quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Anjos Brancos

Real Madrid. Um clube histórico, que em sua longa trajetória teve também times históricos. Mas entre tantos, um marcou definitivamente não somente sua história como também a do mundo dos negócios no futebol mundial.

Qual amante do que se estabeleceu chamar de futebol-arte não admirou, mesmo não sendo torcedor, o Real Madrid formado a partir do ano 2000 com os galácticos Zidane, Beckham, Roberto Carlos, Figo e companhia?

É essa história que o jornalista e escritor John Carlin investigou e transformou no livro “Anjos Brancos – Entre o Céu e o Inferno e Os bastidores do Real Madrid” (Ed. Relume Dumara, 2006).

O histórico de seu autor permite classificar a obra como fundamental na literatura esportiva mundial. 

John Carlin é autor também de outros dois livros importantíssimos. 

Um, a biografia do tenista Rafael Nadal. Outro, “Conquistando o inimigo”, base para o roteiro do filme Invictus, que narra a vida de Nelson Mandela como presidente eleito da África do Sul, sua luta pelo fim do regime do Apartheid, até a final da Copa do Mundo de Rúgbi entre o Springboks (seleção da África do Sul) e o All Blacks (seleção da Nova Zelândia).

Introdução
Por John Carlin

Eu fui à África escrever sobre a epidemia de Aids, mas as pessoas só queriam saber de David Beckham e Real Madrid. Isso não deveria me surpreender. Mal se passara uma semana daquela que seria – com a possível exceção do início da guerra no Iraque – a notícia de maior impacto mundial de 2003: a transferência do jogador de futebol mais glamoroso do mundo para o clube mais glamoroso do mundo. Mas o que surpreendeu, o que me deixou de boca aberta, estupefato, enquanto o micro-ônibus em que eu estava chacoalhava e pulava pela maior favela de Nairóbi, o labirinto infestado de Aids de Majengo, foi o conhecimento profundo de meus companheiros de viagem; os mínimos detalhes em que as 12 outras pessoas no veículo discutiam não apenas a transferência de David Beckham do Manchester United, mas o outro grande assunto do dia: por que motivo o presidente do Real Madrid tinha afastado o técnico do time.

– Alguém, qualquer um aí, entende por que Florentino Pérez se livrou de del Bosque? – perguntou um homem sentado na frente, junto ao motorista. – É que eu não vejo lógica nisso – disse ele, girando o corpo para falar com os passageiros reunidos.

O homem, eu saberia mais tarde, era um jovem médico queniano. As outras pessoas no micro-ônibus, todas as quais falavam inglês, eram em sua maioria da área de saúde e estavam sendo levadas, como eu, para uma clínica no centro de Majengo onde eles estavam realizando testes com um grupo de prostitutas que pareciam ser imunes à Aids; que não tinham conseguido se tornar HIV-positivas, apesar de anos de esforços tristemente incansáveis para sucumbir à terrível doença. Mas ninguém no micro-ônibus tinha uma pista de quem eu era, ninguém sabia que o homem branco, alto e cabeludo, espremido no fundo do lado direito do veículo tinha não apenas chegado da Espanha no dia anterior, mas também era um entusiasmado apreciador do belo jogo, especialmente da forma como era praticado naqueles dias pelo  Real Madrid Club de Fútbol. O que, claro, me deixou ainda mais impressionado com o que o assunto tivesse surgido; que o homem no micro-ônibus tivesse falado nos nomes de Florentino Pérez e Vicente del Bosque, supondo que todos imediatamente saberiam quem eles eram.

Estarrecido, fiquei quieto e ouvi.

Florentino Pérez
– É verdade – disse um homem atrás daquele que tinha dado início à discussão. – Ninguém pode acusar o Real de estar fazendo uma temporada ruim.

– É isso – disse o homem da frente. – Eles conquistaram o campeonato espanhol e chegaram à semifinal da Liga dos Campeões. Então, por que derrubar o técnico?

– Especialmente – acrescentou o segundo – depois da vitória de 6 a 5 sobre o Manchester United nas quartas-de-final e jogando o melhor futebol de qualquer um em qualquer lugar do mundo pode se lembrar. – A isso todo o grupo respondeu com murmúrios, acenos de cabeça e um sorriso ou dois de doce lembrança. Até que um homem sentado no fundo, perto de mim, se manifestou:

– É, mas vocês não estão entendendo. O problema com o Real Madrid é que eles têm um padrão diferente das outras equipes. Ser o segundo ou o terceiro não é bom. Não é aceitável. Principalmente agora, com esse Pérez no comando. Vejam quem ele comprou desde que assumiu o clube há dois anos: Figo, Ronaldo, Zidane. E agora Beckham.

– Mais Roberto Carlos e Raúl. Os melhores jogadores do mundo! – continuou o cara esperto do meu lado. – Então, com essa inacreditável coleção de superastros, você tem de ganhar tudo, ou o técnico é demitido. É assim.

Vicente del Bosque
O homem da frente fez uma careta, sacudiu a cabeça e olhou para fora através da janela. Ele não estava inteiramente convencido. Ou talvez de algum modo partilhasse da simpatia que o espanhol comum sentia por Vicente del Bosque, um camarada legal cuja postura imponente, vestuário lúgubre e bigode anos 50 estavam em heroico desacordo com os jogadores vistosos e com pose de astros de cinema que ele tinha treinado até três ou quatro dias antes; del Bosque, longe de se parecer com o homem que tinha jogado no meio-campo do Real Madrid quando jovem, tinha a imagem de um gentil mas cansado padeiro levando uma vida de trabalho honesto em uma cidade pequena no interior da meseta de Castela.

– Eu acho que Pérez tinha raiva dele, por algum motivo – disse o defensor queniano de del Bosque. – Li em algum lugar que Pérez simplesmente não ia com a cara dele. A química não funcionava.

– Não, você está enganado – disse outra pessoa, dois bancos à minha frente. – Pérez é frio demais para permitir que seus sentimentos interfiram em uma decisão importante como esta...

E assim continuou a conversa, de um extremo ao outro do ônibus. Eu rapidamente me dava conta de que, pelo menos no caso do Real Madrid, não tinha absolutamente nada a oferecer àquelas pessoas. Do lado de fora de nosso micro-ônibus, crianças pequenas brincavam nuas em poças de água viscosa, um em cada quatro adultos que víamos zanzando em meio à confusão de barracos de folhas de flandres enferrujadas de Majengo tinha HIV, mas seus compatriotas do lado de dentro do ônibus (e eu não tinha dúvida de que um bom número daqueles que se encontravam do lado de fora) estavam tão bem informados sobre os acontecimentos no Real Madrid quanto qualquer um dos meus amigos em casa, na Espanha.

Real Madrid histórico, com Puskas e Di Stefano.
Eu poderia tê-los apresentado a Angel, o motorista de táxi com quem eu assisto aos jogos da TV em um bar que tem as paredes cobertas de ponta a ponta com fotografias emolduradas de times do Real Madrid desde os gloriosos anos 50, quando os lendários Puskas, Gento e Di Stefano passaram pela Europa como colossos. Eu poderia tê-los apresentado a Pedro, o especialista em doenças tropicais cuja satisfação de realizar a missão de sua vida de encontrar uma cura para a malária seria para sempre maculada se ele fracassasse em sua outra grande missão – conseguir ingressos para assistir ao que ele chama de este “inigualável” time do Real Madrid. Poderia tê-los apresentado a Sebastián, que está passando por uma separação dolorosa e que não sabe como poderia ter suportado tudo sem o consolo de um passe para toda a temporada no sagrado estádio do Real Madrid, o Bernabéu. Poderia ter apresentado meus colegas de viagem do micro-ônibus de Majengo a qualquer madrilenho fanático pelo Real Madrid, e em segundos eles estariam conversando como se fossem amigos de infância.

Mesmo se eles não falassem a língua um do outro, o futebol é um meio de comunicação tão universal que com grunhidos estranhos, alguns gestos e a menção de certos nomes – Ronaldo, Beckham, Florentino – eles logo estariam se dando admiravelmente bem, gesticulando furiosamente em concordância um com o outro. E então, sentado naquele ônibus, pensei que a discussão que eu estava acompanhando com toda certeza estava sendo reproduzida não apenas em cada esquina da Espanha, não apenas em todas as outras partes do Quênia e da África, mas por todo o mundo – na França, na Alemanha, no Japão, na Rússia, na China. (Como eles poderiam não estar tendo essa conversa na China se, no dia 29 de julho de 2003, na cidade de Kunming, 20 mil fãs pagaram entre 20 e 100 dólares cada um para assistir a um jogo-treino entre o time titular do Real Madrid e os reservas?) As pessoas provavelmente estavam debatendo a polêmica Pérez-del Bosque até mesmo em algum lugar dos Estados Unidos, o último bastião pagão em que a última grande religião unificadora do mundo – a única que supera todos os credos, raças, ideologias e bandeiras – ainda não se firmou plenamente.

A questão acerca do Real Madrid, acerca deste Real Madrid, o que Florentino construiu, é que em um único time você tinha as mais veneradas divindades da religião – a santíssima trindade formada por David Beckham, Zinedine Zidane e Ronaldo – e, em Raúl, Luís Figo e Roberto Carlos, três outros que o transformam na equipe dos sonhos de praticamente todo técnico de futebol sério do mundo. Sete dos últimos jogadores do ano da Fifa jogavam neste time do Real Madrid. (Na vez em que eles perderam, quando Rivaldo foi o escolhido em 199, Beckham chegou em segundo; em 2001, Figo, Beckham e Raúl foram o primeiro, o segundo e o terceiro.) Ainda mais marcante , ainda mais inteiramente sem precedentes, este time tinha os melhores não de uma, duas ou três, mas de cinco das principais nações que jogam futebol: Inglaterra, Brasil, França, Espanha e Portugal. Nunca, em 150 anos da história do esporte, tal reunião de primeira do talento disponível no planeta esteve concentrada em um único clube. O futebol é jogado em todos os países do mundo. Milhões de pessoas, da floresta amazônica às montanhas do Tibete, chutam uma bola todos os dias. Milhões desses milhões sonham um dia se tornarem jogadores profissionais. E de todas essas almas inumeráveis, seis das melhores surgiram de três continentes, e ao final desse processo de destilação acabaram – ouro puro – no Real Madrid. Os galácticos é como os seis magníficos do Real são chamados na Espanha, como se fossem super-heróis de quadrinhos. E é exatamente assim, como jogadores que são maiores que a vida, como astros de outra galáxia, que a enorme fraternidade planetária do futebol os vê. E é na devoção que sua genialidade inspira, mais até que na questão menor de se eles ganham ou perdem, que repousa o apelo mundial do Real Madrid. É por isso que, se o futebol fosse a cristandade (embora seja Igreja Católica – a maior, mais pródiga denominação existente.

A devoção pode ser medida em números. Grandes empresas de todo o mundo ofereceram muito dinheiro para ligar seus nomes ao do Real Madrid. Além de um grande aumento de faturamento em função da frequência aos estádios, direitos de televisionamento e vendas de camisas, o clube tem ganhado muito dinheiro de empresas como Audi e Siemens, ansiosas para se associar na mente de seus clientes potenciais à cada vez mais poderosa marca “Real Madrid ” – duas palavras que, colocadas lado a lado, se tornam grandemente evocativas, trazendo à mente ideias de elegância, estilo e classe que nas mãos de marqueteiros espertos são ferramentas que podem ser utilizadas com um resultado muito lucrativo. Todas essas razões, e mais, explicam por que no final da temporada do futebol europeu de 2002/2003, antes mesmo da transferência de Beckham, o Real Madrid pela primeira vez superou o Manchester United como o clube mais lucrativo do mundo, segundo a revista World Soccer.

A categoria de Zidane
Tudo indicava que o Real Madrid, reforçado por Beckham Inc., consolidaria sua ascendência nos anos seguintes. Mas mesmo não tendo sido assim, tudo indica que o modelo de negócios de Florentino Pérez continuará a florescer. É uma forma revolucionária de administrar o futebol. A grande ideia de Pérez, desde o início de seu mandato de presidente, em 2000, foi a de que se você comprar os melhores jogadores, os melhores de todos, você vai ganhar no final, porque eles se pagam. É a mesma lógica adotada por produtores de Hollywood, quando decidem pagar enormes somas para convencer os grandes astros a participar de seus filmes. “Nós somos provedores de satisfação, como um estúdio de cinema”, explicou José Angel Sánchez, o exuberante diretor de marketing do Real Madrid, em uma entrevista à revista The Economist. “Ter um time com Zidane é como ter um filme com Tom Cruise.” A atração dos jogadores mais carismáticos do esporte é tal que sua simples presença irá, no mínimo, pagar seus custos. Assim, enquanto Pérez quebrava os recordes de passe mais caro para trazer Figo em 2000, quebrava-os de novo para trazer Zidane em 2001, e depois pagava outra fortuna por Ronaldo em 2002, o lucro do clube aumentava a cada ano.

Mas a revolução de Pérez tem outro lado. Homem de negócios de estrondoso sucesso, presidente da segunda maior empreiteira da Europa, ele não estava apenas mudando as práticas administrativas do futebol; estava destruindo antigas ortodoxias, alterando a concepção do esporte. Todas as vezes em que ele comprou outro superastro, mas especialmente quando comprou o garoto de ouro Beckham, os sumos sacerdotes do esporte – técnicos, ex-técnicos, ex-jogadores e colunistas de futebol – resmungaram que ele estava cometendo um grande erro; que, claro, Beckham tinha um ótimo passe de bola, mas que a prioridade era outra, que o time não tinha “equilíbrio”; que era necessário com urgência um novo cabeça de área, um meio-de-campo defensivo – homens fortes e duros que acrescentassem estabilidade à mistura já altamente refinada do Real. Pérez – e realmente é ele quem decide as coisas no clube – não acreditou em uma palavra disso. Foi em frente e apostou todo o seu dinheiro, e todo o seu prestígio, no talento. Puro talento futebolístico. “Los mejores”, diz ele, “Quiero a los mejores”. Os melhores, eu quero os melhores. Deixe que os outros times fiquem com os cabeças de área e os meio-campistas defensivos: contra nós, irão precisar deles!  

Extraordinariamente irresponsável. Alguns – especialmente na Itália, onde eles veem o futebol como uma versão mais complexa do xadrez – disseram que o homem era um suicida. E é verdade que, de acordo com a sabedoria inspirada do futebol, não há como administrar um clube de futebol sério. O Real Madrid de Pérez – às vezes chamado na Espanha de el Florentime – é o tipo de time fantástico de futebol que seria montado em um jogo de computador por um garoto de dez anos de idade sem qualquer sofisticação tática. Pérez defende a ideia de que, para dizer a verdade, o garoto de dez anos de idade sabe muito mais do esporte que os sumos sacerdotes. Embora, para fazer justiça aos sumos sacerdotes, a atrevida nova filosofia de Pérez seja baseada em uma premissa que eles mesmos nunca consideraram. A de que vencer não é o objetivo primordial do esporte. Você precisa competir, claro. Você precisa jogar no mais alto nível, o que significa a Copa dos Campeões da Europa – uma competição que apresenta um índice de qualidade muito mais confiável do que a Copa do Mundo. Você precisa sempre ser considerado um bom candidato a ganhar tudo. Mas, ganhe você tudo ou não, mesmo que o Real Madrid perpetue a grandiosa tradição de ter erguido muito mais copas europeias que qualquer outro, isso não é o princípio e o fim. O principal objetivo – o maravilhosamente lúcido diretor de esportes do Real o chama de “obrigação social” – é garantir o que eles em Madri chamam de espetáculo. Apresentar o melhor espetáculo da Terra. Emocionar. Mais do que a passageira felicidade da vitória, o que o Real Madrid aspira fazer é atingir um pouco da duradoura qualidade da arte, algo que toque as pessoas em todos os lugares, sempre.

Apenas assista a um jogo do Real Madrid, qualquer jogo, e mantenha os olhos fixos em Zidane. Veja-o girar e escapulir, com seu 1,87m, com a bola nos pés, e você entenderá o que Beckham queria dizer quando o descreveu como “uma ballerina”; você verá que a principal razão pela qual o inglês mais famoso do mundo queria jogar no Real Madrid era pelo privilégio, pelo puro prazer de atuar no mesmo grupo deslumbrantemente talentoso de seu ídolo – porque ele é o ídolo de todo mundo – Zidane.

                                         Aos 4'19, o golaço de Zidane com passe de Beckham

As fantasias futebolísticas mais extravagantes de Beckham se concretizaram em um dos primeiros jogos do campeonato contra o Valladolid. O jogador de melhor passe do jogo disse mais tarde que ele talvez nunca tivesse dado um passe melhor – mas que definitivamente ninguém tinha feito um gol mais bonito com uma bola passada por ele. Se você não viu, faça de tudo para conseguir um vídeo. Veja o passe de 45 metros de Beckham, observe a graça de seu movimento e a pureza da trajetória da bola enquanto ela sobe e cai, como um peso morto, no caminho de Zidane; então se encante com a forma mágica como – na corrida, em um movimento fluido – o francês pega a bola no ar com o pé esquerdo e a arremessa no lado oposto do goleiro no canto direito da rede.

O futebol de Zidane é arte. Arte que as pessoas estarão admirando daqui a 500 anos. E tem o grande mérito de não ser uma arte reservada aos iniciados, ao historiador de arte, ao melômano, ao leitor de Shakespeare e Cervantes. É a única forma de arte verdadeiramente globalizada, acessível a uma parcela da humanidade mais ampla do que qualquer outra arte antes. As pinceladas magníficas de Zidane tem uma qualidade maravilhosamente democrática. Elas produzem exatamente as mesmas reações – a mesma admiração, o mesmo deleite – no agricultor de subsistência de Ruanda e no banqueiro da City de Londres. E como toda arte, o que elas fazem é embelezar a condição humana, enriquecer a vida. Elas oferecem inspiração, oferecem prazer, oferecem – seja ao meu próspero amigo Sebastián passando por sua separação ou aos milhões de famintos da África – consolo para as tristezas da vida.

Joseph Conrad poderá se revirar no túmulo, mas sua definição de arte como algo que fala à “solidariedade (...) que liga os homens uns aos outros, que une toda a humanidade – os mortos aos vivos e os vivos aos não nascidos”: esta definição pode se aplicar com o mesmo valor tanto ao futebol quanto à musica, à literatura ou à pintura, quando o jogo é disputado com o esplendor e a genialidade dos homens de branco do Real Madrid.

Há outros belos times, outros grandes jogadores por aí no início do século XXI. Ronaldinho, do Barcelona; Van Nistelrooy, do Manchester United; Henry, do Arsenal; Totti, do Juventus; Kaká, do Milan; Ballack, do Bayern de Munique, são indivíduos capazes de levar o jogo a um patamar mais elevado. É só que – colocando de lado considerações tribais e examinando o que está disponível com olhos desapaixonados – os jogadores reunidos no Real o fazem com maior frequência, mais belamente e em um nível mais elevado. É por isso que a conversa que eu acompanhei no micro-ônibus em Majengo não deveria ser surpresa para mim, já que era óbvio que as pessoas estavam tendo exatamente a mesma conversa em micro-ônibus por todo o planeta Terra.

Ao voltar de Majengo para Nairóbi, tendo passado duas horas na clínica conversando com duas daquelas prostitutas imunes à Aids, fui almoçar no principal hospital universitário da cidade com um jovem médico que integrava a equipe que pesquisava por que aquelas mulheres tinham derrotado todas as probabilidades e evitado a infecção. O motivo pelo qual eu estava lá, em primeiro lugar, era para escrever uma reportagem de jornal sobre uma vacina para combater a Aids que os médicos quenianos estavam tentando desenvolver com base nas impressionantes defesas naturais das prostitutas. Eminentes catedráticos com os quais eu tinha conversado na Universidade de Oxford tinham dito que aquele era o mais ousado projeto do tipo no mundo. E, embora não fosse capaz de avaliar os méritos científicos do que estava acontecendo, eu estava bastante impressionado com o brilhantismo e a dedicação de pessoas como o jovem médico com o qual estava almoçando. Especialmente porque eu tinha entendido que um cientista capaz como ele, de apenas 27 anos de idade, poderia estar ganhando muito dinheiro se vendesse seu talento no exterior.

– Ah, sim – explicou ele –, mas para mim é um grande privilégio fazer parte dessa fantástica equipe de pesquisadores, realizando um trabalho tão importante para o mundo. Eu não trocaria isso por nada. Ao fazer parte desse grupo, sinto o que David Beckham deve estar sentindo ao fazer parte do Real Madrid.

Desta vez, não fiquei perplexo e boquiaberto, já que a viagem para Majengo me preparara para inesperadas alusões ao futebol. Foi o médico, e não eu, quem inicialmente levantou o tema do Real Madrid. Eu estava ali profissionalmente, conversando solenemente sobre Aids. Mas o que realmente me impressionou foi o que aconteceu a seguir. Algo de que eu sempre irei me lembrar como uma coincidência quase inacreditável. Não mais de cinco segundos depois de meu amigo médico mencionar o Real Madrid, meu telefone celular tocou. Atendi, e José Angel Sánchez, o chefe de marketing do Real Madrid – braço-direito e alter-ego de Florentino Pérez, e segundo homem mais poderoso do clube – se identificou. Era como ouvir uma voz de outro planeta, tão distante era o mundo opulento e ostentatório que ele habitava da vastidão vazia, cinza, de concreto do hospital em que eu estava e da imundície sórdida que eu tinha visto naquela manhã em Majengo.

Sánchez queria saber se eu poderia ir a Madri na semana seguinte para entrevistar Beckham para o canal de televisão do Real Madrid. Seria uma “exclusiva” mundial a ser transmitida para uma centena de países no dia de sua apresentação oficial como jogador do Real Madrid. Estávamos na quinta-feira, e a entrevista seria na terça ou na quarta-feira seguinte. O que dizer?

Aquilo era loucura. Eu estava na África fazendo uma reportagem sobre Aids, e durante todo o dia tinha havido referências ao Real Madrid e a Beckham. E agora eu estava sendo convocado a Madri para entrevistar o próprio homem. Estaria em andamento algum realinhamento planetário, com o Real Madrid e David Beckham no seu centro? Nem mesmo no coração da África era possível fugir deles. Nem por um só minuto.

Mas a resposta à pergunta de Sánchez não foi imediatamente óbvia para mim. Tinha acabado de chegar ao Quênia, a primeira parte de uma viagem de reportagem de duas semanas por quatro países da África que eu tinha passado mais de um mês diligentemente organizando. Podia eu jogar todo esse trabalho fora, me obrigar a recomeçar novamente a tarefa paciente de marcar encontros em Ruanda, África do Sul e Angola? E havia mais: eu tinha ido à África em uma missão de peso. Escrever sobre a Aids, o terrorista da natureza, o assassino que todos os dias, sem exceção, matava duas vezes mais pessoas que aquelas que morreram no World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Eu também iria escrever sobre guerra, pobreza e fome: em resumo, sobre a difícil situação dos povos mais abandonados e mais desesperados do mundo. Iria eu abandonar essa empreitada fabulosa para partir e entrevistar David Beckham? Minha consciência me permitiria esquecer isso? Tendo passado 20 anos de minha vida como jornalista cobrindo guerras, denunciando violações dos direitos humanos, defendendo, o quanto podia, os desventurados da Terra, seria eu agora acusado de uma frívola e irresponsável negligência para com o dever?

Disse a Sánchez que não podia dar conta daquilo naquele momento e que telefonaria para ele mais tarde. Então, me virei para o médico – aquele herói africano, o nobre oposto da cigarra frívola em que eu estava prestes a me tornar – e, embaraçado, expliquei a situação difícil em que me encontrava. Sua primeira resposta, bastante perplexa foi:

– Por que você?

edição inglesa de Anjos Brancos
Previsivelmente, ele imaginara que eu fosse um correspondente estrangeiro e não um jornalista esportivo. Eu disse que sim, que ele estava certo. Vagar por favelas em países pobres e conversar com pessoas como ele sempre tinha sido minha ocupação principal. Mas, nos últimos anos, minha paixão por futebol tinha convergido para minhas obrigações profissionais.

Sou meio-britânico, meio-espanhol e, tendo passado sete anos de minha infância em Buenos Aires (onde eles são provavelmente mais malucos por futebol do que em qualquer outro lugar do planeta Terra), era meu destino ser um fanático por futebol por toda a vida. O outro país em que cresci foi a Inglaterra, onde o esporte foi inventado. Muito mais tarde, quando me mudei para a Espanha, fui cativado pela paixão e pela arte do futebol espanhol, logo chegando a conclusão – partilhada pela maioria dos connoisseurs de futebol, eu suponho – de que o campeonato espanhol era o melhor do mundo. E foi assim que eu comecei a escrever cada vez mais sobre futebol. Inevitavelmente, era sobre o Real Madrid que meus editores britânicos queriam ouvir. Um dos motivos pelos quais recebi aquele telefonema impressionante foi que, ao começar a escrever sobre futebol, tinha entrevistado Pérez e Sánchez no Real Madrid e nós tínhamos nos dado bem. O fato de ser bilíngue ajudou. Mas percebi que a principal razão pela qual o Real Madrid queria que eu fizesse aquela entrevista era porque eu conhecia os mundos do futebol britânico e do futebol espanhol, falava inglês – e, portanto, esperava-se que eu deixasse Beckham mais à vontade que um jornalista espanhol na primeira grande entrevista dele para o seu novo time em solo espanhol.

Mas chega de autobiografia. O que eu precisava naquele momento, e com urgência, era de conselhos.

– O senhor é médico – disse eu. – Confio em médicos. Tenho essa grande escolha a fazer. Então me diga: o que devo fazer?.

Carlin é também autor da biografia de Mandela
Ele sorriu o sorriso do homem bom, sábio, de princípios cristalinos.

– Meu amigo – disse ele, abrindo um grande e radiante sorriso –, quando o trem chega, você precisa pegá-lo.

Ele estava certo. Sabia que ele estava certo. Telefonei para Sánchez e disse-lhe que estava pegando o trem. Que eu estaria em Madri na noite de segunda-feira.

Antes disso, fiz uma parada rápida em Ruanda, passei o domingo antes de minha volta no interior daquele pequeno país no coração geográfico da África, entrevistando as pessoas mais traumatizadas do mundo: as vítimas e os assassinos da maior atrocidade que o mundo tem visto desde a Segunda Guerra Mundial, o genocídio que começou em abril de 1994, no qual a população de etnia hutu de Ruanda, a maioria do país, se ergueu contra seus compatriotas tutsis, matando um milhão deles em 100 dias – quase todos eles cortados em pedaços com facões. Naquela noite, fui tomar um drinque com um general de Ruanda, um tutsi que tinha perdido a maior parte de sua grande família no genocídio, que levara um tiro no rosto e tinha a cicatriz para provar, e integrara a força rebelde que libertara o país pondo fim à matança, em junho de 1994. Mas eu já tinha tido histórias horríveis demais. Assim como ele. Conversamos sobre futebol.  Sobre – o que mais? – o Real Madrid e a transferência de Beckham. Como o Manchester United tinha permitido que ele partisse por tão pouco dinheiro? O que o técnico do Manchester, Alex Ferguson, estava pensando? Em que posição Beckham iria jogar? Ele não corria o risco de fracassar de forma terrível, jogando com aqueles atletas tão fantasticamente talentosos? E Ronaldo: tinha voltado à sua forma sensacional, mas as pessoas não temiam que ele tivesse uma recaída de sua terrível lesão no joelho? E Roberto Carlos, e Zidane, e Figo, e Raúl: eles não eram absolutamente fantásticos? E, por falar nisso, por que Pérez se livrou de seu técnico vencedor, del Bosque?

Vinte e quatro horas mais tarde, eu estava em um hotel cinco estrelas de Madri, preparando minha entrevista com Beckham. Fui bem.

Um mês mais tarde, após ter ido à África mais uma vez, então para concluir meu trabalho, recebi um telefonema de James, um amigo americano que trabalha para a ONU. Ele tinha estado na Suécia com dois garotos de oito e 12 anos de idade, filhos de um bom amigo que pouco tempo antes tinha morrido muito jovem de uma doença. Esperando divertir um pouco os dois garotos e fazer com que eles pensassem em outras coisas, James mencionara que tinha um amigo que entrevistara Beckham. “O queixo deles caiu”, disse James.

– Eles ficaram parados lá, impressionados, mudos, fascinados e admirados de que eu – um pobre infeliz – tivesse um amigo que tinha sentado e conversado com David Beckham.

John Carlin
Foi naquele momento, ou muito pouco depois, que James compreendeu que eu tinha de escrever um livro sobre o Real Madrid de Beckham. Telefonou para me dizer isso e eu percebi imediatamente que ele estava certo. Ei-lo.
     

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Um jogo inteiramente diferente !

Um livro obrigatório para pesquisadores, jornalistas e todo tipo de leitor interessado nas origens e evolução do futebol brasileiro. “Um jogo inteiramente diferente! – Futebol: a maestria brasileira de um legado britânico” foi escrito por um jornalista inglês. Aidan Hamilton é craque na literatura esportiva, depois dessa obra de referência, lançada em 2001 pela Editora Gryphus, publicou também, pela mesma editora, em 2005, a biografia de Domingos da Guia (veja aqui artigo sobre essa obra http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/11/o-centenario-de-domingos-da-guia.html).

Apresentação (da editora)

Fevereiro de 1997. A seleção brasileira está fazendo um amistoso contra a Polônia. O time de Zagallo parece estar tranquilo quando, de repente, Romário mostra uma incrível habilidade de tirar o fôlego ao receber um lançamento e bater de primeira com o calcanhar direito nos pés de Ronaldinho. De sua cabine de comentarista, o mestre Rivellino grita apenas uma palavra: Chaleira!

Corruptela de “Charles”, chaleira é a habilidade popularizada pelo pai do futebol brasileiro, Charles Miller. Nascido em São Paulo, Charles adquiriu uma paixão pelo jogo quando estava na escola em Southampton. Voltando ao Brasil em 1894, ele pavimentou o caminho para o primeiro campeonato do país, levando o São Paulo Athletic Club a três conquistas consecutivas.

Harry Welfare
Da mesma forma, o estilo forte e habilidoso do atacante Ronaldinho – eleito o melhor do mundo em 96/97 – descende do goleador do Fluminense, Harry Welfare. Chegando ao Rio em 1913, Harry – ex-atleta do Liverpool – ganhou o tricampeonato com o tricolor carioca e depois passou a dirigir o Vasco da Gama. Posteriormente, foi diretor técnico da Federação Carioca.

“Um jogo inteiramente diferente” é um livro sobre as vidas de Charles Miller e Harry Welfare – os elos entre a Inglaterra e o Brasil – e a influência britânica em meio século da história do futebol brasileiro. Além da presença de jogadores, técnicos e árbitros ingleses no Brasil, uma série de clubes, como o Corinthians, o Exeter City e o Arsenal, fizeram valiosas visitas ao país. É um legado que contribuiu para a criação de um estilo brasileiro de jogar, um estilo singular baseado na improvisação e velocidade, um estilo conquistador de Copas do Mundo. E hoje na Inglaterra, através de uma rede de escolinhas de futebol, se ensina aos futuros jogadores ingleses o jeito brasileiro de jogar.

É como se Charles Miller levasse essa maestria para o berço do futebol.

Prefácio
Por Juca Kfouri

Maravilhosos ingleses. Inventaram o futebol, nós o aperfeiçoamos, e eles, cavalheiros como são, reconhecem alegremente.

A prova esta aqui, neste “Um jogo inteiramente diferente!” do jornalista inglês, com o devido estágio em terras brasileiras, Aidan Hamilton.

Nada como ver com os olhos dos mestres a arte que os alunos souberam recriar.

E o grande professor não é exatamente aquele capaz de incentivar a criatividade de seus discípulos?

Estátua de Ted Bates, no Southampton.
Uma frase de um jogador do Southampton, Ted Bates, que veio ao Brasil em 1948 e perdeu um jogo atrás do outro, resume a magia que extasiou Aidan Hamilton: “Se nós ensinamos o jogo de futebol, dá para vocês imaginarem o prazer que eles têm em nos derrotar. Eles nos chamam (ou chamavam) de mestres ingleses – até a nossa apresentação”, escreveu numa carta para sua família, com a ironia que caracteriza um povo tão sábio que é capaz de rir de si mesmo.

Para tentar entender a diferença, o livro conta que até o futebol de salão é visto como uma explicação, mesmo que, cá entre nós, e que eles não nos ouçam, o esporte, uma invenção nacional, é relativamente recente para ser responsável pelo tetracampeonato mundial.

O livro é uma delícia.

Revela ingleses maravilhados com a leveza de nossas chuteiras nos anos 40 ao mesmo tempo em que mostra que, apenas dois anos antes da Copa do Mundo de 1950, no Brasil, não sabíamos que mão na bola era diferente de bola na mão.

Mas é melhor deixar que você se divirta com o que lerá adiante.

Porque o legado inglês não é pouca coisa e não deve ser visto com soberba ufanista.

Afinal, se o primeiro clube campeão mundial oficialmente reconhecido pela Fifa é brasileiro, seu nome é uma homenagem ao time britânico que nos visitou 90 anos atrás, em 1910, cujo hino diz que “figuras entre os primeiros do nosso esporte bretão” – o glorioso Sport Club Corinthians Paulista.

Introdução
Por Ainda Hamilton

Charles Miller
Ainda me vejo retornando a São Paulo em novembro de 1994 para preparar um programa de rádio sobre o centenário do futebol brasileiro. Levei comigo uma cópia do verbete Brasil de um ABC do futebol mundial. Começa assim: “Charles Miller, entusiástico jogador de futebol na Inglaterra, chegou ao Brasil em 1894, e imediatamente começou a popularizar o jogo no São Paulo Athletic Club...”.

Há discrepâncias entre esta e outras versões sobre as origens do jogo brasileiro. O Miller era inglês, não era? E suas aulas de football – teriam realmente começado assim que ele chegou no Brasil? Resolvi investigar tudo isso depois de encontrar Helena, a filha de Charles Miller.

Em pouco tempo, o estudo biográfico de Charles Miller passou a abranger outras conexões entre o futebol inglês e o brasileiro – especialmente a notável carreira de Harry Welfare. Em relação a Charles era mais uma questão de separar o fato da lenda, mas Harry havia sido quase completamente esquecido. Hoje, enquanto Charles é amplamente venerado no Brasil (nome de praça em São Paulo e de prêmios para jogadores), os vestígios de Harry são poucos – um Welfare no Rio, cujo avô adotou o nome para homenagear seu jogador predileto, e seu nome numa placa de Sócios Beneméritos na sede do Fluminense.

Harry Welfare
O quadro de referências para esta história de Miller e Welfare é proporcionado pela História do Futebol no Brasil 1894-1950, de Tomás Mazzoni. O período coberto é quase idêntico; há uma ênfase no desenvolvimento do futebol no Rio e em São Paulo e o desempenho internacional do Brasil. Como fez Mazzoni, apresento os diversos aspectos dos principais jogos.

Uma palavra sobre terminologia. Eu tenho seguido amplamente a convenção brasileira de considerar britânico como inglês, ou seja, incluindo escoceses e gauleses. É importante, também, enfatizar como Charles Miller foi um desportista completo; referências a ele como jogador de críquete foram simplificadas para evitar explicações detalhadas. Finalmente, todos os termos de futebol foram mantidos em inglês como eram usados na época.

Durante meio século, a Inglaterra influenciou certos aspectos do jogo brasileiro. E o futebol inglês levou quase todo esse tempo para começar a analisar como o Brasil dominou esse legado...

Sobre o autor:
Aidan Hamilton foi editor de esportes na Rádio Praga no início dos anos 90; desde então trabalha como freelancer para o World Service da BBC. Nascido na cidade de Taunton (1958), no sudoeste da Inglaterra, torcedor do Bristol City, é formado em Francês e História pela Universidade de Edimburgo. Atualmente, mora no Rio de Janeiro onde trabalha como especialista em métodos de ensino numa escola de línguas – a mesma função que exerceu em São Paulo no fim dos anos 80. “Um jogo inteiramente diferente” foi publicado na Inglaterra em 1998.



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Zizinho: Verdades e Mentiras no Futebol

“Zizinho pode não ter sido melhor que Pelé; mas pior, não foi”. Com frase igual a essa, quem ousaria duvidar da genialidade de um dos maiores nomes do futebol brasileiro? O próprio rei do futebol, Pelé, cansou de repetir que Zizinho sempre fora seu maior ídolo, fonte de inspiração.

Em clubes, Zizinho teve seu nome consagrado em três clubes: o Flamengo, tricampeão carioca de 1942/43/44; Bangu e São Paulo. Com a camisa da seleção brasileira, foi uma das “vítimas” na fatídica derrota para o Uruguai, na Copa de 1950. Três anos depois, em 1953, teve problemas quando defendia a seleção durante o campeonato Sul-Americano, em Lima, Peru. 

Foi rotulado de mercenário pelo escritor José Lins do Rego, chefe da delegação brasileira na ocasião. Foi esse episódio que teria levado Zizinho, ou melhor, mestre Ziza, como os amigos o tratavam, a escrever o livro “Verdades e Mentiras no Futebol” (Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, 2001). Mas o livro tem muito mais histórias importantes, escritas pelo próprio Zizinho.

Um ano depois do lançamento do livro, Zizinho morreu, aos 80 anos. A obra é uma raridade, pois Zizinho brigou com a editora que publicou a obra e o produto só é encontrado, com dificuldade, em sebos.  

Um bom local para ler a obra é no Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, local onde foi feita a pesquisa sobre a obra. Vale a pena conhecer o acervo em www.dados.museudofutebol.org.br.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo o texto de apresentação do falecido jornalista Fernando Horácio da Matta, além do primeiro capítulo da obra.

Mestre Ziza
Por Fernando Horácio da Matta

Zizinho, Mestre Ziza, Thomaz Soares da Silva. Só os craques de estirpe superior, os verdadeiros fenômenos, iniciam chamados por apelidos ou diminutivos, são homenageados por um título honorífico e terminam conhecidos pelo nome e pelo sobrenome, recitados com admiração e respeito pelos que amam o futebol mundo afora.

Na galeria dos maiores jogadores de todos os tempos há de estar reservado um lugar de honra para Zizinho. Quando começou, atuava como insider, adaptado no jargão futebolístico para meia, depois definido como armador, e hoje se diria meio-campista. O que, para ele, soa pejorativo.

Na dinastia dos excepcionais meias brasileiros, afirmou-se digno sucessor de Romeu Pelliciari, conviveu com Jair Rosa Pinto e Elba de Pádua Lima, o Tim, e inaugurou a descendência dos dribles irresistíveis dos passes perfeitos e dos lançamentos deslumbrantes, que teve como sucessores craques da expressão de Valdir Pereira – o Didi, Gérson Nunes, Ademir da Guia, Roberto Rivelino, Tostão e Artur Antunes Coimbra, o Zico. Grande Zizinho, mágico no domínio da bola, gênio na armação de jogadas, verdadeiro arquiteto do futebol, sua imagem paira acima de todos, só encontrando paradigma no mito Pelé.

Vale lembrar a frase do professor Flávio Costa: “Zizinho pode não ter sido melhor que Pelé; mas pior, não foi”. Ou do próprio Pelé, que o venera como ídolo e exemplo, seguindo as palavras do pai Dondinho, e lhe ofereceu no dia 14 de setembro de 1999, quando Zizinho completou 78 anos, uma placa de prata na qual estava gravado: “Ao meu maior ídolo, com a amizade e admiração do Pelé”.

Em campo, somava ao talento prodigioso o espírito de guerreiro feroz. Como jamais deixou de acariciar a bola e ser adulado por ela, nunca evitou uma dividida ou refugou disputas ríspidas. Quebrou pernas e as teve quebradas. Sempre achou que “futebol é para homens”, mas para homens que o pratiquem com dignidade e coragem.

Um dia, quando lhe perguntaram o que separava o verdadeiro craque do bom jogador, respondeu: “O craque é aquele que, antes de receber a bola, já sabe o que vai fazer com ela”. Zizinho anteviu jogadas, jogos e até o próprio futebol, encantando seus companheiros, atemorizando adversários e maravilhando plateias.

Escapou-lhe, por fados ingratos ou pecados dos deuses do futebol – será que os deuses pecam ao subtrair dos superdotados a glória merecida? – o título de campeão mundial. Felizes, porém, os que puderam ver e conviver com o seu estilo e seu talento ao mesmo tempo alegre e sério, pleno da magia e coragem, de uma simplicidade que só os gênios sabem e podem expressar.

Mestre Ziza pendurou as chuteiras, mas jamais perdeu sua atração pela bola. Dedicou-se à carreira de técnico e dirigiu, entre muitas equipes, o América e o Vasco, no Rio, e a seleção brasileira de novos, onde lançou jogadores do porte de Falcão, Júnior e Edinho. Observador perspicaz, estudioso e metódico, decidiu para o bem do futebol colocar no papel as experiências vividas como treinador e a análise de como se armam os grandes times e de suas formas de jogar.

O que diz e escreve está sublinhado pelo conhecimento, a competência e a inteligência de um jogador raro, um homem simples, digno e correto. O livro Verdades e Mentiras no Futebol é, antes de tudo, uma herança valiosa para o futebol brasileiro e, assim, uma obra indispensável para quem quer entender com maior profundidade essa fonte de paixão nacional. Obrigado por mais esta jogada, Thomaz Soares da Silva, Zizinho, amigo da bola, mestre do futebol.

Tudo começou assim
Por Zizinho

Este foi o título de uma palestra para a qual fui convidado no Rio Cricket, em Niterói, RJ. Aceitei o convite e pedi ao diretor cultural do Clube, o amigo Carlos Augusto Pacheco de Mello, que fizesse da ocasião uma espécie de bate-papo sobre “Os Sistemas de Futebol”. Sentia-me a vontade para falar sobre o assunto pois todas as grandes mudanças de sistemas táticos no futebol carioca coincidiram com minha profissionalização, no final da década de 30, quando fui contratado pelo Flamengo. O nobre esporte bretão era comandado no Brasil pela então capital da República, o Rio de Janeiro.

Lembro-me que o Fluminense foi a São Paulo e contratou quase toda a seleção paulista, Batatais, Guimarães, Machado, Orozimbo, Romeu, Lara e Hércules. No ano seguinte trouxe o Tim. Mesmo assim, o América foi o campeão de 1935 (nessa equipe jogava como titular um meia de nome Clóvis Nunes, pai do Gérson – Canhotinha). Seis desses jogadores fizeram parte da grande seleção brasileira de 1938. Para contratar esses oito maravilhosos jogadores, qualquer clube teria que abrir mão de grande parte de seu patrimônio.

Não contávamos com os meios de comunicação que temos hoje, portanto vou me limitar a falar das mudanças que ocorreram no Rio de Janeiro e de outros sistemas que marcaram época ou que foram de conhecimento de muitos. Já conhecia alguns mesmo antes de chegar ao Flamengo. Antes mesmo de aprender a escrever o nome do Clube cuja sede era em minha casa, pois meu pai era o presidente do Carioca F.C., eu já conhecia uma forma defensiva de jogar que se chamava “um zagueiro de espera e um zagueiro de avança”. Esse velho sistema defensivo, (todos os sistemas de ataque até 1942, no Rio de Janeiro, jogavam em M) muitos anos depois, veio me dar a maior tristeza de minha carreira esportiva e que será contada mais adiante.

TUDO COMEÇOU ASSIM – Com esse audacioso título eu teria que pesquisar a fundo para chegar ao berço do futebol, criado no século passado. Encontrei dados maravilhosos nos quatro volumes que compõem a História Ilustrada do Futebol Brasileiro.

Charles Miller foi o introdutor do futebol no Brasil. Filho de ingleses, estudou na Inglaterra e tornou-se grande jogador nesse país. Em 1894 regressou definitivamente ao Brasil, trazendo em sua bagagem um uniforme completo de futebol e duas bolas. Nessa famosa mala que trazia as sementes do jogo, devem ter vindo o regulamento e algum sistema para se jogar, quem sabe, talvez o M.M., e assim começou o futebol em São Paulo.

Campo do Rio Cricket
Em 1897, o jovem Oscar Cox regressava da Suíça onde fora estudar e travou conhecimento  com o novo esporte. Assim que chegou ao Rio de Janeiro entrou em ação, convidando seus amigos para jogar.

Isso animou-o a jogar a primeira partida, disputada em 1º de outubro de 1901, entre  ingleses e brasileiros, no campo do Rio Cricket, em Niterói, que era a capital do antigo Estado do Rio de Janeiro.

Os líderes dos dois Estados entraram em contato e, em 19 de outubro de 1901, realizaram o primeiro interestadual, em São Paulo, entre cariocas e paulistas.

A primeira organização esportiva do Rio de Janeiro foi a Liga Metropolitana de Futebol, fundada em 1905.

O primeiro campeonato foi disputado em 1906, com os seguintes clubes: Fluminense, Bangu, América, Botafogo, Paissandu e Rio Cricket. O Fluminense foi o campeão.

O futebol não seria hoje um esporte tão técnico se desde as primeiras regras não se procurasse estabelecer normas para as disputas de bola, diferenciando o jogo viril do jogo violento. O calço, o pontapé, uso das mãos, o tranco por trás, a joelhada, a obstrução e a sola.

As regras foram sendo sucessivamente modificadas (o futebol foi oficialmente codificado em 1º de dezembro de 1863).

Vejam com que paciência e correção foram feitas durante 75 anos as leis que regem o esporte:

1863 – O arremesso lateral se fazia com apenas uma mão e não com as duas.
1868 – Institucionaliza-se a figura do juiz.
1878 – Adotaram, pela primeira vez, o travessão de madeira e surge o apito.
1882 – Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda fundam a Internacional Board, que até hoje regula as leis do jogo do mundo inteiro, já como órgão da FIFA.
1896 – Cresce a autoridade do juiz. Nos últimos anos do século, fixa-se o número de jogadores em onze, as dimensões do campo, o tamanho da bola e a duração da partida em noventa minutos.
1901 – O limite da área é fixado.
1904 – Foi fundada a Federação Internacional de Futebol Association (FIFA) a 21 de maio de 1924.
1907 – Começam a mudar as leis do impedimento, definindo-se somente em 1924.
1938 – Foi feita uma nova revisão em todo o texto.

Conforme declarei, antes mesmo de chegar ao Flamengo, em 1939, já conhecia alguns sistemas para se jogar futebol. Vou começar com a primeira formação que conheci em minha infância, que por coincidência era muito parecida com a segunda sombra que cruzou o nosso caminho na Copa do Mundo de 1950.

Carioca Football Club
Fundado em 10/04/1920 – Av. Paiva, 77 – Bairro do Paiva – São Gonçalo – RJ

Eu nasci a 14 de setembro de 1921 no endereço acima, que era a residência de meus pais, Thomas Silva e Euridice Soares da Silva. Fui o terceiro filho de seis irmãos, minhas irmãs mais velhas Zélia e Zilda nasceram antes da fundação do clube no mesmo local.

O bairro do Paiva era como uma só família, e, meu pai e seus amigos fundaram o clube cuja camisa era preta e vermelha, igual a do Milan, e o calção azul.

Durante alguns anos, o clube teve como sede a nossa casa, e foi neste ambiente maravilhoso que eu nasci e cresci, no meio de muitos amigos, tropeçando em uma esfera de couro nº 5 que era a bola dos adultos.

Perdi meu pai no dia 13 de junho de 1928, dia de Santo Antônio, aniversário de minha mãe. Meu pai adorava futebol, foi jogador e dirigente. Por essa razão eu senti a sua despedida como a maior derrota da minha vida. Eu sei que fui um bom jogador de futebol, sei também que ele me viu jogar, só não tive o seu abraço após uma vitória ou o consolo de suas mãos sobre a minha cabeça nos momentos de minhas derrotas.

Eu tinha apenas seis anos quando conheci a primeira formação defensiva para se jogar futebol.
“Com um beque de avança e um beque de espera".