terça-feira, 22 de abril de 2014

Gol!: Todo sonho tem um começo

A literatura esportiva brasileira, definitivamente, não segue as regras do mercado editorial dito “geral”. Além de pouco expor títulos lançados (também em baixo número) em lugares “nobres” nas livrarias (normalmente, estão todos “escondidos”, em seções que às vezes nem mesmo os vendedores da loja sabem identificar), a regra de dar prioridade às traduções e publicações de títulos internacionais corre longe quando o livro trata do tema futebol.

Por essa razão pouco ou quase nada se vê ou se lê do que é publicado em outros países, onde o futebol (e isso ocorre em quase todo o planeta) é tratado também como paixão popular.

E quando o gênero é o romance, quase impossível imaginar um título traduzido no Brasil. Quase, porque alguns poucos títulos já foram lançados no país. Um deles recebeu o título “Gol!” (Editora Record), de Robert Rigby, igual ao do filme dirigido por Danny Cannon, diretor de CSI, Eu sei o que vocês fizeram no verão passado e O juiz, estrelado pelo ator mexicano Kuno Becker, além da participação especial de astros do futebol, como David Beckham, Alan Shearer e Zinédine Zidane.

O livro já ganhou a segunda versão, “Gol II – Vivendo o sonho”. A prometida terceira versão, ainda não foi publicada no Brasil, mas já foi produzida. A história de Gol! é simples, pois retrata o sonho e a imaginação de crianças e jovens do mundo inteiro: jogar futebol e ser famoso como Ronaldinho ou Beckham. Em GOL!, leitores e fãs do esporte serão apresentados a um desses meninos, Santiago Muñez, um jovem mexicano que tem apenas um sonho na vida: ser um astro do futebol.

Você pode também assistir as duas versões (completas e dubladas) já produzidas sobre "Gol!", no final deste post.

Sinopse (da Editora):

“Quando a família Muñez decide deixar o México e cruzar ilegalmente a fronteira dos Estados Unidos em busca do sonho americano de uma vida melhor, Santiago, um menino de 10 anos, só tem tempo de recolher seus bens mais preciosos: uma foto antiga da Copa do Mundo e uma bola de futebol. Apaixonado pelo esporte mais popular do planeta, Santiago tem o sonho de, um dia, tornar-se jogador profissional.

A vida nos Estados Unidos é muito difícil, mas Santiago não desiste de sua paixão: durante o dia trabalha duro com o pai, cuidando de jardins de mansões, e quase todas as noites joga no Americanitos, um time amador de Los Angeles. Apesar do time não ter qualquer futuro, Santiago se empenha em todas as partidas e continua a sonhar com o dia em que poderá tornar o futebol sua profissão. Talento ele tem de sobra; a maior dificuldade é a falta de apoio do pai, que não acredita que ele possa conseguir seu objetivo.

Tudo começa a mudar quando Glen Foy, um ex-jogador britânico e descobridor de novos talentos, vê Santiago atuando em uma das partidas do Americanitos. Ele logo percebe que o jovem, além de um craque, é o tipo de jogador que o Newcastle United, time da primeira divisão inglesa, está procurando.

Sem pensar duas vezes, e contra a vontade do pai, Santiago parte para a Inglaterra em buscar de seu sonho. Lá, ele precisa provar que não apenas tem talento, mas que conseguirá se destacar no duro futebol inglês entre tantos outros novos jogadores e, assim, obter um contrato. O frio, o campo molhado, as faltas duras, a rapidez de alguns companheiros, a saudade de casa, as tentações da vida de um astro internacional do futebol são alguns dos desafios que irá encontrar em seu caminho até o gol...

Escrito por Robert Rigby, Gol! É o romance oficial do filme, dirigido por Danny Cannon, com o ator mexicano Kuno Becker no papel principal e a participação especial de astros do futebol internacional. Estão previstas duas continuações, tanto do filme quanto do livro, acompanhando a transferência de Santiago para um importante clube europeu e, depois, seu triunfo na Copa do Mundo de 2006”.

Todo sonho tem um começo...

Um

Agora a vida era melhor. Santiago relaxou o corpo magro e tonificado de costas na espreguiçadeira da piscina e olhou por sobre a água límpida e brilhante.

Ajeitou um pouco os óculos de aviador enquanto a luz solar da tarde descia de um céu azul e claro. Até o crucifixo em seu pescoço estava quente em contato com a pele morena.

Tudo em volta era luxo – o puro luxo do sul da Califórnia. Palmeiras ondulavam levemente na brisa quente e suave e os aspersores de água brincavam no gramado bem-cuidado, formando pequenos arco-íris quando as gotas pegavam a luz do sol. Para além da piscina, degraus levavam a um amplo terraço e além dele se esparramava a própria mansão.

Santiago viu de relance a tatuagem asteca que usava orgulhosamente na face interna do antebraço e seus pensamentos vagaram para o passado. Para antes. Para dez anos atrás...

***

Ele se vê, um menino de dez anos de idade, fascinando os companheiros de time em um jogo de futebol num pedaço poeirento de um terreno baldio no bairro mais pobre de uma cidade mexicana assolada pela miséria.

Perto do campo improvisado, barracos de zinco assentam-se entre prédios de apartamentos superlotados, com as paredes cobertas de grafites coloridos. Valas negras se estendem entre os barracos e o jogo de futebol das crianças é acompanhado de uma mistura sonora de salsa, gritos, choro de bebês e do rugir do trânsito.

Mas os meninos estão alheios a tudo isso. A única coisa em que pensam enquanto correm na terra é em seu jogo.

Santiago não tem rival. Mata a bola no peito, deixa que desça ao joelho e ao peito do pé e, em um movimento fluido, dribla outra criança e enfia a bola com habilidade entre os dois engradados de cerveja que servem de traves.

E depois a lembrança e o quadro mudam, como uma televisão passando de um canal a outro.

Santiago está dormindo. Sente-se sacudido e abre os olhos. Seu pai, Herman, o olha de cima.

- Pegue suas coisas, Santiago.

O menino sai da cama com dificuldade, esfregando o sono dos olhos. A avó, Mercedes, está tirando seu irmão bebê, Júlio, do berço.

- Rápido, Santiago.

O atordoado garoto de dez anos pega a foto da Copa do Mundo, que tinha recortado há tempos de uma revista velha, e procura embaixo da cama pela única posse verdadeiramente estimada: a bola de futebol.

O quadro mental muda novamente, avançando para o interior de um caminhão amassado que sacoleja na completa escuridão. Santiago e a família viajam em silêncio. Outra família e vários jovens também estão espremidos no velho caminhão. Todos entregaram os dólares necessários para esta viagem só de ida.

Um bebê começa a chorar. Um fósforo brilha quando um rapaz acende um cigarro e, naquela luz súbita, só o que Santiago vê são rostos assustados. Ele aperta ainda mais a bola.

Quando o caminhão para, os viajantes cansados saltam para a estrada de terra e, à medida que o veículo se afasta rugindo e ofegando, recebem a ordem de seguir os dois guias por um labirinto de cacto e Artemísia.

Chegam à fronteira. Holofotes, armados em uma viatura da polícia de fronteira americana, ceifam a escuridão. Os imigrantes ilegais sobem correndo um aclive em direção a um buraco aberto na cerca de dois metros e meio.

Assim que chegam ao buraco, a bola de Santiago escorrega de suas mãos. Quica para longe, descendo o barranco. Ele se vira para pegá-la, mas o pai lhe agarra o braço.

- Esqueça, é só uma bola idiota – sibila ele.

Santiago tem um último vislumbre fugaz de sua amada bola antes de ser empurrado pela brecha na cerca e ouvir a ordem do pai:

- Corre! Corre! Corre!

                                                                              *

Dez anos atrás. Quanto tempo.

Santiago olhou a tatuagem mais uma vez e suspirou. Ouviu passos, mas antes de conseguir se virar para ver quem estava se aproximando, uma pesada mão acertou, com força, a parte de trás da sua cabeça.

- Sai daí. Quer que a gente perca esse emprego? Tem folha para varrer na entrada de carros. Vai pegar a vassoura.


                                                                               Filme completo - 1ª versão 

Santiago não disse nada. Simplesmente se levantou, pegou a camiseta e deu de ombros enquanto se afastava para acatar as ordens do pai.

Sem dúvida agora a vida era melhor. Mas não muito.


                                                                 Filme completo - 2ª edição.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Quando o futebol não é apenas um jogo



Há alguns anos o jovem torcedor brasileiro talvez cansado com a falta de qualidade e de ídolos em seus clubes de coração, passaram a entender e a acompanhar muito mais de perto o dia a dia dos grandes clubes europeus. É claro que, sem as transmissões desses respectivos campeonatos em canais fechados de TV, dificilmente essa nova leva de torcedores não existiria.

Mas só isso não basta para tentar entender mais sobre esse fenômeno. Por essas e outras razões, a editora Via Escrita reuniu em um livro diversas crônicas escritas pelo jornalista Gustavo Hofman, conhecedor como poucos da história do futebol jogado em outros países.

Em, "Quando o futebol não é apenas um jogo", você verá que, tanto aqui como lá, o futebol não é só dinheiro e glamour. E que nos grandes clubes espalhados pelo “planeta futebol”, muito além das quatro linhas, existem histórias incríveis.

Sinopse (da editora):

Quem vê, hoje em dia, em qualquer canto do mundo garotos desfilando com a camisa do Cristiano Ronaldo, Messi ou do Neymar – a do Barcelona, diga-se de passagem – pode até pensar que o futebol se resume a saber a escalação dos principais times da Liga dos Campeões.

Ledo engano. Primeiro, é preciso ter claro que o futebol é uma arte. E, como arte, deve ser reverenciada por quem o aprecia. Ainda mais em se tratando de um esporte em que cada um de nós assume sua porção de técnico e, muitas vezes, de jogador.

Estamos falando de uma paixão. E só quem tem dedicação e zelo é capaz de manter essa chama acesa, sempre procurando descobrir novos encantos, novas nuances, que nos permitam continuar apaixonados.

Além de arte, futebol é cultura. E Gustavo Hofman, como poucos, nos brinda com isso e muitas curiosidades, ao transformar em belas crônicas as viagens realizadas por Liechtenstein, Bósnia, Áustria, Croácia... Em resumo, ele mostra que o mundo do futebol vai muito além do que conhecemos e sabemos.

Prefácio
Por Celso Unzelte

Gustavo Hofman
Jornalista. Sempre à procura de boas histórias. É assim — e também como “pai do Victor”, “ex-jogador de basquete na base” e “comentarista dos canais ESPN” — que Gustavo Hofman se autodefine em sua conta no twitter. Onde, aliás, costuma driblar inteligentemente a exiguidade dos 140 caracteres remetendo os seguidores para seu blog por intermédio de links, só para poder contar melhor essas histórias que tanto procura.

Isso é “modéstia à parte” do Gustavo, como diria o meu velho amigo Lemyr Martins, histórico repórter da Placar dos anos 70 e outro grande contador de histórias esportivas, parafraseando o “causo” do jogador de futebol que não tinha a mínima ideia do que a expressão “modéstia à parte” significava, mas mesmo assim gostava de usá-la como sinônimo de modéstia. Outra história daquelas que, tenho certeza, o próprio Gustavo Hofman gostaria de contar. Mas, nesse caso (ou nesse “causo”), é modéstia do Gustavo, mesmo — embora não seja “à parte”, como queria o cracão não identificado dos anos 70.

É modéstia porque, tanto aqui quanto em suas tribunas eletrônicas e virtuais, Gustavo Hofman não se limita a procurar (e a colher) histórias, como escreveu lá no seu perfil no twitter. Ele faz muito mais do que isso. Conta-as com a graça e a leveza exigidas desde sempre, aliando-as às necessidades, principalmente as mais imediatas, desses tempos, de globalização, da Era da Informação, que estamos vivendo.

Por isso, quando o Gustavo me falou da intenção de reunir esse material em livro, vibrei. Primeiro, como leitor assíduo dessas histórias que ele costuma caçar para nós. Depois, porque tinha certeza de que o livro ia sair do jeito que saiu: despido de qualquer preconceito.

O autor gosta tanto do futebol, mas principalmente de tudo que esse esporte inspira e pode representar, que, para ele, um fato acontecido em uma final da Liga dos Campeões merece a mesma atenção de outro ocorrido “no mais remoto local”, só para eleger outra de suas expressões típicas.               

Do time galês cujo nome se escreve utilizando 58 letras, das quais 40 são consoantes e eu não me atreverei a tentar reproduzir aqui, ao clube sueco que representa a Assíria, povo que não tem território mas tem seu time de futebol, Gustavo passeia com desenvoltura da semântica à geografia, da política à produção de cerveja. Evoca jogos infanto-juvenis como War, detalha o dia a dia de um técnico brasileiro no comando da Líbia em plena revolução. Consegue ser, enfim, universal. Como é o próprio futebol, matéria prima deste livro e da própria vida.     

APRESENTAÇÃO
Por Gustavo Hofman

Nunca vi o futebol apenas como um jogo. Até mesmo por experiência própria. Afinal, por tudo que já sofri com esse esporte ele não pode ser apenas um jogo onde um time quer vencer o outro marcando mais gols. Se fosse tão simples assim, tão banal, como explicar a paixão de milhões e milhões de torcedores espalhados pelo mundo por um grupo de jogadores correndo com a mesma camiseta, pela qual você é capaz de gastar, muitas vezes, o dinheiro que não tem para comprá-la? Simplesmente porque o futebol extrapola todas as barreiras meramente esportivas.

E essa ligação com o futebol transcende em diversos casos o relacionamento afetivo pela coletividade esportiva. Ou seja, não se restringe ao fato de você ter escolhido um time para torcer por motivos geográficos ou familiares.

O futebol, através de uma equipe, pode representar uma pátria sem terra; mostrar ao mundo o sofrimento de um povo; explicar com outros olhos uma guerra; traduzir a indignação de uma torcida; exemplificar paixões; traduzir geopolíticas; trazer a economia mundial para uma roda de bar; ou simplesmente contar uma história curiosa.

Tudo isso é possível através dessa invenção espetacular chamada futebol, o esporte mais popular do planeta.

O mundo do futebol não é feito apenas de Liga dos Campeões, salários milionários e histórias cheias de glamour e fama. Ele é, acima de tudo, composto por histórias de superação, curiosidades e fatos históricos que mostram como o jogo, muitas vezes, é apenas um detalhe. Em diversos casos, e em determinados momentos, o detalhe mais importante da vida.

Muitas pessoas gostam apenas de assistir partidas espetaculares, com um nível de jogo altíssimo. Valorizam demais os principais times e torneios. Assim, menosprezam competições menores ou de países que não têm tradição na modalidade ou mesmo público. Deixam de conhecer histórias sensacionais.

Apresentação de jogadores do Shakhtar Donetsk
Histórias como a de política de contratações do Shakhtar Donetsk, que prioriza brasileiros para o ataque e ucranianos para a defesa; toda superação e o sofrimento na infância de Edin Dzeko, o “Diamante Bósnio”; a importância do Hajduk para toda população de Split, na Croácia; o complicado relacionamento entre bilionários e clubes de futebol no Cáucaso russo; o futebol jogado em um dos menores países do planeta, Liechtenstein.

Este livro pretende contar estas e outras histórias, as quais eu vivi fazendo matérias e entrevistas para Trivela e ESPN ou tendo visitado os locais.

Sobre o autor:
Gustavo Hofman nasceu em Belo Horizonte (MG), em 5 de maio de1981, mas cresceu em Campinas (SP). Mora em São Paulo (SP). É formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Pucamp/SP) e tem pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Antes de ser jornalista, jogou basquete pela Sociedade Hípica e pelo Tênis Clube, ambos de Campinas, tendo disputado os campeonatos paulistas da base entre 1994 e 1998. Começou a carreira em sites e revistas customizadas de Campinas. Já como repórter, ingressou no jornal Folha de S.Paulo e pouco tempo depois foi contratado pelo portal Terra, exercendo a mesma função. Em 2005 foi editor do site e repórter da revista Trivela. É comentarista dos canais Espn, blogueiro do site Trivela.com e colunista do ExtraTime.com.br. 
(fonte: Portal dos Jornalistas- www.portaldosjornalistas.com.br)

terça-feira, 15 de abril de 2014

Anatomia de uma derrota

Um livro obrigatório, para todos os tipos de leitores: torcedores, jornalistas, pesquisadores e até mesmo jogadores e comissão técnica da seleção brasileira que irá disputar a Copa 2014. “Anatomia de uma derrota” (Editora L&PM, 2000), é a mais completa obra sobre a fatídica derrota brasileira, na primeira Copa disputada no país, em 1950.

O autor, Paulo Perdigão, infelizmente, nos deixou em 2006. Mas sua obra, esgotada e somente encontrada em sebos por preços absurdos, de até 350 reais, voltará ao mercado após várias reportagens relacioná-lo, nesta onda de lançamentos pré-Copa, como um dos principais livros da literatura esportiva. Pena não voltar “em papel”, somente em e-book, pela mesma L&PM.

É neste livro histórico que Perdigão publicou o conto “O dia em que o Brasil perdeu a Copa”. Somado a parte do texto de introdução da obra, que você verá mais abaixo, com certeza, o cineasta Jorge Furtado produziu o curta-metragem, “Barbosa”, onde um homem volta no tempo para tentar evitar a falha do goleiro Barbosa na final da Copa de 1950. 

Como o prefaciador da obra, João Máximo, escreveu: “Anatomia de uma derrota” é um livro “definitivo”.

Um livro definitivo
Por João Máximo

Jovens amantes do futebol me perguntam por que nós, testemunhas do 16 de julho de 1950, lamentamos tanto a perda daquela Copa do Mundo, uma vez que, depois dela, o Brasil ganhou quatro outras. Para que chorar sobre o leite derramado – bancar a viúva siciliana de Nelson Rodrigues, como se o mais precioso dos gestos fosse o pranto e não o riso? Paulo Perdigão é uma das testemunhas do 16 de julho de 1950. Mais que isso, é o seu maior historiador. Não é possível entender as dimensões daquela “tragédia brasileira” (ou mesmo considerá-la uma tragédia) sem ter vivido a época, sem saber que pensava o jovem então, o que era futebol para todos nós e o que representaria, em termos de afirmação como povo e como nação conquistarmos ali a taça de ouro. Uma visão equivocada do que fossem povo e nação, é verdade, mas era assim que nos faziam ver as coisas. Por isso choramos. É claro que vibramos com cada uma das quatro taças que ganharíamos depois. E que o riso é bem mais prazeroso que o pranto.

Vocação para viúva siciliana à parte, lamentamos até hoje a taça perdida porque foi o nosso grande sonho desvanecido, o sonho que carregamos na adolescência, ou mesmo na infância que ainda guardamos dentro de nós. Ainda não sabíamos que ganhar ou perder uma Copa do Mundo não melhora nem piora nossas vidas. Ou o Brasil. Por isso choramos. Esta edição revista e aumentada do livro de Paulo Perdigão vai responder ao jovem torcedor de hoje todos os porquês que lhe ocorram a respeito. É história com agá maiúsculo, é aula de pesquisa, é exemplo de jornalismo, é lição para os cientistas sociais que andam escrevendo tão complicado sobre o futebol. Em duas palavras, é obra definitiva: depois dela nada mais poderá ser acrescentado à crônica do 16 de julho de 1950, como nada se pôde acrescentar à tragédia dos Clutter depois de A sangue frio.

Introdução
Por Paulo Perdigão

(...)

É costume do pensamento comum levar a crer que vivemos no tempo e cabe-nos somente registrar o transcurso de uma corrente temporal que avança ininterruptamente, tal como um fenômeno do meio exterior constituído por uma sucessão de “agoras” que “passam no mundo” e na qual somos “arrastados”. Chega-se inclusive a calcular matematicamente pelos relógios esse “tempo mundano”. Heidegger verifica, porém, que não encontramos o tempo em parte alguma: aquilo que já passou e aquilo que ainda virá estão sempre “em outro lugar”. Um princípio derivado da teoria de Santo Agostinho, segundo a qual presente, passado e futuro só existem porque a consciência humana é ela mesma temporal: “Eu sou o tempo”. Assim sendo, enquanto passado, a Copa de 50 não tem existência própria nem está “ocupando” um “lugar” no tempo, como também não está nessas velhas fotos, nesses recortes de jornais, nas folhas deste livro. Tornou-se perpetuamente algo de irreal sustentado somente pela memória. Também enquanto passado, não pode impedir-se de ser o que é, tem de conservar-se como coisa inerte e já plenamente constituída, fato irreparável, sem qualquer possibilidade de não ser o que já é. A isso deve a Copa de 50 seu fatalismo de tragédia, sua aparência de mundo de trevas, morto e crepuscular, indolente e em repouso, imutável, constante e todo já acabado, submisso a um destino ubíquo e prefixado. Continuará assim até o final dos tempos: naquela tarde, aqueles jogadores brasileiros, diante daquela multidão, perderam a Copa do Mundo para sempre. Nunca mais o Brasil ganhará a Copa de 50.

Obdulio Varela (direita), na final de 1950.
Mas posso tentar imitar Proust e “reencontrar-me” no Maracanã, em 16 de julho de 1950. Deparo então com uma “realidade” estranha e febril, na qual mal me reconheço, pois já não sou o mesmo que era e, no entanto, continuo sendo (uma “presença-ausência”, diria Sartre): eis-me de calças curtas, começando a vida em segurança, na proteção de meus pais, sonhando com Margaret O’Brien – minha “paixão” de 13 anos – e fascinado por aqueles super-heróis fantasiados de uniforme branco. Em meus entornos, as roupas das pessoas, os modos, a linguagem, fisionomias e olhares pertencem a “outra época” há muito tempo extinta. Só encaro “futuros mortos” ao redor. E todos parecem mais velhos do que eram, inclusive os jogadores: não daria menos de 50 anos a Obdúlio Varela, o “bandido” de sinistro traje azul e preto. À falta de registros visuais a cores, a “realidade exterior” de 1950 tem aspecto sombrio: a própria forma arquitetônica do estádio é claustrofóbica, e, nesse 16 de julho, causa uma impressão de angústia tenebrosa, uma atmosfera pesada de huis clos que sufoca e apavora – uma “descida ao inferno” (Na época, a Rádio Nacional transmitia o seriado As Aventuras do Anjo, com a trilha de Miklós Rózsa para o filme O Segredo da Casa Vermelha (The Red House, 1947), e suas novelas, nas cenas mais melodramáticas, traziam o movimento Lento Lúgubre da Sinfonia Manfredo, de Tchaikovsky. O “pavor” sentido pelas crianças sempre lembrava o que tinha acontecido no Maracanã).

Também posso seguir o pensamento estético de Hegel e, desse modo, transcender uma simples evocação pragmática e concreta dos fatos de 50 e reportar-me á essência poética do 16 de julho no Maracanã, com nostálgico lirismo como “estado d’alma”. A função da estética, diz Hegel, é “animar a severidade e a aspereza da razão”: permite-nos um entendimento mais completo, profundo e elevado, desvelando tudo que não aparece, alçando-nos a um “algures” sempre para além do dado, um “algures” onde o mundo é contemplado sensivelmente, um abstrato sem estatuto de existência real – tal como a luz através da qual podemos ver os objetos que ilumina, mas não pode ser, em si mesma, fonte de conhecimento. Em busca dessa “transparência do invisível”, desvendamos o que refulge de sagrado nas memórias da Copa de 50 – sobretudo na hora da derrota, com suas amarguradas figuras: a beleza do infortúnio da condição humana ante a adversidade inevitável do mundo. Porque, como escreveu Schiller, se “a vida tem seriedade, a arte tem serenidade”. Não importa qual o limite do desespero, a estesia ultrapassa-o no rumo da contemplação sensível, bastando lembrar o exemplo citado por Hegel no mito espanhol El Cid Campeador, no qual o romanceiro se detém nas dores de sua amada Ximena – belas nas lágrimas”.

O gol de Ghiggia que decretou a derrota brasileira.
No momento do gol de Ghiggia –, o segundo do Uruguai, que derrotou o Brasil – Bigode leva a mão direita à cabeça, e nesse ligeiro movimento resume-se o grito de terror de uma nação inteira perante a ruína imprevista, enquanto o goleiro Barbosa – com seu porte apolíneo e elegante – ergue-se solenemente, soberbo, até olhar o céu de relance, como um apelo à clemência divina.  No instante do apito final, Jair salta para a última tentativa da vitória, agarrando-se ao goleiro Máspoli: seu empenho porta o ideal do poder absoluto, um impulso agonizante e inútil, na honrosa tradição do guerreiro que, já vencido, nega a desesperança para arriscar o impossível. Zizinho, nessa mesma hora, retrai o corpo, olha para o juiz, ainda descrente do fim – e é descrente, em estado de choque, que se deixará abraçar por Máspoli e, no vestiário, entrega-se ao abatimento de um homem comum que acabou por dentro, incapaz de resignar-se com o “já dado e finito”. Quanto ao choro de Danilo, deixando o campo amparado por um locutor, além de ser a imagem mais famosa da “tragédia de 50”, traduz a resignação dos humildes, o luto aquiescente de quem ousou “ser alguém” perante o mundo e, como castigo, mereceu apenas a retirada vexatória à sua “insignificância”. Sim, porque, do modo como as coisas haviam se processado, não era o simples caso de ganhar ou perder uma competição esportiva, mas, com efeito, uma questão de arriscar-se entre dois pólos: de um lado, a graça e a bem-aventurança; do outro, a vergonha e a desonra.

Em cinco “tempos”, essas imagens clássicas sintetizam o ciclo patético da desventura humana, desde o momento em que se configura a possibilidade de fracasso dos projetos estabelecidos (Bigode, Barbosa) até a consumação final do revés e o surgimento do chamado “espírito penoso” (Zizinho, Danilo), passando pela “vontade de poder” e a negação da contingência (Jair). Eis as criaturas desse mundo sombrio e infernal, seres sofridos, de máscaras torturadas, cuja plasticidade – a mesma de clássicas esculturas gregas, como Gália Agonizante – está incorporada à iconografia do Brasil contemporâneo, eternizada na memória nacional. Beleza épica, composta de pompa e nobreza, pungente em sua solenidade, como as cerimônias de réquiem. Será assim evocada, embora tenha custado a derrota – ou, sobretudo, devido mesmo à derrota, que em 1950 produziu uma comoção nacional além das fronteiras do esporte, talvez só comparável ao suicídio de Vargas na vida contemporânea do país. A ausência da vitória fez com que a Copa de 50 sobrevivesse sempre como “aquilo que deveria ter sido e não foi”, ou seja, como o império de um Nada, de um não-ser, a apontar para um vazio, uma totalidade não preenchida, uma existência negada. Daí por que a derrota, que converteu o normal em excepcional, é necessária para que o fascínio perdure: não poderiam ser diferentes essas imagens, em sua grandeza trágica.

A locução completa de Brasil x Uruguai de 16 de julho, transcrita na II Parte desta monografia, pode dirimir dúvidas quanto a episódios que, através dos tempos, ganharam halo de legenda, narrativa mitológica (as transmissões radiofônicas eram pormenorizadas, em uma época sem os recursos da TV, substituindo, no possível, o que seria um videoteipe da partida). Testemunhados por quase 200 mil pessoas que foram desaparecendo com os anos, os fatos passaram de pais a filhos assumindo cada vez mais foros de imaginário, a tal ponto que, em determinado momento, tornava-se impossível diferenciar o que sucedeu no Maracanã daquilo que foi criado pela fantasia de muitos. O sociólogo Arno Vogel entrevistou várias pessoas a respeito, concluindo: “Às vezes, parecia estar ouvindo uma narrativa mitológica. Muitos, jovens demais para terem vivido os acontecimentos, reproduziam com variações mínimas a mesma história. Todos recordavam fatos, lances e cenas do evento. Emitiam juízos e analisavam as versões polêmicas. Atribuíam responsabilidades, mostrando um envolvimento profundo com tudo que se relacionava ao episódio. Vi um informante descrever o final da partida decisiva e a saída do estádio com lágrimas nos olhos e voz embargada. Falava de uma experiência radical, que tinha deixado marcas definitivas”.

Na sua estatura histórica e mitológica, a derrota de 16 de julho tornou-se não apenas o grande emblema do Imaginário do país, ou o próprio Mal em suspensão animada na ideologia nacional, com sua aura de imantação lendária que se conserva e se agiganta na imaginação popular, mas também uma das representações da nacionalidade brasileira em seu empenho por uma identidade própria. Traz o encantamento mágico de uma gesta efêmera, tendo por cenário suntuoso um Coliseu da era moderna, edificado como panteão para a glória nacional, e onde brotou a provação de heróis esquecidos e o infortúnio e a desesperança de um país inteiro. Não é gratuita a referência ao Coliseu (literalmente, “construção colossal”), com sua forma concêntrica do espaço reservado à plateia e o caráter cênico-simbólico do embates ali travados com vistas a um estado orgiástico de excitação do espectador – a mesma “paixão” dionisíaca do teatro grego. Em sua majestade, o Maracanã, frio e silencioso, perdura de pé, com a solidez e a perenidade do rochedo, em contraste com a fluidez das ações humanas que o tempo dissolveu, monumento às ruínas do passado, a recordar aquela história hoje perdida nas lonjuras – um modelo de classicismo, com sua “nobre simplicidade e calma grandeza”, na definição de Winckelmann.

Tragédia grega no Terceiro Mundo, dada a exatidão com que se encaixam as peças do fatalismo de sua estrutura dramática, a Copa de 50 teria inspirado Sófocles e Eurípides como epopeia conduzida pelas veleidades do destino. Dela teria feito Nietzsche um libelo contra a providência divina, e Jung uma exegese do inconsciente coletivo. Também nada faltaria a Wagner para compor um monumento operístico. Porque, de todos os exemplos históricos de transe nacional, este é o mais belo, o mais apoteótico: é um Waterloo dos trópicos, e sua verdade o nosso Gotterdammerung.

Sobre o autor (perfil da ABI – Associação Brasileira de Imprensa):
Paulo Perdigão A morte do jornalista Paulo Perdigão – ocorrida em 31 de dezembro de 2006, aos 67 anos de idade – deixa uma lacuna na crítica cinematográfica. Este ofício ele exerceu com maestria por mais de 30 anos, nos jornais Diário de Notícias, Globo e JB e nas revistas Manchete e Veja. Também atuou como programador de filmes da Rede Globo de Televisão, onde ingressou em 1967, foi editor do Guia de Filmes, publicação do antigo Instituto Nacional do Cinema (INC), entre as décadas de 1950 e 60, ajudou a organizar alguns dos mais importantes festivais internacionais de cinema realizados no país.

Paulo Perdigão era também um especialista em Jean-Paul Sartre, de quem fez a primeira tradução em português de O ser e o nada, e escreveu Existência e liberdade uma introdução à filosofia de Sartre, ensaio sobre o discurso filosófico sartriano. Em 2006, relançou Anatomia de uma derrota, de 1986 – além de ser considerado pela crítica e a mídia especializada como a obra definitiva sobre a derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1950, o livro inspirou o curta-metragem Barbosa, de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo.

Em 2002, chegou às livrarias a reedição de Western clássico Gênese e estrutura de Shane, sobre o filme de George Stevens, aqui batizado de Os brutos também amam – título que ele abominava – e ao qual ele assistiu 82 vezes. A adoração do jornalista por Shane era tanta que ele viajou diversas vezes a Hollywood para visitar as locações do filme, do qual tinha uma cópia, montada lá, em que se inseriu na cena do duelo final, avisando ao mocinho vivido por Alan Ladd que o personagem de Jack Palance planejava matá-lo.

Paulo Perdigão também tinha admiração pelo rádio, de que tratou em PRK-30, livro homônimo ao programa de humor que, por mais de duas décadas, foi uma das vedetes da Rádio Nacional, alcançando mais de 50% de audiência.

No artigo que escreveu sobre o colega na Folha de S. Paulo (edição de 6 de janeiro de 2006), Carlos Heitor Cony conta que foi seu companheiro no Correio da Manhã, onde “Paulo despontava como um dos jovens mais brilhantes de sua geração. (...) “Ele era um personagem que Justino Martins, então diretor de Manchete, classificaria de fascinante”.