segunda-feira, 18 de abril de 2016

Telê Santana: 10 anos sem o mestre

Há dez anos ele partiu deixando uma enorme lacuna no futebol brasileiro. Telê Santana, da luta pelo jogo jogado. Telê Santana, do enfrentamento com dirigentes. Telê Santana, da prosa sempre boa de todo mineiro. Mas quem é “mestre”, como dizem, permanecerá eterno.

Para recordar Telê, Literatura na Arquibancada resgata três textos de craques da literatura brasileira. Nos dois primeiros, Mário Filho e Alberto Dines, nos dão a dimensão exata do que Telê representava: o primeiro como jogador de futebol; e o segundo, como técnico da seleção brasileira.

No final, um artigo escrito pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, dois dias após o jogo que faria Telê e seu grupo de jogadores entrarem para a história do futebol mundial após a derrota para a Itália na Copa de 1982. Uma reflexão importantíssima, especialmente, aos críticos do tal “futebol-arte” apregoado pelos “discípulos” de mestre Telê, contrariando aqueles que defendiam a vitória a qualquer preço.

A crônica abaixo do jornalista Mario Filho foi extraída do livro “O sapo de Arubinha - Os Anos de Sonho do Futebol Brasileiro” (Companhia das Letras, 1994). Telê estava no auge de sua carreira (setembro de 1956) quando se tornou personagem de Mario Filho. 





 

Telê

Descobrimos Telê todos os anos. E o curioso é que ele é sempre o mesmo. Não há jogador mais fiel a si mesmo. Por isso Telê se repete. A repetição esconde-o, faz a gente se esquecer dele um pouco. O termo não é esquecer. A presença de Telê é uma dessas coisas que ninguém pode ignorar. Ele joga os noventa minutos. Dito assim parece que não é nada de mais. O jogo dura noventa minutos, o que pode sugerir, como sugere à primeira vista, que todos jogam noventa minutos. Jogariam, se não fosse Telê. Quer dizer, a gente não ia desconfiar que não jogam, se não fosse Telê. 

Telê trouxe uma nova medida de tempo para o futebol. É, de algum modo, o ponteiro dos segundos, o que não pára. Os outros são, quando são, o ponteiro dos minutos. Há, até, os que não são ponteiros: são os cinco, os dez, os vinte, os trinta, os sessenta, os números que os ponteiros atravessam, girando. Ponteiro de segundos é Telê. E vocês, que têm relógio, vão compreender melhor por que se descobre Telê, todos os anos. Para ver o ponteiro dos segundos, a gente precisa ser um pouco médico, que todos somos, contar as pulsações.

E é justamente quando se toma a pulsação do match, Telê jogando, que se descobre esse ponteiro dos segundos. Então há sempre um espanto, embora todos estejam não digo cansados, nem fartos, nem nada de ver Telê e sempre assim. O espanto vem daí, dessa repetição que se poderia chamar, dentro da relatividade do futebol, de perene. Um jogador demora um pouco a acabar e poucos resistem a chamá-lo de eterno. O que Telê faz, outros fizeram e fazem, mas num jogo. Escolhem um jogo e molham a camisa e não param, e vão para a frente e voltam, e avançam e recuam, dum lado para outro. Depois tomam férias. Não são de ferro. Ninguém reclama porque concorda. Se se jogasse sempre assim, não havia jogador que aguentasse. Telê aguenta. Percebendo-se isso, apesar de público e notório, a boca se abre e é a perplexidade. Sobretudo porque Telê é quase só ossos, não há jeito de ganhar nenhum quilo. Como?

E o mais curioso é que Telê é um pão-duro. Depois de dizer isso, retifico: não é o mais curioso. Parece haver uma contradição entre a generosidade de Telê em campo pelo clube e não dando nada fora do campo. Não há. Pelo menos me vem à memória outro pão-duro que, em campo, era uma fera. Telê não é uma fera. Zezé Procópio, unha-de-fome, em campo se matava pelo clube. É verdade que não dava a impressão de que se estivesse matando. A impressão que dava é a que estava disposto a matar qualquer um. E saia da frente. Agora me vem outra ideia: o que Zezé Procópio parecia é que estava cobrando dívidas, que cobrava com juros altos, que cobrava até 50% por semana. Também ficou rico. Era um agiota, coisa que Telê não é. Telê é sumítico, com dinheiro, mas com a bola, defendendo o Fluminense é um mão-aberta, um estróina.

  Estróina – eu disse estróina? – não, Telê não lembra um estróina. Apenas cumpre a obrigação dele e, para ele, a obrigação dele é aquela. Realmente, procede como se não fizesse nada de mais e cumprisse apenas a obrigação. Quem quiser cumprir direito a obrigação, transformada em dever, o que se tem a fazer tem de ser feito, verificará que precisa ser um Telê. Por isso Telê é um exemplo. Ele não mete o pé em ninguém, não descompõe ninguém, não faz mais do que pode fazer normalmente. Nele aquele esforço todo é natural, espontâneo. Por muito menos outros jogadores se sentiram carregadores de piano. E gritavam logo que estavam cansando. Telê não cansa. E o espantoso é que não cansa nunca, esse fiapo de jogador que não para nem quando a bola está fora. 

O comum é o jogador sem bola parar logo. Telê sem bola é que não para mesmo. Eis por que joga os noventa minutos. Primeiro 45, descansa dez no intervalo e mais 45 minutos cravados. Falei nas bolas fora porque o juiz não desconta tempo, a não ser que venha a cera, ostensiva. A multidão protesta, o juiz olha para o cronômetro e anuncia, olhando o cronômetro, que está descontando o tempo. Quando há desconto do tempo, Telê joga mesmo mais de noventa minutos. Vou explicar direito, já que pode haver quem não me entenda. Eu quero dizer que Telê está no jogo os noventa minutos ou mais, com os descontos. A atenção dele não se desvia da bola. Mesmo a bola caindo no fosso do Maracanã, isto é, desaparecendo da vista da gente. Telê, então, fica olhando o garoto que segura aquela espécie de apanhador de borboletas para ir buscar a bola.

Para Telê é importante. O quíper (goleiro) vai receber a bola, vai colocá-la sobre a linha da pequena área, talvez seja o quíper quem bate o tiro de meta, talvez seja o beque. Telê tem de estar preparado para receber aquela bola ou para roubá-la. Ele é um ladrão dessas bolas sem destino certo, um descuidista dentro do campo. Bola sem dono é de Telê. Quem o chama de ladrão é o Benício Ferreira Filho. E o termo é bom porque quando o quíper do outro lado, ou o beque, bate o tiro de meta, é para dá-la a um jogador do time dele e não a Telê. Mas Telê já está à espera da bola. Há jogadores que olham no momento do tiro de meta, para ver a direção da bola. Telê estava olhando antes. A bola do tiro de meta, a bola do out-side, a bola que espirra, a bola que foge, a bola que toma efeito, a bola que para, a bola que anda, a bola que salta.

Se um jogador espera um passe e não se antecipa, está sem bola, Telê apareceu, para muitos não se sabe de onde. Mas se alguém, em vez de olhar para a bola, olhar para Telê, que é quase a mesma coisa, não tem de que se espantar. Telê está sempre se colocando, mudando de posição, e de olho na bola, ela esteja perto ou longe. Mas não se olha Telê, olha-se a bola, embora se saiba que Telê está no palco, digo no campo. Mas podia dizer palco. Dão a deixa e ele aparece. Só que, no futebol, dão muito mais deixas do que no palco. É, porém, difícil ser Telê, pegar todas as deixas. Sobretudo porque não se reserva para Telê o papel principal. Ele é que toma e com a naturalidade de quem não está tomando nada. De quem está apenas representando o papel que lhe foi destinado.

Apesar de tudo, se devia ver mais Telê. Ele merecia que a gente se voltasse mais para ele. Ou que, pelo menos, se visse melhor o que ele faz. Vê-se Telê, mas não se vê direito o que ele faz. Não se fraciona a jogada dele, não se a coloca debaixo de uma lente para ampliá-la, como se faz com as jogadas de tantos outros. Talvez porque Telê não chame a atenção sobre si mesmo. Há jogadores mestres nisso. Vão fazer uma jogada e como que avisam. Os olhos da multidão se voltam para ele e ele então começa a executar o número variado. Já Telê é a peça toda. Dá a impressão de que há sempre tempo para vê-lo. Há realmente sempre todo o tempo para vê-lo. Ele entrou em cena agora, vai voltar me seguida, estará sempre no palco, a deixa não tarda.

Basta que um jogador se sobressaia um pouco num match em que jogue Telê para que se esqueça um tanto Telê. Há sempre tempo para se lembrar Telê. Realmente há sempre tempo para se lembrar Telê. Mas se deixa o tempo passar. De tanto se espantar com Telê, a gente chega a achar, sinceramente, que esgotou toda a capacidade de espanto. O que era uma injustiça, o se esquecer de Telê, passa a ser a única maneira de fazer-lhe justiça. De outra forma não o descobriríamos mais, já lhe teríamos o mapa, que temos, com as capitais, que temos, os acidentes geográficos, que temos, as riquezas minerais e vegetais, que temos, mas que, por termos, dá-nos a segurança de saber tudo, que é a melhor maneira de esquecer.

Porque o esquecemos, tantas vezes, é que o descobrimos outras tantas. Descobrindo-o de novo é como se nunca o tivéssemos visto, pelo menos assim. E assim era ele, e é, e a gente também acha que será toda a vida. Até que acabe. Mas parece não acabar nunca. Dura se esbanjando. É um milionário de futebol. Milionário americano, de fita de cinema. E o que preocupa é o futuro. Não de futebol, o outro, o sem futebol. Por isso trabalha, tem negócio, guarda, guarda tudo. Só não guarda futebol. O que tem dá ao Fluminense às mãos-cheias. Geralmente o jogador de futebol faz o contrário: esbanja o dinheiro que ganha e economiza o futebol, para esticá-lo o mais possível.

E o que acontece é que, quando lhe acaba o futebol, não tem nada. Telê é o contrário: guarda o dinheiro, trata de aumentá-lo, de entesourá-lo e talvez seja isso o que lhe dê essa tranquilidade em não regatear nada no futebol. Acabando o futebol, ele continuará com a vida dele, de pai de família e homem trabalhador. Pode dar o que tem em futebol, generosamente, de coração aberto. Aliás, só se sabe jogar assim. Não é esse o melhor caminho para a popularidade. Gosta-se de Telê, admira-se Telê, mas se precisa sempre descobri-lo de novo. O que é um mal e é um bem. Quando se o descobre de novo é como se surgisse um outro Telê. E a verdade é que é o mesmo, o de sempre, o de todos os dias, o mais cotidiano dos jogadores”.

No texto abaixo, escrito pelo jornalista Alberto Dines e publicado na Revista Placar na edição do dia 16 de julho de 1982, vemos uma reflexão pessoal, um verdadeiro tributo ao técnico e homem que mesmo derrotado em uma copa do mundo tornou-se o centro das atenções de torcedores, técnicos, jogadores e imprensa mundial. Naquele momento em que leu esse artigo, Telê, com certeza, não poderia imaginar com a dimensão que aquela derrota sofrida teria reflexos na história do futebol mundial.  

“Não sou amigo de Telê, não sou mineiro, não sou de seu clube. Não envergo camisas nem uniformes. Nunca escondi minha admiração por aquela lucidez simples, pela geometria mental objetiva e nítida. Agora quando despenca no abismo, o faz com a mesma simplicidade e elevação. Gosto de gente assim. Ele não me conhece. Não sabe meu nome, cumprimentava-me cerimoniosamente, um dia chamou-me de ‘senhor’ apesar de ser um pouco mais velho. Não há vínculos, não há corriola. Apenas admiração. Ele é meu Dom Quixote preferido, o homem que não esperneia – cai lutando ou, se quiserem, cai chutando em gol... 

As entrevistas que Telê Santana concedeu depois da derrota são exatamente as mesmas que concedeu na triunfal ascensão aqui na Espanha: explicou claramente, não escondeu, não escapou, não fez firulas retóricas – não recriminou nem culpou. Quando mencionou que houve falhas individuais e não táticas, não estava se eximindo, transferindo culpas e expiação para os comandados. Estava sim, defendendo o futebol-fantasia de que falou Vargas Llosa, instituição nacional em vigor nas várzeas, campos de peladas e canchas espalhadas por este país-estádio... 

Quero ver Telê na presidência da República quando acabar o mandato de Figueiredo. Sabem por quê? Porque tem categoria para perder. Foi sempre o técnico mais aplaudido nos encontros com a imprensa internacional depois de cada jogo. Ele compreendeu a alma brasileira sem teorizar, nem doutrinar. O futebol-arte que ofereceu, ovacionado pelo italiano Bearzot e pelo craque Cruyff, não é um modelo formal, é uma reprodução de nossa natureza. 

Telê, desculpem, tem muito de JK– tem grandeza. Com simplicidade, com um palito nos dentes. Não envergava a fatiota impecável do milongueiro Menotti, está sempre de calção ou agasalho esportivo. Afinal é jogador, futebolista, atleta. Em campo não desenha figuras geométricas e rígidas extraídas de tratados, como o fazem nossos políticos e administradores acostumados, primeiro, em escolher um “ismo” e depois tudo fazem para nele se encaixar... 

Quero gente como Telê no comando do meu destino como cidadão. Nunca me obriguei a ser vitorioso. Em lugar algum de minha agenda está consignado “ganhar”. Abomino o triunfalismo imbecil e “aplastador”. Se vencêssemos esta Copa de 1982 teria sido uma campanha sublime. Perdemos e com tamanha dignidade que roça na vitória. Gostaria de Telê como amigo, para na hora do aperto me estimular para jogar como gosto de jogar. Telê é o grande espelho do nosso lado bom. Exatamente o que precisamos para recolocar a bola no centro e, sem olhar o marcador, partir para uma virada”.

Se Alberto Dines e Telê entenderam o significado daquela derrota fatídica para os italianos, na Copa de 1982, o mestre da poesia brasileira, Carlos Drummond de Andrade, dois dias após ao jogo ganhou uma página inteira do Jornal do Brasil (07/07/1982) para deixar eternizado uma reflexão espetacular sobre o verdadeiro significado da palavra “derrota”.

“Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; 

vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas...

Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.

Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado.

A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.

Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se.

Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. 

Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?”


Literatura na Arquibancada recomenda aos leitores outros links sobre Telê, aqui mesmo neste blog.










quinta-feira, 24 de março de 2016

Cruyff: mais um craque que se vai

Mais uma grande estrela do futebol mundial nos deixou. Johann Cruyff era astro de uma seleção revolucionária, a Holanda, de 1974 e seu “carrossel”. A “laranja mecânica” encantou o mundo e fez de seu estilo e tática de jogo, objeto de estudos e pesquisas eternas.

Cruyff era polêmico, também. Virou técnico, do poderoso Barcelona. E está na galeria dos imortais do futebol mundial.  

Literatura na Arquibancada resgata, abaixo, capítulo do livro sobre Cruyff, em A Magia da Camisa 10 (Verus Editora, 2006). O mais curioso nisso é que Cruyff não jogava com a 10, mas com a 14. Você entenderá porque Cruyff era um legítimo 10.

A Magia da Camisa 10
Por André Ribeiro e Vladir Lemos

Nascido em 25 de abril de 1947, no pequeno bairro de Weidestraat, próximo de Amsterdã, Cruyff era filho de uma família pobre. Hermanus, seu pai, vendia frutas e legumes em uma barraca, enquanto que a mãe, dona Petronella, era uma das faxineiras do Ajax, clube de futebol mais importante em Amsterdã.

Hendrik Johannes Cruijff, foi descoberto por acaso. Corria o ano de 1966 e Vik Buckingham, perto de deixar o cargo de treinador no clube, se encantou com o toque de bola do pequeno Johann. Colocou-o no time, e passou o comando para Rinus Michels, um ex-centroavante do Ajax de porte físico imponente. Rinus, integrante de uma escola de treinadores dispostos a provar que era possível alargar a maneira de encarar o futebol, fez de Cruyff e sua genialidade, ótimos instrumentos para colocar em pratica teorias revolucionárias.

Nós pés de Cruyff o futebol conquistou a qualidade de ser imprevisível. Mas não foi fácil para o menino chegar até ali. A família não tinha dinheiro nem mesmo para comprar um par de chuteiras. O jeito era jogar bola com os amigos calçando sapatos, que não duravam duas semanas nos pés do pequeno craque:

- “Meu pai se irritava, e chegou a me castigar algumas vezes. Até que um dia decidiu comprar sapatos para jogar futebol, bem resistentes. Tiraram as travas e reforçaram a sola. Como não rasgavam, podia usar o tempo todo”.

Calçando sapatos ou chuteiras, o futebol de Cruyff era grande. Com apenas 10 anos foi escolhido entre 300 meninos para jogar nas categorias de base do Ajax. A felicidade durou pouco. Quando completou 12 anos, seu pai morre e a mãe é obrigada a vender a barraca de frutas que garantia o sustento da família. Cruyff e seu irmão passam a ter que ajudar a pagar as contas do final de mês. O pequeno Johann encontrou o útil e o agradável. Como morava a meio quilômetro do campo do Ajax acabou praticamente adotado por um amigo da família que cuidava do estádio. Ganhava alguns trocados para ajudar a tratar da grama, para colocar as bandeiras nas laterais do campo, cuidar dos uniformes e limpar as chuteiras de outros jogadores.

Vivendo o dia-a-dia do clube, Cruyyf se projetou de forma meteórica entre os jogadores das categorias menores. Aos quinze anos, enfrentava adversários maiores, e fazia da técnica apurada uma arma  para vencê-los. Foi nesta época que ganhou o apelido que carregaria para o resto da vida, “El Flaco” (o magro):

- “Eu era muito, muito magro. Não pesava nada. A única forma de dominar o jogo era com a técnica. Em minha primeira partida tinha tão pouca força que não me deixavam nem mesmo bater  os escanteios porque a bola não chegava ao gol”.

Se não tinha força, a técnica era inigualável. Em 1964, Cruyff estreava no time principal e daquele momento em diante, estava em campo para começar a mostrar tudo que aprendera. Na estreia perdeu para o Groningen por 3 a 1, mas foi dele o único gol do Ajax. Começava a ser escrita neste momento a trajetória de um dos melhores jogadores do século 20. 

Não era à toa que nos momentos que precederam o encontro entre Brasil e Holanda no mundial de 74, a comissão técnica do time brasileiro estivesse apreensiva.  O homem do ataque mágico do Ajax e capitão da seleção, já era o principal jogador da história da Holanda, e não por acaso. Em 1969, além dos títulos da liga, havia se convertido no maior goleador do país marcando 33 gols em 49 partidas e levado pela primeira vez um time holandês a uma final da Copa da Europa, título que conquistaria dois anos depois no majestoso estádio de Wembley, em final contra o time grego, Panatinaikos. 

O jogador de estatura pequena, à primeira vista inadequada para as duras exigências do futebol, se tornava mais imponente a cada partida. Entre 1971 e 1972, como se não bastasse vencer a liga pela quinta vez, e ser tri da Copa da Holanda, Cruyff, escreveria no estádio de Kuip, em Roterdan, outro momento histórico. Foram dele os dois gols da vitória sobre a Inter de Milão que deram ao Ajax a segunda Copa da Europa consecutiva, e que ainda levariam o time a ser campeão Mundial Interclubes, contra o Independiente, da Argentina.

Ao derrotar a Juventus de Turim, em 1973, e se sagrar campeão europeu pela terceira vez o Ajax passou a representar a máxima potência do futebol mundial. Cruyff conquistava o segundo troféu de melhor jogador europeu de sua carreira. O fato de ter sido vetado como capitão do time em 1973, por ter se recusado a jogar contra o Bayern de Munique, iria acelerar a sua saída para o futebol espanhol. Uma longa negociação marcou a transferência. O clube queria negociá-lo com o Real Madrid, mas Cruyff, que tinha fama de rebelde, queria jogar exatamente com a camisa do maior rival madrilenho. Transformou-se no jogador mais caro da Liga espanhola com os 60 milhões de pesetas pagos pelo Barcelona, além do salário mensal de 12 mil dólares. 

Gastar tanto dinheiro com um único atleta justificou-se bom negócio para o clube catalão. A primeira temporada com a camisa do Barcelona seria a melhor de Cruyff no país. O time estava na penúltima posição, e com o talento de Cruyff, voltaria a ganhar a liga espanhola depois de 14 anos. Entre os feitos, uma das derrotas mais humilhantes já sofridas pelo Real Madrid no estádio Santiago Bernabeu. Uma goleada por 5 a 0 para a qual Cruyff contribuiu com um gol antológico marcado pela habilidade e inteligência.         

No dia 3 de julho de 1974, o símbolo maior do futebol holandês estava a uma partida da final da Copa do Mundo. Os tricampeões brasileiros sabiam que para chegar à vitória, no Westfalen Stadion teriam que derrotar algo novo. Diante do “carrossel holandês” era impossível encontrar a compreensão exata do futebol, a rotação dos jogadores dava a impressão de que os holandeses tinham descoberto a fórmula para estar em todos os lugares do campo. Após vencer o Brasil por 2 a 0, os holandeses surpreenderiam o mundo ao perderem para a Alemanha na final.

Cruyff não jogaria outra Copa. Em 1978, não foi à Argentina como forma de protesto ao governo totalitarista do país-sede, mesmo ano em que deixou o Barcelona para jogar nos Estados Unidos. Trocar o Barça pelo futebol americano parecia loucura, mas a verdade é que fora dos gramados, Cruyff mostrou-se um fracasso. Gastou quase toda a fortuna que ganhara com o futebol na criação de porcos. O negócio quebrou e o jeito foi aceitar a proposta de jogar nos Estados Unidos. Três anos depois, regressou à Espanha, onde jogou, apenas, alguns meses pelo clube Levante. No mesmo ano, em 1981, volta a jogar pelo Ajax onde é novamente campeão da Liga holandesa. Nas duas temporadas seguintes, 1982 e 1983, Cruyff está irreconhecível dentro de campo. A morte de seu pai adotivo era a justificativa para a queda de rendimento. O presidente do Ajax, não entendia assim. Preferiu disparar acusações contra o craque, e o pior, afirmar que Cruyff já não tinha qualidade suficiente para jogar a primeira divisão do futebol holandês. Deve se arrepender até hoje. Cruyff deu o troco, na mesma moeda:

- “Não há nenhum presidente que me diga o que tenho que fazer. Troquei o Ajax pelo Feyenoord. Com a raiva que sentimos, pode-se chegar muito longe”.

E bota longe nisso. Cruyff sabia o que estava fazendo quando decidiu vestir a camisa do maior rival do Ajax. Marcou 13 gols, conquistou a Liga, a Copa, e aos 37 anos após receber novamente o título de melhor jogador da liga holandesa decide encerrar a carreira.

Como alguém que não tem o poder de se separar do futebol, após a saída triunfante dos gramados, Cruyff passa a trabalhar como diretor técnico do Ajax, em 1985. Nos três anos seguintes, vira o técnico do clube onde construiu a carreira. Mais do que títulos, as equipes formadas pelo lendário jogador holandês são o reflexo do estilo brilhante que ele um dia mostrou com a bola nos pés. Na primeira temporada como treinador, o ataque do Ajax marca 120 gols em 34 partidas. Em 1986, é reconhecido pela conceituada revista World Soccer Magazine, como o melhor técnico do mundo.

A partir de 1988, Cruyff aceita o desafio de dirigir o Barcelona, uma das maiores equipes da Europa. O clube catalão estava enterrado em uma grave crise política, com os jogadores pedindo a cabeça do presidente do clube, José Luis Niñez. Cruyff contornou a crise e na primeira temporada no Barça montou um ataque que atingiu a marca de 80 gols. Para atingir este objetivo, usou o senso tático para tirar o máximo possível dos jogadores, e sempre exigiu deles aquilo que nunca deixou faltar enquanto esteve em campo, um toque de bola primoroso. Acreditando em estabelecer uma mentalidade e não apenas um padrão de jogo, pôs fim a hegemonia do rival Real Madrid, na temporada 90/91. É neste período que o Barcelona de Cruyff ganha a fama de “Dream Team”. Brilham as estrelas do búlgaro Stoichkov, do holandês Koeman, do espanhol Guardiola e do brasileiro Romário.

Em qualquer posição, Cruyff parecia fazer questão de correr riscos. Dizem até, que certo dia, quando ainda dirigia o time catalão aceitou dar folga ao genioso atacante Romário, caso ele marcasse três gols diante do Real Madrid. Depois do combinado, Romário na mesma noite embarcou para o Brasil, e Cruyff colocou no currículo nova goleada por 5 a 0 no Real Madrid, dessa vez, como técnico.

Cruyff foi responsável por grande parte da magia daquela década. O fato interessante é que o jogador símbolo do “futebol-total” considerado por muitos a mais revolucionária visão tática do jogo, não carregava o número 10 nas costas. Desde que ganhou o primeiro título com as equipes menores do Ajax, o menino do subúrbio pobre de Amsterdã fez questão de entrar em campo com o numero 14 nas costas. Para Cruyff o número escolhido eternizava a idade que tinha quando descobriu a emoção de se tornar campeão. Não deixava de ser uma metáfora também, afinal, no tipo de futebol praticado por Cruyff e seus companheiros as posições não eram fixas. Com ele em campo a magia da camisa 10 estava, na verdade, escondida sob o número 14.         
               
Se a magia da camisa 10 existe, a estrela de Cruyff não poderia ser ofuscada por nenhum outro craque do planeta na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, mesmo sabendo que o número que utilizava não respeitava a mística consagrada pelo rei do futebol.