quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Década de Ouro: Bora Baêa!

Grandes, enormes torcidas. A paixão do brasileiro pelo futebol não fica restrita aos tradicionais clubes da região Sul e Sudeste, como Corinthians, Flamengo, Internacional ou Cruzeiro. No Nordeste, há clubes com histórias riquíssimas em suas longas trajetórias.

É o caso do tradicional Bahia, para a massa apaixonada de torcedores: “Baêa”...Melhor ainda quando o grito é “Bora Baêêêa!”...Povo que se espalhou pelos quatro cantos do país. Basta ver um clássico do campeonato brasileiro, com qualquer grande clube de São Paulo, por exemplo, para vê-los com suas bandeiras em grande número nas arquibancadas dos estádios.

E há momentos nesta bela história de vida que mereciam transformar-se em um livro. É o que o jornalista Elton Serra fez com o seu “Década de Ouro – A história do heptacampeonato do Esporte Clube Bahia” (Editora Via Escrita).

Sinopse (da editora):

Com prefácio do ex-jogador e técnico Evaristo de Macedo, e orelha do ex-jogador do Bahia Douglas Franklin, a obra imortaliza uma epopeia. Conquistas que saem das arquibancadas e dos gramados da Fonte Nova e ganham as páginas do livro “Década de Ouro – A história do heptacampeonato do Esporte Clube Bahia”, de Elton Serra.

Serra traz histórias de personagens importantes para o futebol da Bahia, como o seguro Sapatão, o incansável Baiaco, o sempre regular Fito e o extraordinário Douglas, além dos mestres Zezé Moreira e Paulo Amaral, dentre outros espetaculares jogadores e técnicos que passaram pelo Tricolor e também cravaram seus nomes na lista dos grandes do Esporte Clube Bahia. Histórias que fizeram com que o clube se tornasse um dos mais populares do Brasil.

É preciso voltar no tempo para entender o porquê de um time tão vencedor. Conhecer as histórias dos protagonistas de uma década repleta de conquistas, bem como os estorvos encontrados num caminho nada fácil, num período onde a ditadura era extremamente voraz no Brasil. Uma época em que o Bahia encantou gerações, formou craques e catapultou a carreira de dirigentes. Momentos que envolvem brigas dentro e fora de campo, muito sincretismo religioso e guerras de nervos sem fim, contadas por aqueles que construíram a própria história.

O dia 28 de setembro de 1979 é um dos mais marcantes da história do Esporte Clube Bahia. Fito marcava o último gol de uma saga que durou sete anos e transformou o Esquadrão de Aço num dos clubes mais vencedores da história do futebol brasileiro. Era o sétimo título baiano seguido de uma equipe que nasceu para vencer e arrebatou corações estado afora.

Com o desenrolar dos jogos e das conquistas, o leitor constata as façanhas da geração mais vencedora do Bahia. Ainda assim, a obra não traz superlativos. Apenas tenta recontar uma história repleta de glórias, que por si só se encarregam de enaltecer os seus principais personagens.

Apresentação
Por Elton Serra

A comemoração foi inesquecível. Uma multidão tomou as ruas de Salvador naquela noite de 28 de setembro de 1979, invadindo a madrugada do dia seguinte. O Esporte Clube Bahia estabelecia uma soberania no futebol estadual e revirava a história do esporte na terra do Senhor do Bonfim, com sete títulos consecutivos no Campeonato Baiano. Numa década em que o desenvolvimento econômico em Salvador era inversamente proporcional à desigualdade social, o Tricolor de Aço se enriqueceu, ao mesmo tempo em que apaixonou ricos e pobres, através dos pés de Sapatão, Baiaco, Fito, Douglas e suas dezenas de companheiros.

Nasci pouco mais de dois anos após o último título da saga do heptacampeonato, mas a memória é tão rica que venceu os anos de industrialização do futebol, elitização do esporte com as modernas arenas e os inúmeros jogos em canais fechados de televisão, e perdura até hoje nos ouvidos e olhos dos mais novos. Recontar um período em que atletas jogavam muito mais por amor do que por dinheiro é eternizar uma das mais ricas histórias da Bahia, onde uma gama de sentimentos se mistura com as cores do maior ganhador de títulos do estado.

Jogadores moldados por técnicos que souberam explorar o máximo de seus talentos, dando padrão tático e liberdade para que os craques usassem a inteligência em prol do time. Meio-campistas acima da média, que eram resguardados por uma defesa sólida e abasteciam um ataque veloz e fulminante. Um grupo que superou os inúmeros meses de salários atrasados e as dificuldades de não ter local fixo para treinar para tornar-se respeitado em todo o país, por acreditar que a nação azul, vermelha e branca era o principal combustível para atropelar adversários e empilhar taças na galeria do clube.

Uma história cercada de rivalidade, que envolve um Ba-Vi que terminou na delegacia e um torneio que não acabou por causa do clima quente entre tricolores e rubro-negros. De um craque decidindo um campeonato após chegar embriagado na concentração e outro trocando as chuteiras pela Câmara de Vereadores. De uma final que quase não aconteceu por conta de uma confusão na interpretação do regulamento. De um estadual que ficou ameaçado em virtude de briga entre cartolas da Federação Bahiana de Futebol.

O sincretismo religioso também fez parte da trajetória do Bahia em busca dos títulos na década de 1970. Das caminhadas à Colina Sagrada por cada troféu conquistado às mandingas feitas por Lourinho, santos e orixás foram personagens presentes na campanha do hepta. Os clássicos disputados na Fonte Nova também envolveram guerras psicológicas, que tinham como coadjuvantes vodus e até cães domésticos. Religião que também se misturava com as festas regadas a trio elétrico e muita música baiana, que começavam no gramado da velha Fonte e se estendiam madrugadas afora, para celebrar a consagração de seus heróis.

Este livro se propõe a contar a história de um clube vencedor e arrebatador de corações. O Esporte Clube Bahia de Luís Antônio, Toninho, Sapatão, Roberto Rebouças, Romero, Baiaco, Fito, Douglas, Osni, Beijoca, Jésum e grandes personagens como Buttice, Perivaldo, Ubaldo, Zé Augusto, Altivo, Edmilson Pombinho, Merica, Dendê, Alberto Leguelé, Cristóvão, Natal, Mickey, Ricardo Silva, Peri, Tirson, Jorge Campos, Picolé, Gilson Gênio e muitos outros que passaram pelas mãos de Evaristo de Macedo, Zezé Moreira, Paulo Amaral, Orlando Fantoni e Carlos Froner, começando no pior momento do time na década, necessário para entender como um dos melhores times do futebol baiano iniciou sua formação.

Enfim, uma obra que contempla um grupo que encantou a Bahia de ponta a ponta, e exportou craques para outros grandes clubes do país, celebrando uma década quase perfeita. Um feito que poucos conseguiram em campeonatos estaduais e que fez com que o respeito e a admiração pelo Esporte Clube Bahia, o Esquadrão de Aço, só aumentasse. Na bola e na arquibancada.

Prefácio
Por Evaristo de Macedo

O futebol me proporcionou muitas alegrias nos meus mais de cinquenta anos de carreira. Fui ídolo no Barcelona e no Real Madrid, dois dos maiores clubes do mundo; vesti o manto sagrado do Clube de Regatas do Flamengo, uma potência do futebol brasileiro; fui técnico da Seleção Brasileira, posto desejado por dez em cada dez colegas de profissão; e conquistei diversos títulos por onde passei. Mas acho que poucas coisas foram tão especiais como fazer parte da história do Esporte Clube Bahia. Foi com o querido Esquadrão de Aço que consegui meu primeiro título nacional no Brasil, glória que poucos possuem em mais de oitenta anos de clube.                            

E minha história no Bahia começou na década de 1970, quando fui convidado para treinar o time pela primeira vez. Ajudei a montar uma equipe que, com o passar do tempo, tornou-se uma das mais vencedoras do futebol baiano. Ter trabalhado com talentos como Douglas, Fito, Sapatão, Baiaco, Elizeu, Buttice, Picolé, Peri e muitos outros me enche de orgulho. Foi nesta década que conquistei meu primeiro título no clube e tive as portas abertas para voltar outras vezes e ser muito bem acolhido por sua imensa torcida. É um período da minha carreira que dá gosto de recordar. 

É com muita satisfação que me vejo fazendo parte de algumas páginas desta história contada por Elton Serra, com riqueza de detalhes e uma precisão quase que cirúrgica nas palavras. Desde a minha chegada ao clube, com o objetivo de, junto com um grupo jovem e muito forte, devolver a hegemonia do futebol estadual ao Bahia, até a conquista do sétimo título consecutivo por uma geração que ajudei a construir. Glórias que vieram com muito suor e trabalho, mesmo com as dificuldades que a estrutura da época nos proporcionava.

Imortalizar esta epopeia é uma ideia fantástica. Elton Serra traz em sua obra histórias de personagens importantes para o futebol da Bahia, como o seguro Sapatão, o incansável Baiaco, o sempre regular Fito e o extraordinário Douglas, além dos mestres Zezé Moreira e Paulo Amaral, dentre outros espetaculares jogadores e técnicos que passaram pelo Tricolor e também cravaram seus nomes na lista dos grandes do Esporte Clube Bahia. Histórias que fizeram com que o clube se tornasse um dos mais populares do Brasil. 

Ser campeão no Bahia não é só escalar um time, sentar no banco de reservas e fazer substituições. É suar a cada treinamento, se arrepiar sempre que entrar no sagrado gramado da Fonte Nova e vibrar a cada gol feito pelo clube do povo. Afinal, ser Bahia é também torcer junto com uma nação que lhe empurra rumo às vitórias com uma energia que só os privilegiados podem sentir. E pode ter a certeza de que me considero um tricolor de corpo e alma. E é parte desta história que Elton Serra nos propõe a contar, sempre colocando aqueles que deram suas vidas dentro de campo como protagonistas de uma linda e árdua trajetória. “Década de Ouro”, definitivamente, é a expressão mais perfeita de uma época onde o Esporte Clube Bahia era um esquadrão quase intransponível.

Sobre o autor:
Elton Serra é baiano de Salvador. Comentarista e editor de esportes na CBN. Pós-graduado em Jornalismo e com especialização em Radialismo, também é bacharel em Administração e Gestão de Negócios. Foi repórter e comentarista esportivo nas rádios Transamérica e Tudo FM, e diretor de redação dos portais Futebol Baiano e Arena Nordeste. Nos últimos anos, tem se empenhado em contar histórias do futebol da Bahia através dos livros.



domingo, 26 de outubro de 2014

Michel Laurence: o francês mais brasileiro do mundo


Ao mestre Michel Laurence
Por André Ribeiro

Muitos, mas muitos mesmo, devem a Michel Laurence a gratidão de um dos gestos mais nobres que um ser humano pode ter: o de ensinar sem nada querer em troca. Se devo algo ao mestre, como sempre o tratei, é isso: gratidão. Se consegui entrar no universo dos livros foi por sua “culpa”. E a história, ah a história (o que ele melhor sabia e nos ensinou a fazer, até mesmo durante esses últimos dias de vida com seu diário da dor e do futebol, só ele mesmo para fazer isso), de como ele me convenceu a começar a escrever é a forma que encontro agora, no momento da notícia de sua entrada em outro estágio de sua caminhada, de retribuir e agradecer um pouco de sua bondade.

Nos tempos de Cultura, Michel costumava tratar a quase todos com aquele jeitão que só os cariocas sabem fazer: “gente boa”, era assim que ele começava a conversar contigo quando tinha alguma história a contar. Até que em um de nossos intermináveis fim de tarde, no trailer que ficava na praça em frente a TV Cultura, ele resolveu me perguntar, meio que provocando, por que eu não escrevia, já que tanto gostava de procurar por histórias que pudessem virar pautas para os programas que produzíamos juntos. Minha resposta foi simples e direta: “Porque não sei escrever”. Mas Michel sabia como convencer os durões com o jeito simples de ensinar. E retrucou com outra pergunta: “Mas quem disse a você que quem escreve precisa ‘saber escrever’?”. Evidentemente que minha resposta só poderia ser uma: “Como assim?”. E Michel foi de uma objetividade direta e reta em sua resposta: “Coloca no papel as ideias, do jeito que você sabe, da mesma forma que produz as pautas. Não se importe se está escrevendo certo ou errado. Alguém irá corrigir, se estiver errado”.

E foi assim, pensando da mesma forma simples que ele recomendou, e que para ele era exatamente assim que funcionava, que decidi começar a escrever um livro. E outros seis vieram. Tudo “culpa” dele...Michel, contador de histórias fenomenal, estimulava essa arte de maneira quase espontânea, em quase todos que o cercavam, ou pelo menos, para aqueles que, como ele, gostavam disso: contar boas histórias.

Assim como nas várias outras redações em que trabalhou, desde Placar, na Abril, passando por Globo, Band, SBT, Estadão e tantas outras, na Cultura, dos anos 1990, Michel era o nosso “contador de histórias”, “causos” do mundo da bola que só ele poderia saber, dentro do programa Grandes Momentos do Esporte. Deixou eternizados textos fantásticos sobre os mais diversos personagens do esporte brasileiro, especialmente, quando o assunto era futebol, e mais especial ainda, se o personagem fosse o Santos, e, claro, o rei do futebol, Pelé, pois se havia algum jornalista que o rei respeitasse, esse alguém era ele, Michel. Respeito de gênio com outro gênio, pois os dois se conheceram quando Pelé ainda jogava, no auge do final dos anos 1960.

Só que, às vezes, e não foram poucas, Michel, como todo gênio criador, que não tem hora para ter o “estalo” da criação, resolvia escrever crônicas enormes, de dois, três minutos de duração, na sexta-feira bem a noite, quando quase toda a redação havia ido embora. Programa “fechado”, com quase tudo pronto, ele terminava seu texto e chamava o produtor ou editor que estivesse por perto e dizia: “Gente boa, dá uma lida nisso aqui”...Nunca houve alguém que se recusasse a transformar em VT um de seus textos, apesar da certeza do trabalho enorme que teríamos, pois seus textos eram ricos em detalhes, jogadas, a precisão do olhar, do flash ocorrido dezenas de anos atrás. Mas como valia a pena “sofrer” para ver editada e pronta uma crônica do “seu Michel”...ainda mais quando a voz era a do “nosso” Luís Alberto Volpe (ah, como ficavam lindos os textos de Michel naquela voz).

Por tudo isso, Michel, de onde estiver agora, continue a contar suas histórias. Aqui, os que ficam, como eu, não terão talento suficiente para continuar seu trabalho, mas tenha a certeza de que, pelo menos eu, nunca deixarei de perpetuar a quem interessar o que é mais valioso no jornalismo: uma boa história para contar.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Juízo, Torcida Brasileira!

O fato de ter escrito um livro com o editor deste blog, não afetará em nada do que será dito a respeito desse cidadão. Vladir Lemos acaba de ter mais um livro publicado: “Juízo – Torcida Brasileira!” (Editora Realejo). Trabalhamos juntos, durante vários anos, na TV Cultura, e sem medo de errar, sempre lhe dizia que um dia aquelas mãos seriam as de um escritor. Um dos melhores repórteres da TV brasileira, com sensibilidade ímpar. Assinar uma obra com ele foi apenas a “cereja do bolo”.


A Magia da Camisa 10 (Verus Editora), correu o mundo, publicado em alguns países desse planetinha obsceno. Não nos trouxe riqueza, somente orgulho da cria parida a quatro mãos. Agora, as mãos de Vladir, escreveram em conta gotas, na reflexão do dia a dia sobre o futebol, crônicas saborosas, várias publicadas no seu blog http://blogdovladir.blogspot.com.br/ . Por isso, se você, leitor, achar pouco o que irá ler aqui, fique a vontade para se deliciar com as linhas criadas por Vladir Lemos, no livro, no blog e por aí. Esse, conhece!




O futebol que imita a vida e vice-versa
Xico Sá

“Por uns quatro anos, tive o prazer de participar, ao lado de Vladir Lemos, do “Cartão Verde” (Cultura), um dos mais resistentes e democráticos da televisão brasileira. Para completar a festa, tínhamos as companhias do doutor Sócrates e do Vítor Birner.

A mesma elegância usada para comandar o programa, Vladir aplica neste livro. Tive a honra de selecionar as crônicas, a partir da sua vasta produção para “A Tribuna”, de Santos, cidade que o autor divide com São Paulo.

Foi um trabalho difícil deixar alguns textos de fora. É do jogo de qualquer edição. O que ficou neste volume é muito representativo do que foi e do que é o nosso futebol nos últimos anos. Sempre com um olhar que foge daquilo que o centenário Nelson Rodrigues, nosso craque maior da crônica esportiva, chamava de “idiotas da objetividade”.

Muito ao contrário. Vladir olha pela lente do lirismo. Em algumas ocasiões, tem a capacidade de desfocar do jogo para vê o homem que está à frente de tudo, como na página em que conta sobre um torcedor embriagado que corria risco de vida nas arquibancadas do Parque Antártica diante das câmeras que preferiam a tragédia à mínima solidariedade humana.

Vladir sabe que uma partida de futebol tem uma complexidade que não permite apenas uma leitura. E para ler o absurdo que pode representar  uma peleja esportiva, sempre imitando a vida e vice-versa,  o cronista busca  na escrita maluca e genial de Luigi Pirandello a surpresa de enquadrar as coisas. 

Não é simplesmente o esquema tático que interessa ao autor. Ele foge o máximo dessa frieza. Porque sabe, como deixa patente, que “torcer é um tipo de esperança”. Porque sabe, e deixa evidente em uma imagem bonita, que “o futebol está nu” diante de incontáveis câmeras na cobertura de uma partida.

Outro ponto marcante do livro é um certo enfado com o futebol tosco. Na convivência com o doutor Sócrates, esse aspecto foi sempre ressaltado. O craque do Botafogo de Ribeirão Preto, do Corinthians e da Seleção Brasileira não tinha a menor paciência, muitas vezes não suportava dez minutos, de um jogo feio. Cada passe errado que via doía no coração, como o amigo lerá em um dos mais comoventes textos desta coletânea.

Boa leitura a todos.”

Literatura na Arquibancada destaca abaixo duas crônicas de Vladir Lemos:

Um olhar sobre a história

Os dias têm me insinuado que ver o tempo passar e não se render ao saudosismo é um desafio dos grandes, muito maior do que esse que o Corinthians acaba de encontrar ao iniciar sua saga pela Série B. O futebol é uma boa prova disso, mas não é a única. Tá cheio de gente por aí, debruçada sobre as referências do passado como se ele ainda fosse possível. E o pior, é que essa insistência em comparar épocas distintas só ajuda a deixar ainda mais evidente a pobreza dos gramados atuais.

Nesta hora, os saudosistas já devem estar bradando algo como: “Quem esse moleque pensa que é? Diz isso porque não viu Pelé jogar!”. Tá certo, não vi mesmo, mas que culpa tenho por não ter nascido antes?

Saibam que isso não me alegra nem um pouco. Ao tocar no assunto, quase não me perdôo, por jamais ter perguntado ao meu pai, se um dia, ele me levou a um estádio em que se apresentava o Rei. Ainda que minha memória não tenha gravado um único flash do acontecido, a confirmação me confortaria.

Saudosistas, fiquem calmos, ninguém será capaz de apagar o virtuosismo e a elegância de um Nilton Santos, de um Didi ou de um Zizinho.

Ninguém será capaz de ameaçar aqueles que por meio da bola ganharam outra dimensão.

E olha, dizer que nunca pude ver Pelé jogar, não é uma verdade absoluta. Lembro muito bem do dia em que o CT do Santos foi inaugurado. As traves virgens aguardavam, claro, o Rei. Ainda posso ver a cena. Pelé chegou, segurou a bola. Mirou a luz do sol. Indicou o melhor lugar para o batalhão de fotógrafos e cinegrafistas. E, então, soltou a bola no chão e, narrando seus próprios movimentos, a chutou de encontro à rede. Deu até Jornal Nacional. E eu nunca mais esqueci aqueles segundos. Acho até que não seria muito diferente se o craque em questão fosse o Pagão ou o Garrincha.

Fazer o quê? Nessa vida não se pode tudo.

Mas, esta semana, ao ler o artigo escrito por José Miguel Wisnik para a revista Piauí, intitulado “São Vicente e Pelé”, vivi o inverso desse sentimento de limitação temporal.

Nas palavras do ensaísta embarquei num passeio delirante pelo futebol da Baixada Santista das décadas de 50 e 60. E nelas encontrei o Continental, o Beija-Flor, o Itararé. Times que eu vi jogar, como o Paulistano, onde o clima era sempre de rivalidade pura. Esses esquadrões cravaram nas minhas lembranças lances inesquecíveis, e gols que alegraram muitos domingos.
Então, em silêncio comigo, inundado por uma saudade imensa, pensei. Talvez não os tenha visto no auge, mas vi, ô se vi.

Da vida dos Reis

Da vida dos Reis costuma-se exaltar os grandes feitos, conforto, as facilidades da nobreza, as muitas mordomias. Tudo normal, quando o mundo, de tanto girar, fez desses nobres personagens fáceis.

Que Reis nos sobraram? O Juan Carlos, da Espanha? O que não se fala é que ao longo da história grande parte dos reis não teve vida fácil. Morriam cedo. Muitos passaram a maior parte da vida em meio a batalha ferozes, dormindo em camas de camas de campanha, cercado de homens e de uma realidade imunda. Assim, e só assim, conseguiam reafirmar a condição de líderes e manter a honra.

Metaforicamente com o Rei do Futebol não foi diferente. Lembro que uma década atrás, quando completava 60 anos, Pelé concedeu uma entrevista a uma rádio. Depois de cumprir o compromisso por lá, se entregou a um bate-papo em clima amistoso, como sempre, com os jornalistas que naquele dia tinham a missão de ouvi-lo e, mais importante, tinham a informação de onde ele estaria.

Recordo também que no final do encontro, quando o pessoal já dispersava, eu, e se não me engano, o Luciano Faccioli, estendemos um pouco a conversa e tomamos a liberdade de brincar com o fato de sua majestade não ter um único fio de cabelo branco. Usaria o rei uma tintura?

Nada como estar diante de um Rei diferente. Dessa vez, perto de completar 70 anos, Pelé decidiu não falar. Quantas perguntas sobre o tema fariam sentido?

Sinto, porque por outro lado, a idade costuma das aos homens uma lucidez impressionante. Além do mais, uma chance a menos de falar com o Rei será sempre uma chance a menos.

Mas queria dizer que parte dessa lucidez percebi na entrevista que Pelé concedeu na última sexta durante o lançamento de um programa educacional-esportivo. Disse, por exemplo, que chegou a dizer para Neymar que “o dom do futebol a gente ganhou de Deus. Mas o resto é a gente que tem que cuidar. A gente tem que cuidar da condição física”.

Acho até que isso pode explicar aquela ausência de cabelos brancos nessa divindade. Há quem diga ainda que Pelé foi muito ajudado pelo fato de ter brilhado em uma época em que a televisão já se fazia presente. Não entro nessa. Se pouco vi Pelé, imagina os que vieram antes dele. Respeito os homens pela história que deixam. Não é fácil construí-las.

O que sei do Rei é que poucas vezes na vida encontrei alguém com tamanha capacidade para lidar com a fama. Certa vez, quando o Santos inaugurava o CT ali perto da Santa Casa, percebi que não havia uma bola no locar.

Sim, o Centro de Treinamento estava sendo erguido. Perto do desespero, implorei a um guri que se amontoava entre os fotógrafos e cinegrafistas para que arrumasse uma bola. O menino deu conta do recado. Quando o Rei chegou, olhou aquela multidão de sedentos por imagens e declarações, mirou o sol, e decretou:
“Quem está com câmeras vai para lá. A luz está melhor para lá”.

Ordenou que todos se posicionassem atrás de um dos gols. E com a bola debaixo de um dos braços caminhou lentamente até a linha imaginária do meio-campo, que também não existia. Colocou a bola no chão e veio com ela dominada, narrando sua trajetória até o chute derradeiro. Finalizou dizendo:

– “Lá vai Pelé! É gol!!!”

Foi ao fundo da rede, pegou a bola e saiu dizendo: “O primeiro gol aqui nesse lugar foi eu que fiz!”

E eu nunca mais esqueci como era diferente de tudo ver Pelé fazer um gol.

Sobre o autor:
Vladir Lemos começou a carreira no início da década de noventa como repórter da TV Tribuna, na cidade de Santos. É autor de livros e documentários. Trabalhou como repórter e apresentador do programa "Grandes Momentos do Esporte, da TV Cultura, de São Paulo, onde atualmente apresenta o programa "Cartão Verde".

Sem Rumo na Copa

Existem muitas maneiras de se cobrir um evento mundial como uma Copa do Mundo de Futebol. Mas, certamente, a menos divulgada é aquela escolhida por muitos “aventureiros”, no bom e real sentido da palavra. É o que fizeram os jovens catarinenses Diego Madruga, Pedro Rockenbach e Renan Koerich, três mochileiros que exploraram o universo paralelo a um evento como a Copa. A aventura transformou-se em livro sobre a Copa disputada na África, em 2010: “Sem Rumo na Copa – 45 dias de uma aventura na África do Sul” (editora Via Escrita). Nada de bola rolando, dentro de campo, mas muitas lições do cotidiano para guardar.

Apresentação

Você consegue lembrar exatamente o que você fez nos últimos 45 dias? É difícil rememorar dia por dia. Mas nós lembramos exatamente como foi cada um durante o mês e meio que passamos na viagem para a África do Sul em 2010. Cada minuto da aventura mais incrível de nós três, pelo menos até a confecção deste texto, reverbera na memória. Não somos levianos em usar “da vida” porque o futuro é um mistério e esperamos aventuras cada vez mais marcantes.

Juntamos as economias e partimos para acompanhar de perto a Copa do Mundo de futebol. Para nós – Diego Madruga, Pedro Rockenbach e Renan Koerich – era a primeira vez fora do continente. Era a primeira vez tanto tempo longe de casa.

A ideia surgiu no início de 2010, quando a mãe do Renan viu uma chamada da Copa na televisão. Dona Sandra sugeriu: “Por que vocês não vão para lá?”. Meio ano depois, o aparente devaneio se transformou em realidade.

Um pacote para cursar inglês durante um mês na África do Sul, no período do Mundial, foi a forma mais econômica de viajar. Às 10h do dia 5 de junho, iniciamos a nossa jornada num voo partindo do Aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis.

O curso ofereceu estadia para os estudantes. Por isso, ficamos numa casa com 16 brasileiros. Em quase todas as histórias contadas neste livro, mais alguém da residência estava conosco. Nas reportagens e nas demais furadas, há a participação desses amigos. A colega Bárbara Lins, que se juntou ao trio para colocar o pé na estrada quando deixamos a Cidade do Cabo, também contribuiu e participou de várias entrevistas e passeios pelo Cabo.

Nos 45 dias, mantivemos um blog, enviamos reportagens para o jornal Diário Catarinense, à rádio CBN Diário e transmitimos vídeos para o clicrbs.com.br. Ao retornarmos ao Brasil, contamos inúmeras vezes as experiências vividas no país.

Percebemos que esses relatos eram tão cheios de informações jornalísticas como as reportagens. Então, decidimos eternizar o abstrato em algo físico. Foi o nascimento do livro “Sem Rumo na Copa”.

O texto também nos permite fazer um paralelo para com o Brasil. Muitos dos fatos narrados pelo trio se tornaram um déjà vu em nosso país. Os problemas de internet, obras atrasadas, estádios que são “elefantes brancos” e transporte coletivo precário são alguns dos exemplos negativos que vimos na África do Sul e apareceram no horizonte brasileiro em 2014.

Mas também vimos muitos exemplos positivos que se repetiram por aqui. Principalmente, em relação às pessoas. Brasil e África do Sul são países muitos parecidos em níveis econômicos e sociais. E, mesmo com muito esforço para ganhar a vida, as pessoas que movem as duas nações têm sempre um sorriso para compartilhar, solicitude para ajudar e uma enorme vontade de receber o mundo em sua casa. Querem mostrar que, mesmo não tendo o nível europeu, tão imposto pela FIFA, têm outras inúmeras qualidades, como riqueza em cultura e vasta opção de belezas naturais, por exemplo.

Antes de o leitor conhecer as peripécias do trio, vale uma explicação. Para escrever, usamos a 1ª pessoa do plural, nos momentos em que os três participam, e a 3ª do singular para ações individuais ou em dupla.

Sobre o conteúdo, não tivemos a pretensão de confeccionar um livro de História. Apenas contar a nossa história misturada às reportagens produzidas por nós.

Prefácio
Por Fábio Zanini


“Quem em sã consciência trocaria Florianópolis pela dureza de um continente com mosquitos, conexão de internet a carvão e ônibus que só partem quando o motorista quer?

Os autores deste livro trocaram. Certamente eles já ouviram dezenas de vezes a pergunta: “Por que a África?”, e aqui eu vou repetir a resposta que costumo dar sempre que sou emparedado por olhares incrédulos: “Por que não?”.

Veja bem, a África é a parte do planeta em que um jornalista pode realizar plenamente a satisfação de contar uma história. Lá, está ainda tudo por construir, pacificar, desenvolver. As pessoas têm um senso agudo de pertencerem a um coletivo. O individualismo ainda engatinha.

E a surpresa mais gratificante é descobrir que nem tudo é desgraça. As pessoas riem e são simpáticas. Estrangeiros são bem-vindos, desde que não adotem uma atitude de colonizadores extemporâneos. De vez em quando, o mundo até para e presta atenção a algo mais do que fomes e guerras. Foi assim na libertação de Nelson Mandela, em 1990. Foi assim na Copa do Mundo da África do Sul, em 2010.

Pedro, Diego e Renan deixaram Floripa para vivenciar um momento único na trajetória do continente. Este livro reúne suas histórias. São relatos de quem não teve medo de se misturar a pessoas desconhecidas em ônibus, albergues e lan houses, nem se sentiu intimidado pela porta na cara que a FIFA bateu em incontáveis jornalistas pelo mundo.

Uma Copa do Mundo não é somente o que acontece nos estádios, hotéis e restaurantes coalhados de torcedores. Às vezes, nesses locais é onde a Copa menos acontece. Se alguém quisesse sentir de verdade a tensão da competição, o orgulho que despertou nos sul-africanos e a paralisia que provocou em um país inteiro, não era assistindo a Eslováquia contra Nova Zelândia no estádio reformado da cidadezinha de Rustenburgo.

Era nos shebeens, os bares sul-africanos, ou no coração de Joanesburgo, onde aquele evento gigantesco representava bem mais do que uma festa de mídia para a FIFA. Era mais um sinal de libertação após décadas de tirania racial.

Felizmente, os autores deste livro perceberam isso direitinho.”

Literatura na Arquibancada destaca abaixo um dos capítulos da obra.

Música e pelada à beira-mar

Para variar, entre idas e vindas, no domingo fomos parar de novo no Waterfront. Como uma ótima surpresa, valeu a pena outra pernada pela área turística do antigo porto. Assistimos, literalmente, a um show de cultura no início da tarde.

Vários artistas de rua solos e em grupo se apresentavam nas calçadas de lajotas simetricamente alinhadas. Atabaques de couro, flautas em cano de PVC, mágicos e até um saxofonista hipnotizavam os olhos e enfeitiçavam os ouvidos dos turistas.

Alguns traziam rostos pintados e entoavam cânticos remetendo aos povos tribais, os primeiros habitantes da atual África do Sul. Tribos foram dizimadas pelos colonizadores e embarcadas em porões de navios negreiros ali naquele mesmo porto para colônias e países de regime escravocrata.

Paramos em frente a um senhor baixinho de coluna arqueada. Ele vestia boné, uma jaqueta, calça jeans e trazia ao peito um saxofone de tom avermelhado desbotado. Ao reconhecer nossas camisas, iniciou os acordes de Garota de Ipanema.

E nós acompanhamos balbuciando a letra: com um doce balanço a caminho do... béééééééé. A melodia “travou” numa nota. Enquanto encontrava ar para segurar o acorde com uma das mãos, com a outra o baixinho apontava o lenço estendido no chão. Só daria sequência ao clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes se colocássemos dinheiro sobre o lenço. Sacamos algumas moedas e deixamos ali.

Achou pouco, fez sinal negativo com a cabeça e pediu mais. Tivemos boa vontade, mas o amigo do sax não conhecia a realidade do trio, que vivia sob forte avareza desde o desembarque no Cabo. Fizemos cara de “é isso que temos” e partimos. A Garota ficou interrompida.

Miduduzi Mbuyazi
Logo à frente, encontramos outro jazzista. Mais simpático, mais atencioso e mais talentoso que o anterior. Munido apenas de cano de PVC e um pequeno chocalho em forma de bola, Miduduzi Mbuyazi, de 25 anos, tocava algo criado por ele, batizado de Unico Jazz. Do cano e do chocalho, sentado no chão, Miduduzi tirava cadências parecidas com aqueles sons andinos tocados em praças do Brasil.

Usando uma roupa de estampa de onça e uma touca em forma de bola de futebol, o sul-africano fica de duas a três horas por dia nos pontos turísticos da cidade. Segue essa rotina há cinco anos.

Para quem ouve e não entende nada de música, o Unico Jazz soa apenas como um barulho agradável. Porém, aqueles com audição mais apurada percebem a sutileza do som, as variações de tons, a metragem perfeita da batida. Enxerga também a sensibilidade e o cuidado com que o jazz de Miduduzi é moldado. “Eu amo tocar aqui, isso aperfeiçoa meu som, que ainda tem muito a melhorar.”

Quando encerramos a nossa conversa com o inventor do “Unico Jazz”, o relógio marcava 16h. Estávamos atrasados para o nosso show. Modéstia à parte, na tarde de domingo, nós também faríamos uma apresentação. Não artística, mas futebolística.

O “trio dos sonhos” de qualquer time iria participar de uma pelada no bairro Camps Bay, o metro quadrado mais caro do país. Buscamos rapidinho o fardamento em casa e fomos rumo à estreia fora do Brasil. O lugar ficava à beira-mar, rodeado de mansões, restaurantes de pelo menos quatro talheres e lojas das mais caras grifes do mundo.

Nos fundos de um desses restaurantes, ficam os dois campos de futebol. A bola já rolava ao descermos da van. Encostamo-nos à beira do gramado com cara de menino pidão. Pelo menos um do trio sempre usava a camisa da Seleção Brasileira.

Isso facilitava as coisas muitas vezes. E para bater uma bola, não foi diferente. Não demorou muito para um brasileiro chamar a nossa atenção e perguntar se queríamos entrar. Complementamos as equipes da pelada, que acontecia todos os domingos à tarde. Descobrimos o local por meio de amigos das aulas de inglês. Passamos pouco tempo no curso, entretanto deu para fazer algumas amizades.

O futebol ali era uma espécie de mini Copa do Mundo. Trocamos passes com ingleses, nigerianos, brasileiros, sul-africanos, portugueses e por aí vai. A nossa Copa do Mundo. O único problema estava no que não podia ser visto, apenas sentido.

O frio intensificado pelo vento riscava as nossas canelas. A sensação térmica com certeza devia estar por volta dos 5ºC. Corremos uns 20 minutos, mais para se aquecer do que para marcar ou fazer gol. Numa dividida, Renan recebeu uma entrada forte. Ficou uns dois dias reclamando de dor, praguejando contra o inglês perna de pau que o lesionara. Todos deixaram o campo quando desabou a chuva.

Frio e corpo molhado não seriam nada agradáveis. O tempo na Cidade do Cabo tem
características surpreendentes. Há cinco minutos, o céu azul e um lindíssimo pôr do sol pintavam a paisagem. Sem aviso, veio a precipitação. Passou em cinco minutos.

Essas alterações aconteciam constantemente em Cape Town. Várias vezes não havia
nem sinal de nuvem, e surgia uma chuva.

A brincadeira sob baixas temperaturas rendeu resfriado ao Diego e ao Renan. À noite, ambos foram dormir na mesma sintonia: “Cara, estou com dor de cabeça e no corpo”. Reclamaram apenas da dor porque ninguém ousava se arrepender de jogar aquele futebol. Sabíamos que fora um privilégio compartilhar o mesmo objetivo com tantas culturas diferentes. “Tabelei com um nigeriano”, Diego enfatizava emocionado cada vez que precisava recontar a tarde de domingo.

Terminava com dois debilitados e um rindo da cara deles a primeira semana na África do Sul. Obviamente, nem imaginávamos, mas, nos próximos dias, aguardavam pelo Sem Rumo na Copa uma escalada, uma ilha-prisão, uma favela, um estádio lotado e um pedaço do Brasil a oito mil quilômetros de distância das terras descobertas por Cabral.