sexta-feira, 21 de junho de 2019

J. Hawilla: "O Delator"


O título do livro diz quase tudo. “O delator: A história de J. Hawilla, o corruptor devorado pela corrupção no futebol”, conta a história do jornalista que se transformou no maior empresário do marketing esportivo do Brasil, e, também, do maior escândalo de corrupção do futebol mundial, conhecido como Fifagate.


Os autores Allan de Abreu (direita) e Carlos Petrocilo.
Os autores, Allan de Abreu e Carlos Petrocilo, mergulharam fundo em uma pesquisa para desvendar a ascensão, queda e destruição do império criado por J. Hawilla.

Pela sinopse apresentada pela Editora Record, já temos a dimensão deste trabalho primoroso de investigação jornalística.




Sinopse (da editora)

Os labirintos de uma história essencial para a compreensão dos avanços e mazelas do nosso futebol.


José Hawilla, o maior empresário do marketing esportivo do Brasil, dono de uma fortuna estimada em R$ 1,6 bilhão, foi preso em 2013, em Miami, por agentes do FBI. Era o início de uma saga surpreendente: para escapar de uma condenação judicial quase certa, o brasileiro decidiu tornar-se um delator e, mais do que isso, um espião a serviço do governo norte-americano. A conversão de corruptor em delator seria a segunda grande metamorfose na vida de J. Hawilla. Por décadas, o ex-radialista nascido no interior paulista e convertido do dia para a noite em poderoso empresário lubrificou uma engrenagem de propinas com sofisticados esquemas de corrupção que desviaram muitos milhões para os bolsos de cartolas mundo afora, sem contar o dele mesmo. Flagrado, implodiu seus próprios métodos criminosos. Ao longo de dois anos, por meio de dezenas de entrevistas e pesquisa em milhares de páginas de documentos, os repórteres Allan de Abreu e Carlos Petrocilo investigaram a fundo a vida do empresário.


O livro causou tanta repercussão que vai virar até série de televisão e, talvez, em filme longa-metragem. Os direitos de O Delator foram adquiridos pela Paris Entretenimento e em breve deverá estrear.

Hawilla ficou pouco tempo preso, nos Estados Unidos, porque fez um acordo com a justiça norte-americana. Além de confessar crimes de formação de quadrilha, obstrução de Justiça, lavagem de dinheiro e fraude bancária de milhões de dólares em contratos de marketing, teve de pagar 151 milhões de dólares de multa.

Hawilla começou a carreira de jornalista bem jovem. Era repórter, em rádios do interior paulista, na década de 1960, até que, em 1968, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou em grandes emissoras, como a Bandeirantes e a Globo.


Em 1979, quando já trabalhava na TV Globo, foi demitido da emissora, por participar da greve dos jornalistas. No ano seguinte, começaria uma verdadeira saga empresarial, utilizando talento, e, ao mesmo tempo, negócios inescrupulosos. A porta de entrada no mundo dos negócios foi a criação da Traffic, que começou como simples vendedora de placas em estádios de futebol até chegar a contratos multimilionários pelos direitos de transmissões esportivas.

Foi inocentado em duas CPIs, no ano 2.000, após a revelação de um contrato de 160 milhões de reais, entre sua empresa e a CBF, presidida por Ricardo Teixeira, com a Nike para o fornecimento de material esportivo para a Seleção.


Em 2003, ampliaria ainda mais seu quase império, quando criou a rede TV TEM, com a compra de quatro afiliadas da Rede Globo. Dois anos depois, virou dono da rede de jornais Bom Dia, no interior paulista.

E não parou por aí. Hawilla também foi proprietário de uma construtora, montou uma luxuosa produtora de tevê, além de adquirir várias fazendas no interior de São Paulo e Mato Grosso.

Desde 2013, ano de sua prisão e, até a sua morte, em maio de 2018, a vida de Hawilla foi do céu ao inferno. Se curou de um câncer na garganta, mas não resistiu a uma doença grave nos pulmões.


O Delator é um gol de letra na história da literatura esportiva e, porque não, do jornalismo investigativo brasileiro.

Pouco antes de seu lançamento, exatamente um ano atrás, a revista piauí, disponibilizou na íntegra um dos capítulos da obra.

E só por estes trechos, percebe-se a qualidade do trabalho apresentado pelos dois autores, Allan de Abreu e Carlos Petrocilo.

                                                                          

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Trecho do livro O Delator.

Bem ao seu estilo Galvão Bueno, microfone a tiracolo, caprichava no tom das palavras e no discurso repleto de deferências ao grande amigo Jotinha.

“Hawilla, você não precisa mais de dinheiro”, disse o locutor, virando-se para o protagonista da festa com um sorriso largo.

“Preciso, sim”, disse o empresário.

Explodiu no ambiente uma sonora gargalhada.


O empresário inaugurava naquela tarde de 10 de março de 2009 um moderníssimo centro de treinamento em Porto Feliz, interior de São Paulo, de números superlativos: 156 mil metros quadrados, alojamento para 144 jogadores, salas de fisioterapia, musculação, fisiologia, piscina e refeitório para servir até 800 refeições por dia. Com um investimento de 18 milhões de reais, o CT seria uma grande incubadora de atletas nas categorias de base para o Desportivo Brasil, clube-empresa de Hawilla. A ideia era construir outros dez CTs semelhantes pelo país, para descobrir craques em potencial.

“Nasce aqui o primeiro clube essencialmente empresa do Brasil. Acho que vamos ser um modelo, porque o futuro pede a profissionalização do futebol”, discursou o empresário.
Para tanto, Hawilla havia recorrido ao então consultor Carlos Alberto Parreira. “O Hawilla sempre foi muito caprichoso. Quando fazia as coisas, fazia muito bem-feito. Foi um centro de treinamento muito bem montado”, disse Parreira, técnico da Seleção na conquista da Copa do Mundo de 1994 e que, no comando da África do Sul no Mundial de 2010, levou sua equipe por duas semanas para se refugiar em Porto Feliz.


José Hawilla vivia o apogeu de sua fortuna e prestígio. Em maio de 2008, a revista inglesa World Soccer o colocou na 56ª posição dos homens mais influentes do mundo do futebol. Dois anos depois, a revista Placar fez um ranking dos “poderosos chefões” do futebol brasileiro. Ele ficou em segundo lugar, atrás apenas do então presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira. “Nenhum personagem pode influenciar em tantos setores do futebol brasileiro como J. Hawilla. Sua atuação vai dos vestiários aos corredores da Fifa, passando por redações de meios de comunicação. É um dos poucos que Ricardo Teixeira ouve antes de tomar decisões”, escreveram os repórteres Ricardo Perrone e Bernardo Itri na Placar.

A Traffic, empresa de Hawilla, era, de longe, a maior empresa de marketing esportivo do Brasil, com faturamento médio anual de 100 milhões de reais, mas que por vezes superava os 300 milhões. Com filiais nos Estados Unidos e na Holanda e clientes na Europa, Ásia e nas três Américas, a empresa vendia os direitos de transmissão de 300 jogos por ano, de torneios como as eliminatórias da Copa do Mundo, Libertadores e Copa América.


Hawilla era dono do Desportivo Brasil, do Miami FC, na Flórida, e do Estoril Praia, na época um clube da segunda divisão do futebol português. Atuava no projeto da nova arena do Palmeiras e, ao lado do grupo Sonda, sua Traffic era a maior investidora do futebol brasileiro, administrando um fundo de 40 milhões de reais. Números estimados, já que a empresa, de capital fechado, nunca divulgou seus balanços financeiros anuais.

“Quanto a Traffic faturou em 2002?”, perguntou o repórter José Roberto Caetano, da revista Exame.
“Não posso falar.”
“Quanto pagou pelas três afiliadas da Rede Globo no interior de São Paulo?”
“Estou impedido de revelar por uma cláusula contratual.”
Disse que acabara de fechar um contrato de marketing esportivo, mas, sobre com quem seria:
“Não posso contar.”


Hawilla dava expediente diário na sede da Traffic, um prédio de design moderno no Jardim Paulistano, em São Paulo, a poucos metros do Parque do Ibirapuera. A área de 1 400 metros quadrados, que soma três lotes, foi adquirida em 1998 do Banco Itaú por 1,2 milhão de reais (5,2 milhões, em valores corrigidos). Dois anos depois, quando a empresa completou 20 anos, o empresário encomendou um projeto arquitetônico sob medida à empreiteira JHSF, que tem em seu portfólio prédios imponentes na capital paulista, como a sede do antigo Banco Santos.

A casa que hospedava a empresa de marketing esportivo foi derrubada para dar lugar a um edifício com pórtico de mármore, salões amplos com pé-direito alto e fachada de vidro que dão luminosidade ao ambiente. Quadros temáticos relacionados ao futebol, como o do artista Gustavo Rosa, logo na entrada à direita, e sofás muito amplos completavam o cenário. Na sala de Hawilla, chamava atenção uma bola usada na Copa do Mundo de 1962, assinada pelos jogadores da Seleção Brasileira da época.

Para espantar o “olho gordo”, o supersticioso empresário fez questão de colocar, próximo à porta de entrada da sede, um arranjo com sete raízes de plantas e muito sal grosso. Meses mais tarde, Hawilla comprou o terreno vizinho e, no mesmo estilo arquitetônico da Traffic, construiu uma produtora de vídeo, a TV 7, um investimento de 10 milhões de reais, em valores da época.


Havia dinheiro de sobra. Graças a isso, Hawilla seria aceito no mundo restrito da grã-finagem de São Paulo. Em agosto de 2011, foi um dos 600 convidados VIPs para o almoço de inauguração do novo hotel Fasano, grife da culinária paulistana, na Fazenda Boa Vista, na mesma Porto Feliz do centro de treinamento da Traffic. No cardápio, picadinho, arroz com castanha e ovo poché, preparados pelo chef francês Laurent Suaudeau, regado a taças de vinho, champanhe, caipirinha e clericot.

Nos negócios, o empresário aproveitava-se da penúria financeira dos clubes para avançar sobre a gestão das equipes. A Traffic FC administrava o futebol do Palmeiras (a parceria durou de 2008 a 2010) e do Ituano (entre janeiro de 2008 e maio de 2009), e detinha jogadores no Flamengo, Corinthians, Fluminense, São Paulo e Vitória, com lucros bastante elevados: em 2008, por exemplo, a empresa pagaria 1,5 milhão de dólares pelo passe do meia Everton e, dois anos depois, venderia o jogador por 10 milhões de dólares a um clube mexicano – um lucro de 650%. Em 2011, mantinha negócios com todos os clubes de futebol da primeira divisão do Campeonato Brasileiro, o que gerava inevitáveis questionamentos éticos.


Um exemplo concreto viria no fim do Brasileirão de 2008, quando o Vitória enfrentou o Palmeiras, clube parceiro da Traffic. Dois jogadores do time baiano, Willians e Marquinhos, já sabiam que no ano seguinte estariam no clube paulista e que, se o Vitória vencesse aquele jogo, desclassificaria a futura equipe para a Libertadores no ano seguinte. O jogo terminou 0 a 0.

Mas Hawilla dava de ombros às críticas da imprensa esportiva. Costumava atribuí-las à inveja de jornalistas de sua geração que, diferentemente dele, não haviam enriquecido com o futebol: “Mesmo que você trabalhe honestamente, com transparência e dignidade, como sempre foi feito aqui, eles falam. Uma meia dúzia de jornalistas esportivos. Acho que é mais inveja e rancor, porque, no fundo, eles querem profissionalização e sabem que trabalhamos bem”, disse certa vez.

O empresário havia sido bombardeado pela mídia em janeiro de 2009, quando o então ministro do Esporte, Orlando Silva, o nomeara membro do Conselho Nacional de Esporte, ligado à pasta. Silva, filiado ao Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, havia se aproximado da Traffic poucos meses antes – em junho de 2008, Hawilla foi um dos convidados para a festa de aniversário do ministro, em São Paulo. O empresário ingressou no órgão como “representante do desporto nacional”. Enquanto conselheiro, ele poderia, com os outros 21 membros, propor prioridades na aplicação de verbas ministeriais, emitir pareceres sobre questões esportivas nacionais e aprovar mudanças nos códigos da Justiça Desportiva. Além de atuar diretamente na organização da Copa de 2014 – na qual ele fatalmente teria negócios (como de fato teve). Uma raposa tomando conta do galinheiro? O então ministro não vê dessa forma. “Tínhamos a representação de atletas, árbitros, técnicos. Faltava o olhar do empresário. Ele enriqueceria o debate”, disse Silva.


Teixeira, Orlando e Hawilla.
Na época, a presença de Hawilla foi criticada pelo Sindicato de Atletas Profissionais do Estado de São Paulo e por membros do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). “Não acho que o conselho precise de empresários ligados a negócios esportivos. Precisa de gente que entenda de esporte”, disse o então presidente do sindicato, Rinaldo Martorelli.

A nomeação seria revogada em maio de 2009. Mas a amizade entre Hawilla e Orlando Silva permaneceu. O ministro estava em Porto Feliz, na inauguração do CT da Traffic, em março daquele ano, assim como o então governador José Serra e a nata da cartolagem brasileira: Ricardo Teixeira, Marco Polo del Nero, então presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), e seu vice, Reinaldo Carneiro Bastos.

Aliás, Hawilla convivia bem com gente de todos os espectros ideológicos, embora nunca tivesse se envolvido diretamente com a política, nem mesmo como financiador de campanha, ao menos em registros oficiais, com exceção de uma pequena doação à campanha bem-sucedida do deputado federal Edinho Araújo (PMDB) à Prefeitura de São José do Rio Preto, terra natal do empresário. Em 2010, Hawilla cedeu seu camarote no Morumbi para o ex-ministro José Dirceu assistir a um show de Paul McCartney, relevando o fato de o petista haver criticado os negócios da Traffic nos tempos em que era deputado.


José Serra e J. Hawilla
No entanto, era evidente a simpatia de Hawilla pela grã-tucanagem paulista, especialmente o conterrâneo Aloysio Nunes Ferreira e José Serra, sem contar a amizade com aliados do PSDB, como Gilberto Kassab, hoje no PSD. Na campanha à Presidência da República de 2006, a Rede Bom Dia de Comunicações (rede de jornais de Hawilla no interior paulista) estampou um editorial na capa de suas quatro edições pregando voto em Alckmin contra Lula. O petista acabou reeleito.

Havia uma profunda sintonia entre Teixeira e Hawilla, seu sócio oculto, embora ambos tivessem personalidades bem distintas: o primeiro, explosivo, não raro grosseiro; o segundo, adepto das boas maneiras e da diplomacia. Água e óleo que, para desconfiança de muitos, se misturavam em meio a interesses financeiros comuns – ambos se entendiam apenas pela troca de olhares.

Teixeira era um operador do mercado financeiro que, mesmo sem muito interesse por futebol (seu esporte preferido é o turfe), chegou ao comando da CBF pelas mãos do sogro, o poderoso presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), João Havelange, que entregou a entidade à sanha do marketing esportivo e a transformou em uma máquina de fazer dinheiro – para a Fifa e para si próprio. Deu tão certo que decidiu fazer o mesmo no Brasil por meio do genro, um mineiro criado na Zona Sul do Rio com hábitos de playboy na juventude, casado com Lúcia, sua filha. Teixeira, que não havia passado de um lateral-direito esforçado no futebol de areia e que nunca administrara nenhum clube de futebol, de repente se via no comando da CBF.


A dupla Teixeira-Havelange personificou graves vícios que mancharam a imagem da administração do futebol brasileiro. É do poderoso chefão da Fifa uma das melhores definições do genro, que chegou a alimentar o desejo de assumir o comando da entidade com sede na Suíça, novamente com o auxílio prestimoso de Havelange, o “Rei Sol”: “Se a senhora um dia tivesse que definir a malandragem, no bom sentido”, disse uma vez à piauí, “ela se chamaria Ricardo Teixeira.”

Formulada em 2011, a frase parece premonitória da tempestade que cairia sobre a cabeça de Teixeira e Havelange meses mais tarde.

Mas, na noite de 17 de maio de 2010, uma segunda-feira, nada disso interessava. Hawilla gastou milhões numa festa no Hotel Unique, um dos mais sofisticados de São Paulo, para comemorar os 30 anos da Traffic. A lista de convidados era a prova do poder do empresário: além do onipresente Teixeira, Pelé, Galvão Bueno, Andrés Sanchez, Luciano Huck, Ronaldo Fenômeno. Da política, os tucanos Aloysio Nunes, Geraldo Alckmin, Vaz de Lima e Barros Munhoz; o cacique do PMDB Orestes Quércia; a petista Marta Suplicy e o então candidato a deputado Protógenes Queiroz, do PCdoB.


Entre tantos amigos ilustres, Hawilla, sempre gentil, esforçava-se para dar atenção a todos, em meio ao bombardeio de flashes das colunas sociais. Pelé, alvo natural da mídia, deixara de ser inimigo da máfia do futebol, e naquela noite lamentava não ter cursado marketing esportivo em vez de educação física: “Se tivesse feito, talvez estivesse trabalhando com ele [Hawilla]”, disse.

Entre doses de uísque e alguns canapés, os convidados assistiram ao show de um cover de Michael Jackson e, em seguida, a uma apresentação intimista de Lulu Santos, um dos cantores preferidos de Hawilla. O momento era de confraternização, mas nem assim o dono da Traffic perdia a oportunidade de fazer lobby por seus interesses.

Hawilla aproveitou a presença do ministro do Esporte e de Kassab, então prefeito de São Paulo, para pressionar Kassab a desistir do projeto de reforma do estádio do Morumbi para a Copa de 2014. De acordo com o empresário, a cidade deveria investir em um novo estádio para o mundial, mesmo pensamento de Teixeira – o próprio Hawilla havia intermediado um encontro semanas antes entre Kassab e Teixeira para tratar do assunto na fazenda do presidente da CBF, no Rio. Hawilla negou a existência da conversa. Mas aproveitou a festa para publicamente rasgar elogios ao prefeito paulistano: “O Kassab é a maior revelação da política brasileira nas últimas décadas”, disse.


Apenas duas semanas depois, os grandes amigos Hawilla e Teixeira conseguiriam fazer valer seus desejos. O prefeito, um são-paulino até então contrário à construção de uma nova arena na cidade, subitamente mudou de opinião, e o Morumbi perdeu a disputa. Com o apoio entusiasmado do corintiano Lula da Silva, já no ano seguinte, 2011, a Odebrecht iniciaria a construção da Arena Corinthians em Itaquera, na Zona Leste da capital. A obra, orçada inicialmente em 400 milhões de reais, foi concluída com atraso, às vésperas da Copa do Mundo, a um custo total de 1,2 bilhão de reais, parte financiada com dinheiro do BNDES.

O Itaquerão, como seria conhecido, entrou na mira da Lava Jato no início de 2017, quando delatores da Odebrecht disseram ter pago propina para o caixa dois de campanha de dois petistas: 50 mil reais para Vicente Cândido e 3 milhões de reais para Andrés Sanchez, o ex-presidente do Corinthians, presença marcante no jantar dos 30 anos da Traffic – ambos negam o recebimento do suborno. O próprio Marcelo Odebrecht questionou a utilidade da obra em depoimento aos procuradores do Ministério Público Federal: “É um absurdo. Você faz o estádio para um dia e depois tem que desmontar um bocado de coisas.”


As investigações da Lava Jato em relação à Arena Corinthians estão em andamento.
Kleber Leite era um dos convivas mais expansivos do banquete de 30 anos da Traffic. “Não poderia perder um show intimista do meu querido amigo Lulu.” Sempre simpático e sorridente, o ex-presidente do Flamengo mantinha com Hawilla uma amizade sólida que vinha do jornalismo esportivo – ambos haviam passado pelo rádio nos anos 70, Hawilla em São Paulo, Leite no Rio, e depois migraram juntos para o marketing no futebol. O primeiro fundou a Traffic, em 1980, e o segundo, a Klefer Produções e Promoções Ltda., três anos mais tarde.

Em vez de concorrerem entre si, uniram forças e montaram uma sociedade informal: o carioca tornava-se assim uma espécie de extensão de Hawilla no Rio de Janeiro. “Eu tenho pelo presidente da Traffic, J. Hawilla, o maior apreço possível, o tenho como um amigo querido. […] Uma pessoa não chega aonde o Hawilla chegou de graça, não chega subornando as pessoas, não chega enganando as pessoas. Chega por meio de trabalho, de competência. Ele é, inegavelmente, um gênio na matéria”, disse Kleber Leite em depoimento à CPI da CBF/Nike, em 2001.


Teixeira e Nuzman
Em março de 1985, Carlos Arthur Nuzman, presidente da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), que seria preso em 2017, acusado de pagar propina para garantir o Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos, cedeu à Traffic “todos os direitos de organização, realização, promoção, exploração comercial e publicitária e direitos de transmissão para o Brasil e exterior de todas as competições de voleibol nacionais e internacionais”. Em troca, a Traffic pagaria à CBV 40% “do total líquido apurado em cada evento”. Na cláusula sexta, a empresa cedia à Klefer 50% dos direitos e obrigações do contrato.

Mas o acordo Traffic-CBV teve vida curta: seria rescindido em outubro de 1985 por falta de patrocínio – na ocasião, Nuzman declarou-se “atônito, decepcionado e chocado” com a atitude das empresas. Já a dobradinha Hawilla-Kleber permaneceu sólida.

Ambos se cumprimentavam com um beijo no rosto. O carioca costumava passar temporadas na mansão do amigo em São José do Rio Preto (SP) e era chamado de “tio Kleber” pelos filhos de Hawilla, Stefano, Rafael e Renata. A Klefer tinha parceria comercial com o Flamengo quando Kleber Leite assumiu a presidência do clube, em 1995. Para evitar questionamentos por parte da imprensa, ele encerrou o contrato com a sua empresa, mas logo em seguida fechou parceria de marketing entre o clube rubro-negro e a Traffic.


Em 1997, também na gestão de Leite no Flamengo, a empresa de Hawilla obteve um contrato mais do que generoso para cuidar das placas de publicidade do Maracanã. Sem licitação, a Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj), que administrava o estádio, escolheu a dedo quatro empresas de marketing esportivo, “Traffic incluída”, para apresentar suas propostas no prazo de 24 horas. A empresa de Hawilla ofereceu 821 700 reais anuais por dezoito placas do estádio, ou 45 600 reais por painel, em valores da época. A Brilho Publicidade & Promoções ofertou 806 mil reais, mas prometeu aumentar a oferta em 48 horas. A Suderj, porém, ignorou a proposta e declarou vencedora a Traffic. Apesar do valor ligeiramente maior que o da concorrente, a Traffic propôs um valor baixíssimo se comparado ao que a Suderj faturara com as outras 22 placas que negociava diretamente com os patrocinadores naquele ano: 3,2 milhões de reais. Prejuízo para os cofres públicos, lucro certo para a Traffic.

Nos quatro anos em que Kleber Leite ficou à frente do Flamengo, Hawilla se tornaria uma espécie de conselheiro informal do clube. Foi o empresário paulista que indicou o amigo em comum Vanderlei Luxemburgo como treinador da equipe, em 1995, no galáctico time rubro-negro que tinha Romário, Edmundo e Sávio, mas ganhou apenas uma modesta Taça Guanabara. Jotinha soube retribuir a gentileza do “tio Kleber”: anos depois, o parceiro do Rio seria nomeado vice-presidente da empresa paulistana. A confiança entre eles parecia inabalável.

A festa da Traffic seguia perfeita, exceto por um detalhe: Teixeira e Ronaldo Fenômeno não se falavam. Estavam rompidos desde a Copa do Mundo de 2006, quando, após a eliminação da Seleção Brasileira, derrotada pela França nas quartas de final, o cartola criticou publicamente as farras noturnas protagonizadas pelo centroavante durante a competição na Alemanha. Três anos depois, Teixeira teria vetado a convocação do jogador para a Seleção, ignorando sua ótima fase no Corinthians. Por tudo isso, não havia clima para uma reaproximação naquela noite.


Teixeira e Ronaldo Fenômeno, na festa de Hawilla.
Acompanhado de dois seguranças e de Bia, então sua mulher, Ronaldo ignorou completamente a presença do presidente da CBF e sentou-se a uma mesa no fundo do salão, logo após o show do cover de Michael Jackson. Com uma taça de champanhe na mão, assistiu à apresentação seguinte, de Lulu Santos.

Hawilla, parceiro do ex-jogador nos torneios de golfe no São Paulo Golf Club, notou a saia justa e o burburinho. Resolveu entrar em ação. Conversou longamente com Teixeira num canto, depois foi até a mesa do atacante. Passados alguns minutos, Ronaldo cruzou o salão, chamou o cartola e lhe deu um longo e forte abraço. Teixeira retribuiu o carinho com um beijo no rosto do jogador. Graças a Hawilla, a paz estava selada.

“Foi a imprensa que brigou ‘ele comigo e eu com ele’”, disse o cartola, demonstrando sinais de leve embriaguez. “Quando duas pessoas se abraçam e se beijam, isso quer dizer o quê? Que elas se gostam. Precisa de mais alguma coisa?” Sorridentes, ambos posaram para fotos. Flashes pipocavam por todo canto. Já passava da meia-noite e a festa se encaminhava para o fim.

Quatro anos depois do grande baile da Traffic, a empresa ainda influenciava o marketing esportivo, mas havia sofrido fortes abalos em contratos da Copa América e da Copa do Brasil. Nem por isso o acordo firmado entre Hawilla e Teixeira foi interrompido, embora já não houvesse a ampla confiança mútua de anos anteriores.


Ricardo Teixeira estava em sua casa na Flórida quando o celular tocou. Era Hawilla, querendo marcar um encontro. Como não se viam havia tempos, combinaram um jantar no Smith & Wollensky, restaurante à beira-mar em Miami. Teixeira, que deixara a CBF em março de 2012, em meio a fortes suspeitas de corrupção, encontrou o Hawilla cordato de sempre, mas notou que ele estava um pouco tenso. A conversa começou amena, entremeada de algumas taças de vinho. De repente, o empresário começou a rememorar episódios do passado de ambos. Hawilla falava de dinheiro, lícito e ilícito, que correra na relação Traffic-CBF. Uma conversa estranha para o ambiente e as circunstâncias. Enquanto o velho parceiro falava, Teixeira olhou de soslaio para as mesas no entorno. Nada anormal, exceto o movimento dos garçons, que a todo momento passavam próximos à mesa deles.

Com toda a malandragem que lhe imputava o ex-sogro Havelange, Teixeira farejou a arapuca, e com razão: já delator, Hawilla era um grampo ambulante, cercado de agentes do FBI disfarçados de garçons. Subitamente o rosto do ex-cartola ruborizou. Encarou o empresário com os olhos cheios de raiva, socou levemente a mesa e levantou. Dedo em riste, apontou-o para o antigo parceiro: “Filho da puta!”

E foi embora, para espanto de Hawilla. Chegara, enfim, o divórcio, antes mesmo daquele fatídico 27 de maio de 2015, quando o FBI deflagrou a operação que desnudaria a máfia do futebol e o Brasil assistiria, perplexo, à confissão de graves crimes pelo magnata-que-se-dizia-honesto José Hawilla.

“Ele não merecia isso”, lamentava Galvão Bueno a amigos. Era o anticlímax dos tempos de Porto Feliz.

Na manhã daquele mesmo dia 27, a Polícia Federal invadiu a sede da Klefer no Rio. Cumpria mandados judiciais de busca e apreensão a pedido da Justiça norte-americana. Os agentes apreenderam computadores e coletaram milhares de páginas de documentos – parte seria remetida aos Estados Unidos. A Justiça brasileira também quebrou os sigilos bancário e fiscal de Kleber Leite, além de bloquear seus bens.

Semanas depois, o empresário obteve um habeas corpus no Tribunal Regional Federal (TRF) da 2ª Região que anulou toda a operação policial. Mesmo assim, não perdoaria o ex-amigo Hawilla, até porque, assim como Teixeira, já percebera algo estranho nas intenções e nas palavras do dono da Traffic antes de o Fifagate vir à tona: “Hawilla, me desculpa, presta atenção”, disse numa das conversas interceptadas pelo FBI. “Com base na nossa amizade, eu passei a vida toda contigo. E eu confio em você completamente. Nunca te questionei nada. Mas você tá sendo um tremendo cuzão! Como você desconfia de mim?”

Em depoimento à CPI da Máfia do Futebol na Câmara dos Deputados, em junho de 2016, Kleber Leite soltou o verbo contra Jotinha, que passou a ser “o senhor J. Hawilla”: “O problema do senhor J. Hawilla é o seguinte: eu, se advogado fosse, e se, porventura, um dia tivesse a necessidade de enfrentamento com ele, a primeira coisa que eu pediria seria um teste de sanidade mental com relação a ele. Eu duvido que ele esteja no gozo pleno de sua sanidade mental. […] O senhor Hawilla é uma pessoa de duas personalidades. Ele é uma pessoa extraordinária, delicada, doce, amável, meiga, amiga, quando não há qualquer interesse financeiro envolvido. Quando há dinheiro envolvido, é outra figura completamente diferente. Eu diria que há dois Hawillas, um normal, quando não há dinheiro envolvido, e outro, quando há dinheiro envolvido, é o ser mais materialista que eu já vi na minha vida.”


O empresário carioca já havia atacado o antigo parceiro em seu blog na internet: escrevera que “a cabeça” de Hawilla “deve ter sido afetada” pelo câncer na garganta (curado em meados de 2014). Procurado, Leite não quis se manifestar. E justificou-se: “Esta é a mais decepcionante página na minha história de vida com relação a um ser humano. Como não está em mim odiar, melhor esquecer. Em homenagem e respeito à família do seu personagem, nada tenho a declarar.” À imprensa, Ricardo Teixeira também atacaria o ex-amigo: “Ele está completamente descompensado e quer solucionar o problema dele.”

Os Hawilla assistiram a tudo perplexos e calados. A discrição em momentos difíceis, afinal, era parte dos ensinamentos que Fuad e Georgina, pais do empresário, legaram aos filhos e aos netos.

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Sobre os autores:

Allan de Abreu é repórter da Revista Piauí, autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela Editora Record.


Carlos Petrocilo é editor de esportes do Diário da Região, em São José do Rio Preto.



quarta-feira, 12 de junho de 2019

Nuvem de terra


Um livro espetacular. Essa é a definição do Literatura na Arquibancada para Nuvem de terra (Globo Livros, 2018), obra escrita pelo jovem autor, Plácido Berci, que tem apenas 29 anos de idade. Mais do que bem escrito, o livro também ganha importância por revelar os bastidores do trabalho de um jornalista esportivo como correspondente em outro país.

Quarta geração do projeto Passaporte Sportv.
Plácido é o quarto, da direita para a esquerda.
Plácido Berci fez parte da última turma do projeto criado pelo canal Sportv chamado Passaporte Sportv.

Os selecionados participariam da cobertura dos Jogos Olímpicos de 2016, não na cidade sede do Rio de Janeiro, mas como todo jornalista sempre sonhou – espalhados pelo planeta. Plácido foi enviado para o Quênia, na África, um sonho realizado, porque, há cinco anos disse à mãe:
“Tenho pensado em ir para o Quênia no futuro. Sei lá, produzir um documentário ou escrever um livro sobre como surgem os corredores campeões. Conhecemos pouco sobre eles e, pelo que sei, é um país pouco desenvolvido. Como será que mesmo assim nascem tantos talentos?”


Dona Fátima, mãe de Plácido, com crianças da tribo Masaai.
Plácido fez muito mais do que isso, viveu uma “aventura”, que durou 7 meses, repleta de convivências, aprendizados sobre um continente e país, desconhecidos para a maioria das pessoas daqui e de qualquer ponto do planeta. Até mesmo para o próprio autor, como diz o subtítulo do livro: “Relatos do primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia”.

Plácido construiu uma espécie de diário, registrando a cada dia as experiências vividas em terras africanas. O que torna o livro prazeroso de se ler é o fato de o autor não se restringir a falar apenas sobre o tema esporte. Plácido mergulhou no cotidiano dos quenianos. Revela, com prosa fácil, a complicada sobrevivência daquele povo. Sua escrita, parece nos transportar às situações, lugares e, de quebra, nos deixar encantados com os personagens encontrados para contar suas histórias.


Plácido e o amigo e motorista Joseph, na chegada a Iten
Plácido desembarcou em Nairóbi, capital do Quênia, em meio ao furacão da polêmica de casos de doping envolvendo atletas quenianos.

Mergulhou fundo na questão, revelando lugares do país desconhecidos da grande maioria das pessoas.

Ampliou a visão sobre o trabalho realizado no atletismo, viajando para duas cidades do interior africano, primeiro para Iten, no Quênia, considerada “o lar dos campeões do atletismo”.

Depois, até Bekoji, na Etiópia, para mostrar a cidade formadora de campeões no atletismo, que revelam números inquestionáveis como 16 medalhas olímpicas, 32 títulos mundiais e dez recordes globais de atletismo.


Matatus, transporte utilizado pelos quenianos
Mas, o mais prazeroso na leitura de Nuvem de terra, é o cotidiano de vida dos quenianos revelado por Plácido. A descoberta, por exemplo, do trânsito caótico do centro da capital Nairóbi e dos matatus, nome dado aos ônibus da cidade, diferentes de qualquer outro veículo de transporte público mundo afora.

Nos apresenta, também, o Ugali, alimento elementar no dia a dia da população em todo o país, composto de apenas dois ingredientes, farinha de milho e água, e que, segundo o autor, “se comido sozinho, não tem gosto de nada”.


Amigo e fiel escudeiro, Willice (camisa vermelha) e o
lendário atacante nigeriano de futebol, Nwankwo Kanu.
No convívio quase diário com o taxista e fiel escudeiro, Willice, que o levava para os quatro cantos da cidade, Plácido nos revela Nairóbi, uma cidade diferente, com muita confusão, barulho, contrastes sociais e arquitetônicos.











Centro de Nairóbi: trânsito sempre caótico.
Não é nada fácil a vida de um correspondente internacional, ainda mais para um jovem iniciante na profissão. Plácido nos apresenta a uma cultura completamente desconhecida para nós, brasileiros, um Quênia com imensa diversidade étnica, 42 tribos, um dos mais complexos cenários demográficos do continente africano.

Por conta desta diversidade de costumes e tradições, Plácido também viveu uma série de perrengues, como o inicial, com policiais acostumados a propinas, hábito comum na relação entre autoridades e gringos. E a ameaça de prisão, em pleno centro de Nairóbi, com direito a passaporte retido.


Tirinha feita por Murilo Pereira, amigo de Plácido,
e que virou tatuagem em seu corpo.
Descobriu ser um Mzungu, como eles se referem aos brancos, que, ao pé da letra, quer dizer “andarilho sem rumo”.

Se surpreendeu, quando crianças tocavam sua pele em meio às gravações que realizava, tudo porque, geralmente, em comunidades pobres, essas crianças têm pouco contato com pessoas brancas, por isso, na infância, sentem curiosidade em saber como é uma pele mais clara.



Plácido preparando-se para gravação
com o centroavante do Kibera Black Stars
Plácido não se restringiu apenas a nos revelar a formação dos campeões do atletismo queniano.

Futebol, no Quênia, é paixão nacional, especialmente pelos clubes ingleses e, evidentemente, ídolos e craques do futebol brasileiro.

Três histórias, sobre o esporte número um do planeta são comoventes.

Plácido nos apresenta o Kibera Black Stars, equipe de futebol que disputa o campeonato local, composto apenas por moradores da maior favela do Quênia.


Projeto "Movendo as traves", em Kilifi.
Também nos revela o premiado projeto não governamental Moving the Goalposts (“Movendo traves”), que visa empoderar garotas por meio do futebol.

Uma viagem feita até Kilifi, a 524 quilômetros da capital Nairóbi, cidade costeira considerada uma das mais miseráveis do mundo, onde, 60% dos 120 mil habitantes das comunidades, vivem abaixo da linha da pobreza.

Cerca de 10 mil pessoas são portadoras do vírus HIV.

O projeto conta com 6.600 garotas, entre 9 e 25 anos. São 47 campos de futebol do projeto espalhados pelo condado de Kilifi, que reúne 9 municípios.



Plácido relata a aventura para chegar ao local, além da dura realidade da vida na comunidade por intermédio de uma garota, centroavante de uma das equipes do projeto.

Nas paredes da sede da Ong, uma palavra inesquecível para Plácido: “Tunawesa”, que no idioma suaíli quer dizer, “nós somos capazes”.


Mas, a história mais emocionante, e que tocou profundamente o autor e a nós do Literatura na Arquibancada, é sobre a Seleção Feminina do Quênia de futebol de rua.


Treino da seleção feminina de futebol de rua do Quênia.
Como esta reportagem está sendo escrita, no exato momento em que os holofotes da mídia estão voltados para a cobertura do Mundial Feminino de Futebol, na França, Literatura na Arquibancada disponibiliza para você essa história na íntegra, vivida por Plácido, com a seleção feminina de futebol de rua.

Oportunidade para conhecer realidades completamente distintas e, ainda, o talento da narrativa construída por Plácido Berci em seu Nuvem de Terra.

“Elas são o centro das atenções no campo de futebol do bairro de Huruma, em Nairóbi. Homens de diferentes faixas etárias param para assistir aos treinamentos da seleção feminina do Quênia de futebol de rua.


A precária condição social é requisito para integrar a equipe, formada por oito mulheres, entre 17 e 28 anos.

Todas vivem com aproximadamente 170 reais mensais, fruto de trabalhos temporários como, por exemplo, faxineiras ou lavadeiras.

Uma delas é Fauzia Kaunjeri. Ela vive na favela mais violenta do Quênia: Majengo [lê-se “Madiengo”]. A comunidade, mais pobre até do que a de Kibera, é uma área evitada até por parte da população da capital.

Explicarei como conheci Fauzia.

Fauzia
Ontem, li uma nota no jornal sobre a saga da seleção feminina para angariar fundos e participar da Copa do Mundo de moradores de rua, a ser realizada dentro de poucos meses em Glasgow, na Escócia.

Disputado anualmente desde 2003, o torneio não é organizado pela Fifa, maior entidade ligada ao futebol.

Em 2011, teve as quenianas como campeãs na categoria feminina. O problema é que, desde então, o time não participou mais por falta de investidores. Como todas as atletas vivem no limite financeiro, é preciso buscar ajuda – que raramente vem, por causa do quase mínimo retorno para os apoiadores.


Mesmo assim, lá estão as oito meninas, cinco vezes por semana, no campinho de Huruma, treinando a todo vapor. Convidada a participar da competição novamente este ano, a delegação tem menos de dois meses para arrecadar cerca de 26 mil reais e cobrir gastos com vistos para o Reino Unido e passagens aéreas. Seria a primeira viagem internacional da vida de todas as jogadoras.

Conto a história para Marcelo França, o chefe da editoria internacional do Sportv, e recebo uma resposta positiva e eufórica da parte dele. Era a autorização que faltava para tentar produzir uma pomposa reportagem para o Brasil vinda da notinha de um jornal africano.

Na internet, encontro o telefone da Associação Queniana de Futebol de Rua e consigo marcar para assistir a um treinamento da equipe, em Huruma, daqui a dois dias. Falo com Mohamed Haji, presidente da entidade.

— Sugiro que você visite uma de nossas atletas após a sessão de treinos. Tenho certeza de que a história de Fauzia, nossa zagueira, será importante para sua reportagem — garante o mandatário.


No dia marcado, Willice me leva até o endereço enviado por Mohamed, espécie de centro esportivo público pouco conservado. Ao fundo, estão duas quadras sem pavimentação, apenas com pequenos muros delimitando o espaço do jogo e as traves de cada lado.

As regras do futebol de rua são diferentes da modalidade profissional de campo. São só quatro jogadores para cada time: um goleiro e três na linha.

Dois tempos de sete minutos, com um rápido intervalo de apenas dois. Escanteio, tiro de meta ou lateral, só se a bola for chutada por cima dos muros.

Willice estaciona e segura o tripé para me ajudar, quando avisto um grupo de crianças jogando bola num campo improvisado de terra batida, ainda fora do centro esportivo. Pequenos pedregulhos formam os gols. Peço que ele vá na frente, já que quero fotografar o momento.


Crianças de Majengo
Está nublado. Discretamente, sento numa pedra e começo a fotografá-los com o celular. Um garoto me vê. Outro. E mais outro. De repente, pelo menos uma dezena corre em minha direção.

— Querem uma selfie? — ofereço, virando a câmera em nossa direção.

Inicia-se um festival de suspiros e risadas. Estou cercado. As crianças divertem-se com suas próprias imagens na tela. Clico seguidamente no botão para registrar o momento.

Em seguida, um menino chuta a bola para o campo, os sorrisos diminuem e todos correm de volta para o jogo. Espertos…A chuva está a caminho, e a brincadeira coletiva é muito mais divertida do que um mzungu tecnológico.

Estamos em Majengo, a mais pobre das favelas quenianas. A tarde, novamente, está nublada e fria. Abril é a temporada chuvosa, e dias assim têm sido comuns. A única rua de acesso ao interior da comunidade é repleta de barracas feitas de lata e madeira, com comerciantes informais.


Fauzia nos espera a alguns metros. Ao lado dela está Peris, capitã da seleção feminina de futebol de rua, que — por possuir mais fluência no inglês — foi requisitada pela amiga para a gravação da entrevista. Willice está calado. Nunca o vi assim antes.

— Temos que andar um pouco até chegar na casa dela, tudo bem? — anuncia Peris.

Peço que ambas sigam na frente, já que pretendo gravar o percurso. Vou atrás delas com meu amigo e motorista. A cada metro caminhado, a curiosidade dos moradores aumenta visivelmente. Devem pensar: o que esse mzungu está filmando?


O ambiente está cinza. Além da nebulosidade, há fumaça por todos os lados, já que pequenas quantidades de lixo estão sendo queimadas a cada quarteirão e algumas famílias montaram fogueiras, do lado de fora das casas, para o preparo de nyama chomas.

O esgoto corre livremente, como um pequeno riacho, misturando-se à lama. A cada passo o pé parece afundar mais no barro…

Tem sido quase impossível voltar para casa com os calçados limpos neste mês. A mistura dos cheiros dá náuseas.

— Só mais alguns metros. Estamos chegando — avisa Peris ao entrar numa estreita ruela.


Barraco onde mora Fauzia
Temos que pular uma poça de cor escura que sai de um cano quebrado.

Na porta do barraco de Fauzia repousa um rato morto. As meninas agem naturalmente. Parecem não se importar com a cena.

Entramos no pequeno espaço onde a zagueira do time vive com a mãe e duas filhas. O pai das crianças sumiu há anos, e o dela morreu quando ela ainda era jovem. As meninas estão na escola e a mãe nos espera sentada numa cama.

Fauzia, aliás, cultiva até hoje o espírito de criança, ainda que tenha assumido a responsabilidade da primeira gestação logo aos treze anos.


— Esse aqui é o Ronaldo — diz ao apresentar um urso de pelúcia, em homenagem ao ex-jogador brasileiro.

Como não fala bem inglês, ela pediu a ajuda de um primo para escrever sua história na ficha da Associação Nacional de Futebol de Rua.

Sugiro que ela leia o manuscrito e, em seguida, ligo a câmera.



Fauzia e sua mãe.
A vida na favela não tem sido fácil. Minha mãe nos criou sozinha, e somos quatro na família. Minha mãe é desempregada e costumava lavar roupas dos vizinhos para que pudéssemos comer. Às vezes, chegamos a dormir na rua por problemas com o pagamento do aluguel. Me envolvi com futebol e agora conheci o time queniano de futebol de rua.

Ao término da vagarosa leitura, Fauzia, Peris e a mãe choram. O silêncio toma conta do ambiente por alguns instantes.

Porta-retratos pregados nas paredes de madeira revelam registros felizes da vida dela. Todos ligados ao futebol. Ela sonha em viajar para a cidade escocesa e conhecer um novo país. Contudo se diz satisfeita, atualmente, só por ter um teto para sua família.


Deixamos o local após quase uma hora. Ainda preciso gravar uma passagem. Já próximo do carro de Willice, posiciono o tripé e ensaio o texto. Pelo menos vinte curiosos ficam atrás da câmera, observando a gravação.

— Aleluia! — suspira Willice quando termino e entramos no veículo para ir embora.
— O que aconteceu?
— Nunca pisei em Majengo. Estive preocupado o tempo todo. Vamos embora logo.

Meu anjo da guarda tem sido forte. Procuro ser simpático com todos que falo, sorrir bastante e tentar ao máximo agir como um local. Ao contrário do que muitos no Brasil podem achar, já não me sinto ameaçado aqui. A pobreza não aparenta ser violenta como imaginamos. Há uma atmosfera amigável e, de certa forma, sofrida.


Já é noite quando nos aproximamos do condomínio onde moro. O semáforo fecha e uma menina, bem baixinha, aproxima--se do carro. Ela bate suavemente no vidro da janela ao meu lado.

— Dinheiro, mzungu… Por favor, dinheiro.

Ela para de falar e continua imóvel a poucos centímetros do veículo.

Forma-se um pequeno círculo de vapor no vidro, que aumenta e diminui conforme ela respira.

Dou o que tenho no bolso e o sinal abre. Willice e eu estamos cabisbaixos.

— Fique bem, Plácido. Amanhã faremos uma reportagem mais alegre, com certeza! Boa noite — diz o motorista antes de partir.

Ao entrar no apartamento, largo os equipamentos na sala e vou direto para o banho. Deixo a água quente do chuveiro escorrer pelo corpo. O suor e a sujeira saem aos poucos. Em contrapartida, as imagens do dia insistem em permanecer. O esgoto, o rato morto, o choro da família, o vidro embaçado.


Não tenho fome. Deveria descansar, porém decido assistir ao material gravado.

Os arquivos de vídeos aparecem pouco a pouco na tela e a garganta trava.

Estou sozinho num apartamento grande, cercado de luxos, e não tenho ninguém para compartilhar o que vi.

Ainda sinto o inexplicável cheiro de Majengo.

Fecho com força o computador e os olhos. Respiro fundo. Um pequeno rastro úmido escorre pelas bochechas. Jamais esquecerei Fauzia e Peris”.


Vilarejo tribo Massai
Nuvem de terra é assim, histórias atrás de histórias que, não apenas prendem o leitor, mas, de forma mágica, transporta-nos para as cenas vivenciadas pelo autor. Como afirmou Marcelo Barreto, apresentador e editor do programa Redação Sportv, além de fonte de inspiração para Plácido seguir a carreira como jornalista esportivo, em trecho do prefácio do livro. “ (...) O relato de Plácido tem histórias de pessoas, casos divertidos dos perrengues que passamos na nossa profissão, reflexões sobre as semelhanças e diferenças entre o Brasil e a África. Tem esporte também, afinal essa foi a origem da viagem. Mas, se tivesse de escolher uma característica principal para o livro, não seria nenhuma dessas, e sim o olhar – no sentido literal e no figurado, ambos com aquela serenidade que foi a primeira coisa a chamar minha atenção. Nuvem de terra nos convida a ver o Quênia com os olhos de quem quer aprender.
Vale a viagem.”


E como vale. Escrever, reportar, gravar, editar, fazer tudo sozinho. São os tempos “modernos” no jornalismo esportivo. E mesmo com todas essas dificuldades, Plácido soube extrair para si mesmo o maior aprendizado com essa experiência como o primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia.

“Viver, trabalhar e viajar sozinho faz você valorizar o silêncio. Observar mais. Reparar no que está ao seu redor. De certo modo, a solidão controlada traz entendimento. Senão do todo, de si próprio. Diálogos anônimos ganham vida nos tímpanos agora mais atentos. Reconhecer o valor do silêncio aumenta a importância do diálogo com quem gostamos. A ‘vida a um’ passa num ritmo mais lento. Depois de um tempo – e por um tempo – faz bem. Só é preciso aprender a conviver com a saudade”.

Link para conferir o booktrailer produzido pela Globo Livros

Sobre o autor:


Plácido Berci nasceu em Araraquara, interior de São Paulo, mas cresceu em São Carlos, cidade vizinha.

É jornalista formado na PUC-Campinas e acumula passagens pela EPTV/ Afiliada da Rede Globo e Correio Popular. Colaborou com a ESPN Brasil como blogueiro durante período em que viveu em Manchester, na Inglaterra.

Está no esporte do Grupo Globo desde 2015. É diretor do documentário "Pacaembu - O gigante sem dono", disponível no YouTube e parte do acervo do Museu do Futebol. Além de "Nuvem de terra" (Globo Livros, 2018) é autor também de "Paixão: Uma viagem pelo futebol inglês" (Via Escrita, 2015).