segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Corinthians: 20 Jogos Eternos

Mais um “livraço” do corintianíssimo Celso Unzelte está na área. “20 Jogos Eternos do Corinthians” é mais um título da Coleção Memória de Torcedor, da Maquinária Editora. Os jogos foram escolhidos por corintianos ilustres (como se precisasse ser ilustre para ser corintiano de verdade!).

Há jogos para relembrar para todos os gostos e épocas. O que importa é recordar ídolos envolvidos nessas histórias como Luizinho Pequeno Polegar, Sócrates, Neto, Marcelinho Carioca e tantos outros. “Costurando” as histórias, todo o contexto político e social dos “jogos eternos”.

Literatura na Arquibancada agradece ao autor, Celso Unzelte, pela cessão de um dos capítulos da obra para divulgação.

Uma noite em 77
Por Celso Unzelte

Não foi só uma noite, aquela noite de 13 de outubro de 1977. Foram 22 anos, oito meses mais sete dias e sete noites como aquela, contados, um a um, a partir de 6 de fevereiro de 1955. Tempo suficiente, por exemplo, para o Brasil ter sete presidentes da República: Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart e os militares Castello Branco, Costa e Silva, Médici e Geisel. Fora os interinos Café Filho, Carlos Luz, Nereu Ramos, Ranieri Mazzilli (esse duas vezes) e a Junta Provisória formada pelos ministros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica que governou o país por dois meses em 1969.

Naquele período, o mundo conheceu três papas — Pio XII, João XXIII e Paulo VI. Foram disputadas seis Olimpíadas (em Melbourne, Austrália, 1956; Roma, Itália, 1960; Tóquio, Japão, 1964; Cidade do México, 1968; Munique, Alemanha, 1972; e Montreal, Canadá, 1976) e cinco Copas do Mundo (Suécia 1958, Chile 1962, Inglaterra 1966, México 1970 e Alemanha Ocidental 1974), das quais o Brasil ganhou três. Deu tempo para os húngaros, em 1956, e os tchecos, em 1968, se rebelarem e serem sufocados em seguida pelo regime soviético.

Em 1957, a própria União Soviética colocou em órbita o Sputnik, primeiro satélite artificial. Em 1958, surgiu nos Estados Unidos a boneca Barbie. Em 1959, a revolução comandada por Fidel Castro assumiu o poder em Cuba. Em 1960, Brasília foi inaugurada e a capital do país deixou de ser o Rio de Janeiro. Em 1961, ergueu-se o Muro de Berlim, separando as Alemanhas Ocidental e Oriental. Em 1962, foram fabricados os primeiros disquetes para computadores. Em 1963, o presidente americano John Kennedy foi assassinado. Em 1964, eclodiu no Brasil o golpe civil-militar que somente treze anos depois começava a dar sinais mais evidentes de distensão. Em 1965, surgiu a Jovem Guarda, movimento musical liderado por Roberto Carlos. Em 1966, os americanos foram às ruas para protestar contra a Guerra do Vietnã.

Em 1967, da África do Sul, o doutor Christian Barnaard realizava o primeiro transplante de coração, inspirando também o casal Manoel Ferreira e Ruth Amaral a compor a marcha de Carnaval Transplante de Corinthiano. Gravada pelo apresentador de TV Sílvio Santos, a música dizia:
Doutor, eu não me engano, o coração é corintiano.
Doutor, eu não me engano, o coração é corintiano.
Eu não sabia mais o que fazer, troquei o coração, cansado de sofrer.
Ai, Doutor, eu não me engano, botaram outro coração corintiano.

Em 1968, estudantes protestaram nas ruas de todo o mundo, enquanto no Brasil foi baixado o terrível Ato Institucional número 5, instrumento da ditadura que suspendia vários direitos constitucionais dos cidadãos e permaneceria em vigor por quase dez anos, até 13 de outubro de 1978. Em 1969, o homem chegou à lua, com o americano Neil Armstrong. Em 1970, os Beatles se separaram. Em 1971, começou a Era de Aquário, preconizada pelos hippies. Em 1972, a TV em cores chegou ao Brasil. Em 1973, um outro golpe militar, dessa vez no Chile, depôs o socialista Salvador Allende. Em 1974, abalado pelo escândalo de espionagem que ficou conhecido como Watergate, o presidente americano Richard Nixon foi obrigado a renunciar. Em 1975, finalmente terminou a Guerra do Vietnã. Em 1976, começou a ser comercializado nos Estados Unidos o Apple I, primeiro modelo de computador pessoal.

“É, 22 anos foi mesmo tempo suficiente pra acontecer muita coisa. Menos para o Corinthians voltar a ser campeão.” Era só nisso que ele conseguia pensar enquanto dirigia o Fusca azul-calcinha na direção do Estádio do Morumbi, com o filho e a futura nora no banco de trás. Quantas vezes na vida havia repetido aquele ritual? Na maioria delas, é verdade, o destino foi outro, em geral o Pacaembu, pois até 1960 o Morumbi nem sequer existia e até 1970 era pouco utilizado. Muitas dessas vezes aconteceram sem o filho, que ainda nem havia nascido, e sem o Fusca, que só pôde ser comprado em 1971. A futura nora, então, ele estava levando ao estádio pela primeira vez justamente naquela noite em que o Corinthians decidiria o título de campeão paulista de 1977 contra a Ponte Preta. Será que a mocinha ia dar sorte?

Naqueles mais de 22 anos, sua vida também tinha mudado bastante. Havia concluído o curso técnico em contabilidade, se casado, se tornado pai e agora estava às portas da aposentadoria. A paixão, no entanto, foi sempre a mesma. Levava-o a perseguir por mais de duas décadas uma alegria que teimava em não voltar. Orgulhava-se de ter estado no Pacaembu naquele fim de tarde de 6 de fevereiro de 1955, comemorando o título do IV Centenário. Depois daquilo, se o Corinthians nunca mais havia voltado a ser campeão paulista ou mesmo brasileiro (apesar de continuar ganhando alguns torneios nacionais e internacionais, entre eles o Torneio Rio-São Paulo de 1966, dividido com Santos, Botafogo e Vasco), não havia sido por falta de insistência dele. Afinal, também esteve presente na maioria dos jogos do vice-campeonato paulista de 1955 e do terceiro lugar de 1956. Na alegria do empate por 3 a 3 diante do Santos, com um gol no último minuto que valeu a conquista definitiva da Taça dos Invictos, e na tristeza da derrota por 3 a 1 para o São Paulo que custou o título paulista na última partida, ambas em 1957.

Continuou firme mesmo a partir de 1958, quando a provação começou a ficar mais evidente e ele já estava comprometido, perto de se tornar pai de família. Mas sempre que ressurgia a esperança do Corinthians ser campeão ele voltava aos estádios. Foi assim quando o clube contratou Almir, o Pernambuquinho, chamado de “Pelé Branco”, em 1960, Garrincha, em 1966, e mais recentemente Palhinha, naquele mesmo ano de 1977. Para ver mais um craque estrear, em uma manhã de domingo, ele e o filho acotovelaram-se entre mais de 60 mil outros corintianos.

Também havia acompanhado o “Faz-me Rir” de 1961, time que a cada derrota fazia os adversários lembrarem ironicamente o bolero de mesmo nome. Vibrado com os gols da dupla Silva e Ney, que valeram um vice-campeonato dividido com o São Paulo, em 1962. Assistido in loco o time dar adeus ao título paulista de 1964, quando já se completavam dez anos, com uma incrível derrota por 7 a 4 para o Santos, na penúltima rodada, em que Pelé, sozinho, marcou no segundo tempo os quatro gols que fizeram toda a diferença entre aquela decepcionante goleada e uma vitória que chegou a parecer possível. Viu Rivellino surgir como o maior craque da história do clube, em 1965. Testemunhou, em 1967, o Timão, mesmo já eliminado, impedir que o São Paulo fosse campeão depois de dez anos, empurrando-o para uma decisão em jogo extra afinal vencido pelo Santos, graças a um gol de canela de Benê, que empatou o clássico com o tricolor em 1 a 1 no último minuto.

Quando Paulo Borges e Flávio acabaram com o tabu contra o Santos, em 1968, ele estava lá. Quando o lateral-direito Lidu e o ponta-esquerda Eduardo morreram juntos em um trágico acidente automobilístico em 1969, justo quando parecia que o Corinthians ia tirar o pé da lama, ele também chorou. Recepcionou Zé Maria em 1970, acreditou que Adãozinho ajudaria a virar para 4 a 3 um jogo que parecia impossível diante do Palmeiras, em 1971, aí já ao lado do filho. Também juntos, eles acompanharam a chegada do Timão às semifinais do Brasileiro e a queda por 2 a 1, de virada, diante do Botafogo, em 1972. A decepcionante derrota por 1 a 0 na final do Paulista para o Palmeiras, em 1974. A invasão do Maracanã, ele, dessa vez, só por procuração, representado pelo filho e pela futura nora, em 1976. Agora, na noite em que o Corinthians finalmente podia voltar a ser campeão, ele não poderia estar ausente.

Imaginava que para o “garoto”, como costumava chamá-lo apesar de já ter até namorada, aquela noite devia ser ainda mais importante. O filho havia nascido, crescido, ido para a escola, depois para o ginásio, depois para o colégio e o Corinthians continuava sem ser campeão. Sabia muito bem que os meninos que torciam para o São Paulo falavam dos títulos paulistas de 1970, 1971 e 1975. Que os que torciam para o Palmeiras enchiam o peito para falar dos títulos brasileiros de 1967, 1969, 1972 e 1973, fora os paulistas de 1972, 1974 e 1976. Que os que torciam para o Santos... Ah, deixa pra lá! Sabia, enfim, que existia um adjetivo terrível associado a todo torcedor do Corinthians, coisa que os outros faziam questão de repetir: “sofredor”. Corintiano era sofredor. Ele era sofredor. O filho era sofredor, e muitas vezes sentia-se culpado por isso.

Assim, logo que o trio adentrou as arquibancadas do Morumbi, ele procurou exorcizar a lembrança da fatídica decisão perdida para o Palmeiras, naquele mesmo lugar, menos de três anos antes. Repetiu mentalmente o mantra emprestado de uma das muitas faixas levadas pela Fiel naquela noite: “Eu te amo, não me mates! Eu te amo, não me mates! Eu te amo...” Os dois primeiros jogos daquela decisão ele, o filho e a futura nora também haviam assistido juntos, mas pela TV. O primeiro, 1 a 0 para o Corinthians, na quarta-feira da semana anterior, gol de Palhinha marcado com a cara no rebote de uma saída precisa do goleiro Carlos, foi porque, naquele dia, ainda não se definiria nada — aquela final era uma disputa em melhor de quatro pontos. A segunda partida, 2 a 1 para a Ponte Preta, de virada, em um domingo ensolarado, teve que ser vista de casa simplesmente porque não haviam conseguido ingressos. Naquele dia em que, caso vencesse, o Corinthians teria sido campeão, 138.032 pagantes, mais 8.050 menores, bateram o recorde de público no Morumbi. Eram, ao todo, 146.082 pessoas acomodadas como e onde podiam, inclusive nas marquises de cimento originalmente construídas para acomodar refletores, no alto do estádio. Quando Vaguinho, que havia entrado durante o jogo no lugar de Palhinha, contundido, fez 1 a 0 para o Corinthians, no final do primeiro tempo, os três comemoraram e ao mesmo tempo se amaldiçoaram por não estar lá. Quando Dicá, cobrando falta, e Rui Rei viraram o jogo para 2 a 1, forçando a realização da terceira partida, eles ficaram tristes, mas ao mesmo tempo esperançosos por terem ganhado mais uma chance de estarem presentes no momento que tanto esperavam.

Graças a seu inseparável radinho de pilha (naquela noite, parecia mais inseparável, até, que a própria namorada), o filho informava ao pai que o Corinthians não iria contar mesmo com seu melhor jogador, Palhinha. Ele, que sofrera um estiramento ainda no primeiro tempo do jogo do domingo, estava irremediavelmente fora do jogo, substituído por Luciano. O quarto-zagueiro titular, Zé Eduardo — e isso todos já sabiam —, estava suspenso por ter levado o terceiro cartão amarelo na falta que originou o gol do empate da Ponte no domingo. Em seu lugar, entraria Ademir, aquele mesmo que, em 1974, não havia conseguido tirar a bola de Ronaldo no lance do gol palmeirense. Pai e filho gelavam só com aquela lembrança. O goleiro Tobias, que no domingo havia cumprido suspensão pelo terceiro cartão amarelo, voltava ao gol, no lugar do gigante Jairo. Basílio e Zé Maria, dúvidas durante toda a semana por causa de contraturas musculares, estavam escalados. Do lado da Ponte Preta, o desfalque era o lateral-esquerdo Odirlei, também suspenso, substituído por Ângelo.

Fundada em Campinas, em 1900, a Ponte disputa com o Esporte Clube Rio Grande, do Rio Grande do Sul, a condição de clube mais antigo do Brasil. Buscava o primeiro título de sua história e tinha uma equipe tecnicamente até superior à do Corinthians, com o goleiro Carlos e os zagueiros Oscar e Polozi (todos convocados para defender a Seleção Brasileira na Copa do Mundo disputada na Argentina no ano seguinte, 1978), os laterais Jair (futuro técnico, com o nome de Jair Picerni) e Odirlei, o veterano volante Vanderlei, os meias Marco Aurélio e Dicá (excelente cobrador de faltas, maestro da equipe), o arisco ponta direita Lúcio, o perigoso centroavante Rui Rei e o ponta-esquerda Tuta, que seria marcado por seu irmão, o corintiano Zé Maria. Não por acaso, dos cinco jogos disputados entre os dois times naquele Paulistão, a Ponte havia vencido quatro, o primeiro deles por goleada, 4 x 0, na única vez em que se enfrentaram em Campinas. Na decisão, a Federação Paulista de Futebol tomou para si o mando dos três jogos, marcando-os todos para o Morumbi.  

No Corinthians, a base do time vice-campeão brasileiro no ano anterior, 1976, havia sido mantida pelo folclórico e apaixonado presidente Vicente Matheus, com o goleiro Tobias, os laterais em nível de Seleção Brasileira Zé Maria e Wladimir, os zagueiros Moisés e Zé Eduardo, o volante Ruço, o meia Basílio e o ataque formado por Vaguinho, Geraldão e Romeu. A grande contratação, junto ao Cruzeiro, por na época inacreditáveis 7 milhões de cruzeiros, era o ponta de lança Palhinha. No banco de reservas, o carismático Oswaldo Brandão, 61 anos, último técnico campeão pelo Corinthians, em 1954, estava de volta. Substituía Duque, que havia caído ao longo daquela árdua campanha, iniciada mais de oito meses antes, em 9 de fevereiro. Árdua e irregular. Depois de ter ficado de fora dos mata-matas do primeiro turno (vencido pelo Botafogo de Ribeirão Preto), o Corinthians foi o campeão do segundo, derrotando o arquirrival Palmeiras por 1 a 0 na decisão. Mas nada disso adiantava, porque o que decidiria tudo, mesmo, era um terceiro turno, com oito times enfrentando-se em jogos  só de ida, mas divididos em dois grupos de quatro, dos quais sairiam os dois finalistas. Após uma derrota para o Guarani por 1 a 0, no Pacaembu, o Corinthians teria que vencer os três jogos que faltavam se quisesse ganhar o Grupo F e ir para a final contra a Ponte, campeã do Grupo E. Derrotou o Botafogo por 1 a 0, em Ribeirão Preto, a Portuguesa por 1 a 0 e o São Paulo por 2 a 1, ambos no Morumbi. Nessas duas últimas partidas, ele e o “garoto” também estiveram presentes.

Apesar da confirmação sempre em cima da hora, já se esperava que o jogo fosse transmitido ao vivo para São Paulo, como haviam sido os dois anteriores. Isso ajudava a explicar o público de “apenas” 86 677 pagantes, com 6 896 menores que não pagaram ingressos, praticamente a metade de domingo. Mesmo assim, quando os times entraram em campo, o barulho dos cornetões e apitos, distribuídos na entrada do estádio para atrapalhar a concentração e o toque de bola da Ponte Preta, foi infernal. Também como havia acontecido na decisão de 1974, a fumaça dos fogos de artifício impedia que se enxergasse o próprio gramado. São 21 horas e quinze minutos quando o árbitro autoriza o início da partida.

A Ponte Preta, toda de branco, com sua tradicional faixa transversal negra na camisa, toca na bola pela primeira vez, com Rui Rei passando para Dicá. Logo no primeiro minuto, um rojão explode na entrada da área, com a fumaça atrapalhando a visão do goleiro Carlos. O Corinthians, com a camisa preta de listras finas brancas que nem todo corintiano gostava de ver em campo naqueles tempos de jejum, calções também pretos e meias brancas, só vai dominar a bola pela primeira vez aos 3 minutos, justamente com Basílio recolhendo um passe lateral de Moisés no campo de defesa. Ecoam os primeiros gritos de “Corinthians, Corinthians”, sempre acompanhados pelo pai, pelo filho e pela futura nora. Com 3 minutos e meio, a primeira grande emoção: o corintiano Luciano arrisca um chute de longe e a bola bate no pé da trave esquerda. Na volta, Polozi desvia o chute de Geraldão para escanteio. Aos 17 minutos e 20 segundos, Oscar dá um chutão para a frente. Na disputa com Ademir, Rui Rei carrega a bola com a mão e em seguida tromba com o zagueiro corintiano, caindo dentro da área. O árbitro, Dulcídio Wanderley Boschillia, marca falta contra a Ponte e manda Rui Rei se levantar. O jogador continua reclamando e recebe cartão amarelo. Insiste e recebe o vermelho, para vibração do trio, que se abraça nas arquibancadas como se o Corinthians tivesse marcado um gol. Agora, com um jogador a menos, justo seu artilheiro, a Ponte pode se tornar um adversário mais fácil.

Brigas, invasões de campo, paralisações. O jogo fica parado por cinco minutos. Antes que o primeiro tempo acabe, Geraldão, o artilheiro corintiano naquele campeonato, acerta uma fantástica meia-bicicleta, mas Carlos vai buscar a bola lá em cima, mandando-a para escanteio. Já o goleiro corintiano Tobias só vai tocar na bola pela primeira vez no último minuto daquele primeiro tempo, recolhendo um chute de longe, praticamente atrasado por Dicá. Na segunda etapa, o Corinthians continua insistindo, mas apesar de ter um jogador a mais não consegue chegar ao gol. Quando a Ponte Preta está com a bola, pai, filho, futura nora e praticamente todo o resto do estádio sopram seus apitos a plenos pulmões. Se o 0 a 0 permanecer, haverá prorrogação de mais trinta minutos. Se a prorrogação também terminar empatada, o campeão será o Corinthians, por ter mais vitórias que a Ponte (26 contra 23) ao longo da competição. Mas o presidente ponte-pretano, Lauro Morais, havia passado a semana inteira dizendo que o regulamento era falho, e que se houvesse prorrogação seu time se recusaria a jogar. Isso, porém, não será necessário.

São passados exatamente 36 minutos e 48 segundos do segundo tempo quando a bola se oferece, por fim, ao pé direito de Basílio, depois de ter viajado para a área na cobrança de uma falta por Zé Maria, se chocado contra o travessão no chute de Vaguinho e sido salva em cima da linha pela cabeça do zagueiro ponte-pretano Oscar após uma outra cabeçada, do corintiano Wladimir. Basílio, um jogador discreto, que havia chegado menos de três anos antes com a responsabilidade de vestir a camisa 10 de Rivellino. Que teve uma parada respiratória dentro de campo em um jogo contra o América de São José do Rio Preto. E que sobreviveu para, agora, se tornar o autor do tão aguardado gol da libertação. “É gente que se abraça, é gente que chora, é gente que ri”, improvisa o locutor Fiori Gigliotti pela Rádio Bandeirantes. Entre toda aquela gente, havia um pai, um filho e uma futura nora.      

Faltavam ainda oito minutos para o jogo terminar, agonia acrescida por outros quatro, por conta de nova invasão de jogadores reservas e repórteres, quando a dupla de brigões Oscar e Geraldão foi expulsa. As últimas duas bolas endereçadas para a área do Corinthians são devidamente rechaçadas por chutões providenciais, primeiro de Zé Maria, depois de Wladimir. Caem no meio da torcida e não voltam mais. A fumaça dos fogos de artifício forma uma nova nuvem, que desce ao gramado e dessa vez não mais se dissipará. Na comemoração que não terá fim, muitos invadem o campo, alguns fincam suas bandeiras, outros arrancam as redes e até comem a grama. O presidente Vicente Matheus perde um pé de seus sapatos. Pai, filho e futura nora se abraçam. Riem que nem tontos, olhando uns para os outros, depois para o campo, depois uns para os outros, depois para o campo novamente. Descobrem que não sabiam como se comemorava um título, e aí riem mais ainda. O pai pensa em pedir perdão ao filho, por ter lhe causado tanto sofrimento. Mas é interrompido pelo garoto, que se antecipa agradecendo. Por ter-lhe feito corintiano.

Ficha Técnica:
Corinthians 1 x 0 Ponte Preta
Campeonato Paulista/final – 3º jogo
Data: 13/outubro/1977
Local: Morumbi, São Paulo
Juiz: Dulcídio Wanderley Boschillia
Renda: Cr$ 3.325.470,00
Público: 86.677 pagantes
Gol: Basílio 37’ do 2º tempo
CORINTHIANS: Tobias, Zé Maria, Moisés, Ademir e Wladimir; Ruço, Basílio e Luciano; Vaguinho, Geraldão  e Romeu.  
Técnico: Oswaldo Brandão
PONTE PRETA: Carlos, Jair, Oscar, Polozi e Ângelo; Vanderlei, Marco Aurélio e Dicá; Lúcio, Rui Rei e Tuta (Parraga, no intervalo).
Técnico: José Duarte

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Uma biografia de Sócrates

Quem escreveu duas biografias como as de Paulo Machado de Carvalho e de Tarso de Castro, além de ser vencedor de um prêmio Jabuti, merece ser lido, nem que seja para a crítica negativa. O que não é o caso de Tom Cardoso, que marcou mais um gol de letra, agora, com a biografia do craque filósofo da bola, “Sócrates – A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro” (Editora Objetiva).

Sinopse (da editora)

Ídolo do Corinthians, capitão da mítica Seleção da Copa de 82, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira deixou sua marca também fora dos gramados.

O futebol era pequeno demais para a grandeza de suas ideias, e ele se engajou intensamente na vida pública do país. Idealista e rebelde, o meio-campista genial que desafiava as autoridades e incomodava os cartolas carregava no nome a paixão pelo Brasil, que se viu refletida na participação ativa na campanha das Diretas Já. Formado em Medicina, foi, ao lado de nomes como Wladimir e Casagrande, um dos líderes da Democracia Corintiana, movimento com repercussões políticas, esportivas, sociais e culturais.

O mais velho dos seis filhos de seu Raimundo, um vendedor de rapadura apaixonado por filosofia grega, Sócrates queria mexer com as estruturas do país. Em campo, o ritmo de jogo cadenciado, a calma, a elegância e o temperamento frio atraíam admiradores e críticos. Fora dos gramados, a coerência, a postura contestadora, a transparência e as posições firmes igualmente conquistavam entusiastas e desafetos.

Revelado no Botafogo de Ribeirão Preto, consagrou-se no Corinthians, por onde foi bicampeão paulista em 1982 e 1983. Formou com Palhinha, primeiro, e Casagrande, mais tarde, parcerias inesquecíveis. Avesso às convenções, viveu uma vida de excessos, coerente com a maneira como gostaria de ser lembrado: “Se tivesse me dedicado mais, não seria uma pessoa tão completa como sou agora.”

De jaleco no Pacaembu
Por Tom Cardoso

A quinta-feira do dia 9 de maio de 1975 prometia ser exaustiva para Arildo Paris, o motorista do Botafogo de Ribeirão Preto. A rotina como chofer resumia-se, até então, a curtos deslocamentos, normalmente para levar algum dirigente em casa ou a pequenas compras para o departamento de futebol. Mas agora era diferente. Ele teria pouco mais de quatro horas para percorrer cerca de 350 quilômetros, a distância entre Ribeirão Preto e São Paulo. A ordem partira de Faustino Jarruche, presidente do Botafogo: Arildo que fizesse o “impossível” para que Sócrates, o maior talento do time, chegasse a tempo ao estádio do Pacaembu, onde a equipe interiorana enfrentaria o poderoso Corinthians pela abertura do segundo turno do Campeonato Paulista.

Não era a primeira vez que Arildo buscava Sócrates no campus de Ribeirão Preto da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Quase sempre era para pegá-lo para que ele participasse a tempo do treinamento da tarde. O motorista nunca entendera como alguém poderia conciliar atividades tão distintas como estudar Medicina e jogar bola profissionalmente. O garoto nem parecia jogador de futebol. Os pés eram pequenos, tamanho 41, não combinavam com a altura, 1,91metro. Era engraçado vê-lo correr, tentando se equilibrar no próprio corpo. 

Apesar dos 21 anos, possuía o condicionamento físico de um veterano — nas raras vezes em que participava dos coletivos, jogava em uma faixa só do gramado, normalmente na sombra. A falta de fôlego se justificava pelos trinta cigarros consumidos por dia e pelo fim de tarde dedicado às rodas de chope nos bares da cidade. E o garoto, veja só, ainda queria ser médico.

O mais curioso de tudo, pensava Arildo, era que aquele magrelo, como todos gostavam de chamá-lo, jogava uma barbaridade. Ele nunca tinha visto talento igual. Na cidade, todos sabiam que Geraldão só se tornara artilheiro do Campeonato Paulista de 1974 por causa dos lançamentos e passes cirúrgicos do aspirante a médico — o centroavante do Botafogo devia a eles pelo menos 80% dos 23 gols marcados. A maneira com que jogava era original. Eliminara o esforço de girar o corpo, erguer a cabeça e fazer o passe, abusando dos toques de calcanhar. O recurso não era uma novidade no futebol, mas a forma com que ele o utilizava, com espantosa eficiência e objetividade, sim, era difícil de se ver. E o jeito de finalizar, então. O chute saía sem força, rasteiro, no cantinho do goleiro. A bola parecia que não ia entrar, mas entrava. Diziam que o estilo de jogo lembrava e muito o de um ex-craque do Vasco, também de nome esquisito, “Ipojucan”, tão alto, magro e talentoso quanto o garoto.

Arildo sabia que o Botafogo se tornava um time comum sem Sócrates e que jogar no Pacaembu contra um Corinthians há vinte anos sem títulos seria dureza. Mas levá-lo para São Paulo, naquelas circunstâncias, com pouco tempo e a bordo de uma Variant, era perda de tempo. Eles não chegariam. Se chegassem, provavelmente o time já estaria nos vestiários, fazendo o aquecimento, pronto para entrar em campo. Mas ordens do presidente do clube eram para ser cumpridas. E ele passara a vida cumprindo ordens, ao contrário de Sócrates, que vivia em pé de guerra com a direção do clube. O garoto tinha personalidade forte. Era o único atleta do Botafogo que possuía 30% do passe e treinava quando os estudos permitiam.

Dizia que a Medicina era prioridade, mas todos sabiam que ele tinha outras também. Quantas vezes, no meio da tarde, em pleno treinamento, ele encontrara Sócrates tomando cerveja com amigos no Jangada. E fumando como uma chaminé.

Sócrates já esperava Arildo na entrada do campus, como combinado.
Estava de jaleco branco, imundo, sentado na escadaria, fumando calmamente. Não parecia ansioso por causa da viagem e do pouco tempo que teriam para chegar ao Pacaembu.
— E aí, seu Arildo? Vamos nessa?
— Cadê o uniforme, Sócrates?
— Deixei com o Sebinho, no clube. Ele levou para São Paulo.
— Isso não vai dar certo...
— Seu Arildo, no caminho vamos parar para tomar uma gelada?
— Tá maluco, garoto?
— Preciso me hidratar.
— Com cerveja? E larga esse cigarro, sô!

O tempo estava bom e havia pouco movimento na estrada. E não é que a Variant parecia que iria aguentar a viagem toda? Com um pouco de sorte, eles, quem sabe, até chegariam. Arildo, enfim relaxou:

— Então, garoto, vai virar doutor e largar o futebol?

Se fosse possível, Sócrates conciliaria para sempre as duas profissões.
Seria um bom médico, de preferência em algum hospital na periferia de Ribeirão, e jogaria apenas aos fins de semana. Nada mais longe de sua realidade. Desde que entrara para a universidade, em 1972, ano que subira para o time principal do Botafogo, ele se desdobrava para agradar ao mesmo tempo o pai, que exigia prioridade nos estudos, e os dirigentes do clube, sempre insatisfeitos com a sua ausência nos treinamentos. Era mais difícil ludibriar o pai. A marcação do velho Raimundo Vieira era cerrada, dura, homem a homem.

Sócrates nunca mais se esqueceu do dia em que tentara enganá-lo.

Era um domingo e o pai o deixou na porta do cursinho Cesar Lattes para ele fazer o simulado do vestibular de Medicina. Sócrates nem chegou a entrar na sala. Caminhou de lá até o estádio do Botafogo, onde ocorreria a final do Campeonato Juvenil de Ribeirão Preto. Era o tipo de jogo que Sócrates não gostava de perder, um Come-Fogo, o nome dado ao maior clássico da cidade, disputado pelos dois principais clubes, o Comercial e o Botafogo. O garoto de 17 anos acabou com o jogo, marcou dois gols, deu o título ao Botafogo e voltou para casa com os cadernos debaixo do braço.

Não escapou da bronca. O pai descobriu tudo: estava na arquibancada.

Arildo estacionou a Variant na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu. Faltavam apenas vinte minutos para o início do jogo.

O supervisor técnico do Botafogo, Milton Bueno, o “Tiri”, que havia combinado com Sócrates aguardá-lo do lado de fora do estádio, até meia hora antes de a partida começar, não estava mais lá. Arildo desesperou-se:
— Porra, e agora? Tanta correria pra nada.
— Pode voltar pra Ribeirão, seu Arildo. Eu vou entrar.
— Como?
— Vou comprar ingresso. Lá dentro eu me viro. Tchau!
Sócrates partiu correndo, de jaleco branco, bolsa a tiracolo, em direção à bilheteria. Comprou ingresso para a arquibancada, entrou pelo portão principal e passou a perguntar onde ficava o vestiário do time visitante.

Um funcionário apontou para o lado esquerdo, em direção ao tobogã, o setor mais popular do estádio.
— Fica ali embaixo.

Sócrates acelerou o passo com o rosto quase colado ao alambrado, na esperança de avistar algum diretor do Botafogo. Não viu ninguém. Pensou em pedir para um repórter de alguma rádio avisar ao árbitro, já em campo, que ele estava atrasado, mas que em cinco minutos ficaria pronto para o jogo. Desistiu: aquilo não faria o menor sentido. Passou a correr, desesperado, rumo ao portão que dava acesso ao vestiário do Botafogo, embaixo do tobogã, já tomado pela barulhenta torcida corintiana. Um funcionário do Pacaembu vigiava a entrada. Sócrates achou melhor dizer a verdade.

Ofegante, gesticulando muito e atropelando as palavras, explicou que era jogador titular do Botafogo de Ribeirão Preto, mas que não pudera viajar com a delegação porque não podia mais faltar à aula de propedêutica. Sim, era isso mesmo: ele era estudante de Medicina e por isso estava de jaleco e sapatos brancos. Viajara em cima da hora e viera para São Paulo com o carro do clube. Pagara ingresso e agora estava tentando entrar no vestiário para se trocar e, enfim, entrar em campo.

O funcionário do Pacaembu não teve dúvidas: só podia se tratar de algum paciente foragido do setor psiquiátrico do Hospital das Clínicas.

Aquele sujeito não parecia nem médico, muito menos jogador de futebol. Como alguém podia jogar bola sendo tão magro e tão alto? E o pezinho de bailarina? E que história maluca era aquela? O cara tinha comprado ingresso e queria entrar em campo para jogar? Só podia estar em pleno surto psicótico. O jeito era não contrariar. Quem sabe o cara ia embora.
— Está bem, craque. Em qual posição você joga?
— Estou falando sério. Preciso entrar logo!
— Você não está bem...
— Vai até o vestiário do Botafogo e avisa que o Sócrates chegou.
— Sócrates?
— Sim, Sócrates. Por quê?
— Isso lá é nome de jogador de futebol, garoto?
— Porra, diga que o Sócrates chegou!

Sócrates escapou, por pouco, da camisa de força. João da Silva Neto, o Sebinho, massagista do Botafogo, tinha ido, a pedido da diretoria, dar uma última olhada no portão do vestiário e encontrara o jogador aos berros com um funcionário. Sócrates trocou de roupa no próprio túnel de acesso ao gramado. Mesmo sem aquecer, desnorteado pela longa e cansativa viagem a São Paulo, foi o melhor jogador do Botafogo em campo — marcou o único gol na derrota por 4 a 1. Os 33.201 pagantes do Pacaembu nem imaginavam que aquele cabeludo todo de branco, que passara correndo ao lado do alambrado, se tornaria um dos maiores ídolos do Corinthians e o mais original jogador da história do futebol brasileiro.

Sobre o autor:
Tom Cardoso, nascido em 1972, é jornalista, com vasta passagem pela imprensa paulistana. Autor das biografias do empresário Paulo Machado de Carvalho (O Marechal da Vitória) e do jornalista Tarso de Castro (75KG de músculos e fúria), foi um dos vencedores do Prêmio Jabuti 2012 com o livro-reportagem O cofre do dr. Rui, que narra o assalto ao cofre de Adhemar de Barros, em 1969, comandado pela Var-Palmares.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Década de Ouro: Bora Baêa!

Grandes, enormes torcidas. A paixão do brasileiro pelo futebol não fica restrita aos tradicionais clubes da região Sul e Sudeste, como Corinthians, Flamengo, Internacional ou Cruzeiro. No Nordeste, há clubes com histórias riquíssimas em suas longas trajetórias.

É o caso do tradicional Bahia, para a massa apaixonada de torcedores: “Baêa”...Melhor ainda quando o grito é “Bora Baêêêa!”...Povo que se espalhou pelos quatro cantos do país. Basta ver um clássico do campeonato brasileiro, com qualquer grande clube de São Paulo, por exemplo, para vê-los com suas bandeiras em grande número nas arquibancadas dos estádios.

E há momentos nesta bela história de vida que mereciam transformar-se em um livro. É o que o jornalista Elton Serra fez com o seu “Década de Ouro – A história do heptacampeonato do Esporte Clube Bahia” (Editora Via Escrita).

Sinopse (da editora):

Com prefácio do ex-jogador e técnico Evaristo de Macedo, e orelha do ex-jogador do Bahia Douglas Franklin, a obra imortaliza uma epopeia. Conquistas que saem das arquibancadas e dos gramados da Fonte Nova e ganham as páginas do livro “Década de Ouro – A história do heptacampeonato do Esporte Clube Bahia”, de Elton Serra.

Serra traz histórias de personagens importantes para o futebol da Bahia, como o seguro Sapatão, o incansável Baiaco, o sempre regular Fito e o extraordinário Douglas, além dos mestres Zezé Moreira e Paulo Amaral, dentre outros espetaculares jogadores e técnicos que passaram pelo Tricolor e também cravaram seus nomes na lista dos grandes do Esporte Clube Bahia. Histórias que fizeram com que o clube se tornasse um dos mais populares do Brasil.

É preciso voltar no tempo para entender o porquê de um time tão vencedor. Conhecer as histórias dos protagonistas de uma década repleta de conquistas, bem como os estorvos encontrados num caminho nada fácil, num período onde a ditadura era extremamente voraz no Brasil. Uma época em que o Bahia encantou gerações, formou craques e catapultou a carreira de dirigentes. Momentos que envolvem brigas dentro e fora de campo, muito sincretismo religioso e guerras de nervos sem fim, contadas por aqueles que construíram a própria história.

O dia 28 de setembro de 1979 é um dos mais marcantes da história do Esporte Clube Bahia. Fito marcava o último gol de uma saga que durou sete anos e transformou o Esquadrão de Aço num dos clubes mais vencedores da história do futebol brasileiro. Era o sétimo título baiano seguido de uma equipe que nasceu para vencer e arrebatou corações estado afora.

Com o desenrolar dos jogos e das conquistas, o leitor constata as façanhas da geração mais vencedora do Bahia. Ainda assim, a obra não traz superlativos. Apenas tenta recontar uma história repleta de glórias, que por si só se encarregam de enaltecer os seus principais personagens.

Apresentação
Por Elton Serra

A comemoração foi inesquecível. Uma multidão tomou as ruas de Salvador naquela noite de 28 de setembro de 1979, invadindo a madrugada do dia seguinte. O Esporte Clube Bahia estabelecia uma soberania no futebol estadual e revirava a história do esporte na terra do Senhor do Bonfim, com sete títulos consecutivos no Campeonato Baiano. Numa década em que o desenvolvimento econômico em Salvador era inversamente proporcional à desigualdade social, o Tricolor de Aço se enriqueceu, ao mesmo tempo em que apaixonou ricos e pobres, através dos pés de Sapatão, Baiaco, Fito, Douglas e suas dezenas de companheiros.

Nasci pouco mais de dois anos após o último título da saga do heptacampeonato, mas a memória é tão rica que venceu os anos de industrialização do futebol, elitização do esporte com as modernas arenas e os inúmeros jogos em canais fechados de televisão, e perdura até hoje nos ouvidos e olhos dos mais novos. Recontar um período em que atletas jogavam muito mais por amor do que por dinheiro é eternizar uma das mais ricas histórias da Bahia, onde uma gama de sentimentos se mistura com as cores do maior ganhador de títulos do estado.

Jogadores moldados por técnicos que souberam explorar o máximo de seus talentos, dando padrão tático e liberdade para que os craques usassem a inteligência em prol do time. Meio-campistas acima da média, que eram resguardados por uma defesa sólida e abasteciam um ataque veloz e fulminante. Um grupo que superou os inúmeros meses de salários atrasados e as dificuldades de não ter local fixo para treinar para tornar-se respeitado em todo o país, por acreditar que a nação azul, vermelha e branca era o principal combustível para atropelar adversários e empilhar taças na galeria do clube.

Uma história cercada de rivalidade, que envolve um Ba-Vi que terminou na delegacia e um torneio que não acabou por causa do clima quente entre tricolores e rubro-negros. De um craque decidindo um campeonato após chegar embriagado na concentração e outro trocando as chuteiras pela Câmara de Vereadores. De uma final que quase não aconteceu por conta de uma confusão na interpretação do regulamento. De um estadual que ficou ameaçado em virtude de briga entre cartolas da Federação Bahiana de Futebol.

O sincretismo religioso também fez parte da trajetória do Bahia em busca dos títulos na década de 1970. Das caminhadas à Colina Sagrada por cada troféu conquistado às mandingas feitas por Lourinho, santos e orixás foram personagens presentes na campanha do hepta. Os clássicos disputados na Fonte Nova também envolveram guerras psicológicas, que tinham como coadjuvantes vodus e até cães domésticos. Religião que também se misturava com as festas regadas a trio elétrico e muita música baiana, que começavam no gramado da velha Fonte e se estendiam madrugadas afora, para celebrar a consagração de seus heróis.

Este livro se propõe a contar a história de um clube vencedor e arrebatador de corações. O Esporte Clube Bahia de Luís Antônio, Toninho, Sapatão, Roberto Rebouças, Romero, Baiaco, Fito, Douglas, Osni, Beijoca, Jésum e grandes personagens como Buttice, Perivaldo, Ubaldo, Zé Augusto, Altivo, Edmilson Pombinho, Merica, Dendê, Alberto Leguelé, Cristóvão, Natal, Mickey, Ricardo Silva, Peri, Tirson, Jorge Campos, Picolé, Gilson Gênio e muitos outros que passaram pelas mãos de Evaristo de Macedo, Zezé Moreira, Paulo Amaral, Orlando Fantoni e Carlos Froner, começando no pior momento do time na década, necessário para entender como um dos melhores times do futebol baiano iniciou sua formação.

Enfim, uma obra que contempla um grupo que encantou a Bahia de ponta a ponta, e exportou craques para outros grandes clubes do país, celebrando uma década quase perfeita. Um feito que poucos conseguiram em campeonatos estaduais e que fez com que o respeito e a admiração pelo Esporte Clube Bahia, o Esquadrão de Aço, só aumentasse. Na bola e na arquibancada.

Prefácio
Por Evaristo de Macedo

O futebol me proporcionou muitas alegrias nos meus mais de cinquenta anos de carreira. Fui ídolo no Barcelona e no Real Madrid, dois dos maiores clubes do mundo; vesti o manto sagrado do Clube de Regatas do Flamengo, uma potência do futebol brasileiro; fui técnico da Seleção Brasileira, posto desejado por dez em cada dez colegas de profissão; e conquistei diversos títulos por onde passei. Mas acho que poucas coisas foram tão especiais como fazer parte da história do Esporte Clube Bahia. Foi com o querido Esquadrão de Aço que consegui meu primeiro título nacional no Brasil, glória que poucos possuem em mais de oitenta anos de clube.                            

E minha história no Bahia começou na década de 1970, quando fui convidado para treinar o time pela primeira vez. Ajudei a montar uma equipe que, com o passar do tempo, tornou-se uma das mais vencedoras do futebol baiano. Ter trabalhado com talentos como Douglas, Fito, Sapatão, Baiaco, Elizeu, Buttice, Picolé, Peri e muitos outros me enche de orgulho. Foi nesta década que conquistei meu primeiro título no clube e tive as portas abertas para voltar outras vezes e ser muito bem acolhido por sua imensa torcida. É um período da minha carreira que dá gosto de recordar. 

É com muita satisfação que me vejo fazendo parte de algumas páginas desta história contada por Elton Serra, com riqueza de detalhes e uma precisão quase que cirúrgica nas palavras. Desde a minha chegada ao clube, com o objetivo de, junto com um grupo jovem e muito forte, devolver a hegemonia do futebol estadual ao Bahia, até a conquista do sétimo título consecutivo por uma geração que ajudei a construir. Glórias que vieram com muito suor e trabalho, mesmo com as dificuldades que a estrutura da época nos proporcionava.

Imortalizar esta epopeia é uma ideia fantástica. Elton Serra traz em sua obra histórias de personagens importantes para o futebol da Bahia, como o seguro Sapatão, o incansável Baiaco, o sempre regular Fito e o extraordinário Douglas, além dos mestres Zezé Moreira e Paulo Amaral, dentre outros espetaculares jogadores e técnicos que passaram pelo Tricolor e também cravaram seus nomes na lista dos grandes do Esporte Clube Bahia. Histórias que fizeram com que o clube se tornasse um dos mais populares do Brasil. 

Ser campeão no Bahia não é só escalar um time, sentar no banco de reservas e fazer substituições. É suar a cada treinamento, se arrepiar sempre que entrar no sagrado gramado da Fonte Nova e vibrar a cada gol feito pelo clube do povo. Afinal, ser Bahia é também torcer junto com uma nação que lhe empurra rumo às vitórias com uma energia que só os privilegiados podem sentir. E pode ter a certeza de que me considero um tricolor de corpo e alma. E é parte desta história que Elton Serra nos propõe a contar, sempre colocando aqueles que deram suas vidas dentro de campo como protagonistas de uma linda e árdua trajetória. “Década de Ouro”, definitivamente, é a expressão mais perfeita de uma época onde o Esporte Clube Bahia era um esquadrão quase intransponível.

Sobre o autor:
Elton Serra é baiano de Salvador. Comentarista e editor de esportes na CBN. Pós-graduado em Jornalismo e com especialização em Radialismo, também é bacharel em Administração e Gestão de Negócios. Foi repórter e comentarista esportivo nas rádios Transamérica e Tudo FM, e diretor de redação dos portais Futebol Baiano e Arena Nordeste. Nos últimos anos, tem se empenhado em contar histórias do futebol da Bahia através dos livros.