sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Causos do Doutor Osmar

Não faz nem um ano que ele partiu (julho 2014), mas a saudade é imensa. Dr. Osmar de Oliveira, além de médico respeitadíssimo, dentro e fora dos gramados ou quadras esportivas, criou uma carreira de sucesso no jornalismo esportivo, como narrador e comentarista. Durante décadas, convivendo com estrelas e anônimos do esporte brasileiro, Dr. Osmar acumulou milhares de histórias e estórias sensacionais.

Em 2008, a Companhia Editora Nacional lançou um livro “despretensioso”, pequeno em tamanho, mas sensacional no resultado: “Causos do Doutor Osmar”.

Um livro de pequenas histórias, “causos”, a maioria contada com bom humor, sarcasmo, ironia, no tom certo de todo bom contador de histórias, como era o Dr. Osmar.

Literatura na Arquibancada resgata abaixo algumas dessas “pérolas”.

A morte do cartola

Botafoguense fanático, Rivadávia Correa Meyer foi presidente da CBD (atual CBF) entre 1943 e 1955. Imparcial e empreendedor, foi um cartola respeitável.

Mesmo após desligar-se de cargos diretivos, não abandonou o vício pelo futebol e, numa final de campeonato carioca, década de 1970, lá estava ele nas tribunas do Maracanã acompanhado pelo filho e alguns amigos. Antes do jogo, um minuto de silêncio. Não se sabe quem deu a informação ao locutor do estádio, que com voz pausada e melancólica anunciou:

– A Adeg (Administração dos Estádios da Guanabara, hoje Suderj) lamenta informar o falecimento neste domingo do saudoso dirigente Rivadávia Correa Meyer.

O cartola tomou um susto e esbravejou. Um de seus acompanhantes, homem despachado, saiu correndo em direção à cabine de som. Chegou esbaforido e raivoso, chamou o locutor de louco e foi dizendo que Rivadávia estava vivo e assistindo à partida. “Você vai ser despedido do serviço público, mas antes disso corrija seu erro, seu irresponsável.” Pálido e estupefato, vendo a porta aberta, o infeliz locutor saiu correndo e sumiu pelas rampas mais próximas.

Um funcionário que levava cafés e refrigerantes a todas as cabines de rádio assistiu a tudo. Solícito e com ar de conteúdo, disse que havia sido locutor no Nordeste e prontificou-se a assumir o microfone da cabine de som, afirmando ao amigo do cartola: “Fique tranquilo que eu desminto essa notícia”. O amigo de Rivadávia sentiu confiança, voltou à sua cadeira e sossegou o ex-dirigente, pedindo que ele aguardasse um pouco que o mal entendido seria consertado.

Minutos depois, lá vem o locutor substituto:

– A Adeg informa: o sr. Rivadávia Correa Meyer, ao contrário do que se informou, não morreu MAIS.

Kafunga era fanático

Olavo Leite Bastos, o Kafunga, foi goleiro do Clube Atlético Mineiro durante vinte anos, jogou 714 partidas e foi campeão mineiro onze vezes. É até hoje uma das maiores glórias do Galo. Encerrada a carreira, tornou-se comentarista esportivo e seu programa Papo de Bola era líder de audiência. Ingressou na política e elegeu-se vereador.

Quando comentava jogos do Atlético, procurava a imparcialidade, contrariando o fanatismo pelo clube do coração. Não aguentava ver jogadores sem garra ou de pouca categoria vestindo aquela camisa que ele tanto adorava. Atribui-se a ele a expressão “cabeça de bagre”, que é falada até hoje em todo País.

Veio um jogo decisivo contra o Cruzeiro e lá estava ele comentando pelo rádio, suando frio e roendo unhas. Para o Atlético, bastava o empate e o 0 a 0 estava sendo conseguido a duras penas. Quase no final da partida, Atlético na retranca e uma bola é cruzada para a área.
Cabeçada, o beque desvia. Um arremate, bate na zaga, outro chute, goleiro caído, novo desvio. O locutor já quase sem fôlego pela emoção do lance.

O nervosismo do comentarista fez com que deixasse seu microfone aberto e, em meio à narração, escutou-se claramente a voz de Kafunga:

– Ih, embocetou tudo na área do Atlético!

Ele nem percebeu o que acabara de dizer e, após o lance, o locutor lhe deu um cutucão e fez uma pausada e compreensível linguagem labial: “E-m-b-u-c-e-t-o-u?”

Kafunga se deu conta do que falara e, um pouco mais calmo, emendou de viva voz:

– Mas embucetou no bom sentido!

Ponta-direita burro

João Avelino foi um técnico prático e vencedor. Sabia como ninguém fazer a cabeça de seus jogadores. Quando chegou ao São Bento de Sorocaba em 1969, logo percebeu que seus goleiros eram muito baixos. Chamou o homem que cuidava do campo, mandou serrar cinco centímetros de cada trave para o travessão ficar mais baixo.

Resolvido esse problema, passou a orientar os cruzamentos de seu ponta-direita Carlinhos, que era veloz, mas não calculava direito as distâncias. 

Ele mesmo lançava o ponta, pedia que corresse com a bola uns vinte metros e, em seguida, cruzasse para a área porque os outros atacantes estavam chegando. Mas nada dava certo. 

Carlinhos calculava mal aquela distância e cruzava antes ou chegava a sair com a bola pela linha de fundo.

Certo dia, depois de muita insistência e com a bronca do centroavante, João Avelino teve a grande ideia. 

Percebeu que em todas as laterais do campo havia placas comerciais da cidade. Então, foi até o ponta, pediu para ele se virar para as placas e disse:

– Meu filho, você pega a bola na Papelaria do Rosário, sai correndo e, quando chegar na
Pastelaria do China, você cruza, certo?

Depois de alguns ensaios, cabeça olhando para a bola e de vez em quando para as placas, Carlinhos passou a acertar todos os cruzamentos.


Saldanha me salvou

Trabalhei com João Saldanha na Copa de 90 na Itália. Foi um dos maiores jornalistas esportivos de todos os tempos. Um gênio, sem exageros. Vítima de uma grave doença pulmonar, morreu em Roma, dez dias após a Copa. Como médico, cuidei dele durante todo o torneio. Mesmo doente, comentou todos os jogos para os quais estava escalado.

Estávamos na extinta TV Manchete, que não era um primor de organização. Em 14 de junho, chegamos ao estúdio em Roma uma hora antes do jogo Romênia x Camarões, que seria jogado no Estádio Della Vittória, em Bari. Da porta principal do Centro de Imprensa até nossos estúdios, empurrei a cadeira de rodas do João por uns trezentos metros, e vários jornalistas mais antigos de inúmeros países cumprimentaram Saldanha naquele trajeto. Vivi esses momentos em vários jogos, misturando dor pelo sofrimento do amigo e orgulho pelo respeito com que o tratavam.

A cabine de transmissão era muito pequena, mal cabiam duas pessoas. A cadeira de rodas não passava pela porta e João ficou ali mesmo, calmo e responsável. Sentei e comecei a fazer anotações sobre a partida e os jogadores. Iríamos entrar no ar quando as equipes entrassem em campo. Sem qualquer motivo, meia hora antes do jogo, a vinheta anunciou o início da transmissão e nossa TV mostrava uma imagem parada do estádio, destacando uma arquibancada com a cobertura sustentada por pilares e vigas de ferro.

Fui falando até onde pude. Destaquei Popescu, Raducioiu, Hagi, N’Kono, Oman Biyk e Milla. João Saldanha, sentindo minha dificuldade, bateu generosamente em meu ombro e pediu a palavra. Por uns dez minutos, deu uma aula sobre a construção daquele estádio, lembrou que aqueles ferros eram trilhos da antiga estrada de ferro de Bari, falou dos italianos que ergueram as arquibancadas e da veneração que tinham por Mussolini etc. etc.

Eu estava pasmo pelo conhecimento dele e agradecido pela ajuda do grande amigo. Pelo fone, recebo a ordem de chamar um comercial. Aliviado, com ternura, disse ao João:

– Obrigado, amigo.

E ele, com um sorriso que lhe era difícil pela febre e pelas dores:

– Não precisa agradecer, eu inventei tudo isso!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O estádio dos desejos

Assim como no Brasil, o México tem um povo apaixonado pelo futebol. E um de seus grandes escritores, consagrado no país e pelo mundo, Juan Villoro, construiu uma história, classificada como literatura infanto-juvenil, mas que encanta a todos os tipos de leitores.

“O estádio dos desejos” (Editora Terceiro Nome) conta as peripécias do garoto Arturo, fanático por futebol, mas que nunca viu a seleção de seu país vencer um jogo. Para tentar reverter essa situação, Arturo recorre ao pai, um cientista, para tentar descobrir uma “fórmula mágica” para a vitória.

O livro teve a tradução de Eric Nepomuceno e ilustrações de Francisco França.

Apresentação

Juan Villoro é um dos maiores, senão o maior escritor mexicano da atualidade. Aliás, essa afirmação é fácil de confirmar: ele mede quase dois metros de altura.

Acontece que ele é também um dos maiores em todos os sentidos, e confirmar isso é igualmente fácil: basta ler o que ele escreve.

São romances, contos, ensaios, histórias infanto-juvenis e peças de teatro – e tudo que Villoro faz tem recebido a admiração e o carinho dos leitores, bem como elogios da crítica.

Alguns de seus livros, como o romance Arrecife e o infanto-juvenil O livro selvagem, já foram publicados no Brasil. Assim como eles, os romances Llamada de Amsterdam e El testigo, os contos de La noche navegable e Los culpables e o infanto-juvenil Cazadores de croquete, estão entre os mais bem-sucedidos da sua geração de autores latino-americanos.

Prestigiado e premiado, respeitado e reconhecido, agradece todas essas honras, educado que é.

Mas Villoro faz questão de ressaltar que, no fundo, no fundo, seu verdadeiro ofício é torcer apaixonadamente pelo Necaxa, um time da segunda divisão do futebol mexicano.

Muito mais que seu diploma de sociólogo, seu amplo e vasto trabalho jornalístico, sua trajetória consistente e variada, os dois grandes orgulhos de sua vida são torcer pelo Barcelona (seu pai, o grande filósofo Luis Villoro, nasceu na Catalunha e se exilou no México logo depois da Guerra Civil Espanhola), time ganhador, e pelo Necaxa, time perdedor.

Porque ele sabe que a vida é exatamente assim, feita de vitórias e derrotas. E que o importante é torcer, ou melhor, viver.

Enquanto vive e torce, Villoro escreve – para alegria de todos nós. Boa prova disso é esta  pequena joia chamada O estádio dos desejos.

Um estádio formidável
Por Juan Villoro

Arte: Chico França
No quarto de Arturo havia um globo terrestre. Antes de ir dormir, ele acariciava o globo e o fazia girar. Gostava do globo porque parecia uma bola de futebol.

Quando comia, quando tomava banho e quando dormia, Arturo imaginava gols possíveis e impossíveis. Seu pijama tinha o número 9 e as cores do Atlântida, seu time favorito.

Ficava fascinado quando ia com o pai ao estádio Atlântida, o maior e mais moderno da cidade, onde também jogava a seleção.

A arquibancada se enchia de gente enlouquecida e contente que pintava a cara e tocava tambores, cornetas e apitos num tremendo alvoroço. Cem mil gargantas gritavam quando alguém fazia um gol e cem mil narizes deixavam de respirar quando o juiz marcava um pênalti.

O estádio do Atlântida tinha uma cobertura prateada onde quatro falcões faziam ninho. Os ferozes falcões eram chamados de Pelé, Maradona, Di Stéfano e Pancho. Os três primeiros falcões tinham nomes de jogadores históricos; o quarto tinha o nome de um centroavante de que todo mundo gostava muito, mas que nunca tinha ganhado um campeonato.

Pancho era o camisa 9 do Atlântida e da seleção. No pátio do colégio, Arturo tentava imitar sua célebre jogada do cavalinho adormecido, ou seja, ficar quieto feito um cavalo que dorme de pé e arrematar a jogada com um chute de calcanhar, com a força de um corcel que dá um coice.
Pancho tinha dribles incríveis. Tinha passado a bola no meio das pernas do alemão Peter Kaspa, conhecido como Mel de Arsênico, tinha feito Ivo Tundaz, zagueiro húngaro conhecido como Gulash, o Terrível, dançar uma valsa, e tinha metido um gol de peixinho em Tito Granola, o goleiro argentino de formosa cabeleira que todo mundo chamava de Cabelinho de Anjo

Arte: Chico França
Infelizmente, a seleção precisava de mais do que isso para ganhar.

O querido Pancho era quem dava mais autógrafos e em todos fazia o desenho de um cavalinho com os olhos fechados. Era desconhecido no mundo, mas adorado no estádio Atlântida. E isso explicava o fato de um dos falcões levar seu nome.

O trabalho dos falcões, aves de rapina, consistia em afastar os intrusos. O estádio do Atlântida tinha grama de qualidade e sementes saborosas. Por isso, os pássaros gostavam de bicar o gramado, e volta e meia cruzavam o campo justo quando a bola zunia rumo ao gol. Para evitar esses choques, nos dias de jogo os falcões ficavam à espreita, lá em cima, assustando os pássaros gulosos e famintos.

Era fácil identificar os falcões: Pelé era negro; Maradona, gordo; Di Stéfano, careca; e Pancho, brincalhão (era o único que sabia voar de ponta-cabeça).

Arturo sonhava ser um grande centroavante. Era bom cabeceando, chutava bem com a perna direita e estava aprimorando seu toque com a canhota. Essas habilidades tinham feito dele o artilheiro da escola. Mesmo assim, seu pai dizia:

– Futebol, a gente joga com a mente.

O pai de Arturo era o doutor Jerónimo Gómez, um cientista especializado em magnetismo. Tinha fabricado uns ímãs famosos e, além disso, era conselheiro da seleção.

Antes das partidas, ele descia para o vestiário e dizia aos jogadores:

– Rapaziada gloriosa, o futebol é um esporte magnético: a bola chega para quem mais a deseja!

Os jogadores ficavam observando com olhos arregalados. Depois coçavam a cabeleira e esfregavam as tatuagens, sem entender direito o que aquele sábio dizia.

Nem sempre era fácil captar as ideias do doutor Gómez.  O filho Arturo tinha conseguido entender o seguinte: a Terra tem uns ímãs que atraem os metais, mas o magnetismo mais forte está no interior das pessoas.

– Se você se concentrar de verdade, as coisas vão chegar até você – dizia o pai de Arturo. – Como é que você acha que eu conquistei sua mãe?

Arturo gostava de uma menina chamada Sofia. Quando ela atravessava o pátio do colégio, podia sentir sua presença, mesmo se estivesse de costas ou concentrado numa jogada para garantir o domínio da bola.

– Existem pessoas cuja presença a gente percebe sem precisar olhar para elas – comentava o doutor Gómez.

Emocionado com suas próprias teorias, passava as mãos pela cabeleira e se despenteava ao afirmar:

– No Japão, os melhores arqueiros disparam suas flechas com os olhos fechados. O alvo é uma coisa que a gente sente. A pontaria está dentro da gente. Se você quiser alguma coisa, querendo com força você consegue. O magnetismo é a ciência da atração.

Será que era verdade o que o doutor Jerónimo Gómez dizia?

De noite, Arturo sonhava que estava em campo. Lá no fundo, via a bola. “Eu quero muito você”, pensava, e a bola rolava até seus pés, como um cachorro que volta para o seu dono.

Sobre o autor:
Juan Villoro nasceu em 1956 na Cidade do México e é um dos intelectuais latino-americanos mais ativos da atualidade. Sociólogo, jornalista, tradutor e professor universitário, já recebeu diversos prêmios por seu trabalho. Tem mais de trinta livros publicados em diversos gêneros, como romance, ensaio e teatro e escreve para revistas como Letras Libres e Etiqueta Negra, além dos jornais El País e Reforma. Assim como Arturo, o protagonista de O estádio dos desejos, Villoro é apaixonado por futebol. Torce pelo Barcelona (seu pai, o filósofo Luis Villoro, nasceu na Catalunha e se exilou no México depois da Guerra Civil Espanhola) e pelo Necaxa, time da segunda divisão do campeonato mexicano.



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Quem desloca tem preferência

Difíceis são as teses acadêmicas publicadas em livro que seduzam o leitor “comum”. O mineiro Marcelino Rodrigues da Silva tem esse dom. Para os estudiosos e pesquisadores do esporte (e também o leitor da literatura esportiva tradicional) seu novo livro “Quem desloca tem preferência: ensaios sobre futebol, jornalismo e literatura” (Relicário Edições) é leitura obrigatória.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo o texto de apresentação da obra e ainda um trecho de um dos capítulos, gentilmente cedidos pelo autor e editora.

Apresentação
Por Pedro Henrique Trindade Kalil

A importância do futebol para o Brasil é inversamente proporcional à quantidade de estudos dedicados a esse esporte, considerado, tanto por nós quanto pelos estrangeiros, um dos pilares da identidade brasileira. Desde que Charles Miller importou o futebol da Inglaterra para o Brasil, no final do século XIX, o jogo tomou uma proporção na sociedade que não condiz com o espaço que pesquisadores, artistas e escritores dedicaram ao esporte. O mesmo pode ser dito a respeito de diversas manifestações populares e da cultura de massa que não encontram no meio acadêmico-artístico-cultural sua tradução.

Esse cenário, entretanto, começou a mudar nos últimos anos, quando diversas publicações e estudos, além de manifestações artístico-culturais, passaram a dar atenção para essas áreas tantas vezes negligenciadas. As razões para essa omissão são várias e, talvez, a mais difundida seja a máxima “o futebol é o ópio do povo”, que exprime a opinião daqueles que percebem no esporte bretão não mais do que uma “fuga da realidade” e dos “problemas de verdade”.

O combate a esse posicionamento pode ser visto como a preleção deste belo livro de Marcelino. Quem desloca tem preferência faz um drible no senso comum sobre a história e a importância do futebol na sociedade brasileira. O que temos aqui não é uma simples narrativa histórica do futebol ou mesmo uma análise que vai de encontro a opiniões tão difundidas no imaginário intelectual, mas a complexificação do fenômeno futebolístico em nosso país – e isso é uma primeira importância deste livro.

As contradições e os paradoxos dos objetos, que muitas vezes tentam ser escamoteados nos trabalhos teóricos, são aqui ressaltados para que se examine a fundo várias facetas dos discursos futebolísticos. É como se Marcelino perseguisse a máxima de Mikhail Bakhtin, quando esse teórico russo afirma que “em todo signo ideológico confrontam-se índices de valor contraditórios”. Marcelino não é um goleiro com medo diante do pênalti – recorrendo ao nome do filme de Wim Wenders –, mas aquele que sabe que, quando se aventura a analisar um jogo que ocorre entre quatro linhas, tudo pode acontecer. Nesse sentido, o livro irradia a própria magia do futebol por abordar algumas das possibilidades infinitas que esse esporte oferece.

O esquema tático do livro foi montado em quatro blocos que, obviamente, são intercambiáveis e dialogam intensamente entre si. Enfim, é uma tentativa de fazer com que o time jogue sem buracos em campo, um esquema em que o goleiro liga o jogo até o ataque, passando pela defesa e pelo meio de campo. A primeira parte, “Um jogo é um jogo é um jogo”, trata de questões do futebol brasileiro de maneira geral, perpassando por ligações entre o futebol, as letras e as artes, o futebol e o Modernismo, futebol e identidade, futebol e sua memória. Marcelino descontrói, nesse conjunto de textos, velhos preconceitos e ideias mofadas para ventilar uma nova abordagem sobre esse jogo, que se mostra, especialmente no nosso país, mais do que uma simples disputa entre duas equipes.

Na segunda parte, “Jogando em casa”, a atenção se volta para a cidade de Belo Horizonte, onde a rivalidade entre o Atlético Mineiro e o Cruzeiro se torna o eixo para se discutir as diversas ideias modernizantes do Brasil, a construção identitária da capital mineira e a elaboração da memória inventada das duas torcidas. Esse último ponto pode ser apreendido através do trabalho de Mangabeira, que criou as mascotes não só dos times de Belo Horizonte, mas também de Minas Gerais. A publicação deles, principalmente no jornal Estado de Minas, ao passo que se baseou nos ideais de cada clube e sua torcida, construiu também sua própria caracterização.

Mário Filho
Essa importância dos jornais para a construção da ideia de futebol no Brasil, pois, é o foco da terceira parte, “Mesa redonda”. Nela, Marcelino exibe um panorama de como os jornais cariocas, em especial a figura ímpar de Mário Filho, ajudaram a construir a ideia de futebol no Brasil. Aqui, discute-se também a relação entre o torcedor, o jornal, a televisão, o rádio e a literatura, dinamizando os discursos que permeiam esse esporte. A última parte, “Outros campos”, deixa transparecer, ainda mais, os diversos fios que ligam o esporte a outros campos da nossa vida. O cinema, a literatura e até outros esportes, como o surf, aparecem para que se fomente a ideia de que o futebol é, também, uma construção discursiva.

A fluidez da escrita do autor é outro ponto para conquistar a torcida, até mesmo a adversária.

É raro ver um trabalho acadêmico no qual é empregada uma linguagem tão acessível e envolvente, sem prejudicar em nada o conteúdo, como é o caso deste. A trama articulada por meio das palavras desenvolve aquela atração presente em todos os grandes clássicos.

A partir dessa escrita, a coerência entre os diversos textos aqui apresentados também merece destaque. Poucas vezes é possível ver um time jogando com a consistência que encontramos aqui. Quer se fale da história de Pieruccetti, quer se fale dos arquivos construídos a partir das imagens dos negros nos jornais, Marcelino parte para o ataque com a convicção de muitos dos nossos maiores goleadores. É um gol atrás do outro, fazendo com que este livro já tenha o espírito vencedor daqueles que ousam ver além do que já é reconhecido.

Ao vivo e em cores: 
a experiência midiática do esporte
Por Marcelino Rodrigues da Silva

(...)

Nos dias de hoje, embora o hábito de acompanhar o futebol pelo rádio não tenha sido abandonado, boa parte do espaço que era ocupado por essa mídia na vida esportiva da multidão de futebolistas foi tomado pela televisão. O futebol se tornou um programa de TV e o campo perceptivo por meio do qual ele é experimentado voltou a ser o visual. Devemos nos perguntar, então, se isso não terá trazido de volta o “esporte ao quadrado”. Pois, a princípio, poderíamos pensar que a mediação da câmera de televisão é menos sujeita a distorções e apenas reproduz a experiência do torcedor que vai ao campo.

Se o ouvinte de rádio, para aceitar a informação que recebe, precisa de um pacto de confiança com o locutor e sabe que esse pacto pode ser rompido, para o espectador de TV não se trata de ter fé em algo que alguém lhe diz, mas de acreditar em seus próprios olhos. Mas, será realmente neutra e livre da trucagem a mediação do futebol pela televisão? Podemos realmente confiar em nossos olhos?

Para responder a essas perguntas, consideremos inicialmente as transmissões “ao vivo”, em que o espetáculo esportivo é levado ao espectador em sua totalidade e em “tempo real”, com o auxílio dos satélites e redes retransmissoras. Embora a impressão seja a de que a imagem que chega ao espectador é bastante confiável, dando a ele uma percepção bem próxima à do torcedor que vai ao campo, não é exatamente isso o que acontece. Marcel Pagnol, citado por Paul Virilio no livro Guerra e cinema, mostra que a perspectiva da câmera é, na verdade, uma redução da multiplicidade de pontos de vista sob os quais um acontecimento pode ser observado:

Em um teatro, mil espectadores não podem sentar-se no mesmo lugar e logo podemos afirmar que nenhum dentre eles assistirá à mesma peça. (...) O cinema resolve este problema, pois o que cada espectador vê, onde quer que ele esteja sentado na sala, (...) é exatamente a imagem que a câmera focalizou. (...) Não mais existem mil espectadores (ou milhões, se juntarmos todas as salas), agora existe não mais de um único espectador, que vê e escuta exatamente o que a câmera e o microfone registram. (apud Virilio, 1993)

A perspectiva única da câmera é, portanto, uma redução dos diferentes ângulos e possibilidades que o torcedor teria se estivesse no estádio. Certas nuances do jogo estão inevitavelmente fora de seu alcance: a disposição tática dos atletas por todo o campo, os movimentos sem bola de jogadores que participam da jogada fora de seu enquadramento, os detalhes que um determinado ângulo de observação permite enxergar e que outro não permite etc. Sem falar nos momentos em que a câmera ou o editor de imagens se perdem e não conseguem acompanhar a jogada. Na tentativa de superar essas limitações, as estações de televisão se entregam a esforços que beiram o delírio tecnológico dos filmes de ficção científica: várias câmeras posicionadas em diversos ângulos, microfones próximos ao gramado, replays, câmeras sobre trilhos ao longo do campo, imagens computadorizadas que verificam matematicamente a velocidade da bola, congelamento da imagem no momento do lançamento para apurar se o jogador se encontra em posição de impedimento... Mas o que todo esse aparato tecnológico faz é instaurar um excesso de luz cujo efeito pode ser o de uma cegueira, uma “obscenidade” de imagens que, por vezes, mais confunde do que esclarece.
É o que acontece naqueles intermináveis debates, em que os comentaristas discutem se a decisão do juiz foi ou não correta, repetindo as imagens do lance diversas vezes e chegando a um veredicto que, para espanto do espectador, é exatamente o contrário do que as câmeras mostram.

Assim, as transmissões “ao vivo”, embora aparentem ser fidedignas e capazes de oferecer uma visão mais aguda e completa dos acontecimentos, podem também ser traiçoeiras.

Mas, a princípio, a trucagem, a distorção e a desinformação parecem estar descartadas e os juízos, opiniões e impressões dos narradores e comentaristas estão sempre sujeitos a serem checados e rejeitados pelo espectador, em função daquilo que seu olho vê.

Entretanto, se verificarmos estatisticamente que tipo de programação esportiva predomina na televisão e em quais programas os telespectadores colhem suas informações sobre o esporte, perceberemos que as transmissões “ao vivo” ocupam bem menos espaço do que a variedade de outros formatos. São os “gols da rodada”, os “compactos”, as entrevistas, as mesas redondas, os informativos esportivos e os quadros humorísticos que predominam e oferecem aos aficionados a oportunidade de vivenciar o futebol. Se mesmo nas transmissões “ao vivo” a fruição do esporte se afasta daquela experiência que Umberto Eco definiu como o “esporte ao quadrado”, nesses outros tipos de programa esse distanciamento é muito mais evidente.

Vejamos, por exemplo, o caso dos “compactos”, que reúnem os “melhores lances” de um jogo para possibilitar ao telespectador uma visão geral de seus acontecimentos mais importantes. Aqui, além de todos os artifícios tecnológicos utilizados nas transmissões “ao vivo”, somam-se nada menos do que os recursos de corte e montagem. Citando Orson Welles, Paul Virilio (1993) nos lembra de que “a montagem é o único momento em que se pode exercer um controle absoluto sobre o filme”. Em outra passagem de seu livro, o filósofo informa que durante a Segunda Guerra Mundial realizaram-se, a mando de Hitler, “filmes baseados exclusivamente em documentários jornalísticos absolutamente autênticos” destinados a “aterrorizar os espectadores estrangeiros e forçá-los a reconhecer a superioridade do exército alemão”.

Recortadas, montadas e sublinhadas pela narração, essas imagens deveriam “projetar sobre o espectador seu ritmo vibrante de um grande acontecimento histórico”.

Se considerarmos que o esporte é, assim como a guerra, um campo essencialmente agonístico, que quase sempre envolve o público em um dos lados da competição, e que os recursos utilizados na montagem dos “melhores momentos” são rigorosamente os mesmos, veremos que os procedimentos descritos por Virilio podem e efetivamente são utilizados na produção dos “compactos”. E que a função supostamente informativa desses programas pode muito bem se transmutar em trucagem, distorção e desinformação. O mesmo vale para os outros tipos de programa sobre o esporte, como os “gols da rodada”, os informativos, as entrevistas e as mesas redondas, em que a seleção e a montagem são apenas alguns dos recursos que podem estar a serviço da desinformação e da imposição de uma determinada interpretação dos fatos. E essa interpretação estará sempre inserida no contexto agonístico do esporte, em que proliferam inevitavelmente os interesses e objetivos estratégicos.

Assim, a grande transformação que a televisão produz no intrincado fenômeno do espetáculo esportivo não é trazer de volta a experiência do “esporte ao quadrado”, mas sim levar ao extremo aquele afastamento midiático já operado pelas transmissões radiofônicas, porém, com uma diferença: a televisão cria uma ilusão de realidade, pois o espectador julga estar vendo os acontecimentos com seus próprios olhos, quando, na verdade, os vê por meio do olho autoritário da câmera e do tratamento interpretativo de quem a dirige. Isso faz com que ele se torne mais passivo, menos co-participante, pois ele não sente que tem que reinterpretar a informação que recebe. O futebol, através da mediação autoritária da televisão, torna-se uma realidade cada vez mais distante, infinitamente distante, até se converter em um mundo constituído exclusivamente por imagens. Transformado em um universo de imagens pela TV, ele é a aberração do que Umberto Eco chamou de “esporte elevado à enésima potência”.

O esporte atual é essencialmente um discurso sobre a imprensa esportiva: para além de três diafragmas está o esporte praticado, que no limite poderia não existir. Se por uma diabólica maquinação do governo mexicano e do senador Brundage, aliados com as cadeias de televisão do mundo inteiro, as Olimpíadas não acontecessem, mas fossem contadas dia a dia e de hora em hora com imagens fictícias, nada mudaria no sistema esportivo internacional, nem os que falam de esporte se sentiriam logrados. (Eco, 1984, p. 223-224)

Sobre o autor:
Marcelino Rodrigues da Silva é doutor em Literatura Comparada e professor da Faculdade de Letras da UFMG. Publicou diversos trabalhos sobre o futebol em Belo Horizonte e no Brasil, entre eles o livro Mil e uma noites de futebol: o Brasil moderno de Mário Filho (Editora UFMG, 2006). É pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FULIA) e do Centro de Estudos Literários e Culturais – Acervo de Escritores Mineiros (CELC-AEM).

domingo, 4 de janeiro de 2015

Empate

Ainda são poucos, mas lentamente autores brasileiros começam a explorar o gênero romance na literatura esportiva. A conquista do prestigiado prêmio Portugal Telecom 2013, com o livro “O Drible” (Companhia das Letras), de Sérgio Rodrigues, talvez estimule muitos escritores a explorar a ficção no universo do futebol brasileiro.

É o que fez o mineiro Vinícius Neves Mariano com o seu “Empate”, livro de estreia do escritor, mas que ainda depende de um “pequeno empurrão” para se tornar “realidade”. É que a editora responsável pela publicação, a Simonsen, construiu uma bela campanha de financiamento coletivo para a obra. Você pode participar acessando o link a seguir:

Mais do que recomendar, Literatura na Arquibancada agradece ao autor, Vinícius Neves Mariano e ao editor Rodrigo Simonsen pelo envio de um vídeo especial para os leitores deste blog. 

Ficamos honrados: http://youtu.be/HG_0nLbNoMo

Abaixo, você confere a sinopse da obra e ainda trecho do primeiro capítulo de “Empate”.









Sinopse (da editora)

Um homem traumatizado pela II Guerra Mundial almeja se vingar do Brasil. E a derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo jogada em casa é o golpe perfeito para sua desforra. Assim é apresentado o protagonista de Empate, livro de estreia do autor Vinícius Neves Mariano que será lançado pela Editora Simonsen.

O romance histórico tem início quando o protagonista, sem resistir à superlotação do Maracanã naquela tarde de 1950, cai dentro do fosso que separa as arquibancadas do campo. Com ele cai também outro homem, de personalidade completamente oposta. Juntos eles terão que imaginar o momento histórico que está acontecendo a poucos metros de suas cabeças.

“É um livro de vingança. Tudo o que Aureliano, o protagonista, quer é que o Brasil sofra um golpe tão duro quanto o que ele levou. Mas como toda boa trama de vingança, esta também é uma história de redenção.”, afirma Vinícius Neves Mariano, autor da obra.

“Empate” é um livro que você assiste. Isso porque a linguagem escolhida pelo autor para contar essa história é bastante visual. “Em alguns momentos, você deixa de ler e passa a enxergar as cenas”, complementa o autor, que também é roteirista. Apesar de esta ser uma das principais características de “Empate”, em inúmeros momentos o autor também recorre a lirismos sensíveis e profundos, como no trecho em que descreve o clima que imperava no Maracanã naquela tarde:

“Os nomes de Zizinho, Ademir e Jair sambavam em profecias despudoradas. Gritos jogavam gols para cima como quem joga confetes no salão. O burburinho alegre embriagava qualquer um de esperanças. Estavam todos convencidos de que o jogo seria uma formalidade; o título era uma flor que certamente desabrocharia depois dos noventa minutos desnecessariamente obrigatórios.”

Foi essa combinação de linguagens que chamou a atenção da editora:
“É um livro cinematográfico. O trabalho de reconstrução do estádio tem detalhes tão nítidos e vivos que podem ser acompanhados por uma câmera. Mas, ao mesmo tempo, tudo é descrito com o viés traumatizado de um personagem.”, confirma Rodrigo Simonsen, editor do livro.

Para conseguir tal nível de detalhes da época, Vinícius pesquisou livros e sites especializados, além é claro, de saber minuto a minuto do que acontece em campo naquele dia. 

“Foram meses de pesquisa intensa. Hoje sinto que visitei o Rio de Janeiro de 1950. 

Sou uma daquelas 200 mil pessoas que assistiram a esse jogo”, conta o autor.

Empate será lançado via financiamento coletivo, uma estratégia escolhida pela editora para reduzir os riscos. 

Segundo Rodrigo Simonsen, “o financiamento coletivo é um caminho mais seguro para publicar novos talentos”.




Capítulo 1

Quando os portões de ferro foram abertos, às oito da manhã, o estádio foi inundado por uma multidão disforme. Derramaram-se pelos corredores mais de duzentas mil pessoas. A mancha humana escorreu das rampas de acesso para as arquibancadas. Antes mesmo do meio-dia, o Stadium Municipal do Rio de Janeiro já estava transbordando.

Aureliano parou diante da rampa de acesso e tirou a carteira de cigarros do bolso esquerdo do paletó cigarros no esquerdo, chaves no direito. Desejou que fosse um Yolanda. A mulher loira da embalagem amarela, de lábios formosos e pescoço delgado, foi sua companhia feminina mais fiel nos campos de batalha. Yolanda. Cabelos cacheados, sobrancelhas grossas e a inscrição “Cia de Cigarros Souza Cruz” logo abaixo, que impedia a fantasia de ir longe demais. Yolanda. Acendeu pensando sobre quão patético era sentir saudade de uma embalagem de cigarro. Que bom que era um Continental.

O fumo queimou em um laranja vivo e um fio de fumaça dançou provocante diante de seu rosto indiferente. Por trás da pequena cortina branca que se desfazia frustrada, revelou-se o olhar apertado de um Aureliano completamente tomado pelo tamanho da construção. “O maior do mundo”, como chamavam-no com pretensão e orgulho pelas ruas, parecia ser capaz de guardar o próprio mundo em si. Um ano antes havia lido por aí que Jules Rimet comparava as obras do estádio à construção do Coliseu, na Itália, “pela majestade de sua concepção arquitetônica”, ou qualquer exagero do tipo. Na época, descartou o delírio senil. Hoje, contudo, Aureliano compreendeu o que o velho havia sentido.

O Stadium Municipal impunha-se onde antes era o Derby Club, uma área imensa, descampada e verde. Aureliano cresceu ali perto, na Vila Isabel. Quando menino, costumava ir com os amigos até a região para pescar no Rio Maracanã. Pescar não era sua brincadeira favorita, mas sempre que voltava para casa com o puçá cheio, a mãe ficava feliz. Ela segurava seu rosto e armava um beijo enorme, fazendo um bico que parecia a boca de um peixe. Aureliano achava graça nisso. Levava um peixe para a mãe e a mãe empeixava.

Agora o Rio Maracanã estava canalizado e o estádio se agigantava sobre as residências assustadas do bairro. O entorno era só entulho. A construção parecia ter brotado da terra, rasgando o solo em ferimentos ainda expostos. O verde de outrora virou cinzas. Na falta de cores, lembrou-se de ler nas páginas rosas do Jornal dos Sports a campanha incessante de Mário Filho em prol daquela construção: “O Rio de Janeiro precisa de um estádio à sua altura”, argumentava o jornalista. Aureliano se questionou, diante da grandiosidade da obra que tomava sua vista, se o Rio de Janeiro, ou o Brasil, estavam à altura daquele estádio. Tinha como certo que não.

Aureliano deu uma última tragada em seu cigarro e o atirou no chão. Eram quinze para as oito da manhã. Um homem que passava por ele se abaixou, apanhou o cigarro e fumou, sem nem olhar para seu antigo dono. Ainda parado, Aureliano observou a cena enquanto soltava a fumaça do último trago pelo nariz. O homem andava apressado; nem os esbarrões em outras pessoas o faziam diminuir o passo. Aureliano o seguiu com os olhos só assim podia seguir alguém tão ligeiro, e entendeu que até a bituca do seu cigarro entraria no campo primeiro que ele.

Havia chegado cedo ao estádio porque sabia que teria dificuldade para subir a rampa. A perna direita era um peso que arrastava em descompasso fazia cinco anos; já estava acostumado a compensar a falta de agilidade com tempo. Para um jogo que começaria às três da tarde, chegar às oito era garantia de um bom lugar mesmo para um aleijado como ele.

Perdeu de vista o homem que levara seu cigarro e voltou a si. Se queria ser testemunha da vingança que tanto desejava, teria que encarar aquela subida. Com a perna esquerda, deu o primeiro passo em direção aos portões de entrada. Atrasada e fraca, vinha a direita, desritmada, no contratempo do que lhe era natural. Era este seu compasso: esquerda e direita politicamente desencontradas. Aureliano havia sido forjado em um homem cujo até o andar é conflituoso.

Pouco depois da metade da rampa, parou atrás da multidão aglomerada ante ao portão de ferro trancado. A perna manca já começava a sentir o esforço; Aureliano se curvou para massagear a coxa dolorida. Seus sapatos pretos já tão desgastados agora estavam sujos com a poeira das obras inacabadas do estádio. Não eram só os seus. Todos ao seu redor tinham as calças e os sapatos empoeirados. A poeira os fazia iguais. Era parte da massa, como um rebanho marcado pela imundice. Maldito Ary Barroso. Ele era um dos culpados. Tinha que continuar é compondo música e não fazendo política. Conseguiu apoio quase irrestrito da população em uma discussão com Carlos Lacerda sobre a relevância da obra para o país. Encomendou uma pesquisa que revelou que o mesmo povo que hoje sobe a rampa se sujando de terra porque essa monstruosidade não ficou pronta a tempo estava até disposto “a arcar com algum sacrifício” para que o maior estádio do mundo fosse erguido no Rio de Janeiro. Aureliano lembra-se de ter rido quando leu sobre isso nos jornais. O que essa gente sabe sobre sacrifício? Maldito Ary Barroso. Maldita Aquarela ufanista.(...)

Sobre o autor:
Vinícius Neves Mariano é publicitário, roteirista e agora escritor. Trabalhou por anos como redator em algumas das principais agências de publicidade do país antes de se especializar em
roteiro para cinema e televisão. Como roteirista, além de outros trabalhos, foi co-criador de Várzea, série de TV lançada em 2014.