quarta-feira, 22 de junho de 2016

Os senhores dos anéis

A poucos dias do início dos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, Literatura na Arquibancada resgata uma obra fundamental da literatura esportiva: “Os senhores dos anéis – Poder, dinheiro e drogas nas Olimpíadas Modernas” (Editora Best Seller/Círculo do Livro, 1992).

O livro é apenas uma sugestão aos que sabem que, apesar dos fatos denunciados pelo polêmico autor, Andrew Jennings (mesmo autor de dois livros-bomba sobre a Fifa: “Jogo Sujo – O mundo secreto da Fifa” (Panda Books, 2011) (http://www.literaturanaarquibancada.com/2013/10/jogo-sujo-o-mundo-secreto-da-fifa.html ) e “Um jogo cada vez mais sujo: o padrão Fifa de fazer negócios e manter tudo em silêncio (Panda Books, 2014) (http://www.literaturanaarquibancada.com/2014/05/um-jogo-cada-vez-mais-sujo.html ), quase nada mudou nas altas esferas do poder dos poderosos do esporte mundial, sejam eles ligados aos esportes ditos “olímpicos” ou do futebol (Fifa).

É incrível como tanto tempo se passou e as coisas só pioraram. A Rio 2016 pode ser apenas mais um triste capítulo desta longa jornada de exploração aos que realmente fizeram a história dos Jogos Olímpicos: atletas e, nós, torcedores.

Literatura na Arquibancada resgata o texto de apresentação de Jennings e um trecho do primeiro capítulo da obra. É leitura obrigatória. Basta procurar um sebo virtual e boa leitura.



Introdução
Será que o esporte é isso?

Juan Antonio Samaranch
Este livro revela os fatos que a televisão e os jornais não contam a respeito das Olimpíadas e do esporte internacional. Durante quatro anos procuramos descobrir quem controla o esporte, para onde vai o dinheiro e porque um mundo considerado belo e puro há dez anos, tornou-se antidemocrático, obscuro, cheio de drogas e acabou leiloado para servir ao marketing das companhias multinacionais.

Para nossa surpresa, nos deparamos com a investigação mais difícil de nossas vidas. Nos últimos anos escrevemos e fizemos documentários para a televisão sobre a Máfia, o caso Irã-Contras, o terrorismo, a corrupção na Scotland Yard e outras áreas sombrias da vida pública.
O mundo do esporte amador olímpico provou ser o mais difícil de penetrar. Jamais encontramos tantas dificuldades em conseguir entrevistas autorizadas, documentos e fontes primárias. Um dirigente olímpico respeitado chegou ao ponto de contratar advogados, para tentar impedir a publicação das críticas às lideranças olímpicas, feitas durante uma longa entrevista gravada!

Esta foi nossa grande descoberta sobre o mundo do moderno esporte olímpico. Trata-se de um domínio secreto, elitista, onde as decisões sobre o esporte, o nosso esporte, são tomadas a portas fechadas, onde se gasta rios de dinheiro para criar um estilo de vida fabuloso para um círculo restrito de dirigentes em vez de providenciar melhores condições para os atletas, onde o dinheiro destinado ao esporte acaba desviado para contas bancárias no exterior e onde os dirigentes se perpetuam no poder, sem se perturbar com eleições.

Este livro, portanto, não fala dos competidores que lutam pelas medalhas de ouro. Trata do mundo oculto dos homens engravatados, dos homens que manipulam o esporte segundo seus próprios objetivos.

Não somos jornalistas esportivos. Não fazemos parte do círculo onde muitos repórteres preferiram concentrar a atenção nos eventos esportivos, ignorando o modo como o esporte vem sendo destruído pela cobiça e pela ambição. Como resultado, um dos momentos mais reveladores para nós foi quando sofremos críticas veementes do diretor de informação do Comitê Olímpico Internacional (COI), na Suíça, só porque fizemos perguntas diretas a um alto dirigente olímpico. Agimos como um repórter age, em qualquer matéria. Tal comportamento não é aceitável no mundo clandestino e egoísta do COI. Se o esporte pretende sobreviver, necessitará da atenção de muitos outros jornalistas sem vínculos ou compromissos com os Senhores de Lausanne.

Ao avançar além da pompa e da hipocrisia das Olimpíadas modernas e de seu líder, recordamos repetidamente do comentário de uma criança no dia em que o imperador desfilou com seu novo traje: "O rei estava nu". Isso deveria ser óbvio para qualquer pessoa a quem a propaganda não conseguiu cegar.

Como no restante de nosso trabalho de muitos anos, não podemos agradecer em público às fontes que mais nos ajudaram. Depois de muito esforço, os documentos chegaram às nossas mãos, e pessoas gentis, preocupadas com o esporte, deram sugestões e apontaram áreas que exigiam investigações e denúncias. Esperamos que este livro as ajude em suas batalhas para tirar o esporte das mãos de um pequeno grupo.

Capítulo 1
BEM-VINDOS A BARCELONA 

Bem-vindos à Espanha. Bem-vindos a Barcelona, a antiga cidade romana de Barcino, a "Cidade dos Condes" medieval, rodeada de muralhas.

Bem-vindos a Barcelona. Capital da Catalunha orgulhosa e independente, segunda cidade da Espanha, e, por séculos, rival ferrenha de Madri, a capital.

Bem-vindos a Barcelona. Cidade para onde Cristóvão Colombo retornou após a descoberta do Novo Mundo, em 1492.

Bem-vindos a Barcelona. Cidade de Salvador Dali e Pablo Picasso, de Pablo Casais e José Careiras e de Cobi, o cão surrealista.

Cobi, o cão surrealista? Certamente. Pois Barcelona também é a sede dos Jogos Olímpicos de 1992, e Cobi, um cachorro de gibi é o mascote olímpico da cidade.

Estamos às vésperas da estreia das Olimpíadas. A capital da Catalunha, abarrotada de gente. Quatrocentos mil espectadores são esperados em Barcelona. Eles incharão a cidade, a ponto de explodi-la. O maior espetáculo da terra vai começar. Bem-vindos a Barcelona.

O comitê organizador dos Jogos Olímpicos, para os responsáveis pelo planejamento e financiamento das duas semanas fantásticas, aproxima-se a hora da verdade. O comitê, como acontece com quase tudo no mundo do esporte internacional, tem uma sigla: COOB'92 (Comitê Organizador das Olimpíadas de Barcelona). Seu presidente é o prefeito socialista de Barcelona, Pasqual Maragall. Ele fala com entusiasmo sobre o "caso de amor" entre sua cidade e as Olimpíadas. A paixão de Barcelona custou a Maragall e sua diretoria executiva mais de 1 bilhão de libras, apenas para sediar um evento de duas semanas.

Mais 2 bilhões de libras do dinheiro público foi gasto pela cidade, para comprar e desapropriar terrenos, construir a Vila Olímpica e 43 quilômetros do novo anel viário, reformar ou erguer do zero quarenta e três locais exigidos pelo extenso programa esportivo das Olimpíadas e, finalmente, para ampliar o aeroporto de Barcelona.

Seis anos antes, em outubro de 1986, Barcelona derrotou Brisbane, Paris, Amsterdã, Belgrado e Birmingham na corrida para sediar os Jogos Olímpicos de 1992. Os bate-estacas, guindastes e máquinas de terraplenagem tomaram conta da cidade. Desde então, os moradores de Barcelona vivem em um gigantesco canteiro de obras. Mas o prefeito Maragall e sua equipe podem dormir sossegados, sabendo que tudo está pronto para as Olimpíadas.

No dia 2 de outubro de 1988, na cerimônia de encerramento dos Jogos de Seul, a bandeira olímpica criada pelo fundador dos jogos modernos, barão Pierre de Coubertin, foi entregue a Maragall. No sábado, 25 de julho de 1992, a bandeira branca com os cinco anéis entrelaçados representando os cinco continentes, que se tornou o símbolo mais conhecido no mundo depois da cruz cristã, será içada no estádio Montjuic de Barcelona. Tudo estará pronto para a cerimônia de abertura da 25? Olimpíada.

O estádio de Montjuic é a peça central na orgia de esportes de duas semanas e na orgia de gastos de seis anos. Nesta cerimônia, 70 mil espectadores rodearão reis e rainhas, príncipes e princesas, xeques e rajás, primeiros-ministros e presidentes acomodados na Tribuna de Honra. Os ingressos valerão US$ 500.

O estádio se destaca no "Anel Olímpico", nome dado pelo comitê organizador para a área de Montjuic de onde se pode avistar a cidade, a oeste, e o Mediterrâneo, a leste.

O estádio tem uma longa história olímpica. A pedra fundamental foi colocada há 64 anos, pelo conde Henri Ballet-Latour, então presidente do comitê olímpico. Montjuic fora construído na tentativa anterior feita por Barcelona para sediar os jogos. Em 1931 a 30? sessão — ou reunião anual — do Comitê Olímpico Internacional, detentor dos direitos dos Jogos Olímpicos, realizou-se no Hotel Ritz, em Barcelona.

Dez dias antes da abertura, o novo governo esquerdista da Espanha proclamou a república no país. Um marquês e cinco condes encontravam-se entre o grupo refinado que se reuniu no Ritz de Barcelona, mas a maioria de seus pares se manteve a distância. Eles resolveram promover pelo correio a votação que escolheria a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 1936. Quando os votos retornaram, Barcelona descobriu que perdera a indicação para a Berlim de Adolf Hitler.

Desapontados e revoltados, os cidadãos radicais de Barcelona promoveram uma competição alternativa no novo estádio de Montjuic. Balizaram o evento de "Olimpíada Popular de Barcelona", caracterizando seu desafio. Em julho de 1936, 5 mil atletas e 20 mil espectadores foram recebidos em Barcelona pelo prefeito da cidade e participaram da Olimpíada Popular.

Os jogos de Barcelona terminaram pouco depois do início. O dia seguinte foi marcado pelo início do levante militar que deu origem à Guerra Civil Espanhola. A Olimpíada Popular foi cancelada, e muitos atletas e espectadores juntaram-se às forças republicanas concentradas na capital catalã. Barcelona tornou-se um polo de oposição ao general Franco e seus seguidores fascistas. O ditador jamais perdoou esta oposição, e fez com que os cidadãos de Barcelona pagassem um alto preço por ela, nos quarenta anos seguintes. Milhares de opositores de Franco morreram, e muitos outros milhares foram presos, mas os catalães que se dispuseram a erguer os braços na saudação tradicional do Movimento fascista do ditador prosperaram.

A vingança do Generalíssimo sobre Barcelona incluiu até as ambições olímpicas da cidade. Em dezembro de 1965 Barcelona competiu contra Madri pela indicação como candidata da Espanha à sede dos Jogos de 1972. A reunião para decidir entre as duas cidades foi marcada para a véspera do Natal. Poucos dias antes, o representante de Barcelona recebeu um telefonema e foi avisado que não precisava se dar ao trabalho de comparecer à reunião. "Não será importante. Apenas uma prestação de contas", disse o autor da chamada.

Barcelona fora lograda. Três dias antes do Natal, a sede do movimento olímpico na Suíça recebeu a informação de que Madri era a cidade espanhola escolhida como candidata para sediar o evento em 1972.

— Naquele tempo o homem de El Pardo ainda vivia — lembra um catalão, referindo-se ao poder absoluto do general Franco. Mas agora o líder está morto. A Espanha tornou-se novamente uma democracia, e os fascistas companheiros de Franco trocaram os uniformes por ternos. Em 1992, o estádio de Montjuic realizará finalmente seu destino olímpico.

Nos últimos seis anos o local passou por uma reforma completa. Reconstruído, manteve a aparência de 1930, preservada como "um tributo ao esporte e ao espírito olímpico das pessoas da cidade, das gerações que lutaram desde o início do século para sediar os Jogos."

Quatro escadas rolantes gigantescas levarão 14 mil pessoas por hora para o Anel Olímpico, onde acompanharão os lances das estrelas do atletismo contra os recordes mundiais; assistirão os embates entre as estrelas da ginástica, vôlei e basquetebol no ginásio esportivo futurista de Palau Saint Jordi; acompanharão os esforços dos nadadores nas magníficas piscinas de Picornell.

Em Poblenou, à beira-mar, encontra-se o Pare de Mar. Um terreno de 640 mil metros quadrados abriga prédios de seis andares, com vista para o mar. Pare de Mar é a Vila Olímpica, recebendo por duas semanas 15 mil atletas de mais de 160 países. Toda a área foi rodeada de uma cerca de segurança alta. A segurança dos atletas ganhou prioridade desde que onze competidores israelenses foram assassinados por terroristas em Munique, em 1972.

Por trás da cerca, o complexo possui restaurante, agência dos correios, banco, agência de viagens, aluguel de carros, supermercado, livraria, farmácia, bar, salões de descanso e leitura. O restaurante servirá aos atletas mais de 900 mil refeições durante as Olimpíadas.

Próximo ao estádio Montjuic, na borda do Anel Olímpico, situa-se o Centro de Imprensa Principal. Liga-se a centros de imprensa satélites instalados nos locais de competição, na Vila Olímpica, e nas duas "vilas de imprensa", especialmente construídas em Badalona e Vai d'Hebron, nos subúrbios de Barcelona. O Centro de Imprensa receberá 10 mil profissionais credenciados, representando jornais e emissoras de rádio e televisão de todo o mundo que se encaminharão para Barcelona.

Finalmente, na famosa Diagonal, a rua mais comprida de Barcelona, fica o luxuoso Hotel Princesa Sofia. Nos últimos dois anos, os proprietários espanhóis investiram US$ 10 milhões em reformas. O hotel foi redecorado luxuosamente, para receber os hóspedes mais importantes dos jogos. Não haverá ali estrelas do atletismo, natação ou ginástica. O Princesa Sofia será, nas duas semanas dos Jogos Olímpicos, sede do Clube.

O "Clube" é uma das sociedades fechadas mais poderosas, lucrativas e secretas do mundo. Por intermédio do Clube, um punhado de "presidentes" nomeados comanda o esporte mundial.
A suíte presidencial do Princesa Sofia receberá o membro mais importante do Clube, o supremo pontífice olímpico, o rei inconteste do esporte mundial, o espanhol Juan António Samaranch. (...)

Sobre o autor:
É repórter investigativo há mais de trinta anos, cineasta, consultor e comentarista. Trabalhou nos jornais britânicos The Sunday Times e Daily Mail, na BBC, além de contribuir em diversas publicações. Autor de documentários e livros sobre corrupção nos esportes, Jennings tornou-se conhecido no mundo todo como o “único profissional de imprensa banido das coletivas da Fifa”. Traduzido para mais de 12 línguas, Jogo Sujo (Foul!) foi transformado em documentário da BBC e exibido em todo o mundo.

terça-feira, 21 de junho de 2016

O futebol do Botafogo 1961-1965



Não há na literatura esportiva brasileira número igual de leitores e consumidores de livros referentes ao Botafogo, o clube da estrela solitária, do Rio de Janeiro. E entre os tantos autores que já se debruçaram sobre o Botafogo, Carlos Vilarinho é um daqueles que vai fundo em suas pesquisas. Após o lançamento do seu “O futebol do Botafogo 1951-1960” (registrado por este blog em http://www.literaturanaarquibancada.com/2013/06/o-futebol-do-botafogo.html , agora, Vilarinho lança o segundo volume desta obra “de fôlego”.

Assim como fez em seu primeiro volume, “O futebol do Botafogo 1961-1965” está repleto de polêmicas e pesquisa, muita pesquisa sobre cada história narrada. Mais um presente para os amantes da boa literatura esportiva.

Introdução

Este livro aborda os dramas e as vitórias do Botafogo no período de 1961-1965, quando cumpriu intensa atividade, firmando sua condição de base do escrete nacional e uma das maiores forças do futebol mundial. Nesta fase, Paulo Antônio Azeredo e Sérgio Darcy prepararam a transferência de comando para Ney Cidade Palmeiro, sem que o Clube se desviasse um milímetro do seu caminho glorioso, permanecendo fiel ao lema botafoguense> amor ao passado, confiança no presente e maiores esperanças no futuro.

Nos anos 1961-1965, o Botafogo conquistou centenas de títulos em treze modalidades esportivas, destacando-se, no futebol, o bicampeonato carioca (1961-1962) e o primeiro lugar no Rio-São Paulo (1962-1964), este último, base para todas as convocações do escrete brasileiro. No exterior, foi campeão do Torneio Pentagonal do México (1962), do Quadrangular de Paris (1963), do Pentagonal de La Paz (1964) e do Torneio de Confraternização Ibero-Americana (1964).

Não se discute a decisiva contribuição do Botafogo para a segunda conquista da Taça Jules Rimet (1962), símbolo da hegemonia mundial do futebol brasileiro.

Infelizmente, nesta fase, refletindo fatores externos ao esporte, surgiu a dissidência que conduziria o Botafogo ao desastre. Mas o divisionismo só progrediu porque contou com o apoio de um setor da imprensa. A nociva intervenção desse grupo de jornalistas (com fortes posições na TV) nos assuntos internos do clube, e que prosseguirá nos anos seguintes, não encontra paralelo na centenária trajetória do Botafogo.

A história do Botafogo não pode ser contada separando-se o futebol do tempo e do meio que o condicionam. Sendo o resultado do processo histórico, a primeira metade dos anos 60, no quadro da luta anti-imperialista, em escala mundial, corresponde no Brasil ao reforço da consciência da necessidade de colocar-se em primeiro plano a solução do problema democrático, ou, como disse um mestre, a “participação livre do povo na construção nacional”, de que necessariamente dependeria a solução do problema nacional.

O período 1961-1965 compreende a preparação, execução e consolidação do Golpe Militar de 31/03/1964. O Botafogo, como a maioria esmagadora dos clubes, não escapou das consequências da infame interrupção do avanço democrático, destacadamente, da gradativa militarização do futebol, processo que terminou por excluir os clubes das decisões sobre o seu próprio destino. Hoje, este processo está concluído, pois o centro de comando do futebol passou da esfera política (da ditadura militar) para a econômica (das grandes corporações).

O Botafogo não é um clube qualquer e, por ser tão temido e odiado, exige daquele que o segue um amor também incomum. As novas gerações devem estudar (e velar) o passado do Clube para fazer respeitado o seu nome glorioso, agora e no futuro, e melhor defendê-lo, sem repouso, contra quem quer que seja. Como cantou o poeta Octacílio Gomes, autor da letra do hino Glorioso (com música de Eduardo Souto), obra genuinamente botafoguense. Recordar (e redescobrir) o Botafogo, repelindo falsas tabuletas, complexos e sombras, é o melhor caminho para fortalecer o orgulho de ser botafoguense e organizar forças para a sua glória.

O mérito maior deste livro estará na medida do interesse que despertar para a discussão dos problemas abordados, muito mais graves, hoje, do que nos anos 1961-1965.

Devo agradecer aos servidores da seção de periódicos da Biblioteca Nacional. Da mesma forma, aos servidores da Biblioteca do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Sou igualmente grato a Maria Luiza Augusto, dedicada funcionária do Botafogo FR. Minha imensa gratidão a Pedro Alves Varanda, insubstituível pesquisador do Glorioso. Friso, porém, que sou o único responsável pela interpretação das fontes.

Sobre o autor:
Carlos Ferreira Vilarinho, 58 anos, carioca, é bacharel em Comunicação Social pela UFRJ (1978) e em Direito pela UERJ (2004). É autor de QUEM DERRUBOU JOÃO SALDANHA (2010), denúncia de uma conspiração política, livro que conquistou, em 2011, o troféu de prata no Prêmio João Saldanha de Jornalismo Esportivo - categoria literatura - conferido pela Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro - ACERJ.

Nas décadas de 1970 e 1980, foi ativo participante da luta pela derrocada do regime nazista imposto pelo golpe militar de 1964. Exerceu diversas funções de direção no Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro (1979-1981). Participou da fundação da CUT – Central Única dos Trabalhadores (1983), de cuja direção estadual tomou parte (1985). No terreno da cultura popular, desde 1969, dedica-se à pesquisa da trajetória do Botafogo de Futebol e Regatas, clube do qual já foi conselheiro (2003-2005).

Sou aposentado. Sempre fui bancário (Banerj e Banco do Brasil) por opção. Jamais desejei ser jornalista porque morreria de fome, não seguiria as pautas e seria sempre demitido. Exerci a função de redator somente na imprensa sindical e em algumas publicações clandestinas (por motivos óbvios). Só escrevo por prazer e por dever de consciência.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

A biografia de Tite

Adenor Leonardo Bachi, prazer, Tite. O apelido pelo qual é conhecido surgiu graças a uma confusão feita por Luiz Felipe Scolari – o Felipão – no final da década de 70. O técnico mais “badalado” no momento do futebol brasileiro ganhou sua primeira biografia: “Tite” (Panda Books). Campeão mundial pelo Corinthians, cotado para ser o substituto do atual técnico da seleção brasileira, Tite é considerado pela grande maioria (especialistas ou não) um dos melhores técnicos do Brasil.

Camila Mattoso, jornalista autora da biografia, ouviu quase uma centena de fontes para traçar este perfil onde são revelados, além da trajetória profissional do técnico, episódios inéditos dos bastidores do futebol e de sua vida pessoal.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo, sinopse e um trecho da obra, gentilmente cedido pela editora.


Sinopse: (da editora)

Conhecido pelo bem-sucedido trabalho com o Corinthians, o técnico Tite foi procurado duas vezes pela CBF, em 2015, para assumir o comando da Seleção Brasileira. O furo é revelado pela jornalista esportiva Camila Mattoso, em Tite, livro recém-lançado pela editora Panda Books.

Gaúcho de Caxias do Sul, Adenor Leonardo Bachi é, hoje, considerado um dos melhores técnicos de futebol do Brasil. Responsável pela guinada do Corinthians na década de 2010, Tite já conquistou no comando do timão nada menos do que seis títulos, entre eles a tão sonhada Libertadores e o Mundial de Clubes.

Dividido em 13 capítulos – número da sorte de Tite –, o livro traça um perfil do treinador. A linguagem leve e descontraída que domina o texto da autora é escancarada logo no sumário: os capítulos são nomeados por palavras inventadas, todas terminadas com o sufixo “dade”. Os mais ligados à história de Tite entenderão: trata-se de uma piada com o termo “treinabilidade”, usado por ele numa entrevista coletiva em 2010, e que acabou se tornando motivo de gozações.

Graças às 84 fontes entrevistadas por Camila Mattoso, são revelados também episódios inéditos dos bastidores do futebol, como a vez em que Jorge Henrique chegou bêbado no último treino antes da viagem para o Mundial de Clubes, em 2012, e detalhes da vida pessoal de Tite. O treinador é conhecido por seu temperamento reservado, calmo e ponderado, mas já se envolveu em desavenças com personalidades do futebol, como os jogadores D’Alessandro, Adriano Imperador, o jornalista Galvão Bueno e o próprio Felipão. Diferentemente do que muitos pensam, não foi a declaração polêmica de Felipão em relação à eliminação do Corinthians pelo Tolima, na pré-Libertadores de 2011, que pôs fim à amizade.

De atacante da Portuguesa à glória no comando do Corinthians, o caminho do gaúcho Tite não foi curto. Desde criança, Ade – apelido que ganhou da família – gostava de futebol e passava horas jogando com o irmão Miro. Quem descobriu seu talento com a bola foi Luiz Felipe Scolari, no final da década de 1970. Ade era o camisa 10 de sua equipe na escola quando Scolari, que na época já se aventurava como treinador, vidrou os olhos no garoto. Alguns anos mais tarde, os dois se trombaram e o encontro resultou num teste para jogar no Caxias, do Rio Grande do Sul. O apelido Tite veio daí: Felipão lembrou da fisionomia do camisa 10, mas confundiu seu nome com um meio-campista da mesma equipe, o Tite. Chamou Ade de Tite e, com a confusão, surgiu o apelido que marcaria toda sua trajetória no futebol.

Tite foi aprovado no teste de Felipão, e as portas do futebol abriram-se para ele. Logo foi chamado para atuar no Grêmio, seu time do coração, mas em uma semana fugiu da concentração e voltou para casa. Mais tarde, jogou na Portuguesa e, então, no Guarani. Aos 27 anos, depois de lesões graves nos joelhos e sete cirurgias, encerrou prematuramente sua carreira de jogador de futebol. Treinou, então, São Caetano, Grêmio, Atlético Mineiro, Palmeiras, Internacional, os árabes Al Ain e Al Whada e, é claro, o Corinthians, onde alavancou seu nome. Na segunda passagem pelo Timão, de 2010 a 2013, o técnico com mais vitórias na história do clube conquistou um Brasileiro (2011), um Paulista (2013), uma Libertadores (2012), um Mundial (2012) e até uma Recopa (2013).

O livro traz ainda um caderno de fotos com registros dos tempos da Portuguesa (1984), da conquista da Copa do Brasil no comando do Grêmio (2001), do trabalho com o Internacional (2008-2009) e da bem-sucedida atuação no Corinthians (2010-).

Trecho de capítulo referente 
aos bastidores do “caso Adriano (Imperador)”.

“– Não era faz de conta. E eu era muito claro: “Se algum dia vocês chegarem aqui mamados, fala com a gente. Uma vez ou outra, é o tipo de coisa que acontece. A gente deixa separado para fazer um treinamento depois” – conta Tite. – “Fala para mim: ‘Enfi­ei o pé na jaca. Estou puto porque queria jogar e por isso atrasei’. Qualquer coisa que seja.” Não importa, mas tem que ser leal. É uma regra geral que vale para todos.  (...)

Adriano, quando descoberto, era mais franco.

– Ele era muito franco. Acho que só tive tanta paciência com ele porque era autêntico. Falava tudo na frente. Chegava e dizia: “Não tenho condição hoje, não vai dar”. O extracampo dele era realmente muito complicado – lembra Tite.

(...)

– Nós nos afrontamos. Havia outras pessoas por perto. O Edu Gaspar estava. Eu disse: “É só eu e ele aqui, e ninguém se mete”. E eu aumentei o tom de voz e falava: “Tu tá errado, tu faz isso, tu faz aquilo”. Ele respondia, aumentando o tom de voz também, um perto do outro.
Tentava falar mais alto para fazer Tite recuar.

– Ele queria me convencer de que eu estava errado. Dizia que tava se dedicando, que tava na luta. Que não foi no treino porque não deu, que não sei lá o quê... Que era humano. Mas ele não tava tentando – termina Tite.

O Corinthians rescindiu o contrato em março de 2012, depois de 67 atrasos, contando treinos e sessões de ­fisioterapia. (...)”

Sobre a autora:
Camila Mattoso é jornalista e começou sua carreira na Rádio Bandeirantes. Morou em Londres por um ano, onde trabalhou com Andrew Jennings, o repórter da BBC que ajudou o FBI a desvendar o escândalo da Fifa. Ganhou projeção fazendo matérias e entrevistas sobre os bastidores dos clubes, das federações e da CBF. Cobriu a Olimpíada de Londres pela ESPN, a Copa das Confederações 2013 pelo Lance! e a Copa do Mundo 2014 pela ESPN. Atualmente é repórter do caderno de esportes da Folha de S.Paulo