancei Bolas & Bocas – Frases de Craques e Bagres do Futebol em dezembro de 2003. Um phrase-book de futebol com gente do jogo ou fora dele falando bem e mal do futebol. Ficou legal, até porque tem pouca coisa minha. A bem dos fatos, tem quatro frases que são minhas. Mas botei na boca de outras pessoas. Todas autorizaram. E são boas. Mas não era cabotino a ponto de me citar.


Meu segundo livro é O dia em que me tornei palmeirense, da Panda Books. Um projeto fechado do Marcelo Duarte que, para mim, é obra de ficção. Não teve um dia em que me tornei palmeirense – nem o do nascimento, porque já era uma poeira cósmica verde. Mas, com a ajuda de dois grandes colegas, fizemos um manual infanto-juvenil gostoso. Até porque o meu real trabalho foi contar a história inicial. Real. Mas difícil de ser contada para um garoto de 12, 14 anos. Apanhei. Mas ficou bom.


 O terceiro é um livro a respeito do Jornalismo Esportivo. Formação e Informação Esportiva, da Summus. Eu e outros seis colegas falamos de várias facetas do Jornalismo. Um texto que você pode achar no Google Books.



O quarto livro é outra encomenda. Os 10 mais do Palmeiras, da Maquinária Editora. Escolhi 10 palmeirenses que escolheram 10 ídolos. Fiz a biografia dos dez, com a ajuda de Fernando Razzo Galuppo. Fizemos uma baita venda na noite de autógrafos na Saraiva do Shopping Eldorado. O livro esgotou em uma hora. Estamos partindo para a terceira edição. Da coleção, só perdemos para o Flamengo. O Palmeiras vende muito bem.


O quinto livro é encomenda da Contexto. As melhores seleções estrangeiras de todos os tempos, obra-irmã da do Milton Leite, que fala dos melhores times que o Brasil já teve. Eu e os editores escolhemos sete seleções de Copas do Mundo. E fizemos um livro denso e rapidamente, em pouco mais de três meses. Com a ajuda de dois caros colaboradores: André Rocha e Dassler Marques. Mais o acervo de vídeos de Gustavo Roman, pudemos ver e rever jogos da Hungria-54, Inglaterra-66, Holanda-74, Alemanha-74, Itália-82, Argentina-86 e França-98. E mais um capítulo só para internet com a Espanha de 2010. É um trabalho que me orgulho muito, até pelo pouco tempo em que foi feito. A minha parceria com André Rocha, do globo.com, se estendeu ao meu próximo lançamento, em novembro, pela Maquinária Editora. 1981. Um livro que conta a trajetória do Flamengo campeão mundial. Para não dizer de tudo no período de 1976 a 1983. Ideia e concepção do André, eu entrei como coautor de um craque que é ele. O livro é muito mais dele do que meu. E é o meu caminho atual. Parcerias. Esta semana mesmo estou estudando um novo projeto ainda em sigilo. Tenho um trabalho para Ipad em desenvolvimento. Duas autobiografias engatilhadas sendo escritas. E mais uma em que fui convidado pelo Nasi. A dele. Fiquei muito feliz e honrado pelo convite que me fez sair um pouco do esporte. Enfim, estou no sexto livro publicado. Escrevendo mais três. E com mais dois projetos. E podendo dizer não a alguns projetos já realizados. Um livro sobre Jornalismo, outro sobre história do futebol. E mais prefácios e orelhas. Só esta semana escrevi três. Ah, sim, e também assinei contrato para outro projeto histórico de livro a respeito do Palmeiras. Outro que pretendo escrever a quatro ou até a oito mãos. É o jeito para poder realizar outra paixão que estou entrando de cabeça. Vou corroteirizar e codirigir três filmes do Palmeiras. No mínimo. Três filmes oficiais.


Só pode entender de futebol quem entende o torcedor”

L.A:
Como é o processo de produção e criação nesses casos?

M.B:
Variável. Nas biografias vou estudando e escrevendo, lendo e escrevendo, vendo e escrevendo. E, quase sempre, deixando entrevistas para o final. Gosto de tentar saber todas as respostas para as perguntas que faço. Quero seduzir o entrevistado tentando mostrar que sei muito dele e da história dele. É um jeito de ganhar confiança para ir além. Por vezes, varo noite estudando e escrevendo. Até que dou uma gelada no texto, fico semanas – quando possível – longe dele, para não me contaminar, depois releio e mando bala. Consigo fazer muita coisa porque escrevo muito rápido. Não necessariamente bem. Mas rápido. E, agora, conto com um time excepcional de apoio. Confio demais em todos eles. Mas confio mais no meu texto final. Ainda que alguns colaboradores que tenho entendem e escrevam melhor do que eu, gosto de imprimir meu estilo ao final. Quanto à criação, meus livros seguem o meu trabalho diário. Uma tentativa de equilibrar razão e paixão, informação e, sim, torcida. Só pode entender de futebol quem entende o torcedor. Como ele, incompreensível...
Trabalho diariamente em rádio, TV, jornal, revista, internet. Gosto de fazer rádio mais que todos. Mas o que me deixa mais orgulhoso é o texto escrito. E, mais ainda, um livro publicado.

L.A:
Você já participou de outras obras literárias. Cite algumas e qual sua participação.

M.B:
Ah, sim, tenho outros textos em coletâneas. Muitas, ainda bem, mas eu ainda gosto de dizer que tenho apenas esses seis filhos. E quero ter muito mais. Entre os mais importantes, está um livro do Antonio Carlos Napoleão sobre a rivalidade Corinthians-Palmeiras. Outro a respeito de grandes jogos. Um texto no livro dos 100 gols do Corinthians – o gol contra de Oséas, claro, em 1998. E muitos textos, como já disse, de prefácios. Entre eles, os que mais gosto está em um de Jornalismo Esportivo, do Celso Unzelte; outro num livro de goleiros, de Paulo Guilherme. E o da história da revista Placar, de Márcio Kroehn e Bruno Chiaroni.

Primeira transmissão de Liga dos Campeões feita do escritório de Mauro Beting,
para o Esporte Interativo. Zurich x Real Madrid. Com André Henning e Vitor Sergio Rodrigues.
L.A:
Como colunista e estudioso do esporte, do que sente mais falta na crônica contemporânea?

M.B:
Paixão pelo texto e pela crônica. Vez ou outra cometo as minhas. E fico feliz quando  elas repercutem bastante. Porque são feitas com amor. De fato. Amor ao esporte. Amor ao futebol. Aquele amor que não mede conseqüências e que a gente troca as bolas misturando com o detestável clubismo e com o execrável bairrismo. Além, também, de um maior apuro nas informações, e um respeito maior ao  consumidor-torcedor. Para não dizer ao próprio atleta e treinador. Quanto aos cartolas? Em média, são tratados corretamente.

L.A:
Que tipo de livros gosta de ler (fora futebol) e se algum desses autores o ajudou no estilo da escrita?

M.B:
Drummond sempre destrava. Até sem querer. Como Machado de Assis. Luis Fernando Veríssimo é quem eu gostaria de ser. Ou melhor, de escrever como. John Steinbeck é quem eu precisaria reler. Mas não tenho  tantos ídolos na área, não. Aliás, tenho muitos, o que faz com tenha poucos, ao final das contas. Mas amo os ironistas e humoristas. Todos. De Agamenon a Woody Allen. Passam tudo em poucas linhas, e com o humor que é tão necessário quanto o amor. Ainda mais no futebol. Hoje, estou caçando textos com humor.

L.A:
Quais os 5 livros nacionais e os 5 estrangeiros de sua preferência (sobre futebol)?

M.B:
O Negro no Futebol Brasileiro, de Mario Filho, definitivo. Futebol – A dança do diabo, de Francisco Sarno. Quase todos os de Nelson Rodrigues e Armando Nogueira. A dança dos deuses  - Hilário Franco Júnior (com restrições, como todos).
Estrangeiros? Inverting the Pyramids, de Jonathan Wilson, com restrições e senões; Futebol e Guerra – Andy Dougan; Fever Pitch – Nick Hornby; Como o futebol explica o mundo; e, me permita, incluir um sexto brasileiro – Coadjuvantes, de André Piqueira. Por questões palestrinas, o Fever Pitch brasileiro.

L.A:
O que acha do atual mercado editorial sobre livros esportivos?

M.B:
Crescendo a um ponto que eu já não consigo atender à minha demanda. Mas, como todo mercado, em breve satura. E terá de sair pela tangente digital. Que ainda não tem o alcance real. Porém, é maravilhoso ver muito TCC virando livro de qualidade, muito projeto engavetado entrando no papel.

L.A:
É possível viver da publicação de livros esportivos no Brasil?

M.B:
Como Mauro Porco, e não Paulo Coelho, posso dizer que não. Ainda que tenha vendido bem, não há como. Sei que já tenho um nome legal na área, que estou expandindo em novas áreas e até mídias, mas, infelizmente, não há como. Porque adoraria fazer mais uma série de projetos que não tenho tempo. E, no caso, também como sinônimo de dinheiro. E, uma pena: porque dois deles têm conteúdo educativo e pedagógico que dariam mais que livros.

L.A:
Com a realização dos dois maiores eventos esportivos do planeta, no Brasil, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, o mercado de livros esportivos deve mudar?

M.B:
Deve crescer. Mas não mudar. Um boom, sim. Mas que se esgota.