quinta-feira, 17 de abril de 2014

Quando o futebol não é apenas um jogo



Há alguns anos o jovem torcedor brasileiro talvez cansado com a falta de qualidade e de ídolos em seus clubes de coração, passaram a entender e a acompanhar muito mais de perto o dia a dia dos grandes clubes europeus. É claro que, sem as transmissões desses respectivos campeonatos em canais fechados de TV, dificilmente essa nova leva de torcedores não existiria.

Mas só isso não basta para tentar entender mais sobre esse fenômeno. Por essas e outras razões, a editora Via Escrita reuniu em um livro diversas crônicas escritas pelo jornalista Gustavo Hofman, conhecedor como poucos da história do futebol jogado em outros países.

Em, "Quando o futebol não é apenas um jogo", você verá que, tanto aqui como lá, o futebol não é só dinheiro e glamour. E que nos grandes clubes espalhados pelo “planeta futebol”, muito além das quatro linhas, existem histórias incríveis.

Sinopse (da editora):

Quem vê, hoje em dia, em qualquer canto do mundo garotos desfilando com a camisa do Cristiano Ronaldo, Messi ou do Neymar – a do Barcelona, diga-se de passagem – pode até pensar que o futebol se resume a saber a escalação dos principais times da Liga dos Campeões.

Ledo engano. Primeiro, é preciso ter claro que o futebol é uma arte. E, como arte, deve ser reverenciada por quem o aprecia. Ainda mais em se tratando de um esporte em que cada um de nós assume sua porção de técnico e, muitas vezes, de jogador.

Estamos falando de uma paixão. E só quem tem dedicação e zelo é capaz de manter essa chama acesa, sempre procurando descobrir novos encantos, novas nuances, que nos permitam continuar apaixonados.

Além de arte, futebol é cultura. E Gustavo Hofman, como poucos, nos brinda com isso e muitas curiosidades, ao transformar em belas crônicas as viagens realizadas por Liechtenstein, Bósnia, Áustria, Croácia... Em resumo, ele mostra que o mundo do futebol vai muito além do que conhecemos e sabemos.

Prefácio
Por Celso Unzelte

Gustavo Hofman
Jornalista. Sempre à procura de boas histórias. É assim — e também como “pai do Victor”, “ex-jogador de basquete na base” e “comentarista dos canais ESPN” — que Gustavo Hofman se autodefine em sua conta no twitter. Onde, aliás, costuma driblar inteligentemente a exiguidade dos 140 caracteres remetendo os seguidores para seu blog por intermédio de links, só para poder contar melhor essas histórias que tanto procura.

Isso é “modéstia à parte” do Gustavo, como diria o meu velho amigo Lemyr Martins, histórico repórter da Placar dos anos 70 e outro grande contador de histórias esportivas, parafraseando o “causo” do jogador de futebol que não tinha a mínima ideia do que a expressão “modéstia à parte” significava, mas mesmo assim gostava de usá-la como sinônimo de modéstia. Outra história daquelas que, tenho certeza, o próprio Gustavo Hofman gostaria de contar. Mas, nesse caso (ou nesse “causo”), é modéstia do Gustavo, mesmo — embora não seja “à parte”, como queria o cracão não identificado dos anos 70.

É modéstia porque, tanto aqui quanto em suas tribunas eletrônicas e virtuais, Gustavo Hofman não se limita a procurar (e a colher) histórias, como escreveu lá no seu perfil no twitter. Ele faz muito mais do que isso. Conta-as com a graça e a leveza exigidas desde sempre, aliando-as às necessidades, principalmente as mais imediatas, desses tempos, de globalização, da Era da Informação, que estamos vivendo.

Por isso, quando o Gustavo me falou da intenção de reunir esse material em livro, vibrei. Primeiro, como leitor assíduo dessas histórias que ele costuma caçar para nós. Depois, porque tinha certeza de que o livro ia sair do jeito que saiu: despido de qualquer preconceito.

O autor gosta tanto do futebol, mas principalmente de tudo que esse esporte inspira e pode representar, que, para ele, um fato acontecido em uma final da Liga dos Campeões merece a mesma atenção de outro ocorrido “no mais remoto local”, só para eleger outra de suas expressões típicas.               

Do time galês cujo nome se escreve utilizando 58 letras, das quais 40 são consoantes e eu não me atreverei a tentar reproduzir aqui, ao clube sueco que representa a Assíria, povo que não tem território mas tem seu time de futebol, Gustavo passeia com desenvoltura da semântica à geografia, da política à produção de cerveja. Evoca jogos infanto-juvenis como War, detalha o dia a dia de um técnico brasileiro no comando da Líbia em plena revolução. Consegue ser, enfim, universal. Como é o próprio futebol, matéria prima deste livro e da própria vida.     

APRESENTAÇÃO
Por Gustavo Hofman

Nunca vi o futebol apenas como um jogo. Até mesmo por experiência própria. Afinal, por tudo que já sofri com esse esporte ele não pode ser apenas um jogo onde um time quer vencer o outro marcando mais gols. Se fosse tão simples assim, tão banal, como explicar a paixão de milhões e milhões de torcedores espalhados pelo mundo por um grupo de jogadores correndo com a mesma camiseta, pela qual você é capaz de gastar, muitas vezes, o dinheiro que não tem para comprá-la? Simplesmente porque o futebol extrapola todas as barreiras meramente esportivas.

E essa ligação com o futebol transcende em diversos casos o relacionamento afetivo pela coletividade esportiva. Ou seja, não se restringe ao fato de você ter escolhido um time para torcer por motivos geográficos ou familiares.

O futebol, através de uma equipe, pode representar uma pátria sem terra; mostrar ao mundo o sofrimento de um povo; explicar com outros olhos uma guerra; traduzir a indignação de uma torcida; exemplificar paixões; traduzir geopolíticas; trazer a economia mundial para uma roda de bar; ou simplesmente contar uma história curiosa.

Tudo isso é possível através dessa invenção espetacular chamada futebol, o esporte mais popular do planeta.

O mundo do futebol não é feito apenas de Liga dos Campeões, salários milionários e histórias cheias de glamour e fama. Ele é, acima de tudo, composto por histórias de superação, curiosidades e fatos históricos que mostram como o jogo, muitas vezes, é apenas um detalhe. Em diversos casos, e em determinados momentos, o detalhe mais importante da vida.

Muitas pessoas gostam apenas de assistir partidas espetaculares, com um nível de jogo altíssimo. Valorizam demais os principais times e torneios. Assim, menosprezam competições menores ou de países que não têm tradição na modalidade ou mesmo público. Deixam de conhecer histórias sensacionais.

Apresentação de jogadores do Shakhtar Donetsk
Histórias como a de política de contratações do Shakhtar Donetsk, que prioriza brasileiros para o ataque e ucranianos para a defesa; toda superação e o sofrimento na infância de Edin Dzeko, o “Diamante Bósnio”; a importância do Hajduk para toda população de Split, na Croácia; o complicado relacionamento entre bilionários e clubes de futebol no Cáucaso russo; o futebol jogado em um dos menores países do planeta, Liechtenstein.

Este livro pretende contar estas e outras histórias, as quais eu vivi fazendo matérias e entrevistas para Trivela e ESPN ou tendo visitado os locais.

Sobre o autor:
Gustavo Hofman nasceu em Belo Horizonte (MG), em 5 de maio de1981, mas cresceu em Campinas (SP). Mora em São Paulo (SP). É formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Pucamp/SP) e tem pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Antes de ser jornalista, jogou basquete pela Sociedade Hípica e pelo Tênis Clube, ambos de Campinas, tendo disputado os campeonatos paulistas da base entre 1994 e 1998. Começou a carreira em sites e revistas customizadas de Campinas. Já como repórter, ingressou no jornal Folha de S.Paulo e pouco tempo depois foi contratado pelo portal Terra, exercendo a mesma função. Em 2005 foi editor do site e repórter da revista Trivela. É comentarista dos canais Espn, blogueiro do site Trivela.com e colunista do ExtraTime.com.br. 
(fonte: Portal dos Jornalistas- www.portaldosjornalistas.com.br)

terça-feira, 15 de abril de 2014

Anatomia de uma derrota

Um livro obrigatório, para todos os tipos de leitores: torcedores, jornalistas, pesquisadores e até mesmo jogadores e comissão técnica da seleção brasileira que irá disputar a Copa 2014. “Anatomia de uma derrota” (Editora L&PM, 2000), é a mais completa obra sobre a fatídica derrota brasileira, na primeira Copa disputada no país, em 1950.

O autor, Paulo Perdigão, infelizmente, nos deixou em 2006. Mas sua obra, esgotada e somente encontrada em sebos por preços absurdos, de até 350 reais, voltará ao mercado após várias reportagens relacioná-lo, nesta onda de lançamentos pré-Copa, como um dos principais livros da literatura esportiva. Pena não voltar “em papel”, somente em e-book, pela mesma L&PM.

É neste livro histórico que Perdigão publicou o conto “O dia em que o Brasil perdeu a Copa”. Somado a parte do texto de introdução da obra, que você verá mais abaixo, com certeza, o cineasta Jorge Furtado produziu o curta-metragem, “Barbosa”, onde um homem volta no tempo para tentar evitar a falha do goleiro Barbosa na final da Copa de 1950. 

Como o prefaciador da obra, João Máximo, escreveu: “Anatomia de uma derrota” é um livro “definitivo”.

Um livro definitivo
Por João Máximo

Jovens amantes do futebol me perguntam por que nós, testemunhas do 16 de julho de 1950, lamentamos tanto a perda daquela Copa do Mundo, uma vez que, depois dela, o Brasil ganhou quatro outras. Para que chorar sobre o leite derramado – bancar a viúva siciliana de Nelson Rodrigues, como se o mais precioso dos gestos fosse o pranto e não o riso? Paulo Perdigão é uma das testemunhas do 16 de julho de 1950. Mais que isso, é o seu maior historiador. Não é possível entender as dimensões daquela “tragédia brasileira” (ou mesmo considerá-la uma tragédia) sem ter vivido a época, sem saber que pensava o jovem então, o que era futebol para todos nós e o que representaria, em termos de afirmação como povo e como nação conquistarmos ali a taça de ouro. Uma visão equivocada do que fossem povo e nação, é verdade, mas era assim que nos faziam ver as coisas. Por isso choramos. É claro que vibramos com cada uma das quatro taças que ganharíamos depois. E que o riso é bem mais prazeroso que o pranto.

Vocação para viúva siciliana à parte, lamentamos até hoje a taça perdida porque foi o nosso grande sonho desvanecido, o sonho que carregamos na adolescência, ou mesmo na infância que ainda guardamos dentro de nós. Ainda não sabíamos que ganhar ou perder uma Copa do Mundo não melhora nem piora nossas vidas. Ou o Brasil. Por isso choramos. Esta edição revista e aumentada do livro de Paulo Perdigão vai responder ao jovem torcedor de hoje todos os porquês que lhe ocorram a respeito. É história com agá maiúsculo, é aula de pesquisa, é exemplo de jornalismo, é lição para os cientistas sociais que andam escrevendo tão complicado sobre o futebol. Em duas palavras, é obra definitiva: depois dela nada mais poderá ser acrescentado à crônica do 16 de julho de 1950, como nada se pôde acrescentar à tragédia dos Clutter depois de A sangue frio.

Introdução
Por Paulo Perdigão

(...)

É costume do pensamento comum levar a crer que vivemos no tempo e cabe-nos somente registrar o transcurso de uma corrente temporal que avança ininterruptamente, tal como um fenômeno do meio exterior constituído por uma sucessão de “agoras” que “passam no mundo” e na qual somos “arrastados”. Chega-se inclusive a calcular matematicamente pelos relógios esse “tempo mundano”. Heidegger verifica, porém, que não encontramos o tempo em parte alguma: aquilo que já passou e aquilo que ainda virá estão sempre “em outro lugar”. Um princípio derivado da teoria de Santo Agostinho, segundo a qual presente, passado e futuro só existem porque a consciência humana é ela mesma temporal: “Eu sou o tempo”. Assim sendo, enquanto passado, a Copa de 50 não tem existência própria nem está “ocupando” um “lugar” no tempo, como também não está nessas velhas fotos, nesses recortes de jornais, nas folhas deste livro. Tornou-se perpetuamente algo de irreal sustentado somente pela memória. Também enquanto passado, não pode impedir-se de ser o que é, tem de conservar-se como coisa inerte e já plenamente constituída, fato irreparável, sem qualquer possibilidade de não ser o que já é. A isso deve a Copa de 50 seu fatalismo de tragédia, sua aparência de mundo de trevas, morto e crepuscular, indolente e em repouso, imutável, constante e todo já acabado, submisso a um destino ubíquo e prefixado. Continuará assim até o final dos tempos: naquela tarde, aqueles jogadores brasileiros, diante daquela multidão, perderam a Copa do Mundo para sempre. Nunca mais o Brasil ganhará a Copa de 50.

Obdulio Varela (direita), na final de 1950.
Mas posso tentar imitar Proust e “reencontrar-me” no Maracanã, em 16 de julho de 1950. Deparo então com uma “realidade” estranha e febril, na qual mal me reconheço, pois já não sou o mesmo que era e, no entanto, continuo sendo (uma “presença-ausência”, diria Sartre): eis-me de calças curtas, começando a vida em segurança, na proteção de meus pais, sonhando com Margaret O’Brien – minha “paixão” de 13 anos – e fascinado por aqueles super-heróis fantasiados de uniforme branco. Em meus entornos, as roupas das pessoas, os modos, a linguagem, fisionomias e olhares pertencem a “outra época” há muito tempo extinta. Só encaro “futuros mortos” ao redor. E todos parecem mais velhos do que eram, inclusive os jogadores: não daria menos de 50 anos a Obdúlio Varela, o “bandido” de sinistro traje azul e preto. À falta de registros visuais a cores, a “realidade exterior” de 1950 tem aspecto sombrio: a própria forma arquitetônica do estádio é claustrofóbica, e, nesse 16 de julho, causa uma impressão de angústia tenebrosa, uma atmosfera pesada de huis clos que sufoca e apavora – uma “descida ao inferno” (Na época, a Rádio Nacional transmitia o seriado As Aventuras do Anjo, com a trilha de Miklós Rózsa para o filme O Segredo da Casa Vermelha (The Red House, 1947), e suas novelas, nas cenas mais melodramáticas, traziam o movimento Lento Lúgubre da Sinfonia Manfredo, de Tchaikovsky. O “pavor” sentido pelas crianças sempre lembrava o que tinha acontecido no Maracanã).

Também posso seguir o pensamento estético de Hegel e, desse modo, transcender uma simples evocação pragmática e concreta dos fatos de 50 e reportar-me á essência poética do 16 de julho no Maracanã, com nostálgico lirismo como “estado d’alma”. A função da estética, diz Hegel, é “animar a severidade e a aspereza da razão”: permite-nos um entendimento mais completo, profundo e elevado, desvelando tudo que não aparece, alçando-nos a um “algures” sempre para além do dado, um “algures” onde o mundo é contemplado sensivelmente, um abstrato sem estatuto de existência real – tal como a luz através da qual podemos ver os objetos que ilumina, mas não pode ser, em si mesma, fonte de conhecimento. Em busca dessa “transparência do invisível”, desvendamos o que refulge de sagrado nas memórias da Copa de 50 – sobretudo na hora da derrota, com suas amarguradas figuras: a beleza do infortúnio da condição humana ante a adversidade inevitável do mundo. Porque, como escreveu Schiller, se “a vida tem seriedade, a arte tem serenidade”. Não importa qual o limite do desespero, a estesia ultrapassa-o no rumo da contemplação sensível, bastando lembrar o exemplo citado por Hegel no mito espanhol El Cid Campeador, no qual o romanceiro se detém nas dores de sua amada Ximena – belas nas lágrimas”.

O gol de Ghiggia que decretou a derrota brasileira.
No momento do gol de Ghiggia –, o segundo do Uruguai, que derrotou o Brasil – Bigode leva a mão direita à cabeça, e nesse ligeiro movimento resume-se o grito de terror de uma nação inteira perante a ruína imprevista, enquanto o goleiro Barbosa – com seu porte apolíneo e elegante – ergue-se solenemente, soberbo, até olhar o céu de relance, como um apelo à clemência divina.  No instante do apito final, Jair salta para a última tentativa da vitória, agarrando-se ao goleiro Máspoli: seu empenho porta o ideal do poder absoluto, um impulso agonizante e inútil, na honrosa tradição do guerreiro que, já vencido, nega a desesperança para arriscar o impossível. Zizinho, nessa mesma hora, retrai o corpo, olha para o juiz, ainda descrente do fim – e é descrente, em estado de choque, que se deixará abraçar por Máspoli e, no vestiário, entrega-se ao abatimento de um homem comum que acabou por dentro, incapaz de resignar-se com o “já dado e finito”. Quanto ao choro de Danilo, deixando o campo amparado por um locutor, além de ser a imagem mais famosa da “tragédia de 50”, traduz a resignação dos humildes, o luto aquiescente de quem ousou “ser alguém” perante o mundo e, como castigo, mereceu apenas a retirada vexatória à sua “insignificância”. Sim, porque, do modo como as coisas haviam se processado, não era o simples caso de ganhar ou perder uma competição esportiva, mas, com efeito, uma questão de arriscar-se entre dois pólos: de um lado, a graça e a bem-aventurança; do outro, a vergonha e a desonra.

Em cinco “tempos”, essas imagens clássicas sintetizam o ciclo patético da desventura humana, desde o momento em que se configura a possibilidade de fracasso dos projetos estabelecidos (Bigode, Barbosa) até a consumação final do revés e o surgimento do chamado “espírito penoso” (Zizinho, Danilo), passando pela “vontade de poder” e a negação da contingência (Jair). Eis as criaturas desse mundo sombrio e infernal, seres sofridos, de máscaras torturadas, cuja plasticidade – a mesma de clássicas esculturas gregas, como Gália Agonizante – está incorporada à iconografia do Brasil contemporâneo, eternizada na memória nacional. Beleza épica, composta de pompa e nobreza, pungente em sua solenidade, como as cerimônias de réquiem. Será assim evocada, embora tenha custado a derrota – ou, sobretudo, devido mesmo à derrota, que em 1950 produziu uma comoção nacional além das fronteiras do esporte, talvez só comparável ao suicídio de Vargas na vida contemporânea do país. A ausência da vitória fez com que a Copa de 50 sobrevivesse sempre como “aquilo que deveria ter sido e não foi”, ou seja, como o império de um Nada, de um não-ser, a apontar para um vazio, uma totalidade não preenchida, uma existência negada. Daí por que a derrota, que converteu o normal em excepcional, é necessária para que o fascínio perdure: não poderiam ser diferentes essas imagens, em sua grandeza trágica.

A locução completa de Brasil x Uruguai de 16 de julho, transcrita na II Parte desta monografia, pode dirimir dúvidas quanto a episódios que, através dos tempos, ganharam halo de legenda, narrativa mitológica (as transmissões radiofônicas eram pormenorizadas, em uma época sem os recursos da TV, substituindo, no possível, o que seria um videoteipe da partida). Testemunhados por quase 200 mil pessoas que foram desaparecendo com os anos, os fatos passaram de pais a filhos assumindo cada vez mais foros de imaginário, a tal ponto que, em determinado momento, tornava-se impossível diferenciar o que sucedeu no Maracanã daquilo que foi criado pela fantasia de muitos. O sociólogo Arno Vogel entrevistou várias pessoas a respeito, concluindo: “Às vezes, parecia estar ouvindo uma narrativa mitológica. Muitos, jovens demais para terem vivido os acontecimentos, reproduziam com variações mínimas a mesma história. Todos recordavam fatos, lances e cenas do evento. Emitiam juízos e analisavam as versões polêmicas. Atribuíam responsabilidades, mostrando um envolvimento profundo com tudo que se relacionava ao episódio. Vi um informante descrever o final da partida decisiva e a saída do estádio com lágrimas nos olhos e voz embargada. Falava de uma experiência radical, que tinha deixado marcas definitivas”.

Na sua estatura histórica e mitológica, a derrota de 16 de julho tornou-se não apenas o grande emblema do Imaginário do país, ou o próprio Mal em suspensão animada na ideologia nacional, com sua aura de imantação lendária que se conserva e se agiganta na imaginação popular, mas também uma das representações da nacionalidade brasileira em seu empenho por uma identidade própria. Traz o encantamento mágico de uma gesta efêmera, tendo por cenário suntuoso um Coliseu da era moderna, edificado como panteão para a glória nacional, e onde brotou a provação de heróis esquecidos e o infortúnio e a desesperança de um país inteiro. Não é gratuita a referência ao Coliseu (literalmente, “construção colossal”), com sua forma concêntrica do espaço reservado à plateia e o caráter cênico-simbólico do embates ali travados com vistas a um estado orgiástico de excitação do espectador – a mesma “paixão” dionisíaca do teatro grego. Em sua majestade, o Maracanã, frio e silencioso, perdura de pé, com a solidez e a perenidade do rochedo, em contraste com a fluidez das ações humanas que o tempo dissolveu, monumento às ruínas do passado, a recordar aquela história hoje perdida nas lonjuras – um modelo de classicismo, com sua “nobre simplicidade e calma grandeza”, na definição de Winckelmann.

Tragédia grega no Terceiro Mundo, dada a exatidão com que se encaixam as peças do fatalismo de sua estrutura dramática, a Copa de 50 teria inspirado Sófocles e Eurípides como epopeia conduzida pelas veleidades do destino. Dela teria feito Nietzsche um libelo contra a providência divina, e Jung uma exegese do inconsciente coletivo. Também nada faltaria a Wagner para compor um monumento operístico. Porque, de todos os exemplos históricos de transe nacional, este é o mais belo, o mais apoteótico: é um Waterloo dos trópicos, e sua verdade o nosso Gotterdammerung.

Sobre o autor (perfil da ABI – Associação Brasileira de Imprensa):
Paulo Perdigão A morte do jornalista Paulo Perdigão – ocorrida em 31 de dezembro de 2006, aos 67 anos de idade – deixa uma lacuna na crítica cinematográfica. Este ofício ele exerceu com maestria por mais de 30 anos, nos jornais Diário de Notícias, Globo e JB e nas revistas Manchete e Veja. Também atuou como programador de filmes da Rede Globo de Televisão, onde ingressou em 1967, foi editor do Guia de Filmes, publicação do antigo Instituto Nacional do Cinema (INC), entre as décadas de 1950 e 60, ajudou a organizar alguns dos mais importantes festivais internacionais de cinema realizados no país.

Paulo Perdigão era também um especialista em Jean-Paul Sartre, de quem fez a primeira tradução em português de O ser e o nada, e escreveu Existência e liberdade uma introdução à filosofia de Sartre, ensaio sobre o discurso filosófico sartriano. Em 2006, relançou Anatomia de uma derrota, de 1986 – além de ser considerado pela crítica e a mídia especializada como a obra definitiva sobre a derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1950, o livro inspirou o curta-metragem Barbosa, de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo.

Em 2002, chegou às livrarias a reedição de Western clássico Gênese e estrutura de Shane, sobre o filme de George Stevens, aqui batizado de Os brutos também amam – título que ele abominava – e ao qual ele assistiu 82 vezes. A adoração do jornalista por Shane era tanta que ele viajou diversas vezes a Hollywood para visitar as locações do filme, do qual tinha uma cópia, montada lá, em que se inseriu na cena do duelo final, avisando ao mocinho vivido por Alan Ladd que o personagem de Jack Palance planejava matá-lo.

Paulo Perdigão também tinha admiração pelo rádio, de que tratou em PRK-30, livro homônimo ao programa de humor que, por mais de duas décadas, foi uma das vedetes da Rádio Nacional, alcançando mais de 50% de audiência.

No artigo que escreveu sobre o colega na Folha de S. Paulo (edição de 6 de janeiro de 2006), Carlos Heitor Cony conta que foi seu companheiro no Correio da Manhã, onde “Paulo despontava como um dos jovens mais brilhantes de sua geração. (...) “Ele era um personagem que Justino Martins, então diretor de Manchete, classificaria de fascinante”. 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Guia Politicamente Incorreto do Futebol

Um livro completamente diferente de tudo (e sobre tudo) o que já foi publicado na literatura esportiva. Coragem dos autores, Jones Rossi e Leonardo Mendes Jr., com o “Guia politicamente incorreto do futebol” (Editora Leya). O livro é polêmico porque tenta reescrever episódios marcantes e decisivos na história do futebol brasileiro. E logo no primeiro capítulo, desafia: “Charles Miller não é o pai do futebol brasileiro” (vale a pena ler também sobre essa polêmica do verdadeiro “pai do futebol”, aqui, no Literatura na Arquibancada nos links http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/04/cruzando-os-bigodes.html e http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/04/donohoe-o-novo-pai-do-futebol.html).

Sinopse (da editora):

O jeito mais fácil de parecer especialista em futebol é repetir ideias com as quais quase todo mundo concorda. Seleção brasileira de 82? Basta dizer que "foi a melhor que já tivemos, apesar de não ter conquistado o Mundial" e pronto: a turma do sofá vai te passar uma latinha e te olhar com respeito durante o jogo. Também é assim quando se fala sobre o Ricardo Teixeira ("Frio, mesquinho, sem escrúpulos!") ou o Galvão Bueno (?"se não entende nada de futebol!"). O problema é que, no meio dos clichês futebolísticos repetidos a cada escanteio, há teses cambaleantes e frangos historiográficos. Esses mitos são o alvo do Guia Politicamente Incorreto do Futebol. Com coragem e conhecimento para defender opiniões divergentes, os jornalistas Jones Rossi e Leonardo Mendes Júnior repassam quase tudo o que sabemos sobre futebol. A Seleção de 82 tinha talentos acima da média? É verdade, mas era ingênua e autoconfiante a ponto de mal se preocupar em estudar os adversários. Ok, Galvão Bueno pode não ser um mestre da técnica, mas sua capacidade de transformar o futebol numa novela dramática torna o esporte muito mais divertido. E lembra aquela história da Democracia Corintiana? Bobagem: a Democracia Corintiana era uma ditadura. Depois da História do Brasil, da política da América Latina e do Mundo, é hora de continuar o trabalho, de jogar tomates nas verdades politicamente corretas sobre o futebol.

Capítulo 1

Ele não é o pai do futebol brasileiro

Clécio Régis e a obra polêmica.
Uma enorme cabeça de girafa, produzida por um outdoor em três dimensões, e uma igualmente vistosa bandeira do Bangu Atlético Clube fazem o ateliê de Clécio Régis se destacar entre as casas de uma das muitas e idênticas ruas de Bangu, subúrbio do Rio de Janeiro. Do lado de dentro do galpão funciona uma fábrica de sonhos. Cenários de novela, painéis para divulgação de lançamentos do cinema, alegorias e adereços de escolas de samba, mascotes oficiais dos Jogos Olímpicos de 2016, decorações para comerciais de TV...Tudo é construído com cuidado artesanal e em ritmo industrial, sob supervisão do mais conceituado cenógrafo do Rio.

Nenhum outro sonho, porém, recebe atenção tão especial quanto a estátua de 4 metros de altura, encostada em uma parede logo na entrada do ateliê. Um gigante de resina pintado de bronze, esculpido como se estivesse vestindo um uniforme de jogador de futebol. Por se tratar de um boleiro do fim do século 19, o calção preso por um cinto desce até a altura dos joelhos e a camisa, comprida, é percorrida do colarinho até a barra por cordas e botões. O bigode farto marca o rosto-padrão de um homem daquela época.

Sempre que se aproxima da estátua, Clécio Régis a observa e faz algum retoque. Busca reproduzir com perfeição a imagem inspirada nas poucas fotos que conseguiu do personagem, quase todas enviadas digitalmente do outro lado do Atlântico. O objetivo é fincar o gigante no marco zero do futebol brasileiro. O herói que trouxe da Europa a maior paixão nacional homenageado no pedaço de terra onde tudo começou.

Charles Miller é o pai da cartolagem 
no futebol brasileiro

Charles Miller na Inglaterra
O número 24 da rua Monsenhor de Andrade, no bairro do Brás, era um pedaço do Império Britânico na São Paulo de meados do século 19. A chácara da família Miller mantinha, nos pequenos detalhes, os hábitos dos súditos da rainha Vitória na época em que o sol nunca se punha no Império, dada a extensão de seu território – da costa oeste da América do Norte às ilhas polinésias, passando por colônias na África e na Ásia.

Nas fotos de família podia-se ver o símbolo da São Paulo Railway no ombro do patriarca John Miller. Como mandava a tradição britânica, era de bom tom ostentar o emblema da empresa em que era empregado no momento de posar. Em um retrato solitário, o caçula Charles aparecia vestido com um típico kilt escocês. As tardes eram marcadas pelo pontual chá das cinco, acompanhado de pies e puddings. Aos domingos, os Miller atravessavam a rua para rezar com a crescente colônia britânica na St Paul’s Church, a primeira igreja anglicana do Brasil. Faltava apenas uma escola em que a nova geração da família pudesse não só aprender o inglês ancestral, mas também ser educada no mesmo modelo do país.

Justamente por causa dessa carência, John Miller decidiu mandar os dois filhos homens, John Henry e Charles William, estudarem na Inglaterra. Os garotos de 11 e 9 anos, respectivamente, embarcaram com o primo William Fox Rule no navio Elbe, da Royal Mail Steam Packet Company Limited, no outono de 1884. Chegaram dois meses depois a Southampton, sul da Inglaterra, para estudar na Banister Court School.

As escolas funcionavam não apenas como centros de ensino, mas também de pratica esportiva. As horas livres eram passadas nos pátios com a prática de diferentes modalidades. O tradicional críquete ainda arrebatava muitos adeptos, mas era crescente o interesse pelos recém-criados rugby football e football association.

As duas modalidades tinham origem semelhante nas escolas inglesas. Como não havia unificação de regras, em alguns pátios era permitido o uso das mãos para conduzir a bola e em outros apenas chutes e cabeceios; em alguns o ponto era concedido ao chutar a bola entre traves, em outros, simplesmente ao ultrapassar a linha de fundo com ela dominada. O número de jogadores também variava: 6, 11, 15, 20...Diferenças que se tornavam um estorvo quando os alunos de diferentes colégios se encontram nas universidades e não conseguiam chegar a um acordo sobre as normas do jogo.

Em 1863, a Universidade de Cambridge publicou suas próprias regras, determinando o nascimento formal do futebol. Advogado e fã de esportes, Ebenezer Cobb Morley reuniu clubes onde a modalidade era praticada e criou a Associação Inglesa, amealhando aqueles que se propunham a jogar segundo os preceitos estipulados em Cambridge.  Um dos clubes, o Blackheath, discordou das regras e preferiu juntar-se à corrente que consolidaria o rúgbi.

A escola de Banister aderiu ao jogo normatizado por Cambridge e popularizado no sul da Inglaterra pelo St Mary’s. O clube criado nos corredores da Associação Cristã de Moços da cidade foi um dos mais populares do início do futebol. No fim do século 19, venceu seis das sete edições da Southern League, a liga do sul da Inglaterra.

O ambiente futebolístico conquistou rapidamente Charles Miller. A habilidade com a bola no pé fez um dos professores da Banister Court School recomendar ao treinador do St Mary’s, entre os vários garotos bons de bola da escola, “um chamado Charles Miller”, que veio do Brasil e parece ter nascido para esse jogo. Um raro talento, ouro puro. É um artilheiro nato e recomendo sua escalação. Não vai se arrepender”.

O treinador de St Mary’s escalou Charles Miller e não se arrependeu. Logo na estreia, o brasileiro marcou um gol na vitória por 3 a 1 sobre a equipe do Quartel de Aldershot, em abril de 1892. Miller voltaria a campo dois dias depois, contra o Corinthian inglês. E seria presença assídua no time até decidir voltar para o Brasil, depois de dez anos de Inglaterra – não sem receber uma homenagem da escola. O anuário da Banister Court School, relativo a 1894, publicou:

“Charles Miller não foi somente um esplêndido jogador, mas organizou todas as atividades esportivas da escola até o dia de embarcar. Também se interessou muito pela organização do futebol do Condado de Hampshire. Essa eficiência, ou melhor, altruísmo e perseverança, é o que leva um homem a ter sucesso na vida”.

Primeiros jogos de futebol, em São Paulo.
O futebol havia conquistado Charles Miller. Quando deixou Southampton em 24 de setembro de 1894, não estava apenas formado academicamente como desejava uma década antes seu pai – estava formado como jogador e dirigente de futebol. A Inglaterra nos devolveu não só o primeiro jogador brasileiro, mas também o primeiro cartola. Na bagagem, seus diplomas: um livro de regras, uma camisa da Banister Court School , outra do St Mary’s, duas bolas de capotão, um par de chuteiras e uma bomba de ar para encher bolas. Na sua cabeça, seguiria a pratica normal do futebol. Tinha certeza de que o esporte já havia chegado ao Brasil a bordo de algum navio da Mala Real Inglesa.

O cenário encontrado em São Paulo, porém, era bem diferente. A comunidade britânica no Brasil conhecia o futebol, mas ainda preferia o críquete como lazer. Miller começou um processo de catequização. Aos sábados, reunia amigos e colegas de trabalho para ensinar o beabá do esporte: chutes, cobrança de lateral, passes, dribles, marcação. Os melhores da peneira de Charles Miller eram chamados para o time da São Paulo Railway – os pernas de pau continuavam na escolinha, até aprender ou reconhecer sua ruindade e desistir. O time da São Paulo Railway entrou em campo em 14 de abril de 1895, entre as ruas do Gasômetro e Santa Rosa, para enfrentar o The Gas Works Team, da companhia de gás, no primeiro jogo de futebol registrado no Brasil. Havia 11 jogadores de cada lado, seguindo as regras consolidadas pela Universidade de Cambridge, e uma espécie de súmula, com o nome de todos os presentes em campo, que foi arquivada por Miller, a essa altura uma mistura de jogador e cartola britânico com um cartorário brasileiro. Foi uma estreia formal, mas não exatamente a primeira partida de futebol no Brasil.

Sem Charles Miller, 
também seríamos o país do futebol

Charles Miller registrou como seu um jogo que já existia no Brasil. Algo de que ele mesmo desconfiava. A Revolução Industrial tinha espalhado pelo mundo milhares de britânicos, praticantes do futebol, para trabalhar em fábricas, ferrovias e no comércio.

Um deles, o professor escocês Alexander Watson Hutton, desembarcou em Buenos Aires em 1882 com um livro de regras, bolas, camisas e chuteiras. Como ninguém por lá sabia o que era esse negócio de football, decidiu organizar as primeiras partidas por conta própria. Não com os companheiros de fábrica, mas entre os muros de uma escola. Em 1893, o Lomas Athletic Club venceria o primeiro torneio disputado no país.

O curioso é que Hutton viajou a Buenos Aires em um dos navios do Correio britânico. Todas as embarcações da companhia seguiam o mesmo roteiro a partir da Grã-Bretanha. Antes de parar na capital argentina, havia escalas em Santos e no Rio de Janeiro. É difícil acreditar que em nenhuma dessas paradas, antes da viagem de Hutton ou desde sua chegada à América do Sul em 1882, nenhuma bola de futebol tenha sido desembarcada em território brasileiro. Difícil acreditar, não. Impossível. Foram várias experiências extraoficiais com o futebol no país antes do marco zero determinado por Charles Miller.

Desde meados do século 19 há registros da prática do futebol por marinheiros no litoral brasileiro. Ingleses, franceses e holandeses, a bordo de navios mercantes ou de guerra, que aproveitavam uma escala ou a chegada ao destino definitivo para bater uma bola. O futebol brasileiro nasceu da sua mais legítima expressão: dois times improvisados, na beira da praia, time com camisa de um lado, time sem camisa do outro, linhas riscadas na areia, gols delimitados por pedaços de qualquer coisa e alguns goles de cerveja na cabeça. Uma pelada legítima, sem dono, sem juiz e sem cartola. É o futebol de onde nasceriam Leônidas, Pelé, Garrincha, Romário, Neymar e Nelson Rodrigues.

Isso aconteceu pela primeira vez em 1874, no pedaço de areia em frente aonde hoje fica o Hotel Glória, no Rio de Janeiro. Quatro anos mais tarde, a tripulação do navio britânico Crimeia organizou uma pelada em frente ao palácio da princesa Isabel, em Laranjeiras, zona sul do Rio, com o consentimento de sua alteza. Entre os dois jogos à beira-mar, em 1875, empregados brasileiros e ingleses de empresas de navegação, docas, cabos submarinos e bancos enfrentaram-se no campo do Club Brazileiro de Cricket, também no Rio.

Em vez de filho de um zeloso pai tupiniquim que aprendeu sua arte na Inglaterra, com os inventores do jogo, o futebol brasileiro é filho bastardo de marinheiros europeus que só queriam gastar energia e passar o tempo antes de se divertir com as exóticas mulheres locais. Uma biografia surpreendentemente relacionada com a malandragem e o improviso que, anos depois, virariam a marca do futebol brasileiro, escondida em prol de outra mais condizente com a elite brasileira da virada do século 19 para o 20.

Na apresentação do livro de José Moraes dos Santos Neve, Visão de Jogo: Primórdios do Futebol no Brasil, José Geraldo Couto escreve:

“Os primórdios do futebol no Brasil sempre estiveram envoltos nas brumas do mito, de onde emergia a figura impávida e bigoduda de Charles Miller, herói meio inglês, meio brasileiro, que teria trazido da Europa uma bola embaixo de cada braço e ensinado sozinho o esporte bretão aos nossos compatriotas. Tal gênese servia como uma luva a determinada visão das origens de nosso futebol, como produto da ação voluntariosa de uma elite em contato direto com as fontes britânicas do esporte”.

Calma, seu José, segure a sociologia: talvez o futebol de Charles Miller tenha sido mais organizado e influente para o Brasil. Levou as peladas que – Miller não sabia – já corriam de forma improvisada nas praias para dentro dos clubes. Conquistou a elite e ajudou a transformar o jogo em algo incontrolavelmente grande, até formar o país do futebol, que, de um jeito ou de outro, teria existido mesmo sem ele. Fosse por obra de marinheiros beberrões, fosse por meio de padres que admiravam o poder moralizante do jogo.

Sobre os autores:
Jones Rossi é um jornalista curitibano. Foi editor de ciência e saúde do site da revista Veja, editor da revista Galileu e repórter do G1.com e do extinto Jornal da Tarde.
Leonardo Mendes Júnior é um jornalista curitibano. Repórter e colunista do jornal Gazeta do Povo, já trabalhou nas rádios LBV, Clube, CBN e 98 e na extinta Revista ESPN.