sexta-feira, 27 de março de 2015

Jogo Roubado

Em tempos que só se ouve falar em corrupção, a literatura esportiva, por intermédio do autor Brett Forrest, nos traz Jogo Roubado - A Caça as Responsáveis Pela Manipulação de Resultados de Partidas de Futebol (Editora Paralela). Para comprovar que não somos únicos na questão corrupção, pelo contrário, parecemos ser “puros”, quando comparados aos casos revelados nesse livro espetacular.

Literatura na Arquibancada disponibiliza abaixo, sinopse e o capítulo de abertura do livro.

Sinopse (da editora):

Neste livro, o jornalista Brett Forrest nos leva até o coração de um mercado de 700 bilhões de dólares: o mundo de apostas do futebol. Em 2013, a polícia europeia (Europol) revelou que mais de 700 partidas internacionais já tinham seus resultados definidos desde 2008. Forrest joga luz sobre esse caso, expondo uma rede nefasta que se espalha pelo mundo, através de oportunistas que subornam jogadores, influenciam árbitros e criam partidas armadas, tudo sob o controle de sindicatos criminosos localizados no continente asiático. Nenhuma partida é imune – nem mesmo na Copa do Mundo – especialmente quando a polícia local é carente de recursos e de vontade política para investigar. Repleto de revelações dignas de manchetes de jornal, Jogo roubado é um livro obrigatório para quem é fã de futebol.

“Forrest detalha de forma inédita como uma máfia internacional aliada a cartolas sem escrúpulos manipulam resultados, compram jogadores e transformam a paixão de milhões de torcedores pelo mundo em meras ilusões” – Jamil Chade

Estádio khalid bin Mohammed
Sharjah, Emirados Árabes Unidos, Março de 2011

Os agentes da Fifa (Federação internacional de Futebol) chegaram ao estádio após o meio-dia, preparados para interromper o crime que estava destruindo o futebol.  Sharjah ficava a uma curta viagem de carro de Dubai, mas parecia haver um mundo de distância, no meio daquela poeira sem glamour algum naquela parte dos Emirados Árabes Unidos que a maioria dos ocidentais nunca tinha visto. Ao contrário de Dubai, Sharjah não parecia um lugar onde uma pessoa poderia ficar rica da noite para o dia. Isso fez do emirado um local apropriado para os criminosos que haviam se infiltrado nos jogos de futebol. Sua especialidade era a ilusão, e os eventos em Sharjah estavam prestes a lhes dar outro lucrativo retorno após noventa minutos de partida.

O jogo estava marcado para aquele dia 26 de março de 2011 e era um amistoso entre as seleções do Kuwait e da Jordânia. O tipo de partida que ocorria centenas de vezes por ano em todo o mundo, com pouca repercussão e poucas consequências. Técnicos de equipes nacionais muitas vezes encaravam essas disputas como treinos um pouco mais pesados. Por outro lado, grupos criminosos que iam do sudeste da Ásia até a Europa Oriental tinham interesse e consideravam tais partidas os pilares de um extenso empreendimento comercial.

A partida entre Kuwait e Jordânia se formava na linha de frente de uma guerra que estava apenas começando. De um lado estavam os grupos criminosos organizados, que lucravam centenas de milhões de dólares — se não bilhões, ainda assim um pingo no oceano de trilhões
de dólares em apostas de futebol —, através da manipulação de resultados dos jogos. Do outro lado estavam os dirigentes do futebol, que começavam a aceitar que a manipulação de resultados era o escândalo da nossa época, uma ameaça real para o esporte mais popular do mundo.

A Fifa, órgão diretivo internacional do esporte, havia recebido informações de que um grupo conhecido de criminosos pretendia manipular o resultado da partida em Sharjah. Isso não era grande surpresa, já que pontuações finais inflacionadas, aplicações duvidosas de pênaltis e padrões estranhos de apostas vinham ocorrendo com grande frequência nas últimas temporadas. O que era novidade no jogo de Sharjah era que um diretor de segurança da Fifa recém-contratado estava fazendo uma investigação clandestina. O momento de agir havia chegado.

Quando dois investigadores da Fifa entraram no estádio Khalid Bin Mohammed, pouco antes da hora do jogo, não havia ninguém por lá. Tinha sido um desafio reunir informações confiáveis sobre a partida, até mesmo para a Fifa, que a havia autorizado. A data, o horário de início, o local, nada havia sido confirmado. Os sites das seleções do Kuwait e da Jordânia forneciam informações conflitantes. O mesmo ocorria nos sites de apostas. Algumas publicações até mesmo listavam o jogo como cancelado. Foi essa a impressão que tiveram os dois homens da Fifa, enquanto passavam pelos portões abertos do estádio. Ninguém estava vendendo ingressos. As arquibancadas estavam vazias. Os investigadores da Fifa sentaram-se em um dos setores da arquibancada e notaram que não havia câmeras, nem unidades móveis de tv, como de costume. A partida não havia sido anunciada na imprensa local. Em uma era de constante cobertura jornalística e divulgação de informações, parecia que aquele jogo aconteceria apenas no mundo da imaginação.

Por fim, os jogadores entraram no estádio, assim como alguns torcedores. Os agentes da Fifa perceberam alguns homens caminhando pelas beiradas do campo e os reconheceram: um deles era de uma empresa de promoções dos Emirados, outro de uma empresa semelhante no Egito. Tinham ajudado a organizar o jogo, mas não eram essenciais na investigação.
Na verdade, a Fifa estava interessada nos arquitetos dessa operação, um grupo notório de Cingapura que operava de forma despercebida em dezenas de países em todo o mundo. Os investigadores viram quando dois conhecidos corruptores cingapurianos entraram no estádio e se sentaram na seção vip. A partida estava para começar.

A ideia de manipular o resultado em Sharjah havia se originado na mente do maior especialista na produção de placares do mundo, uma pessoa de movimentos misteriosos que havia manipulado centenas de partidas em mais de sessenta países, lucrando somas incalculáveis para um grupo de apostadores da Ásia. Mas o tal grupo o havia traído. E a polícia havia descoberto detalhes dos arranjos de Sharjah esboçados em um pedaço de papel deixado na cama do seu quarto de hotel em uma cidade finlandesa ao longo do Círculo Ártico.

Essas informações levaram os investigadores da Fifa até Sharjah. Eles planejavam entrar sem aviso prévio nos vestiários durante o intervalo e ameaçar suspendê-lo, e até mesmo processá-lo, a menos que a segunda metade do jogo fosse disputada de maneira honesta. Embora os dois funcionários da Fifa tenham tentado contato com os funcionários da Associação de Futebol dos Emirados Árabes Unidos, suas ligações e e-mails não foram respondidos. Por enquanto eles haviam sido relegados às arquibancadas, sem a credencial adequada para visitar outras áreas do estádio. Eles especularam que as autoridades do futebol dos Emirados poderiam ter conhecimento da próxima combinação de resultados. Muitas federações nacionais de futebol ao redor do mundo tinham aderido ao lucrativo negócio de combinar o placar de partidas de futebol com o grupo de apostadores de Cingapura.

O objetivo da corrupção de resultados era fraudar as apostas. Corruptores envolviam jogadores no esquema para que estes permitissem que a outra equipe fizesse gol. Os infratores subornavam árbitros para distribuir cartões vermelhos e pênaltis, influenciando, assim, os resultados das partidas. O grupo de apostadores fazia suas apostas com base no calendário de jogos. Enganavam as casas de apostas, que estavam sempre um passo atrás deles, e os torcedores, que acreditavam que o que estavam vendo era real. E também havia o jogador, muitas vezes coagido a participar. Quando a partida entre Kuwait e Jordânia começou, a atividade no mercado de apostas internacional revelou que a corrupção estava mesmo acontecendo.

Em algum momento da década de 1990, Joseph “Sepp” Blatter, presidente da Fifa, começou a classificar alguns jogadores de futebol e gerentes de todo o mundo coletivamente, em comentários públicos, como a “família do futebol”. A Fifa, que tem sede em Zurique, é a organização responsável pela realização da Copa do Mundo a cada quatro anos. No meio da colcha de retalhos de federações e confederações que controlam e administram o futebol, é a organização que carrega o maior peso. É para ela que a maioria das pessoas envolvidas com futebol recorre a fim de resolver uma disputa ou emitir um comunicado. Mas a Fifa não é a guardiã da boa vontade que a terminologia benevolente de Blatter sugere. A Fifa é registrada na Suíça como uma instituição sem fins lucrativos, mas não funciona como tal, com uma renda de 1 bilhão de dólares por ano, múltiplos acordos de patrocínios corporativos e contratos de tv. Ela também não se comporta como uma empresa moderna, com tradicionais fiscalizações corporativas e balanços. Na verdade, a Fifa reside em algum lugar impreciso no meio disso, o que, para alguns de seus mais altos executivos, é completamente aceitável, sendo tal ambiguidade um facilitador para muita exploração.

Na última década, a forma imprecisa como o futebol mundial tem sido administrado expôs o esporte à crise. A corrupção de resultados dominou o futebol. Não é culpa da Fifa que o crime organizado internacional tenha o esporte como alvo, mas, considerando a natureza criminosa da manipulação de resultados, as palavras de Blatter assumiram um novo significado.

Na verdade, esta é a “família” moderna do futebol: uma operação chamada A Última Aposta abalou a Federação italiana de Futebol, uma vez que quinze clubes e 24 jogadores, técnicos, árbitros e funcionários foram implicados em corrupção de resultados. A polícia turca prendeu aproximadamente cem jogadores, enquanto a Federação Turca de Futebol excluiu seu clube, o Fenerbahçe, da Liga dos Campeões da Uefa, questionando a forma como a equipe conseguiu vencer dezoito dos últimos dezenove jogos e levar o título nacional. A Associação de Futebol do Zimbábue baniu oitenta jogadores da seleção nacional com base na suspeita de fraude de resultados. Lu Jun, o primeiro árbitro chinês a apitar um jogo da Copa do Mundo, foi preso por cinco anos e meio por aceitar subornos no valor total de 128 mil dólares, reforçando o significado de seu apelido, “apito de ouro”.

Na Coreia do Sul, promotores acusaram 57 pessoas por fraude de resultados; dois jogadores cometeram suicídio posteriormente, em vez de enfrentar a situação. Dois árbitros brasileiros receberam ordem de prisão e a Confederação Brasileira de Futebol foi multada em 8 milhões de dólares por sua participação em uma série de jogos manipulados. Logo depois de oito estonianos receberem uma suspensão de um ano, um tribunal processou outra dúzia por corrupção. A polícia alemã gravou criminosos croatas discutindo por telefone seus planos para corromper jogos no Canadá. O presidente da Associação de Futebol da China atualmente cumpre pena em uma colônia penal específica por corrupção de resultados de jogos de futebol. A polícia húngara prendeu mais de cinquenta pessoas por corrupção e o diretor de um clube se suicidou quando foi descoberto. Os tchecos estão processando dois árbitros por corrupção. A equipe nacional cambojana manipulou sua própria derrota numa série de dois jogos com o Laos, que qualificava um dos times para a Copa do Mundo de 2014.

A Macedônia é tão corrupta que raros agentes aceitam apostas em jogos do campeonato nacional. Os executivos de um clube búlgaro, o Lokomotiv Plovdiv, exigiram que seus jogadores e técnicos fizessem um teste no detector de mentiras após um jogo perdido. Jogadores, proprietários de times e agentes de apostas georgianos estão atrás das grades por corrupção de resultados. Na Malásia, algumas dezenas de jogadores estão atualmente sob a custódia. Sabe-se que árbitros do Quênia, do Líbano e da Tanzânia tiveram participação nesses tipos de arranjos. O Níger possui o árbitro mais corrupto de todos. Autoridades da Polônia processaram uma dúzia de jogadores por corrupção. O governo russo estabeleceu um comitê para erradicar esse tipo de crime de resultados de suas ligas. O primeiro-ministro de Belize ordenou uma investigação de manipulação de resultados sobre o chefe da associação de futebol do país.

O crime organizado na China e na Itália teve a liga belga como alvo durante anos. A liga da Bósnia é alvo de criminosos do próprio país. A Suíça baniu nove jogadores acusados de manipulação de resultados. Promotores italianos fizeram acusações de corrupção contra o meio-campo Gennaro “Rino” Gattuso, popular jogador da seleção campeã da Copa do Mundo de 2006 e ex-astro do Milan. Gattuso disse que estava preparado “para se suicidar em praça pública se fosse condenado pelo crime”. Dois escândalos abalaram o futebol inglês no outono de 2013, um deles envolvendo uma quadrilha de Cingapura e o outro um ex-jogador da Premier League. A Alemanha está levando adiante o processo do caso mais famoso de manipulação de resultados, em Bochum, que revelou que uma rede criminosa de corruptores tem afetado o futebol em todos os cantos do mundo na maior parte da última década.

Será que a situação está tão ruim assim? Sem dúvida alguma. Atualmente, há em curso investigações policiais sobre corrupção de resultados de jogos de futebol em mais de sessenta países, o que significa um terço do mundo. Metade das associações nacionais e regionais afiliadas à Fifa relatou incidentes desse tipo. Dá para imaginar então a quantidade de jogos manipulados que devem ter acontecido com o conhecimento apenas dos infratores. A manipulação de resultados no futebol internacional tornou-se uma epidemia, assim como o tráfico de drogas, a prostituição e o comércio de armas ilegais. Isso está acontecendo em um esporte no qual os jogadores andam do vestiário até o campo de mãos dadas com crianças, como se o futebol fosse um refúgio da inocência e da pureza moral. Provas irrefutáveis apresentam um argumento contraditório: o jogo mais popular do mundo é também o jogo mais corrupto do mundo. 

A culpa é dos jogos de azar. O mercado de apostas esportivas inflou na última década, com sua porção ilegal rivalizando antigas organizações criminosas. A Interpol afirma que 1 trilhão de dólares são apostados em jogos de futebol por ano. Agentes de apostas asiáticos sugerem um montante muito maior. A indústria do futebol em si — os contratos de tv e patrocínios que compõem o negócio do jogo — está estimada em um valor anual de 25 bilhões de dólares.

Sem fiscalização e impulsionada pelo lucro fácil, a corrupção que ocorre através de resultados tem crescido de forma descontrolada. Clubes de futebol maiores submetem-se a clubes menores que estão tentando evitar o rebaixamento para uma divisão inferior. Técnicos, jogadores, árbitros e funcionários do governo conspiram para esse tipo de corrupção. Jogos internacionais de qualificação resultam em placares ultrajantes: 11 a 1, 7 a 0. A oportunidade de lucro fácil imediato gerou criativas tentativas de manipulação de resultados. Em 3 de novembro de 1997, em uma partida do campeonato inglês contra o Crystal Palace, o time do West Ham marcou o gol de empate após 65 minutos de jogo. De repente, as luzes do estádio se apagaram. O mesmo aconteceu quando o Wimbledon jogou contra o Arsenal um mês depois. Uma quadrilha com membros da China e da Malásia havia pagado os técnicos dos estádios para cortar a energia quando o jogo tivesse alcançado o placar combinado. A crescente ganância fez com que os próprios jogadores tomassem medidas severas para que a manipulação de resultados acontecesse. Em um jogo na Itália, em 2010, um goleiro teria drogado os próprios companheiros de equipe no intervalo para que seus adversários pudessem ganhar a partida.

Os jogadores, na verdade, não têm grande importância. Eles são apenas ferramentas dos chefes dos grupos de apostadores que operam nas sombras. Para esses criminosos, o futebol internacional tem sido uma zona livre para atividades ilícitas, um território de oportunidades infinitas para manipulações. Cada um dos cerca de duzentos países que a Fifa reconhece tem uma liga profissional e um time nacional, que é classificado em diversas faixas etárias. O número total mundial de times de futebol nacionais profissionais ultrapassa os 10 mil. Multiplique este valor pelo número de jogadores por equipe, em seguida adicione os árbitros, dirigentes de clubes e administradores da federação e perceba como os pontos de infiltração para corruptores de jogos são abundantes e estão em constante mudança de temporada para temporada. Não existe um controle centralizado, nem uma comissão disciplinar. O futebol internacional é uma rede administrada sem regras rígidas, em diferentes idiomas, culturas, leis, economias e moedas do mundo todo, muitas vezes sem conexão alguma. Essa particularidade dá ao jogo um encanto especial. Também permite que motivações obscuras floresçam. Grupos criminosos de apostadores se infiltraram de forma profunda no negócio do futebol, manipulando o mercado de apostas para sua própria vantagem, e puseram em dúvida o resultado das partidas em todo o mundo.

O início da partida entre Kuwait e Jordânia ocorreu em ritmo animado. Um homem sentado atrás dos investigadores da Fifa ria, comentando que kuwaitianos e jordanianos não se gostavam. O árbitro apitou um pênalti duvidoso no 23º minuto do jogo, quando a bola ricocheteou da mão de um desatento jogador jordaniano. O Kuwait virou o jogo. Os agentes da Fifa observavam os corruptores de Cingapura no meio da multidão, porém sua linguagem corporal não revelava muito. Mas não era preciso. Os números diziam tudo.

Existem várias maneiras de adulterar os resultados de uma partida. Um dos mais populares é apostar no número total de gols marcados. Se o agente de apostas lista o placar máximo/mínimo em 2,5 e um corruptor aposta no resultado máximo, ele vai manipular os jogadores ou o árbitro para assegurar que três ou mais gols sejam marcados no jogo. Se apostar no mínimo, então pedirá dois ou menos gols.

O grupo de apostadores operava no mercado de apostas in-game, que permite apostas durante o jogo. Na abertura do jogo de Sharjah, a 188Bet, uma das maiores casas de apostas do mundo, começou a ter uma preponderância de apostas que apoiavam três gols ou mais. As chances para três ou mais gols na 188Bet começaram em 2,0, ou uma probabilidade de 50%. Aos dezoito minutos, com o jogo ainda sem gols, as chances de três ou mais gols diminuíram para 1,88, ou 53%. Esses números mostravam um detalhe revelador. No início da partida, com noventa minutos para marcar três gols, a 188Bet calculava a chance de três ou mais gols em 50%. Paradoxalmente, dezoito minutos depois, a chance de três ou mais gols era maior, mesmo havendo menos tempo, isto é, restavam apenas 80% do jogo para marcar gols.

Os agentes de apostas da 188Bet não haviam determinado que um resultado de três ou mais gols era agora mais provável. O que eles fizeram foi mover as chances, em uma reação à esmagadora quantidade de apostas que estavam recebendo para três ou mais gols. O objetivo do agente é nivelar suas apostas, tomar medidas equivalentes em ambos os lados de uma proposta a fim de reduzir sua exposição e manter sua margem de lucro. E um apostador sabe que sua exposição é maior quando realiza uma grande quantidade de ações sobre uma proposta sem muita lógica. E ele sabe que o resultado do jogo foi manipulado, assim como os agentes de apostas da 188Bet certamente sabiam, enquanto calculavam as probabilidades in-game para o jogo de Sharjah.

Quando a partida estava próxima do intervalo, apenas um gol havia sido marcado. Aos 38 minutos, o árbitro apitou outro pênalti. Este parecia legítimo, já que um jogador da defesa do Kuwait havia derrubado um da Jordânia dentro da pequena área. O goleiro do Kuwait salvou o chute que se seguiu. No entanto, o bandeirinha assinalou movimentação ilegal antes da cobrança. A Jordânia voltou a cobrar e marcou. No intervalo, a partida estava empatada. Faltando 45 minutos de jogo, tudo de que o grupo de apostadores precisava para ganhar a aposta era de mais um gol. Fácil. Mas então algo aconteceu.

Da arquibancada, os investigadores da Fifa pensaram em tentar abrir caminho e ir até os vestiários para confrontar o árbitro e os jogadores. Enquanto faziam isso, viram o homem da empresa de promoções dos Emirados subir as escadas da arquibancada vip. E falar com os corruptores de Cingapura. A Fifa descobriu mais tarde que o árbitro da partida havia recebido a informação de que o jogo estava sendo observado. Os jogadores voltaram ao campo para o segundo tempo e os cingapurianos deixaram o estádio. No meio do segundo tempo, o placar ainda estava 1 a 1.

De repente, aos 71 minutos de jogo, as apostas se inverteram. Não havia mais apostas na 188Bet para mais de três gols, embora restassem dezenove minutos de jogo em que um terceiro gol pudesse ser marcado. Avisados de que investigadores da Fifa estavam no estádio, o grupo de apostadores cancelou a manipulação dos resultados e retirou suas apostas. A partida terminou com o empate de 1 a 1.

A partir de conversas que a equipe de segurança da Fifa coletou posteriormente em Cingapura, os membros dos grupos de apostadores estavam confusos e se perguntando quem teria vazado as informações da operação em Sharjah. Os apostadores haviam perdido cerca de 500 mil dólares naquela partida, segundo a inteligência da Fifa. Considerando o tamanho do mercado de apostas de futebol, não era um número alto. No entanto, o evento em Sharjah foi significativo. Ninguém nunca havia lutado contra o grupo antes. Claro, havia acusações e investigações efetuadas depois de o crime ter sido cometido e os lucros auferidos. Mas a Fifa nunca havia conduzido uma operação de combate em tempo real contra as manipulações de resultados de jogos de futebol. Os criminosos asiáticos e seus parceiros europeus haviam operado livremente por uma década. Mas as coisas estavam prestes a mudar.

Sobre o autor:
Brett Forrest é um colaborador da ESPN The Magazine e já publicou textos em publicações como Vanity Fair, National Geographic, The Atlantic, e New York Times Magazine. Ele já morou na Rússia, na Ucrânia e no Brasil.



terça-feira, 24 de março de 2015

Uma bola no pé e uma ideia na cabeça


A reflexão inspirada em livros com temáticas mais “complexas” para o leitor “comum” são sempre bem-vindos. Antropologia, filosofia, psicologia, ciência e tecnologia e sociedade inspiraram 16 autores a refletir sobre o futebol. O livro “Uma bola no pé e uma ideia na cabeça: o que o futebol nos faz pensar” (Editora UFRJ e Faperj) está aí, para nos fazer pensar e entender sobre o esporte número 1 do país.
Abaixo, textos de contracapa, orelhas e trecho do artigo escrito por Bernardo Oliveira.

Texto contracapa

Multidões se aglutinam em torno do futebol, essa paixão que faz corpos se agitarem em praias, parques, campos de terra, gramados, ruas, playgrounds, etc. A bola, as torcidas, os times, os árbitros, as relações de poder, as competições organizadas e as experiências da juventude, tudo serve como objeto de pensamento.

O que dizer dos afetos que ligam as torcidas? Das estratégias dos times em campo e suas atuações? Das atividades dos árbitros? Das relações de poder que se estabelecem nas federações e nos campeonatos nacionais? Essas são algumas das questões que instigam os dezesseis autores reunidos nesta obra, que dialogam com as mais diversas áreas: antropologia, psicologia, filosofia e estudos de ciência e tecnologia e sociedade.

Texto orelhas

O fenômeno do futebol vem cres­cendo e atraindo a atenção nas pesqui­sas acadêmicas. Temas como futebol e nacionalismo, violência no futebol e hooliganismo, futebol como um ins­trumento da política, futebol e proces­sos identitários e futebol, megaeventos esportivos e planejamento urbano são somente alguns exemplos de pesquisas e publicações recentes. Como escapar, no entanto, à armadilha de que o conhe­cimento acadêmico faça do futebol uma espécie de simples marionete, falando por meio de suas principais teses ou teo­rias? Como fazer que o futebol abra um amplo campo de pensamento, im­pondo novas questões, novos temas, novos conceitos (e mesmo contracon­ceitos)? São essas as questões que mo­vem o time de autores aqui reunidos.

Contando com o trabalho de pes­quisadores e pensadores brasileiros e estrangeiros, o livro Uma bola no pé e uma ideia na cabeça: o que o futebol nos faz pensar busca, de uma forma pioneira, mudar o estilo de jogo, pela recusa da tomada do futebol como objeto dócil e por um modo de pensar não sobre ele, mas com ele, fazendo do esporte bretão um campo privile­giado para analisar alguns elementos estruturantes da sociedade.

Esse "pensar com" suscita várias tro­cas de passes com pensadores como Sócrates, Hobbes, Spinoza, Nietzsche, Deleuze, Gramsci, Lyotard, Latour e Baurnan, entre outros. Porém, este li­vro se pretende filosófico menos pelo trabalho desses célebres autores do que pelo risco de refletir sobre aquilo que o futebol nos traz como questões: ser torcedor, seus afetos, o jogo, seu es­tilo, seu acontecimento c os modos de arbitragem. É isso que os autores de­sejam fazer em escritos com distintas filiações filosóficas, nacionalidades, uni­versidades, áreas do saber e - talvez o mais importante - diferentes filiações clubísticas. Convidamos você, caro lei­tor, para uma tabelinha pensante pe­las linhas tortuosas do futebol. Que o jogo possa ser franco, aberto, sem re­tranca ou linha-burra, e que nele todos só tenham a ganhar.

Sobre os organizadores:


Arthur A. L. Ferreira é professor da UFRJ, doutor em Psicologia Clínica pela rucsr membro dos Programas de P?S­-graduaçáo em Psicologia e em História das Ciências e das Técn icas e Epistemo­logia da UFRJ e pesquisador do CNPq.

André Martins é professor da UFRJ, doutor em filosofia pela Un iversité de Nicc e membro do Programa de Pós-gra­duação em Filosofia da UFRJ.

Robert Segal é licenciado em Filoso­fia, mestre em Educação pela Uni Rio e doutorando em Educação pela UFRJ.

Futebol, Acontecimento
Por Bernardo C. Oliveira

O mistério que resguarda a influência do futebol sobre a vida de uma grande parte da população mundial não corresponde a uma miríade insondável, tal como imaginam muitos de seus admiradores e detra­tores. Basta recorrer às inúmeras investigações que buscam detectar as razões sociais, culturais, políticas e, sobretudo, econômicas pelas quais se constituíram o mito e a miséria futebolística. Poderemos perceber que se, por um lado, se sedimentou um imaginário deveras mítico, cuja previsibilidade o inscreve nos aspectos indeléveis da expressão humana, por outro, associa-se frequentemente sua existência às maracutaias e à ganância, em suma, ao pior da política. Aqui também parece valer a máxima pós-capitalista: a economia, estúpido!”

Dos estudos mais intrigantes a respeito do aspecto, por assim dizer, menos nobre do futebol, o precursor Jogo sujo: o mundo secreto da Fifa, compra de votos e escândalo de ingressos, assinado pelo repórter investigativo inglês Andrew Jennings (2011), é o resultado de uma pesquisa de sete anos na intimidade dos homens que controlam o nebuloso mundo do futebol. O livro mapeia e traça a degeneração da Fifa a reboque da ascensão de um brasileiro, a quem se atribui todo o projeto de unificação e dominação do futebol em escala mundial: o ex-esportista brasileiro Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange. É intrigante, porque, apesar de o livro conter provas cabais sobre todas as barbaridades que denuncia, seus artífices se mantiveram no poder à revelia de processos e liminares, pois não houve retaliação institucional nem medidas oficiais que coibissem tais práticas. A situação fica ainda mais complicada quando se sabe que tais denúncias foram reforçadas pelo livro de David Yallop, Como eles roubaram o jogo, malgrado a tentativa, que permeia todo o livro, de atribuir aos latino-americanos a responsabilidade pela corrupção no futebol. Dito e escrito por um inglês, parece piada...

Apostemos em outra perspectiva: não nos ocorreu adotar a natação ou a bocha, e mesmo o vôlei brasileiro, a despeito de sua trajetória vitoriosa, para substituir o esporte bretão. Não nos ocorreu adorar outro esporte, nem a nós nem a tantos outros povos do mundo. A especificidade do sentimento futebolístico, inseparável da relação que o indivíduo mantém com seu time do coração, me leva a deixar de lado o tema do desencanto pela política e abraçar a proposta deste livro: o que se pode problematizar a respeito de uma possível relação entre a filosofia e o futebol que se afirme, ao mesmo tempo, com certa liber­dade em relação aos terríveis aspectos políticos e históricos, mas que explique, ainda que paradoxalmente, o maravilhamento produzido por esse esporte, responsável pela atenção de mais da metade da população mundial? Eventualmente, em favor do futebol, essa manobra prejudi­cará alguns temas filosóficos laterais – por exemplo, a teoria dos afetos em Spinoza. Peço ao leitor que releve. Em relação ao futebol, somos convocados a atender a uma superficialidade atenta à pele das coisas.

Ora, ao abordarmos um fenômeno labiríntico como o futebol, sob a perspectiva crítica da filosofia, convém antes precisar o ponto de vista sob o qual conduziremos a argumentação. De antemão, devo justificar a ausência do jogo propriamente – tanto no que diz respeito às regras e ao desenvolvimento das concepções táticas quanto nos aspectos "guerreiros" –, pautada por batalhas campais, partidas inesquecíveis em virtude de reabilitações e resultados imprevistos, disputas acirradas em campos encharcados, conduzidos por juízes corruptos e infestadas de brigas, estiramentos, pernas quebradas, doping, vexames, craques desmoralizados e muita emoção... Como a final do brasileiro de 1980, envolvendo Flamengo e Atlético Mineiro, ou a desclassificação do mesmo Flamengo na Libertadores de 2008, pelas mãos de um artilheiro gordinho chamado Cabanas. Não esqueçamos a chamada Batalha dos Aflitos, que definiu para o Grêmio o campeonato da Série B de 2005. São relevantes e marcam a memória com o rastro mítico do acontecimento futebolístico, mas não implicam necessariamente a intervenção criadora do craque. Parece-me que, a despeito da corrupção e das manipulações, a memória e a imaginação, imbricadas em um delírio mítico decorrente da atuação do craque, são as responsáveis pelo transe futebolístico. Do contrário, o elemento que decide uma partida dessa natureza é coletivo e, não raro, brutal.

Concentro os argumentos sobre três perspectivas que me parecem centrais: a mobilização coletiva da torcida – do torcedor fanático, "doente" ou "curado"; a ação individual-criativa do craque – respon­sável pelo que há de insubstituível na dinâmica singular do jogo; e, enfim, a convergência de individualidade e coletividade no âmago do acontecimento, entendido como o momento em que a intervenção individual se conecta à coletividade, tanto em relação ao desenrolar da partida quanto em relação à memória da torcida. "Desse entroncamen­to, formado pela convergência entre individualidade, coletividade e acontecimento, configura-se o substrato mítico do futebol, sucedâneo do pharmakós grego, delírio coletivo que tem o poder de expurgar ainda que momentânea e imaginariamente, os males da cidade. Ativada pela intervenção individual do craque, sedimentada sobre a memória e atualizada coletivamente a todo instante, a mítica futebolística prolifera pelas ruas, alheia às pressões externas e aos eventuais maus resultados. Na verdade, isso ocorre para a grande maioria dos torcedores, o que se reflete cruelmente em nossa cultura cristã pelo fato de que o "vira-casaca"!' é considerado um ser desprezível, comparável a Judas Iscariotes. (...)

Sobre o autor do texto:
Bernardo C. Oliveira Pós-doutorado, IFCS/UFRJ. Doutor em Filosofia, PUC Rio. Professor da Faculdade de Educação da UFRJ. Crítico, pesquisador e produtor.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Contos Brasileiros de Futebol

Um gênero na literatura esportiva que deveria ter maior visibilidade e criadores. Se escrever Contos sobre futebol já é coisa rara, o que pensar de livros que reúnam autores? Em 2008, o escritor e poeta Cyro de Mattos fez isso e assim surgiu “Contos Brasileiros de Futebol” (Editora LGE). Uma seleção de craques da literatura como Aércio Consolin, Aldyr Schlee, Antonio Barreto, Caior Porfírio Carneiro, Deonísio da Silva, Dias da Costa, Duílio Gomes, Edilberto Coutinho, Edson Gabriel Garcia, Hélio Pólvora, José Cruz Medeiros, Lourenço Cazarré, Luís Henrique, Moacir Japiassu, Renard Perez, Salim Miguel, Sérgio Sant’Anna, Suzana Monteiro e também o organizador, Cyro de Mattos.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo, o texto de apresentação do organizador, Cyro de Mattos e um dos contos, do craque Moacir Japiassu, “A Bola e a Rede”.

Futebol e Literatura
Por Cyro de Mattos

Febre. Religião. A maior paixão popular. Que bonito a torcida no estádio superlotado. As bandeiras desfraldadas. Apoteose de não sei quantas gargantas que explodem no ar um só grito de gol. Delira a torcida, vendo a rede balançar. Quando a bola bate no montinho artilheiro e engana o goleiro: Óóóóóóóó! Que fatalidade, observa o torcedor: “Nada melhor que um gol aos 45 minutos do segundo tempo”. Ele sabe que nada é mais prazeroso do que a conquista do campeonato no último minuto. No torcedor derrotado um soco na barriga e como dói quando a partida é uma final de campeonato. É como um nocaute que derruba milhares no abismo.

Rostos cabisbaixos. Bandeira enrolada, queimada.

No gol de impedimento milhares xingam o homem do apito vestido de preto e, de quebra, a mãe dele deixa de ser santa. Vociferam, ameaçam Deus e o mundo. Nada mais terrível na alma do que a dor de não ser campeão. Como consolo o torcedor repete: “Estava escrito nas estrelas. Os deuses tinham escrito há milênios”. De um lado o sol tão claro, a bola esplende no peito do torcedor como um milagre, do outro é flor machucada pendendo amargura e solidão.

Obra-prima dos pés. O gol é oferta generosa dada ao torcedor, o craque festeja o feito como algo indescritível. Pode acontecer em frações de segundo. Mostra Salim Miguel na história ultraleve e ultrarrápida de “O Gol”. O contista anota: “Pela potência do chute certeiro, ficou sendo conhecido (expressão do locutor e logo incorporada) como coice de mula – pouco importando, que a rede estivesse podre”. O torcedor ama as cores desse momento maior da partida, chora e ri. Às vezes é certeza de guerra vencida, noutras acontece por causa de um lance bobo do zagueiro. A bola ia sair pela linha de fundo, ele foi cortar com a mão. Agora não tem mais jeito. É sair pra outra. Bola no pênalti só milagre pra não ser gol.

Somos a pátria das chuteiras, os melhores do planeta, por cinco vezes fomos campeões mundiais de futebol. Todas as conquistas foram em gramados estrangeiros, bom não esquecer. Uma onda movimenta-se incontrolada, de canto a canto, desse Brasil tropicalista. A marchinha bate nos tímpanos, dizendo que “o brasileiro é bom no samba, é bom de bola”. A paixão pelo futebol fascina o brasileiro desde pequeno, no campo improvisado de algum terreno baldio, na várzea ou até no meio da rua. Não importa, se não tiver bola de couro, vale de borracha mesmo ou até de meia. No vaivém do jogo, não faltam os empurrões, os bate-bocas e os xingamentos, para não falar em expulsões. Quando a partida ou pelada é no colégio, o juiz pode ser a professora, revela a narrativa primorosa de Deonísio da Silva, em “1958”.

O futebol rendeu crônicas admiráveis a autores como Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, Rui Osterman e Roberto Drummond. Em José Lins do Rego, tem papel saliente no romance “Água-Mãe”. O ficcionista Ewelson Soares Pinto, em “Crônica do Valente Parintins”, e Renato Pompeu, em “A Saída do Primeiro Tempo”, entraram no tapete verde do campo das letras e trataram do assunto. Carlos Drummond de Andrade dedicou versos a Pelé, em: “o sempre rei republicano/ o povo feito atleta na poesia / do jogo mágico”, e à nossa conquista na Copa do Mundo de 70. João Cabral de Melo Neto fez o elogio do goleador Ademir Menezes, teceu o perfil macio de Ademir da Guia e informou sobre o “desábito” de ser campeão do América do Rio. Vinicius de Moraes com uma obra-prima de soneto traz para o campo das letras o nosso genial Mané Garrincha, a alegria do povo, com suas pernas tortas dava dribles desconcertantes.

Craques do conto brasileiro falam de dramas e paixões que o futebol proporciona, ora mostrando a vida com seus ventos contrários, ora imitando a própria arte no que tem de emoção e sonho. Com o estádio cheio ou na pelada, na jogada suja do cartola ou com os moleques de rua, nos lances cujos minutos fazem as horas do mundo, que assoberbam o brasileiro quando se trata da nossa primeira conquista de um campeonato mundial de futebol. Falam sobre a disputa na vida e no campo, revelam o futebol embaralhando-se num jogo encoberto de amor e vingança. Conseguem dar um show de bola quando afinam na escrita autêntica a vida no que tem o brasileiro como uma de suas faces mais alegre, sofrida. Transformam em obra de arte, no caso à literária, as jogadas mais sensacionais da vida, apuradas num toque sutil da palavra que rola na bola, como naqueles vinte minutos finais mais lentos da história do futebol brasileiro quando conquistamos a primeira Copa do Mundo em gramados da Suécia – é o que conta Renard Perez na história tensa com final feliz de “Copa do Mundo”.

Exatamente como faz o torcedor quando está na arquibancada ou geral, vendo o jogo atento, torcendo, vibrando, o leitor tem a oportunidade de acompanhar, lance por lance, o mundo apaixonante do futebol por meio de jogadas talentosas feitas por craques do nosso conto. É só colar os olhos em histórias como “A Sombra”, de Caio Porfírio, “O Massagista”, de Duílio Gomes, “O Gol de Gighia”, de Hélio Pólvora, “Campeonato de Futebol”, de Luís Henrique, “No Último Minuto”, de Sérgio Sant’Anna, “Meia Encarnada Dura de Sangue”, de Lourenço Cazarré, e “Uma Vez Flamengo...”, de Dias da Costa, para no final sair vitorioso.

Em “Contos de Futebol”, de Aldyr Garcia Schlee, e “Maracanã Adeus”, de Edilberto Coutinho, encontrará os momentos maiores da ficção sobre o futebol que já se escreveu entre nós. O tema é recriado de forma pungente nesses dois contistas de importante presença em nossas letras. Os dois escritores transfiguram o futebol no literário com força surpreendente. Encanto, feitiço e misérias estão presentes em histórias narradas com tensão e poesia. As horas desse esporte que alcança dimensões míticas num país de campeões encontram nos dois ficcionistas a alma sensitiva dos que se entregam por inteiro no que pretendem contar. Essas horas com personagens lendárias ou obscuras, vastas multidões ou pequena plateia no espetáculo organizado, centradas no cotidiano que experimenta o sortilégio de na vida pensar e amar pelos pés.

A Bola e a Rede
Por Moacir Japiassu

Moacir Japiassu
Quando o bando do cangaceiro Zé do Pipiu entrou em Rio Branco, na manhã de 17 de abril de 1934, o único homem que não borrou as calças foi o coronel Lenildo Pessoa; pelo contrário o fazendeiro comia um prato de cuscuz com leite na pensão de dona Reka, prostituta aposentada, e recebeu a notícia da invasão por um esbaforido portador. “Seu coroné, o capitão Zé do Pipiu tá na porta do cinema e manda chama o sinhô”. Comunicou o pipoqueiro Catôta.

Dona Reka saiu correndo para proteger algumas de suas meninas, o alarido foi grande, mas Lenildo não afastou o prato. “Diga pro capitão Zé do Pipiu que a distância daqui pro cinema é a mesma pra cá; se ele quer me ver, que venha aqui”, respondeu o coronel ao semi-desfalecido Catôta. Pois Zé do Pipiu, que tinha a feia intenção de saquear a cidade, fez hora na porta do cinema, espancou uns dois ou três meninos e depois abandonou o projeto; enfiou-se de novo na caatinga, acompanhado de seu bando imundo. O povo de Rio Branco elegeu o coronel Lenildo Pessoa o homem mais macho do sertão e lhe devotou veneração pelos anos afora.

Oswaldo Baliza
Nos anos 40 e 50 a fama da macheza se espalhou pelo Nordeste e o nome de Lenildo, apesar de meio afrescalhado, foi dado a muito menino de boa família; teve até padre chamado assim. Certa vez, em meados da década de 50, Rio Branco promoveu festança de muitos dias, pelo aniversário da cidade. Barraquinhas, quermesse, filme novo no Cine Bandeirante. O prefeito, eleito não-sei-quantas-vezes, era justamente o coronel Lenildo, que recebeu com simpatia a ideia de se trazer o Sport Club Recife para um jogo com o Democrático. O Sport era campeão pernambucano e nele jogava o goleiro Oswaldo Baliza, celebre no país inteiro, embora já em fim de carreira.

“Tá bom, a gente traz o time”, concordou o coronel, “mas o Democrático não pode perder. Festa com derrota é coisa que não combina...”. O Sport, clube calejado naquele interiorzão, exigiu cota antecipadamente paga e juiz neutro – acabou atendido. O coronel foi pessoalmente receber o árbitro do jogo na estação. Era um rapaz moço, de Caruaru. O coronel cumprimentou-o, sentou-se a seu lado no carro da prefeitura e perguntou: “O considerado tem família?”. O juiz da partida respondeu: “Tenho mulher e dois filhos pequenos, coronel; Alceu tá com três anos e Ma...”.

O homem nem completou a frase. O coronel Lenildo foi direto ao assunto: “Pois olhe: se o Democrático perder esse jogo é bem possível que o senhor não veja mais esses meninos...Não é por mim, é que o povo de Rio Branco vai invadir o campo e nem eu vou poder evitar o linchamento”. O juiz empalideceu. “Coronel, o Democrático vai ganhar e nem precisa de mim; é um time de cabra macho...”, anteviu Sua Senhoria...

Oswaldo Baliza
Domingo, campo cheio, nem bem o juiz apitou o início da partida e teve que anular dois gols do Sport. O jogo chegou ao final do primeiro tempo num penso zero a zero arrancado no apito e o juiz chegou à “Tribuna de Honra” num desespero de dar pena: “Coronel, o empate serve?”, perguntou o infeliz. Lenildo foi cruel: “É Democrático um a zero ou nada...”.

No segundo tempo, com mais seis gols anulados e quatro jogadores expulsos, o Sport continuava dominando a partida. No finzinho do jogo, quando o coronel Lenildo já alisava o cabo de madrepérola de seu revólver, o juiz ganhou coragem e apitou pênalti a favor do Democrático. Plantado no gol, enorme e sorridente, estava Oswaldo Baliza. O centroavante Bininho distância, meteu o bico na bola e Oswaldo nem precisou se mexer, pegou fácil. “O senhor se boliu muito!” – gritou Sua Senhoria, e mandou cobrar de novo. Bininho tomou descomunal distância, arrancou lá do meio do campo e meteu o pé na bola com fúria. O foguete passou raspando o travessão – foi estourar na porta da casa de dona Reka, mas o juiz correu para o meio do campo. “Foi gol! Furou a rede!” gritou ele. Aí o coronel levantou-se e ordenou que a torcida aplaudisse. Democrático um a zero.

Sobre o organizador do livro:
Cyro de Mattos nasceu em Itabuna, Sul da Bahia, escritor, poeta e advogado aposentado. Com “Os recuados”, contos, conquistou os Prêmios Jorge Amado do Centenário de Ilhéus, Leda Carvalho da Academia Pernambucana de Letras e Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (Menção Honrosa). Seu livro “Canto a Nossa Senhora das Matas” foi traduzido por Curt Meyer Clason para o alemão. Participou como convidado do Terceiro Encontro Internacional de Poetas, da Universidade de Coimbra, Portugal. Pertence à Academia de Letras da Bahia.