terça-feira, 18 de agosto de 2015

Guardiola Confidencial


Não sei qual a razão, mas muitos personagens históricos resistem a serem biografados em vida. Ainda bem para a literatura esportiva que Pep Guardiola, um dos técnicos mais importantes do futebol mundial, supercampeão pelo Barcelona e do Bayern de Munique, deixou-se biografar. “Guardiola Confidencial” (Editora Grande Área) de Martí Perarnau é leitura obrigatória para amantes do esporte e, principalmente, treinadores interessados em estudar e conhecer estratégias dentro e fora dos gramados.

Sinopse (da editora):
Josep Guadiola i Sala, ou simplesmente Pep Guardiola, o nome que o futebol consagrou, é o personagem central do livro. Artífice ideológico, como treinador, de um tipo de jogo plástico, vencedor e revolucionário, Pep deixou o Barcelona, onde conquistara todos os títulos possíveis, para se lançar em um novo projeto profissional no Bayern de Munique, outro gigante do futebol europeu.

E para escrever sobre ele, o jornalista Martí Perarnau acompanhou durante um ano o dia a dia do novo comandante do Bayern. Perarnau obteve do próprio Guardiola permissão para compartilhar o vestiário com os atletas, seguir de perto todos os passos do técnico e detalhar uma temporada inteira do catalão no comando do clube.

Estava lançado o desafio a Martí: decifrar a personalidade de Pep Guardiola, o técnico que deu ao Barcelona os melhores anos de sua história. O autor soube aproveitar o acesso livre – sem precedentes! – aos bastidores de um dos maiores clubes de futebol do mundo. Observou de perto um personagem apaixonado pelo futebol, meticuloso e obsessivo em sua busca pela perfeição. Pôde conhecer melhor também as ideias e conceitos de jogo fundamentais para o técnico, desfazendo ao longo da obra uma série de clichês que rodeiam a figura de Guardiola.

Em artigo escrito para o jornal The Guardian, Perarnau descreve a personalidade de um técnico ao mesmo tempo racional e extremamente emocional. Diz que Pep prepara os jogos e estuda os adversários com a cabeça, mas durante a partida quem manda é o coração. "Ele é frio, analítico, meticuloso e calmo quando disseca adversários em busca de possíveis fraquezas. E o Bayern, agora, fala a língua de Guardiola", conclui Perarnau.

Guardiola Confidencial recebeu o prêmio Livro do Ano de 2014, da Revista Panenka, de Barcelona, que explora a cultura futebolística valendo-se de um enfoque cultural, social e político.

Prefácio
Por André Kfouri

Há uma passagem neste livro que vai arrepiar os pelos do seu corpo. Não pretendo arruinar a experiência, apenas direi que tem a ver com Lionel Messi e um dos momentos que, para Pep Guardiola, justificam a profissão de técnico de futebol. São poucas linhas que você lerá e relerá, imaginando como a cena se deu e tentando compreender como um instante, na solidão de uma sala iluminada pela tela de um computador, pode ter tanto significado.

Esta leitura lhe proporcionará outros momentos marcantes, como a conversa entre Guardiola e o lendário enxadrista Garry Kasparov, um encontro de cérebros privilegiados traduzido em palavras. Ou a descrição minuciosa das sessões de treinamento do Bayern de Munique, material valioso para os interessados no método de trabalho em campo de um técnico revolucionário. Ler e reler será um hábito que o acompanhará até o último ponto, quando a estranha sensação de chegar ao final de um livro a contragosto se instalará. E você será convidado a começar de novo.

Pep Guardiola é um mistério. Como profissional e como pessoa, mantém o acesso a seu mundo restrito a poucos. Não permite invasões e não gosta de vazamentos. Antes deste trabalho de Martí Perarnau, o que foi publicado a respeito do técnico catalão se assemelhou a um olhar afastado, baseado em conversas com quem pôde ver mais de perto. O autor entrou na bolha, foi convidado a sentar-se à mesa e nos trouxe um relato sem precedentes. 

Um dos grandes méritos deste livro é ser capaz de surpreender não o leitor que quer conhecer Guardiola, mas o leitor que julga conhecê-lo. 

Uma das surpresas é a desmistificação de um treinador identificado por muitos como um guardião da estética. O objetivo principal dos times dirigidos por Guardiola não é praticar um futebol belo — essa é apenas a impressão que eles provocam. Seus únicos dogmas são a coragem e a bola. E seu presente para o jogo é desfazer o falso conflito entre “jogar bem” e “vencer”, uma falácia criada por preguiçosos que encanta os enamorados pelo futebol feio, algo ainda mais deplorável do que não gostar de futebol. O Barcelona de Guardiola foi impiedoso com todos eles ao confiscar seus argumentos, como disse definitivamente César Luis Menotti em entrevista à revista argentina El Gráfico: “Guardiola foi um furacão devastador, arrasou com toda a farsa e a mentira, as destruiu, as aniquilou de tal maneira, que agora até os italianos querem ter a bola e jogar”.

A monumental obra do Barcelona dos “pequenos”, dos meios-campistas frágeis e geniais, reformou uma época em que a faixa central do campo parecia território exclusivo para gladiadores musculosos especializados na negação do jogo. O sistema aperfeiçoado por Guardiola criou um time histórico, que reprogramou os objetivos de clubes e seleções em relação à maneira de atuar. Quando os executivos do Bayern imaginaram como deveria ser o futuro do time em termos de estilo, Guardiola representava a visão mais completa e inovadora. Este livro é um diário da implantação de um jeito de jogar futebol que contraria as características do que sempre se praticou na Alemanha. Mais uma demonstração do caráter transformador de Pep, pois não se trata de criar um Barça que fale alemão, mas sim um Bayern que fale “guardiolês”.

Lamento pelos seus afazeres diários. Mesmo os obrigatórios serão influenciados por estas páginas — as próximas, que fique claro — magistralmente escritas por Martí Perarnau, enfim traduzidas para o português. Elas são uma linha direta com o Steve Jobs do futebol.

CAPÍTULO 1

Tempo, paciência, paixão

Momento 1

O enigma de Kasparov

Nova York, outubro de 2012

Garry Kasparov balançou a cabeça enquanto terminava o prato de salada. Usou as mesmas palavras pela terceira vez: “É impossível”. Já falava com um tom de irritação na voz. Pep Guardiola insistia em lhe perguntar as razões pelas quais considerava ser impossível competir com o jovem mestre Magnus Carlsen, o mais promissor enxadrista do momento.

O jantar transcorria em clima amigável. Guardiola e Kasparov haviam se conhecido semanas antes, e desde o início o técnico catalão demonstrou abertamente seu fascínio pelo grande campeão. Kasparov encarna qualidades que Pep admira profundamente: rebeldia, esforço,inteligência, dedicação, persistência, força interior... Daí o entusiasmo ao conhecê-lo pessoalmente e encontrá-lo para dois jantares, em que conversaram sobre competitividade, economia, tecnologia e, é claro, esporte. Guardiola se afastara da elite do futebol poucos meses antes e começava a gozar de um ano de tranquilidade em Nova York. Deixara para trás, no FC Barcelona, um período triunfal — o mais brilhante, bem-sucedido e apaixonante da história do clube catalão, talvez inigualável: seis títulos em sua primeira temporada, além de catorze troféus dos dezenove possíveis em quatro anos. Os resultados de Guardiola eram excepcionais. Mas, para alcançá-los, ele havia se esgotado. Exausto e descontente, disse adeus ao Barça antes que os danos provocados fossem irreversíveis.

Em Nova York, ele queria começar de novo e viver um ano de paz, esquecimento e tranquilidade. Precisava preencher um reservatório de energia que tinha se esvaziado e passar mais tempo com a família, que pouco via pelos compromissos de trabalho. Sua intenção era conhecer novas ideias e dedicar-se aos amigos. Um deles era Xavier Sala i Martín, professor de economia da Universidade Columbia e tesoureiro do Barça em 2009 e 2010, a última etapa de Joan Laporta como presidente do clube. Sala i Martín é economista de prestígio internacional e um bom amigo dos Guardiola. Morando em Nova York há muito tempo, ele foi essencial para que a família de Pep vencesse algumas reservas em relação à cidade norte-americana: os filhos não dominavam o inglês e Cristina, a esposa, ocupava-se demais com o negócio da família na Catalunha. Assim, não entendiam bem o que Guardiola propunha. Sala i Martín encorajou a família a curtir a experiência de viver em Nova York, que acabou sendo muito melhor do que esperavam.

Garry Kasparov
Sala i Martín também é amigo íntimo de Garry Kasparov. No outono, a família Guardiola convidou o economista para visitar sua casa em Nova York. “Sinto muito, mas esta noite tenho um compromisso: marquei de jantar com o casal Kasparov”, desculpou-se, antes de sugerir a Pep que o acompanhasse. Guardiola ficou encantado com a ideia, assim como o próprio Kasparov e sua esposa, Daria. Foi um encontro fascinante. Não falaram de xadrez nem de futebol, mas de invenções e tecnologia, da coragem de romper paradigmas, das virtudes de não se acovardar diante da incerteza e da paixão. Falaram muito da paixão. Kasparov expôs de forma clara suas ideias pessimistas sobre os avanços tecnológicos. Segundo ele, o mundo está estacionado economicamente porque o potencial tecnológico serve basicamente para jogos e novos inventos não possuem a relevância dos antigos. Na opinião de Kasparov, a invenção da internet não pode ser comparada à da eletricidade — que provocou uma autêntica transformação econômica, permitindo o acesso da mulher ao mercado de trabalho e multiplicando por dois o volume da economia mundial. O ex-campeão mundial de xadrez explicou que a verdadeira influência da internet na economia produtiva, não na financeira, é muito inferior à que teve a eletricidade. Deu como exemplo o iPhone, cuja capacidade processadora é muito superior à dos computadores da Apollo 11, os AGC (Apollo Guidance Computer), que possuíam cem vezes menos memória RAM que um smartphone atual. Segundo Kasparov, os AGC serviram para levar o homem à Lua, mas agora usamos a potencialidade de um telefone celular para matar passarinhos (referindo-se ao game popular Angry Birds). Sala i Martín, um homem de raciocínio prodigioso, assistiu maravilhado à conversa entre Kasparov e Guardiola: “Foi fascinante ver dois homens tão inteligentes improvisando um diálogo sobre tecnologia, invenções, paixão e complexidade”, disse.

O encantamento mútuo foi tamanho que, poucas semanas mais tarde, eles se encontraram para um segundo jantar — ao qual Sala i Martín não pôde comparecer porque estava na América do Sul, mas que teve a presença de Cristina Serra, esposa de Pep. Naquela segunda noite, sim, se falou de xadrez. Guardiola ficou surpreso com a intensidade de Kasparov ao falar sobre o norueguês Magnus Carlsen, visto por ele como o indiscutível futuro campeão mundial — o que de fato aconteceu um ano depois, em novembro de 2013, com a vitória sobre Viswanathan Anand por 6,5 a 3,5. Kasparov rasgou elogios ao jovem mestre (de 22 anos na época), a quem chegou a treinar secretamente em 2009, e também detalhou algumas fraquezas que deveria corrigir se quisesse dominar por completo o mundo do tabuleiro. Foi então que Guardiola perguntou se Kasparov se sentia capaz de vencer o emergente campeão norueguês. A resposta o surpreendeu: “Tenho capacidade para derrotá-lo, mas é impossível”. Guardiola imaginou se tratar de uma frase politicamente correta que continha toda a diplomacia que um homem impetuoso como Kasparov era capaz de demonstrar. E por isso insistiu: “Mas, Garry, se você tem capacidade, por que não conseguiria vencê-lo?”. A segunda tentativa obteve a mesma resposta: “É impossível”. Guardiola é teimoso, muito teimoso, e não largou o osso que Kasparov lhe atirara. Insistiu uma terceira vez, enquanto o enxadrista ia se encerrando cada vez mais em sua concha protetora, os olhos fixos no prato, como naqueles tempos em que precisava defender uma posição frágil no tabuleiro. “É impossível”, voltou a dizer com certo ar de lamúria. Guardiola mudou de tática, afastou o prato de salada, que mal havia tocado, e decidiu esperar outra oportunidade para sondar as razões pelas quais Kasparov se sentia incapaz de vencer o jovem Carlsen. Não só por curiosidade, mas porque tinha consciência de que a resposta podia guardar um dos segredos do esporte de alto nível.

Fazia só quatro meses que Pep abandonara o comando do Barça, depois de construir um cartel de vitórias único e inimaginável. Tinha deixado o clube porque se sentia vazio, desgastado, esgotado, incapaz de levar mais glórias a uma equipe que havia se fartado de tantas conquistas. Foi o primeiro e único na história do futebol a conseguir os seis títulos possíveis em uma mesma temporada. Mas Guardiola renunciou ao Barça por esgotamento e agora, já renovado e recuperado, ciente de que a energia voltava ao seu corpo — e, sobretudo, à sua mente —, via-se diante de um dos grandes mitos do esporte, o qual lhe repetia sem hesitar que ainda possuía as capacidades para vencer, mas que era impossível fazê-lo. Sentiu curiosidade, é lógico. O enigma de Kasparov continha muito mais que uma anedota para contar aos netos; nele se encontrava a resposta para o que Guardiola desejava saber há muito tempo: por que se desgastara tanto no Barça? E, principalmente, como evitar tanto desgaste no futuro?

Se eu tivesse que definir Pep Guardiola, diria que ele é um homem que duvida de tudo. A origem dessas dúvidas não é a insegurança nem o medo do desconhecido: é a busca da perfeição. Ele sabe que alcançá-la é impossível, mas a persegue do mesmo modo. Por isso, muitas vezes tem a sensação de que seu trabalho está inacabado. Guardiola é obcecado pelas dúvidas. Acredita que só pode encontrar a melhor solução depois de examinar todas as opções. Lembra, nesse aspecto, o mestre enxadrista que analisa todas as jogadas possíveis antes de realizar o movimento seguinte. A obsessão por esclarecer as dúvidas é um traço da essência de Pep, capaz de dar voltas e mais voltas em torno de qualquer assunto que envolva o jogo antes de tomar uma decisão.

Quando estuda como encarar uma partida, ele não duvida da vocação do seu time: todos ao ataque, com a bola e para ganhar. Mas esses são conceitos muito amplos, e Guardiola desenha com traços finos. Suas grandes ideias são imutáveis, contudo se compõem de muitas pequenas ideias, que ele vai destrinchando na semana que antecede a partida. Pensa e repensa sobre a escalação, a entrada de um jogador em vez de outro, os movimentos que cada atleta fará em função do adversário, a sintonia de algum jogador com um companheiro, como trabalhar as linhas da equipe diante do ataque inimigo...

A mente de Guardiola se parece com a do enxadrista que calcula e analisa todos os movimentos, próprios e do adversário, para antecipar mentalmente o desenvolvimento da partida. Jogue contra quem jogar, a preparação será idêntica: não haverá um segundo de descanso até guardiola confidencial que ele estude e avalie todas as opções. E quando terminar, voltará de novo a todas elas. É o que Manel Estiarte, seu braço direito no Barça e no Bayern, chama de “lei dos 32 minutos”, em alusão à dificuldade de fazer Pep se desconectar do futebol. Estiarte emprega todos os recursos ao seu alcance para de vez em quando conter a obsessão do treinador e obrigá-lo a se distrair, mas sabe por experiência própria que a distração não dura mais de meia hora: “Você o leva para comer em um restaurante para que se esqueça do futebol, mas depois de 32 minutos já vê que ele começa a divagar. Os olhos miram o teto, ele faz que sim com a cabeça, diz que está escutando, mas não olha pra você, já está pensando outra vez no lateral esquerdo do time adversário, nas coberturas do volante, nos apoios ao ponta... Passou meia hora e ele volta a suas digressões internas”, explica Estiarte.

Se os jogadores estiverem fechados com ele, se o Bayern o apoiar, Guardiola não se desgastará tanto com a tensão causada pela análise constante das variáveis. Às vezes, Estiarte o manda embora de Säbener Straβe, a cidade esportiva do Bayern, para que ele se desconecte. Nesses dias, Guardiola volta para casa e passa um tempo com os filhos, brinca com eles, mas meia hora depois vai até um canto que preparou no final de um corredor, que não chega sequer a ser um quarto pequeno, e recomeça suas divagações. Passaram-se 32 minutos e é preciso repassar novamente todas as dúvidas, apesar de ser a quarta vez no dia em que as examina.

Por tudo isso, a resposta de Garry Kasparov era tão importante. Daí vinha sua insistência em resolver o enigma. Por que um mestre lendário como Kasparov, cujas capacidades são excepcionais, considerava impossível derrotar um rival? Foram Cristina e Daria, as esposas, as rainhas daquele tabuleiro nova-iorquino, que desvendaram o enigma. Levaram a conversa novamente para o rumo da paixão, desse ponto passaram à exigência e ao desgaste emocional e, por fim, desembocaram na concentração mental. “Talvez seja um problema de concentração”, sugeriu Cristina. Daria deu a resposta: “Se fosse só uma partida e durasse apenas duas horas, Garry poderia vencer Carlsen. Mas não é assim: a partida se prolongaria por cinco ou seis horas, e ele não quer viver outra vez o sofrimento de passar tantas horas seguidas com o cérebro funcionando a todo vapor, calculando possibilidades sem descanso. Carlsen é jovem e não tem consciência do desgaste que isso provoca. Garry tem, e não gostaria de voltar a passar por isso durante dias a fio. Um conseguiria se manter concentrado por duas horas; o outro, por cinco. Por isso seria impossível ganhar”.

Naquela noite, Guardiola dormiu pouco e pensou muito.

Sobre o autor:
Martí Perarnau nasceu em Barcelona em 1955, participou dos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980 nas provas de salto em altura, especialidade em que foi campeão e recordista na Espanha em todas as categorias. Como jornalista, dirigiu a editoria de esportes de diversos periódicos e da Televisión Española na Catalunha. Há mais de vinte anos vem se dedicando também ao mundo da gestão, primeiro como diretor do centro de imprensa das Olimpíadas de Barcelona, em 1992, e posteriormente, já em Madri, como executivo de empresas do ramo audiovisual. Atualmente, comanda sua própria agência de publicidade e colabora, como analista, em vários meios de comunicação. Em abril de 2011 publicou seu primeiro livro, Senda de Campeones, cujo enfoque são as categorias de base (La Masia) do FC Barcelona. Por sua segunda obra, chamada Herr Pep e lançada no Brasil sob o título Guardiola Confidencial, recebeu, em fevereiro de 2015, o prêmio de Livro do Ano de 2014 oferecido pela revista Panenka. Dirige o magazine esportivo digital www.martiperarnau.com.

terça-feira, 14 de julho de 2015

A Bola Rolou



Escrever sobre as origens e a evolução do futebol não é tarefa fácil. Antes da escrita, há o penoso processo de pesquisa. Por essas razões, livros publicados sobre essa temática são normalmente frutos de teses e estudos acadêmicos. E é aí que, muitas vezes, o leitor acaba se assustando e não se interessando pelos poucos livros publicados sobre esse fantástico período histórico do esporte número um do Brasil.

Não é o caso de “A bola rolou: o Velódromo Paulista e os espetáculos de futebol, 1895-1916”, de Wilson Gambeta, Mestre e Doutor em História Social pela USP. O livro integra a Coleção: Memoria e sociedade da Sesi Editora – SP.

Gambeta escreve para o leitor “médio”, o amante da história do futebol, e não para historiadores eruditos ou pesquisadores aficionados por estatísticas. Uma história para se ler, e, principalmente, aprender.

E Gambeta não é “marinheiro de primeira viagem”. “A bola rolou” é, na verdade, uma extensão de outro livro seu lançado em 2014: Primeiros Passes – Documentos para a história do futebol em São Paulo (1897-1918)(Edições Ludens/Attar Editorial). E outra obra obrigatória que o Literatura na Arquibancada destacará em outro post. Para o autor: “As duas obras se complementam, uma reforça a outra. Elas formam um "PAR-CASADO" para dar conta do mesmo período histórico. Em conjunto, esses livros representam o mais aprofundado estudo já realizado sobre as primeiras décadas do futebol brasileiro, particularmente para São Paulo.”

Sinopse (da editora):

Em A bola rolou, Wilson Gambeta examina a simbologia contida nos espetáculos esportivos para acompanhar a trajetória de adaptação da antiga elite agrária paulista à moderna vida urbana. Os esportes ingleses, concebidos dentro da ideologia liberal-burguesa, foram introduzidos em São Paulo na passagem do século XIX para o século XX. As disputas esportivas, baseadas no equilíbrio igualitário, ganharam novos significados ao serem assimiladas pela sociedade local, recém-saída do escravismo. Elas foram reinterpretadas segundo uma mistura contraditória de valores que oscilavam entre o mundo agrário e o urbano, o velho e o novo. Os clubes atléticos apareceram na capital paulista como arremedos das agremiações civis modernas. Algumas das principais associações dedicadas aos espetáculos esportivos, organizadas por grupos de jovens para a integração social fora do lar, foram atravessadas pelos costumes tradicionais das famílias fazendeiras e pelos interesses políticos da oligarquia regional.

Introdução (início):
Por Wilson Gambeta

Os brasileiros que se interessam pelo esporte conhecem um relato, repetido infinitas vezes, sobre a chegada do futebol ao país: Charles Miller desembarcou no porto de Santos, em novembro de 1894, trazendo na bagagem duas bolas de couro, uma bomba de ar para enchê-las, um par de chuteiras, duas camisas de times que ele defendera na Inglaterra e um livro de regras do association football. Miller pertencia à pequena comunidade britânica radicada na cidade de São Paulo, era brasileiro de nascimento, filho de pai escocês e de mãe brasileira filha de inglês.

Ele divulgou o novo jogo entre seus amigos do clube da colônia inglesa, o São Paulo Athletic Club (SPAC, fundado em 1888), e organizou treinos na várzea do Carmo, nas proximidades do Gasômetro, com a participação de funcionários da São Paulo Gas Co., do London Bank e da São Paulo Railway. O primeiro jogo foi realizado com times improvisados, em 14 de abril de 1895, com o placar final de quatro gols para The Gas Works Team e dois para The São Paulo Railway Team. Teve início assim, com pontapé inicial inglês, a história do futebol no Brasil. Essa narrativa é sempre lembrada pela imprensa esportiva e citada por diversos historiadores como o ato fundador do nosso esporte máximo.

Há alguns anos o historiador José Moraes dos Santos Neto contestou a paternidade de Charles Miller e defendeu uma versão um pouco diferente.

Colégio Jesuíta São Luiz - Itú - SP
O futebol brasileiro teria raízes nas atividades educativas do colégio jesuíta São Luiz, em Itu, a setenta quilômetros da capital paulista, entre os anos de 1880 e 1890.1 Alguns dos professores jesuítas haviam visitado colégios da Europa e de lá o padre José Mantero trouxera duas bolas para a prática do futebol. Elas foram usadas no pátio da escola em jogos recreativos sem regras formais. Mais tarde, a partir de 1894, o padre Luiz Yabar, que conhecera bem o jogo em escolas europeias, adotou as regras do association football e organizou os alunos em quatro times para a disputa de um campeonato interno. O historiador Santos Neto defende que o futebol, depois de introduzido no colégio jesuíta, foi divulgado fora da escola por antigos alunos e se popularizou, inclusive entre operários, antes mesmo que os sócios do fechado clube inglês começassem a jogá-lo em São Paulo. O autor citou ex-alunos do colégio que espalharam o futebol em outras cidades; alguns estariam entre os fundadores dos primeiros clubes a disputar o campeonato paulista: Arthur Ravache no Sport Club Germania (SCG); Carlos Silveira e os irmãos José e Vicente de Almeida Sampaio na Associação Athletica Mackenzie College (AAMC). A hipótese de Santos Neto é plausível.

O historiador John Mills, porém, recusou de modo veemente, em publicação de 2005, as versões que questionam o pioneirismo de Charles Miller.

Defendeu que as atividades recreativas jogadas com os pés, ainda que tenham ocorrido mais cedo em algumas escolas, não podem ser confundidas com a institucionalização do futebol. Mostrou que não são novas na imprensa esportiva as citações sobre práticas de jogos com bolas nos colégios jesuítas de Nova Friburgo (o Anchieta) e de Itu (o São Luiz) ou entre marinheiros ingleses nos portos, mas que todos os cronistas especializados em esportes sempre concordaram que a adoção das regras oficiais inglesas e a organização de times só começaram, de fato, com o retorno de Miller ao Brasil.

Se a questão fosse apenas indicar um precursor, parece difícil negar a Miller o mérito de ter organizado o futebol dentro de um clube esportivo e de ter realizado os primeiros jogos com as regras inglesas fora das escolas.

Certamente, a qualidade do futebol jogado no SPAC foi uma referência para outras associações esportivas fundadas nos anos seguintes: A. A. Mackenzie College (1898), Sport Club Internacional (1899), Sport Club Germania (1899) e Club Athletico Paulistano (1900). Ao que se sabe, nos primeiros tempos os jogos foram disputados entre os sócios do SPAC e em 1899 começaram as partidas amistosas entre clubes. Em 13 de dezembro de 1901 esse movimento esportivo culminou na fundação da Liga Paulista de Football, idealizada por Antonio Casemiro da Costa (Costinha), outro líder importante. Em maio do ano seguinte, os cinco clubes deram início ao primeiro campeonato do país. Os registros que restaram do passado não são suficientes para negar a versão tradicionalmente aceita pela crônica esportiva que atribui a Charles Miller e a Casemiro da Costa o papel de principais articuladores desse esporte em São Paulo.

Colégio São Luiz - Itú SP
Afastando um pouco o olhar da dúvida que sobrevive na historiografia local – entre o pioneirismo de Charles Miller ou do padre Luiz Yabar –, todavia é possível notar que não se trata de uma oposição entre duas histórias distintas. Uma visão panorâmica pode diluir o sentido dessa questão e tornar irrelevantes os fatos pontuais. Para os dois autores citados, Santos Neto e Mills, o início regular do futebol moderno no Brasil se deu em 1894.
A importação das regras é o momento decisivo, pois permite que os times disputem entre si, ou seja, que se comuniquem em uma linguagem lúdica comum, independente dos clubes, escolas, cidades ou países a que pertençam.

A trajetória do jogo de bola também coincide para os dois autores: teve início nas instituições escolares europeias que educavam os filhos de famílias ricas. Várias das famílias britânicas radicadas em São Paulo eram de funcionários de empresas estrangeiras e, não raro, embarcavam os seus filhos para estudarem em escolas da mãe-pátria. Miller, filho de um funcionário técnico da São Paulo Railway, tornou-se um aficionado e competente futebolista depois de cursar escolas inglesas durante dez anos e lá jogar entre 1892 e 1894. De maneira análoga, os professores jesuítas que trouxeram os jogos escolares da Europa para Itu atendiam aos anseios da sua rica clientela.

O Collegio de São Luiz, fundado em 1861, era um internato de ensino fundamental que recebia garotos de famílias abastadas vindos de várias cidades, principalmente da capital paulista. No final do Império se tornou uma prática costumeira entre as famílias endinheiradas mandar os meninos para internatos afastados dos maiores centros urbanos. Ali eles receberiam uma educação com pedagogias importadas, pois os pais esperavam que os garotos tivessem uma educação básica compatível com as escolas estrangeiras.

Muitos dos jovens recém-formados seguiram estudos secundários e superiores em instituições europeias, por isso mesmo o ensino de línguas era privilegiado nesses albergamentos de ensino básico.

Nas duas bagagens pelas quais a bola desembarcou no Brasil – buscada pelo professor jesuíta e trazida pelo jovem estudante anglo-brasileiro – a mesma influência cultural foi embalada. Ela proveio do modelo de educação inglesa que incluía a missão de desenvolver tanto a capacidade física e moral dos jovens quanto a intelectual.

Ao longo do século XIX, as escolas europeias compensaram a falta de atividades da vida urbana com a criação de pedagogias para o corpo. A educação física seria a melhor forma de dar vigor àqueles que no futuro assumiriam o comando das tropas, dos negócios e da nação, e também de inculcar valores morais, como companheirismo, disciplina, respeito, lealdade, liderança, combatividade, entre outros. Inúmeras modalidades inspiradas na ginástica militar ou nos jogos tradicionais foram adaptadas e submetidas as regras próprias de cada escola. A educação alemã e a francesa preferiam a disciplina da ginástica, enquanto a inglesa incentivava as disputas lúdicas.

Em meados daquele século existiam variações do futebol sendo jogadas nas chamadas public schools inglesas – internatos particulares de ensino secundário, de alto preço, que educavam os filhos das elites –, em algumas era admitido segurar a bola com as mãos, agarrar o adversário e chutar as canelas. A uniformização das regras para permitir jogos entre agremiações independentes, o que originou os esportes atuais, foi feita por old boys (os alumni, ex-secundaristas) ao ingressarem nas universidades. Em Londres, as diferenças entre estilos do jogo foram reduzidas a duas modalidades: o rugby football e o association football. O futebol sem o uso das mãos (soccer) passou a ser dirigido pela Football Association, fundada no ano de 1863, a qual organizou o primeiro campeonato nacional em 1872. A partir da Inglaterra o novo esporte foi divulgado no arquipélago e nas colônias do Império Britânico, depois em países do continente europeu e nas Américas, enfim, em qualquer lugar em que a pedagogia inglesa exercesse influência no ensino escolar e onde atuassem empresas de capital inglês.

Quando se compara a história do futebol em diferentes países é possível constatar as duas formas básicas de propagação no final do século XIX interagindo entre si: a) no âmbito do ensino, introduzido por professores de escolas secundárias e universidades, com a importação do jogo recreativo seguida por campeonatos intercolegiais e universitários; b) no cotidiano urbano, por iniciativa de old boys que voltavam de estudos no exterior e de funcionários graduados de empresas inglesas, com a fundação de clubes esportivos, adoção das regras inglesas e a organização de uma liga local para disputar campeonatos.

Em alguns países tal propagação aconteceu em etapas distintas, com a primeira desencadeando e tendo uma influência decisiva sobre a segunda, como aconteceu em Buenos Aires. Em outros, as duas formas aconteceram simultaneamente, com os jogos escolares tendo um peso menor para a divulgação do esporte, como é o caso de São Paulo.

Ao levantar o olhar para descortinar o horizonte do passado, a polêmica sobre a paternidade do futebol brasileiro, iniciada entre Santos Neto e Mills, se dilui. As iniciativas individuais a que se referem os historiadores foram quase concomitantes e fizeram circular informações culturais equivalentes.

O jogo de bola pode ter entrado por ações semelhantes por meio de outras tantas portas pelo país afora. O problema dessa abordagem está em querer encontrar o ponto original da implantação e atribuí-la a um fundador paternal: um jogador/professor pioneiro. É difícil aceitar a ideia de que o futebol chegou de forma casual e recebeu adesões espontâneas da população a partir de um lugar específico, expandindo-se em círculos concêntricos. Identificar a introdução mais remota – como se isso fosse possível – não bastaria para compreender a naturalização do jogo, nem sobre como ele ganhou o formato de espetáculos massivos. A localização de um ato fundador pouco esclarece sobre a dinâmica desse fenômeno, diversificado e plural, que mais tarde atingiu enorme magnitude no país. As ações individuais devem ser pensadas sempre em correlação às mudanças na sociedade. É o que pretendo fazer neste estudo.

(...)

Sobre o autor:
Wilson Gambeta é formado em História e Filosofia pela Universidade de São Paulo. Mestre e Doutor em História Social pela mesma. Autor do livro Primeiros Passes: documentos para a história do futebol em São Paulo (1897-1918).

sexta-feira, 12 de junho de 2015

A biografia de Felix


Mais um projeto de financiamento coletivo na área. E o personagem também é importantíssimo: "Felix Mielli Venerando, O Voo do Papel" (Braz Cubas Editora).

Felix, goleiro tricampeão mundial brasileiro, na Copa de 1970, morreu em agosto de 2012.

Todos os veteranos do futebol brasileiro que construíram trajetórias vitoriosas deveriam ter a memória reverenciada, se não em livro (impresso ou digital), mas pelo menos com uma fanpage em rede social e/ou um site oficial. A família de Felix fez isso. Você pode acessar as páginas de Felix nos links a seguir:  

Sobre o livro, o link para participar é https://www.catarse.me/livrofelixgoleiro70

Sinopse (da editora)
Em uma iniciativa da recém-criada Braz Cubas Editora, com apoio da família de Felix Mielli Venerando, goleiro tricampeão da Seleção Brasileira de futebol, em 1970, no México, conhecido também como "Papel", pela leveza e desenvoltura embaixo das balizas, e por "Gato Felix", pela elasticidade e agilidade impressionantes nas defesas, o objetivo desse projeto é publicar a primeira biografia autorizada do ídolo, contando sua trajetória e suas histórias como atleta, marido e pai de três meninas.

Felix iniciou a carreira no Clube Atlético Juventus em 1951, aos 14 anos, passou pela Associação Portuguesa de Desportos, onde atuou de 1955 a 1968, com breve passagem pelo Nacional, em São Paulo. Em março de 1968 transferiu-se para o Fluminense Football Club, no Rio de Janeiro, no qual conquistou diversos títulos, encerrando a carreira de goleiro em 1977. 


Assumiu então o cargo de treinador de goleiros e auxiliar técnico, no próprio Tricolor Carioca, passando depois a técnico do Madureira e do Botafogo, do Rio de Janeiro, respectivamente, e por último do Avaí, de Santa Catarina. Jogou pela Seleção Brasileira no período de 1965 até 1973.

Dentre seus diversos títulos, os mais destacados são o que obteve como goleiro titular da Seleção Brasileira de futebol, campeã mundial invicta, e do Fluminense, campeão brasileiro, em 1970.

A obra terá depoimentos de seus familiares e de companheiros de Seleção Brasileira, Portuguesa e Fluminense, além de trechos de entrevistas dadas na mídia.


Sobre os autores:
Waldyr e Waléria Barboza, escritores e editores, publicaram em 2013 "Preguinho Confissões de um Gigante", biografia autorizada de João Coelho Netto, o Preguinho, multi-atleta campeão em oito modalidades, que fez carreira no Fluminense, além de ser o autor do primeiro gol da Seleção Brasileira, em 1930, no Uruguai. Preguinho é também o primeiro capitão e artilheiro, com três gols (na partida de estreia, contra a Iugoslávia - 1 - e no segundo jogo, frente à Bolívia - 2).




Colaboradores:
Patrícia Rinaldi Venerando, professora de educação física, filha de Felix, principal responsável pela divulgação e preservação da memória do pai e ídolo.








Luiz Otávio Coutinho, jornalista, apaixonado por futebol e pelo ídolo Felix, mantém, juntamente com Patrícia, uma fanpage dedicada ao atleta, com várias fotos, informações e dados estatísticos referentes à carreira do jogador.