quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A Esfera como Metáfora

Uma obra de referência para pesquisadores, jornalistas e estudiosos do futebol e da literatura esportiva brasileira. É o que o jornalista e professor Edônio Alves Nascimento acabou realizando quando apresentou em 2011 sua tese de pós-graduação em Estudos da Linguagem na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

A Esfera como metáfora: Representações do futebol no campo da literatura (editora Multifoco) virou, merecidamente, mais um livro fundamental para a história da literatura esportiva.

A ideia central desse amplo estudo é mostrar quando e como o futebol tornou-se um tema recorrente na literatura brasileira.

Sinopse (da editora):

Nelson Rodrigues
Eis aqui uma ampla investigação do futebol no Brasil tomando a Literatura como via de sua representação como linguagem. O autor expõe uma visão panorâmica da produção literária desse tema no País, no gênero conto de ficção, e ao mesmo tempo traz foco para alguns autores representativos dela, tais como os escritores Mário Filho; José Lins do Rego; Nelson Rodrigues e Lima Barreto, entre outros. O livro mostra que há uma homologia entre a maneira como o futebol no Brasil vai historicamente ganhando estilo – a ponto de formarmos uma escola brasileira do jogo – e a forma como nossos autores vão tratando o tema, elaborando, também, uma “maneira brasileira” de narrar literariamente o futebol.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo (e agradece desde já ao autor pela cessão) o texto de apresentação da obra.

“Um vazio assombroso; a história oficial ignora o futebol. Os textos de história contemporânea não o mencionam, nem de passagem, em países onde o futebol foi e continua um símbolo primordial de identidade coletiva.”
Eduardo Galeano

“Lotado: aqui dentro está um país inteiro!”
(Frase escrita no ônibus da Seleção Brasileira de futebol que disputou a Copa do Mundo da África do Sul em 2010)

 
“Desde que em 1942 o crítico literário Álvaro Lins fez a ligação da história de um jogador de futebol com a história da entrada do próprio jogo como tema de um romance da literatura brasileira (Água-mãe, de José Lins do Rego) uma questão na área dos estudos literários vem se impondo a uma constatação: como e em que medida o futebol se reflete na literatura brasileira, se este esporte, hoje de caráter e extensão nacionais, ainda não foi capaz de interessar os autores brasileiros na medida correspondente ao prestígio e à penetração que alcança nas camadas da população brasileira?

Essa inquietação atualíssima – embora um tanto já atenuada pelo volume cada vez mais crescente de novas publicações sobre o tema –, exposta ao público brasileiro em 1967 pelo jornalista Mário Pedrosa a partir de uma incitação crítica do escritor e tradutor Paulo Rónai, é de certa maneira a idéia motriz do presente trabalho, assim como o foi também para a iniciativa de Pedrosa em produzir e publicar a primeira tentativa de inventariar a produção literária brasileira sobre o tema do futebol em nossas letras.

Publicado em 1967, o seu livro Gol de letra é uma espécie de antologia que reúne, por critérios editoriais subjetivos e pouco críticos, textos produzidos sobre o futebol nos gêneros conto, romance, teatro, poesia, artigos, crônicas e excertos. Ainda assim – mesmo que seu trabalho não tenha obedecido a julgamentos críticos e historiográficos rigidamente acadêmicos – estava dado o pontapé inicial para uma futura avaliação mais sistemática e criteriosa da presença do futebol na literatura brasileira, intento que pretendemos realizar aqui, ainda que abrangendo, apenas, o gênero conto, dada a extensa lacuna do assunto na historiografia literária nacional.

Esse nosso trabalho, portanto, tem o objetivo manifesto de estudar o jogo de futebol no Brasil enquanto fato cultural e estético, tomando a Literatura e o Jornalismo, instâncias consagradas de representação desse esporte na comunicação social, como seu campo privilegiado de análise. A ideia central do estudo ora proposta é mostrar quando e como o futebol tornou-se tema recorrente na literatura brasileira, partindo inicialmente da sua abordagem jornalística, documentalista, referencial e ensaística, portanto – porque foi através dos jornais que o tema tornou-se literário – até chegarmos a uma visão, digamos, estética do jogo (o fruir do seu prazer através da linguagem), sendo sua representação literária o foco principal de nossa atenção.

Diante, pois, da necessidade de continuar esse trabalho (iniciado por Mário Pedrosa num outro âmbito) de dar visibilidade e legitimidade acadêmica à produção literária que tematiza o futebol, junto com a preocupação de estudá-la à luz das categorias, conceitos e métodos fornecidos pelas modernas correntes das teorias literárias e jornalísticas, é que apresentamos a oportunidade de empreendermos uma análise extensiva da parte representativa do conjunto dessa produção, particularizada nas obras de caráter ficcional que de outra parte também compõem o conjunto geral da literatura brasileira.

Nesse percurso, pretendemos também, por questões que explicitaremos oportunamente, empreender uma análise intensiva e vertical na produção de alguns autores que consideramos fundamental para o tratamento ficcional do tema do futebol em nossas letras. Autores que se expressaram em diversos gêneros de escrita (notadamente os que ligam o campo do jornalismo ao da literatura) os quais optamos por abordar no nosso estudo pelos motivos que explicaremos ao fim do primeiro capítulo deste trabalho.

Para cumprir tal fim, pensamos estruturar nosso trabalho de maneira que ele pudesse proporcionar uma abordagem que relacionasse metodologicamente produção literária e produção social; a escrita estética dos escritores e a escrita histórica dos atores sociais que, num espaço social determinado – uma sociedade que incorporou o futebol como jogo cultural predominante desde o início do século XX, caso da brasileira – inevitavelmente se imbricam e o fazem a tal ponto que uma dessas esferas necessariamente se reflete na outra, o que se dá por meio de um movimento dialético em que não raro a representação literária se volta para a representação social e vice-versa.

Neste contexto, tomamos o futebol aqui não apenas como um jogo em si, mas – e principalmente – como uma grande metáfora da vida social; um grande sistema de comunicação que, por encerrar uma verdadeira metalinguagem da cultura brasileira, forma, a partir de sua estrutura lúdico-competitiva de caráter essencialmente simbólico, um conjunto de sentidos e significados que comunica para além da sua mera visualidade objetiva e imediata; para além da sua realidade material como jogo tomado no seu sentido estritamente esportivo.

Sendo assim, resolvemos, por isso mesmo, tomar como a operacionalidade teórica básica do trabalho a mobilização de dois conceitos fundamentais: a ideia de representação literária da vida cotidiana aliada à noção de representação social, ambas categorias devidamente aplicadas à nossa análise do fato literário vinculado ao tema do futebol, o que deverá compor a nossa mirada histórica sobre a literatura brasileira produzida sobre ou em torno dessa questão.

Uma hipótese operativa foi por nós aventada no que concerne à abordagem proposta por esse nosso estudo: a ideia de que por ser o futebol um jogo que dadas as características intrínsecas e estruturais que o encerram, sua dimensão comunicativa exigiria, no nível de sua representação simbólica - no caso, literária -, narrativas que articulassem ou considerassem essas mesmas características (a magia, a imprevisibilidade, a surpresa, a beleza etc.) que, definidoras do jogo no seu conjunto, são também pertencentes à esfera do estético – da arte, por extensão.

Neste sentido, temos a suposição de que no caso das narrativas sobre o futebol brasileiro produzidas por nossos escritores, no longo percurso que vai do seu tratamento jornalístico à sua abordagem puramente literária, parece haver uma homologia entre a maneira como a prática do futebol entre nós vai ganhando características próprias, a ponto de formarmos uma escola brasileira de jogar futebol, e a maneira como os nossos escritores-jornalistas vão tratando o tema, algo que implicaria também na criação de uma “maneira brasileira” de narrar literariamente o futebol.

Feitas essas considerações teórico-metodológicas iniciais, desçamos às concepções estruturais do trabalho. Este estudo será composto desta introdução (em que se pretendeu apresentar sucintamente a motivação, a necessidade, a validade, a justificativa, a concepção e a metodologia escolhida para orientar a pesquisa e a análise do objeto de estudo: a presença do futebol na literatura brasileira nos gêneros de ficção, com enfoque no conto) devidamente complementada por mais três capítulos, onde se pretendeu resumir os resultados das avaliações e análises críticas das obras e autores elencados em sentido panorâmico, estudados todos sob o ponto de vista sócio-histórico e crítico-estético.

Entre uma ponta e outra, todavia, depois desta introdução, o capítulo segundo fará uma abordagem do tema da pesquisa tratando das questões teórico-conceituais e metodológicas sobre o jogo de futebol compreendendo-o como um fenômeno de comunicação estética em que se explicita a sua relação com a linguagem de uma forma geral e com a literatura de forma particular. Em ambos os casos, amiúde, concebe-se a linguagem também como uma forma de jogo ou meio produtor de sentidos de que se nutre o futebol como sistema metalingüístico de valor social e cultural estruturante. Daí fazerem-se as relações entre jogo, esporte, literatura e linguagem, absolutamente pertinentes para esse estudo.

O capítulo terceiro pretende realizar uma história panorâmica da presença do futebol na literatura brasileira por gêneros, destacando-se horizontal e verticalmente os de ficção, e, dentro destes, o conto. Aqui, serão apresentadas também as primeiras manifestações literárias do tema tomadas em sentido amplo e em sentido estrito; dos primeiros escritos sobre o futebol, mesmo que produzidos em registros de cunho informativo ou técnico – mas que se considere de valor historiográfico no sentido da abordagem proposta – até os registros propriamente literários: as peças de cunho estético, principalmente as crônicas e as primeiras histórias curtas de ficção. Concomitante a isso, pretende-se ter como resultado paralelo – o que virá no quarto capítulo - a produção de uma história crítica das principais obras da literatura brasileira que tematizam o futebol formalizadas no gênero conto, que receberá destaque analítico em função de critérios devidamente explicitados.

O quarto e último capítulo, portanto, incluirá uma análise mais vertical e aprofundada dos autores cujas obras contribuíram para firmar definitivamente a entrada do futebol como matéria potencial de transfiguração literária por meio da ficção, uma vez que o assunto, conforme demonstraremos, trafegará paulatinamente do âmbito do jornalismo para a seara específica da literatura, campo em que recebeu um tratamento estético mais apurado em razão da sua pertinente ligação com a esfera da arte e do jogo, numa conjunção de princípios e meios comuns a sua própria estruturação enquanto motivo de especulação e efetivações várias do âmbito da cultura.

Nesse sentido, a averiguação pragmática desse fato que envolve os autores e as obras que escolhemos como corpus de estudo do nosso trabalho exigiu, por exemplo, que criássemos ferramentas analíticas apropriadas para dar conta de sua complexidade e abrangência, e foi aí que ousamos estabelecer, por conta própria, embora que com a devida justificação teórica apresentada, categorias de leitura com as quais estudaríamos os textos que escolhemos para representar a nossa sondagem mais vertical do tema do futebol na literatura brasileira.

Para cumprir tal meta, empreendemos, nesse ponto do trabalho, uma leitura crítica um tanto heterodoxa de tais textos e de tais autores, o que implicou uma aproximação radical do olhar analítico com o objeto mesmo da análise, resultando daí que tal aproximação demandou o abandono, conscientemente feito por nós, das regras de citação do discurso com apropriação científica, feitas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT.

Assim, nesse ponto da nossa pesquisa, as citações dos textos analisados são feitas de forma livre no texto de análise (marcando-se devidamente com aspas, evidentemente, o discurso alheio) de modo que reste daí, numa espécie de supra-texto analítico, assinado por nós, as mesmas marcas autorais – informadas pelos componentes lúdicos do jogo e da linguagem – que serviram de critério de inclusão de tais produções no universo da nossa abordagem em questão.”

Sobre o autor:
EDÔNIO ALVES NASCIMENTO é de João Pessoa, Paraíba, formado em Jornalismo pela UFPB e pesquisador com Doutorado pela UFRN. É também professor do curso de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba, tendo publicado também “As ligações perigosas: relações entre literatura e jornalismo na década de 70 no Brasil”, em 2006, pela Editora da UFPB.

domingo, 29 de novembro de 2015

Alex, a Biografia

Mais uma obra prima no universo das biografias. O personagem é um dos maiores camisas 10 do futebol brasileiro. “Alex, a Biografia” (Editora Planeta) foi escrito por outro craque do jornalismo esportivo, Marcos Eduardo Neves, autor também de outra biografia histórica sobre outro jogador polêmico, Heleno de Freitas, e que virou até filme.

E o melhor de tudo. A biografia de Alex não é “chapa branca”, como o próprio autor faz questão de frisar. Alex é personagem polêmico, craque que talvez não tenha tido o devido reconhecimento enquanto atuava pelos gramados do Brasil e do mundo.

Mais um livro fundamental para a literatura esportiva brasileira.

Sinopse (da editora):

“Alex, a Biografia” retrata a trajetória do craque Alex, ídolo imortal das torcidas do Coritiba, Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahçe, da Turquia. As dificuldades da infância pobre, os percalços no começo da carreira, os maiores títulos, o porquê de não ter sido convocado para nenhum Mundial, apesar da inquestionável técnica, tudo está exposto com clareza na obra.

O livro apresenta, narrado ora pelo próprio jogador, ora pelo autor do livro, Marcos Eduardo Neves, detalhes da sua vida amorosa e pessoal jamais revelados anteriormente, como gravidezes perdidas e momentos de angústia às vésperas do parto complicado de cada um dos três filhos. 

Bastidores do futebol são enfatizados, como companheiros de posição tentando puxar tapete, trairagem de treinador, momentos de tristeza, decepção, revolta e incontáveis alegrias.

Os motivos de ter virado mais do que celebridade, e sim personalidade, na Turquia: a identificação com o país, o respeito à cultura, a devoção a seu clube. O craque disseca todos os fatores que fizeram com que pedisse a rescisão de seu contrato, em 2012. Conta pormenores da romaria e vigília de milhares de torcedores por 12 dias e 12 noites defronte à sua casa, além da despedida emocionada no aeroporto Atatürk.

Termina com sua volta triunfal ao futebol brasileiro, onde liderou a posição do Bom Senso FC, movimento que luta contra os poderosos pelo bem do esporte.”

Literatura na Arquibancada destaca abaixo a quarta capa do livro, assinada por outro craque do futebol e das letras, Tostão. Mais abaixo, um trecho de um dos capítulos da obra.

QUARTA CAPA
Por Tostão

Alex foi ídolo do Coritiba, do Palmeiras, do Cruzeiro e do Fenerbahce, da Turquia. É um dos craques que não jogaram uma Copa do Mundo. Uma razão é que competia com Ronaldinho, Rivaldo e Kaká, que se tornaram os melhores do mundo. Outra é que muitos não compreenderam a grandiosidade de seu talento. Alex, diferentemente do jogador que estava sempre com a bola, tentando uma jogada, muitas vezes, errada e impossível, esperava o momento certo para brilhar, assim como os grandes pintores impressionistas iam para os campos abertos, à espera do brilho ideal da luz para fazer suas obras geniais.

Alex era muito técnico, minimalista. Em poucos lances e com poucos movimentos, decidia a partida. Não tinha excessos nem firulas. Mesmo sendo um meia armador, de passes espetaculares, fez também muitos gols, mais de 400, muitos belíssimos, magistrais.

Alex, dentro e fora de campo, foi um atleta inteligente, lúcido, que falava o que pensava e que pensava antes de fazer. É um dos líderes do Bom Senso F. C., que luta para melhorar o futebol brasileiro. Alex é um dos grandes da história do futebol. “O que a memória amou se tornou eterno” (Adélia Prado).

CRUZEIRO,2003:

"Como disse, a ideia central era fazer a bola passar o tempo todo pelos meus pés. Na nossa primeira conversa, anunciou que traçaria um objetivo para mim. Eu teria de treinar muito e emagrecer. Sua equipe determinaria um peso e um percentual de gordura para eu trabalhar em cima dessa meta o ano inteiro.

Sentei com a Patrícia, a nutricionista do clube, que me avisou para ter cuidado com certas coisas. Por exemplo, churrasco. Eu teria de comer muita melancia. Os caras me chamavam de louco, eu falava que ia dar certo, mas foi difícil. Cheguei a parar no hospital duas vezes. Minha mulher discutiu com o Vanderlei umas três vezes por causa disso. Mas ele levava na boa; me mandava fazer um exercício aqui e outro ali. Deu certo. Pude, pela primeira vez na carreira, jogar abaixo do meu peso.”

– Fiz uma prescrição para reduzir a gordura corporal e aumentar a massa muscular do Alex – conta a nutricionista Patrícia Fernandes Teixeira, que foi auxiliada pelo fisiologista Emerson Silami. – Ele perdeu entre seis e sete quilos de gordura e ganhou de três a quatro de massa muscular. Obteve uma transformação física fantástica. Ampliou a explosão, a força e a velocidade em cerca de 20 a 30%. Com os micronutrientes e a hidratação, melhorou a recuperação, ganhando mais energia para gastar por jogo.

Segundo ela, o atleta teve maturidade e consciência para usar a ciência a seu favor:
– O Alex passou por uma reeducação alimentar, pois se excedia no consumo de carboidratos e gordura – esclarece. – Elaborei um cardápio específico para que pudesse perder peso e reduzir o índice de gordura. A meta foi atingida em fevereiro. Depois, foi trabalhar a manutenção.

Segundo o preparador físico Antonio Mello, o tratamento, baseado em exercícios e alimentação natural, não se valeu do uso de suplementos. Ainda assim, o percentual de gordura do Alex, que em outubro de 2002 era de 14%, caiu para 8,5% em março do ano seguinte.

– No Cruzeiro o Alex jogou não muito, mas sim acima de qualquer nível de excelência – elogia Mello. – Eu o avaliei de longe durante toda a carreira e percebi que detinha força e potência. Sua qualidade física era inata e tinha uma baita explosão. Além disso, fazia a bola ficar mais rápida, tamanha a precisão no passe. Ele gostou de trabalhar comigo, até porque eu não o colocava para correr tiros longos, só distâncias curtas.

“Nessa reeducação alimentar, aconteceram cenas ridículas. No dia seguinte a uma partida, estava comendo um doce num restaurante, o Vanderlei entrou no local e quem estava comigo na mesa escondeu a sobremesa para que ele não a enxergasse. Não havia descanso. Diariamente eu era obrigado a me pesar e a cada duas semanas analisavam o meu percentual de gordura.”

– O Alex só comia melancia e tomava Xenical, um remédio para emagrecer – lembra Roberta, mulher de Paulo Miranda. – A gente ia jantar e, como o Vanderlei queria fazer dele o melhor jogador do Brasil, ele ficava só na melancia. Na sua casa tinha strogonoff, cachorro-quente, e ele só na melancia e no Xenical. Chegava a se borrar nas calças.

“Antes de um jogo no Mineirão eu vomitei o dia inteiro, de fraqueza. Não reunia forças para ficar de pé. O Vanderlei me dava apoio, dizia que eu conseguiria, me estimulava. Fizemos um 2003 espetacular, mas foi um sacrifício desumano. Essa é a palavra: o que fiz naquele ano foi desumano."

Sobre o autor:
Marcos Eduardo Neves é jornalista e escritor. Especializou-se em biografias. Autor de “Nunca houve um homem como Heleno”, livro que virou filme no Brasil protagonizado por Rodrigo Santoro, escreveu obras que atravessaram fronteiras. Como “Vendedor de Sonhos – A vida e a obra de Roberto Medina”, que apresenta o criador do maior festival de música do mundo, o Rock in Rio, vendido também em Portugal e na Espanha – onde, por sinal , “Alex” será republicado, assim como na Turquia. Com passagens por importantes veículos de comunicação do país, como o Jornal do Brasil, trocou as redações pela literatura. Apadrinhado por Ruy Castro, que assegurou ter parado de escrever biografias desde que notou a ascensão do jovem, Marcos Eduardo Neves vem sendo sempre indicado pelo mestre e já produziu relevantes biografias sobre astros do esporte, como o perfil de Francisco Horta e a história completa do ex-jogador Renato Gaúcho, além da obra “20 Jogos Eternos do Flamengo”. “Alex, a Biografia” é seu oitavo livro.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Política, Propina e Futebol


Os bastidores do futebol mundial vasculhado por um craque do jornalismo investigativo. Jamil Chade, correspondente internacional do jornal O Estado de São Paulo, revela, em ampla pesquisa, o submundo das negociatas e corrupção que acabaram levando à prisão, vários dirigentes do futebol mundial, incluindo o ex-presidente da CBF, José Maria Marin.

Uma obra fundamental na literatura esportiva brasileira e mundial: "Política, Propina e Futebol" (Editora Objetiva).

Calendário de lançamentos: dia 24/11, Livraria Cultura, em Porto Alegre. Dia 27/11, Livraria Cultura, Conjunto Nacional, em São Paulo. Sempre às 19hs.

Sinopse:

Em seu novo livro, "POLÍTICA, PROPINA E FUTEBOL", Jamil Chade revela com exclusividade a rota do dinheiro do futebol. A partir de documentos exclusivos, ele mostra como o esporte se transformou em uma máquina de enriquecimento para um grupo de oligarcas da bola. Esse grupo sequestrou o futebol e, por consequência, a emoção do torcedor. 

Em um trabalho de denúncia que é o resultado de 15 anos de cobertura da Fifa, o autor entra na intimidade de vários dos cartolas hoje detidos, revela conversas esclarecedoras e desvenda acordos milionários. 

O autor, porém, não se limita a investigar apenas o mundo do futebol. Em seu livro, Chade apresenta a rede de cúmplices – na política e no mundo empresarial – que alimentou um esquema de corrupção e troca de favores. 

Em “Propina, Política e Futebol”, o autor traz importantes revelações:

- Um mergulho inédito nos dias que levaram às prisões dos dirigentes da Fifa em Zurique, com detalhes da operação e o que de fato ocorreu nos bastidores da entidade naquele turbulento mes de maio de 2015.

- Detalhes de como funcionava o pagamento de propinas. 

- Revelações de como o dinheiro que deveria ser usado para obras sociais e construção de campos para jovens foi desviado para contas secretas. 

- Os acordos secretos da CBF que transformaram a seleção brasileira em um produto explorado comercialmente pelos dirigentes, sem qualquer plano esportivo. 

- O uso de paraísos fiscais para desviar milhões de dólares dos amistosos da seleção brasileira.

- Chade, ao contrário da tendência de apontar a Fifa como única responsável pela corrupção, revela como os dirigentes tiveram cúmplices em diversos dos escândalo, inclusive de político. 

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo um dos capítulos da obra:

“A vez do torcedor-cidadão”
Por Jamil Chade

O evento de 2014 de fato justificou o nome “Copa das Copas”, tanto dentro como fora de campo. Mexeu com os brios dos torcedores e com os estratagemas de campanhas eleitorais. Afetou setores inteiros da economia e fez políticos locais, estaduais e nacionais recalcularem cada uma de suas frases. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o historiador Flávio de Campos, coordenador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens), da Universidade de São Paulo (USP), foi contundente: provavelmente em nenhuma outra época, tanto do país como das Copas, o futebol e a política estiveram tão interligados quanto no Mundial de 2014.

Talvez em nenhum momento na história do Brasil e das Copas do Mundo a política tenha se articulado tanto com o esporte. Desde junho de 2013 a política acompanhou o desenrolar do torneio. Às vésperas da abertura havia um clima de desmobilização torcedora, uma apatia torcedora, e isso foi se modificando. Aquilo começou a se transformar em uma mobilização da torcida verde-amarela e curiosamente na desmobilização das manifestações sociais e mesmo dos movimentos grevistas de várias categorias que haviam se apresentado no mês de maio e começo de junho.

De fato, se o governo alertou dias antes de o Mundial começar que quem usasse a Copa para ganhar votos “quebraria a cara”, foi justamente o Palácio do Planalto que se apressou em instrumentalizar o fato de que o caos não aconteceu para ganhar créditos políticos. O governo federal convocou a imprensa e informou que 1 milhão de turistas estrangeiros visitaram o Brasil, superando a meta dos organizadores. Desse total, 95% disseram que queriam voltar no futuro e deixaram no país o equivalente a US$700 milhões. Dilma Rousseff declararia, na época: “Nós vivemos, nesses dias, uma festa fantástica. Mais uma vez, o povo brasileiro revelou toda a sua capacidade de bem receber. Mais uma vez, os brasileiros, aí incluídos o governo federal, os governos estaduais nas doze cidades-sede, os prefeitos das doze cidades-sede e, sem sombra de dúvida, os torcedores e todos os amantes do futebol, asseguraram uma festa que, eu tenho certeza, é, sem dúvida, uma das mais bonitas do mundo. A gente dizia que ia ter a Copa das Copas. Tivemos a Copa das Copas. Tivemos, sem tergiversar, um problema que foi a nossa partida, nosso jogo com a Alemanha. No entanto, acredito que tudo na vida é superação. Derrotamos, sem dúvida, essa previsão pessimista e realizamos, com imensa e maravilhosa contribuição do povo, essa Copa das Copas”.

O então ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, preferiu apostar no impacto da Copa para o Brasil no exterior. “Somos um dos poucos países capazes de organizar um evento de tamanha complexidade, com qualidade de infraestrutura e organização, e com um povo maravilhoso que acolheu muito bem a todos”, afirmou. Do total de 1 milhão de visitantes, 364 mil deles eram sul-americanos que aproveitaram o fato de a Copa acontecer na região para participar da festa. Cento e sessenta mil argentinos estiveram no Brasil. De fora do continente, os americanos lideraram, com 111 mil pessoas viajando ao Brasil. O ministro-chefe da Casa Civil, Aloísio Mercadante, completou: “Perdemos a taça, mas o Brasil ganhou a Copa. O Brasil soube ganhar, soube perder, soube receber, soube celebrar com paz, com respeito, um clima altamente receptivo que encantou o mundo. Essa celebração ficará para sempre na memória e na imagem do que somos como povo e sociedade”.

Tanto o governo como a oposição mudaram de discurso sobre a Copa do Mundo em cada novo lance. Em 30 de maio de 2014, antes de a Copa começar, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o evento ajudaria a melhorar a economia do país e que o resultado do PIB no segundo trimestre de 2014 provavelmente seria mais favorável que nos três primeiros meses do ano. Mas, semanas depois de o Mundial terminar, o mesmo Mantega tinha outra avaliação. Na verdade, a Copa havia prejudicado o PIB do trimestre.
“[A Copa] foi um sucesso do ponto de vista da organização. Do ponto de vista da produção e do comércio, prejudicou”, afirmou Guido Mantega em entrevista à Folha de S.Paulo no dia 14 de agosto. “[Durante o evento] tivemos muito poucos dias úteis. A produção industrial caiu e o comércio cresceu pouco. De fato, não foi um bom resultado”, completou.

Nos meses que se seguiram ao torneio, o Brasil entrou em recessão, a dívida pública explodiu, o desemprego voltou a assustar e o país mergulhou em uma fase dramática diante das descobertas de casos de corrupção. Nenhuma previsão otimista do governo feita nos dias seguintes à final do Mundial se concretizou. E a população rapidamente viu a elite do país abandonar menções à Copa, para nunca mais falar do assunto.

Os estádios vazios se transformaram nos monumentos de um projeto que serviu a poucos com o dinheiro de muitos. O Mundial não garantiu uma nova fase ao futebol nacional. Na manipulação de um sentimento popular, da emoção do gol, do simbolismo da entrega de um troféu, na instrumentalização da vaia, a realidade é que a Copa terminou no Brasil sem vencedores entre a classe política. Talvez alguns tenham perdido mais que outros. Mas todos saíram de alguma forma derrotados, e, sabendo que a sociedade não aturaria ver santinhos distribuídos nas portas dos estádios, candidatos e políticos acabaram neutralizados pelos verdadeiros astros em campo e pelas torcidas na arquibancada.

Mas a Copa foi desperdiçada para o Brasil? A crise de corrupção na Fifa foi esquecida pelo mundo?

Em um poderoso e inesperado legado, a Copa de 2014 foi um ponto de virada na história do futebol, que culminaria nas prisões de cartolas um ano depois, em Zurique. O evento demonstrou às classes políticas de todo o mundo que não havia mais espaço para confundir torcedores e eleitores. Não existe, em uma democracia, lugar para o patriotismo servil, muito menos quando ele é associado ao futebol. Em 1976, Pelé, Carlos Alberto Torres e Leão subiram ao camarote do Maracanã em um jogo da Seleção e homenagearam o general Ernesto Geisel, então presidente. Além de entregarem ao ditador uma Bíblia, deram um troféu agradecendo pela regulamentação da profissão de atleta.

Em 2014, foi a sociedade que ganhou um troféu e foi ela mesma que o entregou. Uma sociedade que se dá o poder de rejeitar a manipulação política de um evento, de questionar gastos e de sair às ruas demonstra o fortalecimento de uma democracia capaz até mesmo de abalar teses como a do cientista político e senador italiano Gaetano Mosca, que no início do século XX apontava para o aspecto ilusório de um sistema político que, segundo ele, apenas serviria para legitimar o poder de uma elite.

Politizada em cada gesto, em cada gol, em cada estádio e em cada hino nacional, a Copa de 2014, ironicamente, ajudou de maneira sinuosa a fortalecer a democracia no Brasil. Das ruas de 2013 aos cartazes contra a Fifa. Das exigências, ainda que descabidas, ao temor de deputados e políticos, que, às pressas, modificaram leis. Da arrogância da Fifa aos acordos sujos da CBF com políticos locais. Do racismo mais que vigente na sociedade brasileira e que deixou milhões sem acesso aos estádios ao impacto mundial da festa. Da paixão inabalada pelo futebol no Brasil aos candidatos perdidos, sem saber como reagir diante de cada gol, o Mundial escancarou todas as contradições, limites e forças presentes no país.

Assim que a sociedade se deu conta de que, com seu dinheiro, uma classe política e cartolas se aproveitariam do evento para ganhar popularidade, essa mesma sociedade sequestrou de volta a ocasião para mostrar ao mundo que não toleraria tal manipulação. Quando políticos ensaiaram uma crítica de que aquele “não era o momento” de fazer protestos, foi a sociedade que os lembrou de que tampouco era o momento de pedir votos entre gols e jogadas de efeito.

A Copa não deixou nada insinuado. Os mitos, os dramas e os ensejos sucumbiram ao explícito, ao manifesto. O futebol vive seu momento mais perigoso, sequestrado por interesses pessoais, por partidos, por organizações criminosas.

O movimento contaminou de uma vez por todas a Fifa, com cobranças cada vez maiores sobre como a entidade agiu para dar o Mundial ao Catar em 2022, sobre como os acordos com Putin tentam blindar a Copa de 2018 e sobre como seus dirigentes teriam construído um império com base na fraude e na lavagem de dinheiro.

Quando, no dia 27 de maio de 2015, a polícia entrou no saguão do hotel em Zurique, não estava apenas cumprindo um pedido de cooperação do FBI. Também estava, de certa forma, chancelada por um sentimento generalizado de que um “basta” tinha de ser dado a uma estrutura corrupta. Mesmos seus cúmplices — políticos, televisões e multinacionais — chegaram à constatação de que já não teriam a mesma força para blindar esses caudilhos.

Por enquanto, não se sabe o resultado final de um processo que abalou os pilares do poder do futebol. Mas dificilmente o que foi iniciado poderá ser revertido.

A revolta começou quando o suposto país do futebol questionou o esporte e seus ídolos e se completaria um ano depois, com a ajuda da polícia de um país — os EUA — que não tem por hábito suspender a vida e a morte por noventa minutos para ver um jogo da Copa.

Se no Carnaval as máscaras servem para criar uma nova realidade, ainda que temporária, a fantasia da Copa dessa vez apenas acentuou a realidade de uma sociedade complexa, desigual e com profundos problemas sociais, mas que deixou clara a recusa em ser tratada apenas como “torcedora”. E isso contaminou o mundo do futebol.

No fundo da prisão, como apontaria Albert Camus, o sonho não tem limite, nem a realidade serve como freio. O tempo da revolta no futebol chegou, e, ao que tudo indica, nem mesmo as paredes de mármore da Fifa poderão impedir que se pense em uma nova forma de organizar o jogo.

Longe de ocultar, a máscara da festa do futebol que seduziu o mundo por tantos anos acabou sendo insuficiente para esconder a existência de um saque. No futebol, em mais de um século de história da Fifa, nunca o momento foi mais legítimo como agora para uma transformação. Que a bola possa continuar rolando. Mas que o berro sincero do torcedor se confunda com seu grito legítimo de um protesto cidadão.

Sobre o autor:

Jamil Chade é correspondente do jornal O Estado de S. Paulo na Europa desde 2000. Com viagens a mais de 70 países, acompanhou presidentes e papas, e esteve em campos de refugiados no Iraque, na Somália, em Darfur e na Libéria. Já cobriu três Copas do Mundo, além de Olimpíadas e Eurocopas. Publicou os livros “A Copa como ela é”, “Rousseff” e “O mundo não é plano”, finalista do Jabuti e vencedor do Nicolas Bouvier, principal prêmio jornalístico da Suíça. Em 2011 e em 2013, foi eleito o melhor correspondente brasileiro no exterior pelo grupo Comunique-se. Em 2015, Chade foi convidado para fazer parte de uma rede mundial de especialistas no combate à corrupção, sob o comando da entidade Transparência Internacional. Ele vive em Genebra, Suíça, e é pai de dois são-paulinos.