segunda-feira, 28 de julho de 2014

Um calendário de bom senso no futebol

“Um calendário de bom senso para o futebol brasileiro”. Sem as aspas, bem que poderia ser a chamada de qualquer reportagem recente sobre os problemas que o futebol brasileiro atravessa há tempos. Com aspas, é o título do trabalho mais recente do professor Luis Filipe Chateaubriand, Mestre em Administração pela FGV – Fundação Getúlio Vargas.

Muitos “chutes” foram dados nos últimos anos sobre as tais necessidades de mudanças no calendário do futebol brasileiro, mas nada se compara ao trabalho desenvolvido pelo autor nos últimos anos. Ele é autor, desde o ano 2000, de vários livros (5) que abordam este que é considerado um dos grandes problemas do futebol brasileiro. O livro mais recente era “Futebol Brasileiro: Um Novo Projeto de Calendário” (Publit Soluções Editoriais, 2011).

Com a autorização do autor, Literatura na Arquibancada disponibiliza para você, leitor, a mais recente atualização deste trabalho, em PDF, enquanto o mesmo aguarda editora para publicação no mercado. Vale a pena conhecer as ideias propostas pelo autor, várias delas, com certeza, polêmicas: http://www.universidadedofutebol.com.br/_adm/Files/pdf/Livro%20sobre%20Calend%C3%A1rio%20do%20Futebol%20Brasileiro.pdf

Apresentação
Por Luis Filipe Chateaubriand

Estávamos no ano de 1.989 e eu, com 19 anos e cursando a faculdade de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro, escrevi meu primeiro trabalho sobre o calendário do futebol brasileiro. Era um trabalho sobre diversos assuntos relativos ao futebol, dentre os quais o indecente calendário de nosso futebol era o principal. Utilizei os escritos como equivalentes a uma monografia final de curso.

Passados quase 25 anos, o sentimento era de tristeza, muita tristeza, pois percebia que nada de essencial mudava no calendário do futebol brasileiro. Escrevi cinco livros a respeito (em 2.000, 2.001, 2.002, 2.009 e 2.011), fui solicitado pela Imprensa para falar a respeito, dei razoável número de entrevistas, escrevi dezenas de artigos opinativos em mídias consagradas, muitos elogiaram os livros, alguns criticaram. Mas, mudanças no cenário, nada muito digno de registro.

Já desiludido, e conformado com a ideia de que nada mudaria, ao final de 2.012 fui convidado para fazer parte de um grupo de pessoas ligadas à gestão do futebol, que se denominou Futebol do Futuro. Era um grupo com quase 20 profissionais da gestão no futebol, que se propunha a fazer uma consultoria gratuita para os entes do futebol brasileiro, sobre como fazer prosperar a atividade (mais detalhes em www.futeboldofuturo.net ). Trabalhamos, com afinco, em três assuntos centrais: técnicas para a melhoria do jogo, gestão no futebol (o que incluía tanto aspectos de marketing, como aspectos financeiros) e, obviamente, melhorias para o calendário do futebol brasileiro.

Fiquei encarregado de escrever as três propostas alternativas do grupo ao pífio calendário atual de nosso futebol.

Pouco depois, em 2.013, surgiu um movimento que sacudiu o futebol brasileiro: O Bom Senso Futebol Clube. Também fui convidado a ser colaborador do grupo de jogadores, quanto a assuntos relativos ao calendário, e, assim, ajudei a desenhar a proposta do grupo.

Então, ao longo dos anos de 2.013 e 2.014, ajudei a construir quatro propostas de calendário para o futebol brasileiro: As três do Futebol do Futuro e a do Bom Senso Futebol Clube.

Me sinto honrado de ter participado de tais experiências e acredito que, em todos os casos, construiu-se propostas muitíssimo melhores, mas muito melhores mesmo, do que se tem no calendário do futebol brasileiro atual.

A despeito disso, minha proposta predileta não é nenhuma das quatro que ajudei a desenhar.

No trabalho que fiz para o Bom Senso Futebol Clube, minha alçada de decisão não era tão ampla. Não estou me queixando disso: Se o movimento é do grupo de jogadores, a proposta tem que ser deles, não minha. Meu papel era o de dar contornos mais específicos ao que era decidido de forma mais genérica. As grandes ideias foram a criação de Copas Estaduais no lugar dos Campeonatos Estaduais, enxugando-se o calendário, e a criação de cinco séries para o Campeonato Brasileiro, permitindo a ocupação de todos os clubes profissionais ao longo do ano inteiro.

Diga-se, de passagem, que as lideranças do Bom Senso Futebol Clube são muito abertas a sugestões e, assim, muitas vezes, o que propus acabou sendo aceito pelo grupo. Outras vezes, isso não aconteceu. Como deveria ser: Sou colaborador do projeto, não dono do projeto.

Tenho certeza que meus amigos do Bom Senso Futebol Clube estão abertos a analisar propostas que julguem aceitáveis. E escrevo este documento para lhes trazer uma reflexão a respeito – que, tenho certeza, é bem-vinda.

No Futebol do Futuro, também tive autonomia para defender o que julgava apropriado, amplamente. Mas sempre tive ciência que, ali, meu papel era redigir o que o grupo decidisse, e não fazer valer minha proposta, para o grupo endossá-la. Quando fazemos parte de uma equipe, temos que jogar de acordo com o que a equipe deseja, e nos adaptarmos a ela.

O grupo Futebol do Futuro decidiu trabalhar com três cenários alternativos de calendário, independentemente se com adequação, ou não, ao calendário do futebol europeu. Em um dos cenários, os Campeonatos Estaduais passavam a ser divisões menores do Campeonato Brasileiro, jogados simultaneamente a estes. Em outro cenário, os Campeonatos Estaduais eram mantidos, mas apenas com dez datas. Em mais um cenário, os Campeonatos Regionais é que tinham dez datas, com os Campeonatos Estaduais sendo divisões menores destes.

Os amigos do Futebol do Futuro estão abertos a analisar boas propostas e perpassá-las à comunidade do futebol, também confio nisto. Também os convido, assim, a refletirem sobre o que neste documento se propõe.

Fiquei muito honrado por participar de projetos das notáveis Instituições, foram oportunidades profissionais incríveis. Contudo, devo dizer que as quatro propostas de calendário que ajudei a construir são muitos boas, bem melhores do que se tem, mas não são a minha proposta preferida.

Minha proposta preferida é a que eu escrevo no presente livro. Um calendário que, em minha visão, e que gostaria de compartilhar com os leitores desta obra, é a solução para fazer, como eu já dizia em meus livros de 2.009 e de 2.011, os clubes grandes jogarem menos, os clubes pequenos jogarem mais, e todos eles jogaram ao longo de toda a temporada anual.

Independentemente das quatro propostas que ajudei a construir, e de outras que temos à disposição (como as dos meus amigos João Henrique Areias e Amir Somoggi, por exemplo), o calendário do futebol brasileiro continua sendo muito ruim. É acreditando na ideia de que estamos longe de ter um calendário ao menos razoável que escrevo este novo documento.

Melhorar é preciso!

Continuo alimentando a esperança de que, algum dia, o futebol brasileiro terá um bom calendário. É na pretensão de ajudar a construí-lo que escrevo este novo livro.

Sobre o autor:
Luis Filipe Chateaubriand é professor universitário na área de Administração, lecionando disciplinas ligadas a Logística, a Operações, a Métodos e Sistemas, a Gerenciamento de Projetos e a Estratégia Empresarial. É, também, consultor de Gestão, nas referidas áreas.
É Mestre em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas. E MBA Executivo, Pós Graduado em Comércio Exterior e Bacharel em Administração pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Possui, para além do atual, quatro livros publicados, além de mais de uma dezena de artigos publicados em jornais e periódicos como o "Jornal do Brasil", "A Gazeta Mercantil" e "Revista Época".
É consultor de conteúdo do Bom Senso Futebol Clube e Futebol do Futuro.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Béla Guttmann: Uma lenda do Futebol

Em tempos que o torcedor clama por mudanças táticas, técnicas e estruturais no futebol brasileiro, e em especial, na seleção brasileira, a leitura da biografia sobre um dos técnicos mais famosos no mundo da bola torna-se obrigatória. Não só pelo momento, mas pela qualidade, Béla Guttmann – Uma lenda do futebol do século XX (Editora Estação Liberdade) escrita pelo jornalista e professor Detlev Claussen (com tradução de Daniel Martineschen e Alexandre Fernandez Vaz), é livro que pode nos ajudar a refletir o atual atraso na mentalidade dos nossos treinadores.

E pensar que Béla Guttmann tornou-se celebre logo após treinar um time brasileiro, o São Paulo FC, no ano de 1957. Sim, isso mesmo, um estrangeiro dirigindo um clube pra lá de tradicional do futebol brasileiro. E ao melhor estilo Telê, Guttmann impôs logo de cara a contratação de um jogador que encarnasse o tal “futebol-arte”. E foi buscar um veterano, Zizinho, "Mestre Ziza", na época, com 35 anos, era o modelo e ídolo de Pelé.

Béla Guttmann justifica como ninguém o subtítulo de sua biografia: uma verdadeira lenda do futebol mundial.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo a sinopse e o prefácio do livro, e agradece ao Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, local onde foi feita a pesquisa sobre a obra. Vale a pena conhecer o acervo em www.dados.museudofutebol.org.br.

Sinopse (da Editora):

Quem ama o futebol também ama as lembranças de grandes jogos e grandes jogadores. Os melhores do pós-guerra — Puskás, Di Stéfano, Eusébio, Pelé — cruzaram o caminho de um homem que marcou o moderno futebol ofensivo mais do que qualquer outro: Béla Guttmann, húngaro judeu, ex-jogador, treinador de sucesso planetário, mitificado sobretudo depois de arrebatar por duas vezes a Liga dos Campeões da Europa no comando do Benfica, de Lisboa — tendo derrubado, para tal, nada menos que a poderosíssima dupla espanhola, Barcelona e Real Madrid.

Mas se é amado até hoje dentro da comunidade benfiquista por tais façanhas, Béla Guttmann é, paradoxalmente, odiado em igual medida. Pudera: depois da conquista frente ao Real, em 1962, o húngaro se desentendeu com a direção do clube lisboeta e não renovou o contrato, debandando de lá não sem antes anunciar uma maldição aparentemente profética: a de que o Benfica não voltaria a vencer uma competição continental pelos próximos cem anos. Escreve Claussen que alguns torcedores do time, “antes da final da Liga dos Campeões contra o Milan em 1990, teriam ido ao cemitério de Viena e de lá teriam trazido um naco de grama do túmulo de Guttmann, para quebrar a maré de derrotas nas finais europeias”. Não deu certo: o Benfica perdeu a decisão, assim como ocorreu em todas as outras vezes em que fora finalista nas eras pós-Guttmann: em 1963, também contra o Milan; em 1965, contra a Inter de Milão; em 1968, contra o Manchester United; bem como nas finais da Liga Europa, a antiga Copa da Uefa, contra o Anderlecht, em 1983, e o Chelsea, em 2013. E em maio deste ano, o fantasma de Guttmann voltou a assombrar, quando o Benfica caiu em nova decisão continental, a da Liga Europa, desta vez frente aos espanhóis do Sevilha.

De temperamento forte, Béla Guttmann foi uma espécie de José Mourinho de seu tempo. Tanto pela capacidade superior de “ler” o futebol em suas variantes técnica, tática e física, quanto pelas recorrentes polêmicas em que se envolvia. Apesar de ter sido um jogador de algum talento, foi como treinador que se destacou, num tempo de transição do futebol, entre o amadorismo e o profissionalismo. Austero, Guttmann jamais se submeteu a dirigentes ou a jogadores-estrela, o que, com frequência, o fazia debandar — ou ser debandado — dos clubes que dirigia.

Antecipando o movimento de globalização no futebol que se acirraria mais marcadamente a partir dos anos 1990, Guttmann foi um andarilho no mundo da bola. Além da Hungria, atuou em países como Holanda, Áustria, Itália, Estados Unidos, Argentina e Portugal. E teve ligações profundas também com o futebol brasileiro: em 1957, aceitou o convite para treinar o São Paulo Futebol Clube, com o qual se sagrou campeão paulista. Mais do que isso, o estilo tático de Guttmann, com o inovador e ultraofensivo esquema 4-2-4, influenciou de forma certeira na maneira de jogar da própria seleção brasileira comandada por Vicente Feola que, no ano seguinte, levantaria seu primeiro título mundial.

Béla Guttmann — o livro — não é uma biografia convencional, ou é bem mais do que uma biografia. Com o personagem tendo nascido no último ano do século XIX, sua trajetória acaba naturalmente personificando o próprio desenvolvimento do futebol no século posterior, em diversos aspectos: o sionismo/antissemitismo que envolviam os boleiros de origem judaica; a rápida massificação do futebol após seu nascimento em berço esplêndido; a evolução das regras e dos esquemas táticos; o crescimento da importância de competições como a Taça dos Campeões Europeus — a atual e badaladíssima Uefa Champions League/Liga dos Campeões da Europa —, bem como a morte de outros torneios históricos, como a Mitropacup. O livro repassa ainda curiosidades pouco conhecidas mesmo por estudiosos do esporte, como o boom do soccer nos Estados Unidos de meados dos anos 1920, quando uma primeira onda de jogadores-imigrantes visualizavam no mercado ianque o eldorado da bola, tal como hoje seria a Inglaterra ou a Espanha.

Assim, num tempo em que a biografia virou gênero maldito no Brasil, Béla Guttmann — Uma lenda do futebol do século XX é, desde já, uma referência de como o registro de histórias de vida pode ir muito além das mesquinharias e indiscrições de cunho privado, ao compor numa mesma geleia geral informações preciosas de época, sobre questões ao mesmo tempo esportivas, sociais, políticas, étnicas, religiosas. Detlev Claussen escreveu um capítulo especial da história da cultura e do esporte. Ele fala sobre amadores e profissionais, húngaros e vienenses, judeus e católicos, argentinos e brasileiros, heróis e patifes — e de partidas inesquecíveis.

Prefácio
Por Detlev Claussen

Lacrados sob uma imponente lápide de mármore vermelho jazem os restos mortais de Béla Guttmann, na ala judaica do Cemitério Central de Viena. Apenas as datas de nascimento e morte – 27 de janeiro de 1899 e 28 de agosto de 1981 – estão registradas sobre a pedra. Uma discreta inscrição em hebraico revela seu prenome judeu, Baruch. Não se encontra nenhuma indicação de sua esposa, Marianne, que o acompanhou ao redor do mundo. Não tiveram filhos. Depois da morte da esposa, em 1997, o espólio de Guttmann vagou por antiquários de Viena, até chegar em 2001 a Kassel, na Alemanha, adquirido por um leiloeiro especializado em esportes. Antes que as peças se dispersassem pelo mundo, surgiu um catálogo com uma tentativa biográfica, Die Trainerlegende – Auf den Spuren Béla Guttmanns (O legendário treinador – Nos rastros de Béla Guttmann), assinado por R. Keifu, pseudônimo sob o qual se ocultou o renomado historiador do esporte e expert em futebol Hardy Grüne. Guttmann permanece sendo até hoje uma figura cercada de lendas e mistérios. Ainda em vida, no topo de sua carreira de treinador de clubes, viu surgir Béla Guttmann Story, escrito pelo pedagogo do futebol e depois professor escolar Jenö Csaknády. O livro promete, em seu subtítulo, uma história “dos bastidores do mundo do futebol”. De fato, em 1964, quando o texto foi publicado, mal se podia desconfiar dos acontecimentos mundiais que fariam um Guttmann circular pelo globo.

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Mas quem pensa em futebol ao visitar um cemitério? Em um cemitério judeu se tenta, antes de tudo, ler os números e combiná-los com os lugares onde cada pessoa nasceu e morreu. Budapeste não aparece naquela pedra em Viena. Depois de Béla Guttmann Story espera-se ainda uma história judaica da K.u.k (Kaiser-und Königreich: abreviação do Império Austro-Húngaro) que, a se considerar as contribuições do biógrafo Csaknády e do biografado Guttmann, não cabia em um livro alemão sobre futebol publicado em meados dos anos 1960. Pois por baixo das histórias de judeus da Europa Central sempre fica à espreita o passado nacional-socialista e suas consequências: emigração, fuga e morte violenta. O irmão de Béla Guttmann, que jogava futebol com ele durante a Primeira Guerra Mundial, morreu em 1945 em um campo de concentração alemão. Sobre a sobrevivência de Guttmann durante o período nazista as fontes não são, no entanto, muito eloquentes. História do futebol também não é somente algo secundário e bonito, mas sim parte da história mundial, que não pôde deixar de ser afetada por esse esporte. A história de Béla Buttmann só pode ser narrada quando se tem a história do século XX em vista e quando se está pronto para revisitar, mesmo que brevemente, a história mundial do futebol.

No futebol conta o aqui e o agora, o momento jogado, que por sua vez é relativizado pela conhecida sabedoria futebolística: “O jogo dura noventa minutos”. No cemitério o jogo já terminou, não há prorrogação. O túmulo também sepulta embaixo de si incontáveis histórias de futebol, lendas e mitos. Dificilmente será verdade, portanto, o que os torcedores do Benfica – equipe em que Guttmann alcançou seu maior êxito como treinador no início dos anos 1960 – gostam de contar ainda hoje em Lisboa: alguns deles, antes da final da Liga dos Campeões da Uefa, a antiga Taça dos Campeões Europeus, contra o Milan em 1990, teriam ido ao cemitério de Viena e de lá teriam trazido um naco de grama do túmulo de Guttmann, para quebrar a maré de derrotas nas finais europeias. Mas isso não podia dar certo, pois um pedaço de terra plantada não poderia ter soltado esse túmulo em pedra, e não se deveria esperar nem mesmo sabedorias futebolísticas dela. Triunfos como o bicampeonato europeu de 1961/1962 com o time outsider do Benfica ninguém nunca mais conseguiu. 

Em 2 de maio de 1962, no estádio Olímpico de Amsterdã, o Benfica acabou com a era Real Madrid naquele que foi um jogo daqueles que se veem a cada cem anos. Com estrelas mundiais do quilate de Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskás, o Real vencera nos anos 1950 cinco finais da Liga dos Campeões da Europa (entre elas a de 1960 em Glasgow contra o Eintracht Frankfurt, por um placar de 7 a 3). O Benfica, por sua vez, venceu o Real por 5 a 3. Depois do interregno europeu de dois anos do Benfica, um outro futebol se consolidou. Começava a soberania das equipes milanesas – a Internazionale, do grande Sandro Mazzola, e o Milan, sob a batuta do sensível esteta do futebol Gianni Rivera. O nome de Helenio Herrera se inscreve como o de outro treinador de destaque nos anais do futebol europeu: seu jogo defensivo triunfava e o esquema retranqueiro conhecido como Catenaccio tornou-se um conceito assustador. Guttmann, por outro lado, no início daquela década tinha desenvolvido com seus outsiders lisboetas um estilo ofensivo arrebatador, com o qual o Benfica, um ano antes da partida dos sonhos em Amsterdã contra o Real, já havia surpreendido em Berna o então favorito absoluto Barcelona. Os até então desconhecidos portugueses derrubaram estrelas como Suarez, Kocsis e Kubala por 3 a 2. O mundo do futebol estava de cabeça para baixo.

O futebol do Benfica parecia então ser de outro mundo. Mas ele não veio de tão longe assim: em 1958 o Brasil tinha vencido pela primeira vez uma Copa do Mundo, na Suécia, com um sistema ofensivo, 4-2-4, varrendo na final os donos da casa por 5 a 2. Foi a estreia internacional de uma jovem estrela que atendia pelo nome de Pelé. Mas de onde os brasileiros tinham tirado isso? Depois do fracasso na Copa de 1950, disputada em casa, e na de 1954, na Suíça – quando levaram uma verdadeira surra futebolística da Hungria –, multiplicaram-se pelo Brasil as críticas sobre o futebol que vinha sendo praticado pela seleção. O Brasil se mostrou aberto a Know-how estrangeiro, e havia até mesmo a disposição de dar mais chances ao enorme potencial dos jogadores negros.

Zizinho (centro) e o técnico Béla Guttmann.
Nessa época, pouco antes da Copa, Béla Guttmann tinha vencido o Campeonato Paulista com o São Paulo Futebol Clube, batendo o então time brasileiro do futuro, o Santos, onde já atuava sua ainda pouco conhecida joia, o jovem Pelé. Essa não era a primeira estadia de Guttmann no continente latino-americano: como jogador, já tinha participado de extensas turnês pela América do Sul. No outono de 1956 ofereceu-se a ele uma chance única quando a melhor equipe da Hungria e uma das melhores de toda a Europa – o Honvéd Budapest – permaneceu no Ocidente depois da derrota do levante húngaro diante dos soviéticos. Guttmann era o mediador ideal para aqueles futebolistas húngaros que, de repente, se viram no mundo capitalista, tanto porque conhecia profundamente o futebol húngaro quanto porque já fazia alguns anos que circulava pelos negócios do futebol em âmbito internacional. Ele se tornou o “diretor técnico” da equipe húngara no exílio e organizou a sua vitoriosa turnê pela América Latina. Guttmann tinha feito parte do núcleo duro de treinadores que, depois da Segunda Guerra Mundial, tinham levado a escola húngara de futebol, na teoria e na prática, a níveis nunca antes imaginados. Com tal experiência prévia e com a demonstração prática dos jogadores do Honvéd, ele ganhou os brasileiros com um novo estilo que, nas palavras de Ferenc Puskás, cérebro do Honvéd e testemunha qualificada, fez emergir o sistema 4-2-4.

Béla Guttmann pode ser considerado um dos grandes treinadores do século XX. Deve-se observar, no entanto, que a profissão de treinador de futebol ainda estava, na sua época, por se estabelecer. Até mesmo Stanley Matthews, quintessência do futebol de dribles entre os profissionais ingleses, mostrou-se muito cético no início dos anos 1950 com relação ao treinamento sistemático no esporte. Ele estava firmemente convencido de que o jogo se aprendia na rua e de que profissionais estabelecidos já sabiam como um match se desenrola. Faz parte da ironia da história do futebol o fato de ele ter feito parte da seleção inglesa que, em 1953, foi destroçada em pleno estádio de Wembley pela maravilhosa seleção da Hungria, com o placar de 6 a 3. Meio ano depois, os húngaros ganharam a partida de volta em Budapeste, inclusive com uma goleada de 7 a 1. O crescimento do futebol na Europa continental a partir da década de 1920 não pode ser explicado sem o desenvolvimento do treinamento que, afinal, foi divulgado na Europa Central por pioneiros ingleses – profetas que não eram ouvidos na própria terra. Béla Guttmann viveu a experiência da mudança de estilo e de jogo desde o início de sua carreira. Ele aprendeu, com todos os obstáculos, a jogar futebol como uma profissão – uma precoce carreira profissional que começou em Viena nos anos 1920 e que o levou, já na época, a atravessar o Atlântico em direção à América do Norte e depois a América do Sul. Antes de obter seu primeiro posto como treinador em Viena, em 1933, ele já conhecia todo tipo de futebol que se jogava pelo globo.

Essa experiência fez dele um expert, reconhecimento que procurou durante toda a vida. Ele se considerava um “especialista em futebol” que dispunha de um conhecimento valioso. Também sabia aplicar esse conhecimento; essencial para tal transmissão era a autoridade de treinador, que sempre procurou afirmar de maneira intransigente. Quando sentia essa autoridade ameaçada, preferia se demitir, como aconteceu no auge da carreira, em 1962, ao se despedir do Benfica. Na superfície, tal atitude deveu-se a querelas com a direção do clube, que o tratava como um funcionário subalterno. Mas seus princípios também impediram uma atividade mais longa em Lisboa: temia trabalhar mais de dois anos com equipes de sucesso, pois tinha reconhecido que o estrelato e a autossatisfação eram um veneno na relação entre treinador e jogadores. Permaneceu um terceiro ano em Lisboa somente para confirmar sua campanha exitosa na Liga Europeia, vencida no ano anterior. E conseguiu. Com essa rigorosa idiossincrasia de abandonar equipes vitoriosas, Béla Guttmann também trabalhava o seu próprio mito. O extraordinário triunfo pode ser preservado frente ao desgastante cotidiano do futebol, com seus altos e baixos. Mas cada despedida depois de uma grande vitória significava também uma pequena morte. Jamais voltará ao lugar onde uma vez se esteve.

O que permanece de um grande jogo, de um grande jogador, de um grande treinador? No final, resta apenas um nome que logo cairá no esquecimento se a história ligada a ele não for narrada. Até mesmo o funcionário do cemitério em Viena, que sem dúvida se interessava por futebol, vinte anos depois da morte de Béla Guttmann pouco sabia sobre o defunto: “Era algum jogador de futebol!”. E mais nada. Nos documentos do Cemitério Central não há registro do túmulo, mas o funcionário tinha uma ideia de onde ele podia ser encontrado: “Procure na ala judaica”. De fato, lá está a impressionante lápide com o nome, mas não a recordação do futebol que tornou esse nome mundialmente conhecido.

Sobre o autor:
Detlev Claussen, nascido em 1948 em Hamburgo e criado em Bremen, estudou ciências sociais sob a orientação de Theodor W. Adorno em Frankfurt. Hoje é jornalista e professor de teoria social, sociologia cultural e teórica na Universidade de Hannover. Reside em Frankfurt. Entre suas principais publicações estão Grenzen der Aufklärung [Limites do esclarecimento, 1987], Was heisst Rassismus? [O que significa racismo?, 1994], Aspekte der Alltagsreligion [Aspectos da religião no cotidiano, 2000] e a importante biografia Theodor W. Adorno [2003].

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Maracanazo - A história secreta

Se há vitórias e derrotas, há de se ter duas versões para um mesmo fato. A Copa de 1950, para os brasileiros, foi uma tragédia. Mas qual seria então a versão uruguaia para aquela vitória inesquecível. Por incrível que pareça, para Atilio Garrido, autor do livro “Maracanazo – A história secreta: Da euforia ao silêncio de uma nação” (Editora Livros Ilimitados.com) os uruguaios não compreenderam tão bem assim o significado daquela vitória, taxada no próprio país, durante décadas, como fruto da sorte.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo o texto de apresentação da obra, e agradece ao Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, local onde foi feita a pesquisa sobre a obra. Vale a pena conhecer o acervo em www.dados.museudofutebol.org.br.

Apresentação
Por Atilio Garrido

Que curioso!

Historiadores brasileiros analisam com esforço, paixão e de forma dolorida esse episódio que ocorreu no dia 16 de julho de 1950, no então chamado Estádio Municipal do Rio de Janeiro. O evento foi marcado como indelével na história do futebol mundial com uma palavra: “Maracanazo”!

Pesquisadores deste país fascinante, já escreveram uns vinte livros sobre o assunto, sempre buscando uma explicação, uma justificativa para o acontecido. Cineastas brasileiros também criaram alguns “curtas” sobre o evento, vários deles muito engenhosos como o do torcedor que quer chegar ao estádio para avisar o goleiro Barbosa que Ghiggia fará o inesquecível “gol do século”.

A excelente e abrangente bibliografia que os pesquisadores brasileiros produziram sobre a Copa do Mundo de 1950 tem como foco de estudo apenas e particularmente a última partida, muito devido ao resultado final. O aprofundamento até os mínimos detalhes fica nos 90 minutos do confronto entre Uruguai e Brasil, numa busca das causas que geraram o tremendo contraste esportivo, com atenção em determinadas ações e incidentes do jogo. Assim apareceu o goleiro Barbosa como o grande transformador, o “bode expiatório”, o principal culpado do imenso fracasso. Injusto, na minha opinião. Um episódio casual, típico do futebol, estrelado por Bigode e Obdulio Varela e principalmente Ghiggia, este responsável pela demonização da zaga do scratch, outra atitude também injusta na minha opinião.

Os acontecimentos chocantes que ocorreram na vida das sociedades e dos seres-humanos, e do “Maracanazo”, não têm origem numa única causa. Sempre há, inevitavelmente, uma convergência de fatores, circunstâncias e mesmo a influência do destino ou da sorte, para gerá-los.

Neste caso específico e particular, nenhum dos textos dos qualificados autores brasileiros mencionou, nem por alto, um importante episódio que condicionou qualquer análise prévia do resultado da final. Apenas 72 dias antes de 16 de julho de 1950, o Uruguai venceu o Brasil pelo placar de 4 x 3, em São Paulo, no primeiro jogo da Copa Barão do Rio Branco, um torneio importante nessas décadas, anual, em que as seleções sempre se enfrentavam. “Aquele” Uruguai que se apresentou no Pacaembu se apresentou nas piores condições. Sem treinador, em meio a uma profunda crise causada por uma disputa de poder na Asociación Uruguaya de Fútbol (Associação de Futebol do Uruguai – AFA), com vários jogadores sem condição física necessária e com um novato – Alcides Edgardo Ghiggia, que nunca havia vestido a camisa azul celeste anteriormente de forma oficial. Será que não é válido refletir sobre este episódio que os escritores brasileiros completamente esqueceram? Não era esta uma amostra de que o Brasil não era invencível, muito menos jogando contra o Uruguai? No meu ponto de vista, é surpreendente que nenhum jornal no Rio de Janeiro e de São Paulo, nos dias de véspera do Maracanazo, quando a onda imparável de euforia inicial do “Já Ganhou!” sequer mencionara este episódio, nem para alertar sobre uma interrogação sobre o poder da equipe que iria se opor ao Brasil. Precisamente por esta razão, é que me fica clara a atitude dos historiadores brasileiros de não mencionarem em seus escritos este marco inevitável.

Como fruto de uma pesquisa que realizei sobre o assunto por mais de 15 anos, identifico outros eventos, como o acima citado, que deixam claro que a equipe do Brasil de modo algum poderia ser considerada um “super time”. Que o destino, essa força oculta feita de névoa e sonhos, cuja ordenação dos assuntos humanos são sinalizadas, também não jogou junto com o Brasil. Só assim se explica a fragilização da saúde do todo-poderoso Presidente da CBD, Dr. Rivadavia Correa Meyer, cujas costas, que desde 1943, carregavam todo o peso da responsabilidade de organizar uma Copa do Mundo e da performance da seleção, estando sempre em contato com o técnico Flávio Costa. Sua ausência no episódio causada por sua frágil saúde, sem dúvida, foi outra causa importante para o fracasso. O barco ficou sem capitão e sem rumo...

Finalmente, referindo-se ao futebol brasileiro daquela época, à organização da Copa do Mundo de 1950 e a construção do Estádio Municipal, este livro que você, amigo leitor tem em suas mãos, começa a narrar a “verdade histórica” muito pouco conhecida e difundida sobre a tentativa de transformação do futebol brasileiro, que na época era a terceira força na América do Sul. Como sabemos, num futuro próximo, o Brasil se transformaria na potência quase invencível. Nesse sentido, copiando as práticas fascistas de Benito Mussolini na Itália, Getúlio Vargas investiu grande esforço nesta transformação desde que chegou ao poder como a primeira figura no centro político do Brasil desde 1930.

Presidente Getúlio Vargas, no estádio do Pacaembu.
Deve-se a ele e aos generais tenham depositado no governo e na inteligência suprema do Dr. Osvaldo Aranha e seus irmãos, inclusive um deles foi Presidente da CBD entre 1936 e 1943, e outro Diretor do Vasco da Gama, equipe base da seleção. A partir do governo de Getúlio Vargas, todos os esportes e principalmente o futebol, foram conduzidos pelo Estado. O esporte foi utilizado como veículo de popularização política de Getúlio. Conforme você lerá em maiores detalhes no livro, aqueles políticos que governaram o Brasil a partir dos anos 30 buscaram copiar Mussolini na utilização do esporte para popularização política. Colocaram em ação um plano para tornar a seleção campeã da Copa de 1938 e logo em seguida organizar a Copa do Mundo de 1942. O nascimento do Brasil como uma grande potência futebolística de primeiro nível seria um grande mérito do regime. O destino novamente pregou uma peça. A Segunda Guerra Mundial foi a grande “estraga-prazeres”. Entretanto, quando o fogo dos canhões se apagou, o sonho renasceu. Getúlio não estava no poder, substituído por aqueles que com ele formavam um estreito círculo militar, mas que o traíram, além de outros que chegaram com a ascensão ao poder do Marechal Gaspar Dutra, principalmente o General Angelo de Moraes. A ideia de um Brasil forte nos esportes continuou e a marcha teve sua força redobrada. Neste caso o objetivo estava muito claro. O Brasil como Campeão do Mundo em 1950 se converteria como uma grande bandeira do governo para triunfar nas eleições de outubro deste mesmo ano.

Ao contrário do que aconteceu no Brasil, onde a história ficou registrada de maneira muito forte, no Uruguai, o Maracanazo apenas contava com dois livros escritos por colegas de grande prestígio, ambos com uma particularidade em comum. Ambas as obras vieram à luz no século XXI, o primeiro em 200 (“Maracaná – Los labirintos del carácter”, de Franklin Morales). O seguinte lançado em 2013 (“Em la cumbra de las hazanas”, de José Eduardo Picerno). O cinquentenário da conquista foi celebrado sem textos que abordassem de forma profunda o episódio. O fato ocorrido naquela tarde de sol carioca foi tratado como uma lenda, um acontecimento milagroso e heroico. A ausência de um rigor “desapaixonado” na investigação dos fatos e que foram publicados ao longo do tempo no Uruguai transformou a realidade em fantasia, e deixou de lado o que era evidente. Arquivaram um feito transcendente, que foi expressamente omitido. Reconhecê-lo significava deixar a trama sem um roteiro guia. Desse modo deram vida à lenda, na tentativa de enterrar definitivamente uma “verdade histórica”.
Qual? Uma única muito simples, a mãe de todas as vitórias futebolísticas do passado, presente e futuro.

Nesse preciso momento, o futebol uruguaio era superior ao brasileiro! Sempre se mantinha nas primeiras colocações das competições internacionais, junto com a Argentina! Em meio a um cenário que tinha a Europa iniciando a reconstrução depois da devastação ocasionada pela Segunda Guerra Mundial, aqui perto, no Rio da Prata, se praticava o melhor futebol no planeta.

Justamente, ao chegar na metade exata do século XX, novamente por obra da mãe natureza, o Uruguai tinha uma quantidade numerosa de jogadores com características notáveis, ainda jovens com uma particularidade difícil de se encontrar...Todos eram atacantes. Essa juventude chegava ao primeiro plano num momento justo, para compor uma mescla perfeita com os veteranos, também grande qualidade, que atuavam na defesa, já com experiência nos campos da América do Sul, competindo em alto nível nos campeonatos sul-americanos.

Por obra da casualidade, o Uruguai gozaria do benefício de contar com a reunião da melhor equipe do mundo, no momento, repetindo o grande acontecimento da década de 20, com invencível geração capitaneada por José Nasazzi. No entanto, este simples valor intrínseco, que se relaciona com o essencial de uma partida de futebol – ser melhor do que o adversário – se ocultou no Uruguai por aqueles que construíram uma narração maravilhosa que confunde e mistura os fatos sob o rótulo de “o feito”.

Claro que conquistar a Copa do Mundo foi um episódio ilustre e heroico, ainda mais nas entranhas do Maracanã, quando absolutamente tudo estava preparado para a grande festa do Brasil regada a lema petulante e antecipado de “Já ganhamos!”.

As circunstâncias em que o Uruguai alcançou o objetivo agrega elementos de enorme valor a esta realização e aumenta o mérito dos “celestes”. Atuando frente a uma multidão de 200 mil espectadores, nunca registrada em nenhum estádio de futebol do planeta e aplicando uma virada após sair em desvantagem no placar. Essas características demonstram que aquele “punhado” de uruguaios estava garrido com um alto grau de valentia, elevada moral, enorme espírito de luta, rebeldia interior para superar os contratempos, além da consciência de que sacrifício era necessário para realizar que “quando aconteceu o gol de Ghiggia, se instalara o silêncio no Maracanã, o silêncio mais retumbante da história”, parafraseando a mais que adequada definição do escritor Eduardo Galeano.

Mas, sejamos sinceros, essas qualidades inerentes à personalidade dos seres humanos não eram patrimônio exclusivo dos orientais. Nem o simples fato de expor essas qualidades dentro de campo de jogo significa a vitória numa partida decisiva. É necessário saber jogar futebol melhor que o rival e contar com uma formação dentro de campo que os valores que formam a capacidade individual do jogador sejam respaldados por uma sólida, vitoriosa e gloriosa trajetória desportiva da camisa que se defende! Neste caso, a “Celeste” também superava amplamente os donos da casa. A seleção uruguaia chegou com uma lista de títulos importantes conquistados em um passado recente. Três títulos de Campeão do Mundo e oito títulos de Campeão Sul-Americano, com a metade deles conquistados na qualidade de visitante. Superava amplamente seu rival neste aspecto. Brasil tinha apenas três títulos de Campeão Sul-Americano, com os três obtidos na qualidade de visitante, sendo que dois deles (1922 e 1949) em condições questionáveis, que desmereciam o mérito das conquistas.

No Uruguai, a imensa maioria qualificou mais a qualidade pessoal e individual dos jogadores, como feitos individuais, ao invés de agregar a essa crítica um olhar também voltado para o valor do time, do conjunto, que foi o maior componente para a equipe conseguir uma vitória épica. O Uruguai apresentou ao Maracanã a melhor equipe de futebol do mundo naquele momento. Grande, genial, com um grupo de jogadores notáveis, que conseguiram conquistar a Copa mesmo com vários erros de organização cometidos pela AFU (Asociación Uruguaya de Fútbol). Muitos criticaram a vitória uruguaia, cometendo o pecado de depreciar a realidade desportiva em que o país vivia.

Sem precisar ir mais longe, nesse mesmo momento da Copa do Mundo de 1950 e na própria terra onde se colocava em jogo o troféu chamado Jules Rimet, o esporte uruguaio impôs uma grande superioridade frente ao Brasil, em diversas modalidades. O atleta uruguaio Oscar Moreira ganhou no Rio de Janeiro a tradicional “Corrida das Fogueiras”, sobre 8.800 participantes. O mesmo atleta disputou sete dias depois também na cidade carioca, e ganhou a prova “Rocha Miranda”, de sete quilômetros com 2 mil atletas participantes. Muito premiado na América, em 1947 foi o primeiro estrangeiro a ganhar a famosa “Corrida de São Silvestre” em São Paulo.

Oito dias antes do Maracanazo, o uruguaio José Gómez Tacconi conquistou a prova internacional de ciclismo chamada “9 de julho”, em São Paulo. Participaram 630 ciclistas que também não foram páreos para a equipe celeste, que também nesta categoria (equipe) obteve triunfo. Fizeram parte da equipe: Roberto Piotto, Luis Ángel de los Santos, Virgilio Pereyra e Sergio Frausin. Estes ciclistas pertenceram ao núcleo dos principais ciclistas do mundo naquela época. Outro também, Atilio François alcançou em 1947, em Paris, a consagração ao sagrar-se vice-campeão mundial nas provas de “perseguição individual”. Esta conquista se agregou a uma década de protagonismo indiscutível, com o título de Campeão Pan-Americano e ganhado das Mil Milhas Argentinas. Em Londres, no ano de 1948, Leonel Rocca perdeu a medalha de bronze, ficando em quarto lugar na categoria velocidade pura, enquanto o quarteto de velocidade (perseguição individual) com o mesmo Atilio François, Juan de Armas, Luis A. de los Santos e Waldemar Bernastzky não alcançou o bronze por pouco, contra a Grã Bretanha, ficando em quarto lugar na prova, a França ganhou ouro e Itália, a prata.

O Maracanazo não foi um acontecimento desportivo isolado para aquele Uruguai pujante e democrático, que contava com os menores índices de pobreza de todo o continente. Com certeza não foi um fato isolado. Não foi um oásis de triunfo em meio a um deserto de fracassos desportivos. Aquele futebol uruguaio montado em cima de glória, foi uma expressão mais de um país que pensava e agia grande. Somente assim conseguimos entender a trajetória do tacuaremboense (quem nasce em Tacuarembó, interior do Uruguai) Juan Jacinto López testa, no Torneio Internacional da Argentina de 1947. Nessa ocasião igualou o recorde mundial dos 100 metros rasos c om 10’2/10, com a mesma marca estabelecida pelo norte-americano Jesse Owens, em 1936. Apesar de não ter sido homologado, no ano seguinte, nos Jogos Olímpicos de Londres. “El Gamo” – como o chamavam – chegou às semifinais com uma marca de 10’4/10, somente um décimo e segundo a mais que o norte-americano Harrisson Dillard, ganhador do ouro. Nesses mesmos jogos, Hércules Ascune, com um salto de 1,90 metros, ficou a 8 centímetros da medalha de ouro.

Ainda nos jogos londrinos, o remador Eduardo Risso “voou” sobre as águas do Rio Tamisa para voltar para casa com a medalha de prata no individual. A dupla formada por Juan Antonio Rodriguez e William Jones conquistaram o bronze no duplo sem timoneiro.

No basquete, naquele tempo o Uruguai também liderava na América do Sul. Numa equipe que também tinha seu “Obdulio”, personificado pela imponente figura de Roberto Lovera.
Alcançou o que hoje seria um sonho. Quinta colocação em Londres, 1948, depois de vencer o dono da casa (Grã Bretanha) por 69 a 17; a Itália por 46 a 34 e a Hungria por 49 a 31. Caindo por dois pontos frente ao Brasil, que ficou com o terceiro lugar. Com esta mesma equipe mais alguns jovens, quatro anos mais tarde, nos jogos de Helsinki, conseguiu uma grande conquista, o bronze, ficando atrás somente de Estados Unidos e União Soviética. Nos jogos de 1956 em Melbourne, conseguiu a consagração de Oscar Moglia, como maior pontuador dos jogos. Neste período, o basquetebol uruguaio alcançou o título de Campeão Sul-Americano em quatro ocasiões.

Prof. Lincoln Maiztegui Casas
Na minha opinião, a melhor reflexão sobre o Maracanazo foi feita pelo Prof. Lincoln Maiztegui Casas, no livro “Orientales” (Uma história política del Uruguay, tomo 3). Não cometo equívocos se afirmo que a tarefa de investigação que realizei e hoje publico neste livro, se apoia no pensamento do proeminente pensador.

“Sua conversão em lenda épica terminou se convertendo em um fato culturalmente negativo. Entendeu-se entre os jovens que o Uruguai venceu a partida porque os uruguaios são mais valentes, mais másculos, mais vivos que os demais, que os outros se encolhem nos momentos decisivos enquanto os uruguaios se engrandecem. Desta forma, se transforma o mais esplendoroso dos êxitos desportivo em um acontecimento xenofóbico e autocomplacente. Daí, entre muitos outros vícios, a tendência a esperar sempre um milagre; os outros trabalham, aprendem, se sacrificam, enquanto nós confiamos no improviso e na abundância de testosterona dos nossos jogadores. Mesmo a inundação de derrotas sofridas ao longo de décadas, a notória decadência do futebol praticado no país, ou na imagem de péssimos desportistas que essa política nos há gerado internacionalmente, tem sido bastante para espalhar essa mitologia absurda (...) Por um lado, nos lembra o que fomos, o que ouvimos conquistar, conforme dizia a canção. Por outro lado, nos castiga com a evidência de que já não somos o que desejamos, que permitimos cair o que tínhamos no bolso quando nos furaram as calças. Por isso tem o sabor agridoce das memórias queridas, que iluminam a alma e a espremem ao expressá-las em lágrimas. Maracanã é ainda mais doloroso do que a consciência da juventude perdida, porque o murchar desta flor é inevitável, enquanto a outra – laurel de um dia – marca nossa falha de caráter ardente e nossa estupidez. Significa  então muito mais que uma partida de futebol (embora só signifique isso mesmo); significa o fio gelado da ponta de um punhal de prata cravado no coração, uma corrente de água clara que um dia se transformou em sangue, uma bússola invertida. Uma lição tremenda da história, de forma definitiva. Por isso é sempre gratificante reviver aquele plácido dia de inverno, como as tarde encantadas que evocamos da época da infância.

O Uruguai venceu aquela memorável final porque tinha um time magnífico, sem dúvida. E claro, sorte também ajuda. Mas porque especialmente seus jogadores expressavam a mentalidade de um país otimista e confiante em suas próprias possibilidades, que ainda acreditava no valor do trabalho e do esforço pessoal. Um país que era conhecido na América e estava orgulhoso desta excepcionalidade, antes de um suicídio pan-americanista suicida que foi criando uma ideia de que era melhor parecermos com uma republiqueta sul-americana da França. Não se conhece melhor forma de se conseguir algo que não seja se cometer. Alguém pensará que se o chute de Ghiggia tivesse batido na trave ao invés de entrar, não estaríamos dizendo isto. Maracanã foi a mais esplendorosa das conquistas desportivas, mas não a única.

(...)

Este nível alcançava todos os planos de uma sociedade pobre, cheia de problemas não resolvidos, mas integrados e cheios de fé em que se podia construir um futuro melhor. Um dia qualquer de um ano qualquer, erramos o caminho. O culto ao esforço se converteu em “esperteza”, a garra entendida como meio de transpor adversidades se transformou em malandragem, e começamos a admirar a ditadura cubana ante ao parlamentarismo britânico. E fomos para o diabo. Todo o resto veio junto e foi além. Por isso Maracanã resulta hoje numa memória ambígua, que nos orgulha e nos machucamos igualmente. Ainda que aquele chute do Ghiggia não tivesse entrado, teríamos razões para confiar em nós mesmos e no nosso futuro”.

Esta obra que você, amigo leitor, começa a ler é fruto de quinze anos de investigações, entrevistas e pesquisas documentais que respaldam tudo que por aqui expresso. Por isso, na minha opinião, constitui-se uma cronologia dos fatos ocorridos antes e durante a Copa do Mundo de 1950, que se mostram tal como são. Com suas luzes, sombras e contrastes. Como resultado de sua leitura e análise, serão absolvidos de culpa os jogadores do Brasil, especialmente Barbosa e Bigode, tão injustamente condenados.

Mesmo assim, se a experiência é a somados erros cometidos, o meu principal desejo é que este livro contribua para que a atual seleção do Brasil, seus dirigentes, técnicos e jogadores, tirem conclusões positivas para não repetirem os erros que em 1950 causaram o fracasso. Meu desejo é de coração porque este grande país que é o Brasil me presenteou com um irmão espiritual. Este é Kleber Leite, um ser humano excepcional, a quem dedico este livro com toda a emoção e com a esperança de que o próximo 13 de julho de 2014, no mesmo Maracanã, nos confundamos num apertado abraço, festejando o título de Brasil Campeão do Mundo. O mesmo que foi negado 64 anos atrás...

Sobre Atilio Garrido:
Nascido em 22 de novembro de 1949, o jornalista uruguaio, ainda jovem se tornou obcecado por um fato que teve consequências marcantes na história, ocorrido quase um ano após seu nascimento, o “Maracanazo”. Sua extensa carreira no jornalismo esportivo no Uruguai e no exterior teve início em 1968, quando começou a trabalhar na seção de esportes do jornal “El Debate”, de Montevidéu. Desde então se dedicou com afinco durante anos ao estudo profundo da história do futebol uruguaio e mundial. Até 2012 já publicara mais de 12 livros em sua terra natal. Um trabalho sempre pautado pela credibilidade, pois não poupa esforços e dedicação em suas pesquisas. O resultado são obras que brilhantemente abordam os fatos com profundidade e uma proposta investigativa única.