terça-feira, 14 de julho de 2015

A Bola Rolou



Escrever sobre as origens e a evolução do futebol não é tarefa fácil. Antes da escrita, há o penoso processo de pesquisa. Por essas razões, livros publicados sobre essa temática são normalmente frutos de teses e estudos acadêmicos. E é aí que, muitas vezes, o leitor acaba se assustando e não se interessando pelos poucos livros publicados sobre esse fantástico período histórico do esporte número um do Brasil.

Não é o caso de “A bola rolou: o Velódromo Paulista e os espetáculos de futebol, 1895-1916”, de Wilson Gambeta, Mestre e Doutor em História Social pela USP. O livro integra a Coleção: Memoria e sociedade da Sesi Editora – SP.

Gambeta escreve para o leitor “médio”, o amante da história do futebol, e não para historiadores eruditos ou pesquisadores aficionados por estatísticas. Uma história para se ler, e, principalmente, aprender.

E Gambeta não é “marinheiro de primeira viagem”. “A bola rolou” é, na verdade, uma extensão de outro livro seu lançado em 2014: Primeiros Passes – Documentos para a história do futebol em São Paulo (1897-1918)(Edições Ludens/Attar Editorial). E outra obra obrigatória que o Literatura na Arquibancada destacará em outro post. Para o autor: “As duas obras se complementam, uma reforça a outra. Elas formam um "PAR-CASADO" para dar conta do mesmo período histórico. Em conjunto, esses livros representam o mais aprofundado estudo já realizado sobre as primeiras décadas do futebol brasileiro, particularmente para São Paulo.”

Sinopse (da editora):

Em A bola rolou, Wilson Gambeta examina a simbologia contida nos espetáculos esportivos para acompanhar a trajetória de adaptação da antiga elite agrária paulista à moderna vida urbana. Os esportes ingleses, concebidos dentro da ideologia liberal-burguesa, foram introduzidos em São Paulo na passagem do século XIX para o século XX. As disputas esportivas, baseadas no equilíbrio igualitário, ganharam novos significados ao serem assimiladas pela sociedade local, recém-saída do escravismo. Elas foram reinterpretadas segundo uma mistura contraditória de valores que oscilavam entre o mundo agrário e o urbano, o velho e o novo. Os clubes atléticos apareceram na capital paulista como arremedos das agremiações civis modernas. Algumas das principais associações dedicadas aos espetáculos esportivos, organizadas por grupos de jovens para a integração social fora do lar, foram atravessadas pelos costumes tradicionais das famílias fazendeiras e pelos interesses políticos da oligarquia regional.

Introdução (início):
Por Wilson Gambeta

Os brasileiros que se interessam pelo esporte conhecem um relato, repetido infinitas vezes, sobre a chegada do futebol ao país: Charles Miller desembarcou no porto de Santos, em novembro de 1894, trazendo na bagagem duas bolas de couro, uma bomba de ar para enchê-las, um par de chuteiras, duas camisas de times que ele defendera na Inglaterra e um livro de regras do association football. Miller pertencia à pequena comunidade britânica radicada na cidade de São Paulo, era brasileiro de nascimento, filho de pai escocês e de mãe brasileira filha de inglês.

Ele divulgou o novo jogo entre seus amigos do clube da colônia inglesa, o São Paulo Athletic Club (SPAC, fundado em 1888), e organizou treinos na várzea do Carmo, nas proximidades do Gasômetro, com a participação de funcionários da São Paulo Gas Co., do London Bank e da São Paulo Railway. O primeiro jogo foi realizado com times improvisados, em 14 de abril de 1895, com o placar final de quatro gols para The Gas Works Team e dois para The São Paulo Railway Team. Teve início assim, com pontapé inicial inglês, a história do futebol no Brasil. Essa narrativa é sempre lembrada pela imprensa esportiva e citada por diversos historiadores como o ato fundador do nosso esporte máximo.

Há alguns anos o historiador José Moraes dos Santos Neto contestou a paternidade de Charles Miller e defendeu uma versão um pouco diferente.

Colégio Jesuíta São Luiz - Itú - SP
O futebol brasileiro teria raízes nas atividades educativas do colégio jesuíta São Luiz, em Itu, a setenta quilômetros da capital paulista, entre os anos de 1880 e 1890.1 Alguns dos professores jesuítas haviam visitado colégios da Europa e de lá o padre José Mantero trouxera duas bolas para a prática do futebol. Elas foram usadas no pátio da escola em jogos recreativos sem regras formais. Mais tarde, a partir de 1894, o padre Luiz Yabar, que conhecera bem o jogo em escolas europeias, adotou as regras do association football e organizou os alunos em quatro times para a disputa de um campeonato interno. O historiador Santos Neto defende que o futebol, depois de introduzido no colégio jesuíta, foi divulgado fora da escola por antigos alunos e se popularizou, inclusive entre operários, antes mesmo que os sócios do fechado clube inglês começassem a jogá-lo em São Paulo. O autor citou ex-alunos do colégio que espalharam o futebol em outras cidades; alguns estariam entre os fundadores dos primeiros clubes a disputar o campeonato paulista: Arthur Ravache no Sport Club Germania (SCG); Carlos Silveira e os irmãos José e Vicente de Almeida Sampaio na Associação Athletica Mackenzie College (AAMC). A hipótese de Santos Neto é plausível.

O historiador John Mills, porém, recusou de modo veemente, em publicação de 2005, as versões que questionam o pioneirismo de Charles Miller.

Defendeu que as atividades recreativas jogadas com os pés, ainda que tenham ocorrido mais cedo em algumas escolas, não podem ser confundidas com a institucionalização do futebol. Mostrou que não são novas na imprensa esportiva as citações sobre práticas de jogos com bolas nos colégios jesuítas de Nova Friburgo (o Anchieta) e de Itu (o São Luiz) ou entre marinheiros ingleses nos portos, mas que todos os cronistas especializados em esportes sempre concordaram que a adoção das regras oficiais inglesas e a organização de times só começaram, de fato, com o retorno de Miller ao Brasil.

Se a questão fosse apenas indicar um precursor, parece difícil negar a Miller o mérito de ter organizado o futebol dentro de um clube esportivo e de ter realizado os primeiros jogos com as regras inglesas fora das escolas.

Certamente, a qualidade do futebol jogado no SPAC foi uma referência para outras associações esportivas fundadas nos anos seguintes: A. A. Mackenzie College (1898), Sport Club Internacional (1899), Sport Club Germania (1899) e Club Athletico Paulistano (1900). Ao que se sabe, nos primeiros tempos os jogos foram disputados entre os sócios do SPAC e em 1899 começaram as partidas amistosas entre clubes. Em 13 de dezembro de 1901 esse movimento esportivo culminou na fundação da Liga Paulista de Football, idealizada por Antonio Casemiro da Costa (Costinha), outro líder importante. Em maio do ano seguinte, os cinco clubes deram início ao primeiro campeonato do país. Os registros que restaram do passado não são suficientes para negar a versão tradicionalmente aceita pela crônica esportiva que atribui a Charles Miller e a Casemiro da Costa o papel de principais articuladores desse esporte em São Paulo.

Colégio São Luiz - Itú SP
Afastando um pouco o olhar da dúvida que sobrevive na historiografia local – entre o pioneirismo de Charles Miller ou do padre Luiz Yabar –, todavia é possível notar que não se trata de uma oposição entre duas histórias distintas. Uma visão panorâmica pode diluir o sentido dessa questão e tornar irrelevantes os fatos pontuais. Para os dois autores citados, Santos Neto e Mills, o início regular do futebol moderno no Brasil se deu em 1894.
A importação das regras é o momento decisivo, pois permite que os times disputem entre si, ou seja, que se comuniquem em uma linguagem lúdica comum, independente dos clubes, escolas, cidades ou países a que pertençam.

A trajetória do jogo de bola também coincide para os dois autores: teve início nas instituições escolares europeias que educavam os filhos de famílias ricas. Várias das famílias britânicas radicadas em São Paulo eram de funcionários de empresas estrangeiras e, não raro, embarcavam os seus filhos para estudarem em escolas da mãe-pátria. Miller, filho de um funcionário técnico da São Paulo Railway, tornou-se um aficionado e competente futebolista depois de cursar escolas inglesas durante dez anos e lá jogar entre 1892 e 1894. De maneira análoga, os professores jesuítas que trouxeram os jogos escolares da Europa para Itu atendiam aos anseios da sua rica clientela.

O Collegio de São Luiz, fundado em 1861, era um internato de ensino fundamental que recebia garotos de famílias abastadas vindos de várias cidades, principalmente da capital paulista. No final do Império se tornou uma prática costumeira entre as famílias endinheiradas mandar os meninos para internatos afastados dos maiores centros urbanos. Ali eles receberiam uma educação com pedagogias importadas, pois os pais esperavam que os garotos tivessem uma educação básica compatível com as escolas estrangeiras.

Muitos dos jovens recém-formados seguiram estudos secundários e superiores em instituições europeias, por isso mesmo o ensino de línguas era privilegiado nesses albergamentos de ensino básico.

Nas duas bagagens pelas quais a bola desembarcou no Brasil – buscada pelo professor jesuíta e trazida pelo jovem estudante anglo-brasileiro – a mesma influência cultural foi embalada. Ela proveio do modelo de educação inglesa que incluía a missão de desenvolver tanto a capacidade física e moral dos jovens quanto a intelectual.

Ao longo do século XIX, as escolas europeias compensaram a falta de atividades da vida urbana com a criação de pedagogias para o corpo. A educação física seria a melhor forma de dar vigor àqueles que no futuro assumiriam o comando das tropas, dos negócios e da nação, e também de inculcar valores morais, como companheirismo, disciplina, respeito, lealdade, liderança, combatividade, entre outros. Inúmeras modalidades inspiradas na ginástica militar ou nos jogos tradicionais foram adaptadas e submetidas as regras próprias de cada escola. A educação alemã e a francesa preferiam a disciplina da ginástica, enquanto a inglesa incentivava as disputas lúdicas.

Em meados daquele século existiam variações do futebol sendo jogadas nas chamadas public schools inglesas – internatos particulares de ensino secundário, de alto preço, que educavam os filhos das elites –, em algumas era admitido segurar a bola com as mãos, agarrar o adversário e chutar as canelas. A uniformização das regras para permitir jogos entre agremiações independentes, o que originou os esportes atuais, foi feita por old boys (os alumni, ex-secundaristas) ao ingressarem nas universidades. Em Londres, as diferenças entre estilos do jogo foram reduzidas a duas modalidades: o rugby football e o association football. O futebol sem o uso das mãos (soccer) passou a ser dirigido pela Football Association, fundada no ano de 1863, a qual organizou o primeiro campeonato nacional em 1872. A partir da Inglaterra o novo esporte foi divulgado no arquipélago e nas colônias do Império Britânico, depois em países do continente europeu e nas Américas, enfim, em qualquer lugar em que a pedagogia inglesa exercesse influência no ensino escolar e onde atuassem empresas de capital inglês.

Quando se compara a história do futebol em diferentes países é possível constatar as duas formas básicas de propagação no final do século XIX interagindo entre si: a) no âmbito do ensino, introduzido por professores de escolas secundárias e universidades, com a importação do jogo recreativo seguida por campeonatos intercolegiais e universitários; b) no cotidiano urbano, por iniciativa de old boys que voltavam de estudos no exterior e de funcionários graduados de empresas inglesas, com a fundação de clubes esportivos, adoção das regras inglesas e a organização de uma liga local para disputar campeonatos.

Em alguns países tal propagação aconteceu em etapas distintas, com a primeira desencadeando e tendo uma influência decisiva sobre a segunda, como aconteceu em Buenos Aires. Em outros, as duas formas aconteceram simultaneamente, com os jogos escolares tendo um peso menor para a divulgação do esporte, como é o caso de São Paulo.

Ao levantar o olhar para descortinar o horizonte do passado, a polêmica sobre a paternidade do futebol brasileiro, iniciada entre Santos Neto e Mills, se dilui. As iniciativas individuais a que se referem os historiadores foram quase concomitantes e fizeram circular informações culturais equivalentes.

O jogo de bola pode ter entrado por ações semelhantes por meio de outras tantas portas pelo país afora. O problema dessa abordagem está em querer encontrar o ponto original da implantação e atribuí-la a um fundador paternal: um jogador/professor pioneiro. É difícil aceitar a ideia de que o futebol chegou de forma casual e recebeu adesões espontâneas da população a partir de um lugar específico, expandindo-se em círculos concêntricos. Identificar a introdução mais remota – como se isso fosse possível – não bastaria para compreender a naturalização do jogo, nem sobre como ele ganhou o formato de espetáculos massivos. A localização de um ato fundador pouco esclarece sobre a dinâmica desse fenômeno, diversificado e plural, que mais tarde atingiu enorme magnitude no país. As ações individuais devem ser pensadas sempre em correlação às mudanças na sociedade. É o que pretendo fazer neste estudo.

(...)

Sobre o autor:
Wilson Gambeta é formado em História e Filosofia pela Universidade de São Paulo. Mestre e Doutor em História Social pela mesma. Autor do livro Primeiros Passes: documentos para a história do futebol em São Paulo (1897-1918).

sexta-feira, 12 de junho de 2015

A biografia de Felix


Mais um projeto de financiamento coletivo na área. E o personagem também é importantíssimo: "Felix Mielli Venerando, O Voo do Papel" (Braz Cubas Editora).

Felix, goleiro tricampeão mundial brasileiro, na Copa de 1970, morreu em agosto de 2012.

Todos os veteranos do futebol brasileiro que construíram trajetórias vitoriosas deveriam ter a memória reverenciada, se não em livro (impresso ou digital), mas pelo menos com uma fanpage em rede social e/ou um site oficial. A família de Felix fez isso. Você pode acessar as páginas de Felix nos links a seguir:  

Sobre o livro, o link para participar é https://www.catarse.me/livrofelixgoleiro70

Sinopse (da editora)
Em uma iniciativa da recém-criada Braz Cubas Editora, com apoio da família de Felix Mielli Venerando, goleiro tricampeão da Seleção Brasileira de futebol, em 1970, no México, conhecido também como "Papel", pela leveza e desenvoltura embaixo das balizas, e por "Gato Felix", pela elasticidade e agilidade impressionantes nas defesas, o objetivo desse projeto é publicar a primeira biografia autorizada do ídolo, contando sua trajetória e suas histórias como atleta, marido e pai de três meninas.

Felix iniciou a carreira no Clube Atlético Juventus em 1951, aos 14 anos, passou pela Associação Portuguesa de Desportos, onde atuou de 1955 a 1968, com breve passagem pelo Nacional, em São Paulo. Em março de 1968 transferiu-se para o Fluminense Football Club, no Rio de Janeiro, no qual conquistou diversos títulos, encerrando a carreira de goleiro em 1977. 


Assumiu então o cargo de treinador de goleiros e auxiliar técnico, no próprio Tricolor Carioca, passando depois a técnico do Madureira e do Botafogo, do Rio de Janeiro, respectivamente, e por último do Avaí, de Santa Catarina. Jogou pela Seleção Brasileira no período de 1965 até 1973.

Dentre seus diversos títulos, os mais destacados são o que obteve como goleiro titular da Seleção Brasileira de futebol, campeã mundial invicta, e do Fluminense, campeão brasileiro, em 1970.

A obra terá depoimentos de seus familiares e de companheiros de Seleção Brasileira, Portuguesa e Fluminense, além de trechos de entrevistas dadas na mídia.


Sobre os autores:
Waldyr e Waléria Barboza, escritores e editores, publicaram em 2013 "Preguinho Confissões de um Gigante", biografia autorizada de João Coelho Netto, o Preguinho, multi-atleta campeão em oito modalidades, que fez carreira no Fluminense, além de ser o autor do primeiro gol da Seleção Brasileira, em 1930, no Uruguai. Preguinho é também o primeiro capitão e artilheiro, com três gols (na partida de estreia, contra a Iugoslávia - 1 - e no segundo jogo, frente à Bolívia - 2).




Colaboradores:
Patrícia Rinaldi Venerando, professora de educação física, filha de Felix, principal responsável pela divulgação e preservação da memória do pai e ídolo.








Luiz Otávio Coutinho, jornalista, apaixonado por futebol e pelo ídolo Felix, mantém, juntamente com Patrícia, uma fanpage dedicada ao atleta, com várias fotos, informações e dados estatísticos referentes à carreira do jogador.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Café-com-leite e Feijão-com-arroz

Literatura na Arquibancada sempre bateu nessa tecla: literatura esportiva como ferramenta para formar novos leitores. E é pela base, com os mais jovens, que esse hábito pode alcançar resultados positivos. Parece óbvio, mas na prática, o Brasil continua devendo no quesito leitor.

O livro de Alberto Martins, “Café-com-leite e Feijão-com-arroz – E outras histórias de futebol” (Companhia das Letrinhas) é mais uma, entre tantas boas opções que a literatura esportiva brasileira oferece.

Apresentação (da editora)

"Nunca fui craque em futebol", confessa o autor na primeira frase deste livro. No pontapé inicial já dá para perceber que ele joga limpo e admite: nas peladas que batia com os amigos e os irmãos, em Santos, no litoral paulista, volta e meia pisava na bola e fatalmente era chamado de "café-com-leite". Alberto Martins acabou virando outro tipo de craque: artista plástico, poeta e escritor de mão cheia, escreveu dois livros infantis sobre arte brasileira, A floresta e o estrangeiro, sobre Lasar Segall (Companhia das Letrinhas, 2000) e Goeldi: história de horizonte (Paulinas, 1995), que recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura Infantil.

Embora fosse meio perna-de-pau, ele sempre foi apaixonado por futebol e pelo mundo que rodeava o campinho onde jogava o seu "feijão-com-arroz" - e não fazia feio. Jogar futebol feijão-com-arroz consistia em azucrinar bastante o adversário, passar a bola para o companheiro mais próximo e, se as coisas encrespassem, conduzir a jogada para umas bananeiras que havia ali perto.

"Café-com-leite & feijão-com-arroz", a primeira parte do livro, traz as lembranças de Alberto em casos cômicos, dramáticos, emocionantes, com todas as paixões (às vezes furiosas) que só nascem dentro de campo. A segunda parte traz histórias de amigos de Alberto e de três craques de verdade: Gilmar, Pepe e Zito, em partidas históricas há mais de cinqüenta anos.

Como ninguém joga bola sozinho, o ilustrador Andrés Sandoval entrou em campo e fez uma tabelinha impecável com Alberto, em ilustrações repletas de ginga e futebol-arte.

Sobre o autor:
Alberto Martins é artista plástico e escritor. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo em 1981. No mesmo ano iniciou sua prática de gravura com Evandro Carlos Jardim, na Escola de Comunicações e Artes da USP. Em 1985 estudou gravura no Pratt Graphics Center, em Nova York, e desde seu retorno ao Brasil participa de várias exposições no país e no exterior. Em 2007, a Estação Pinacoteca, em São Paulo, apresentou a retrospectiva "Em trânsito", reunindo gravuras e esculturas produzidas desde 1987. Em 2010, realizou a exposição "Cor, Corte, Ferrugem", sua primeira individual no circuito de galerias na Galeria Raquel Arnaud, que o representa desde 2007. Como escritor publicou, entre outros, os livros Poemas (Duas Cidades, 1990); Goeldi: história de horizonte (Paulinas/MAC-USP, 1995), que recebeu o prêmio Jabuti; A floresta e o estrangeiro (Companhia das Letrinhas, 2000); Cais (Ed. 34, 2002), com xilogravuras do autor; A história dos ossos (Ed. 34, 2005), segundo lugar no Prêmio Telecom de Literatura; A história de Biruta (Companhia das Letrinhas, 2008); o livro de poemas Em trânsito (Companhia das Letras, 2010); Lívia e o Cemitério Africano (Ed. 34, 2013) e a peça de teatro Uma noite em cinco atos (Ed. 34, 2009).

terça-feira, 19 de maio de 2015

O livro das bolas de futebol

Sem “ela” não existiria o jogo que fascina gente dos quatro cantos do planeta. Mas por incrível que pareça, são raros os livros que falem somente dela. Agora, a literatura esportiva tem uma obra de referência quando o assunto é a bola. “O livro das bolas de futebol” (Panda Books), do jornalista Erich Beting, tem de tudo um pouco e muito mais...

Sinopse (da editora):

Neste livro você irá conhecer a história da bola desde a sua criação pelo povo maia até a alta tecnologia empregada na fabricação para torná-la mais eficiente nos jogos. 

Além disso, cada capítulo traz o registro de todas as bolas usadas nos campeonatos internacionais, nos campeonatos nacionais e as bolas históricas que marcaram época, como a bola de cadarço da década de 1910 e a que esteve no jogo da Seleção Brasileira em 1956.


Uma obra inédita para os colecionadores e fãs do futebol.

Apresentação
Por Erich Beting

O Dono da Bola

Aquele que começou a usar essa expressão para se referir a quem de fato manda num time foi sábio. Afinal, por mais importante que seja o atleta, o técnico, a torcida ou, às vezes, até mesmo o árbitro em um jogo de futebol, somente um personagem tem a atenção plena das pessoas: a bola.

É para ela que olhamos, é com ela dentro do gol que nós sonhamos (o gol do outro time, é claro!). Ser o dono da bola, em uma pelada ou na final de Copa do Mundo, significa ser “o cara”.

Por isso mesmo, toda criança sonha em ter uma bola. Pode ser de meia, papel, borracha ou, na melhor das possibilidades, uma réplica idêntica àquela chutada nos famosos gramados do mundo. É também muito provável que a primeira paixão e a primeira desilusão na vida de uma criança tenham relação direta com uma bola. 

Isso aconteceu comigo. A primeira vez que dividi minha cama com alguém foi com uma bola. Ou melhor, com A Bola, a minha primeira bola. Uma paixão embalada pelo perfume do couro, pela alegria das peladas no prédio, no clube, no campo ou na praia. Foi minha companheira até nos sonhos – nos dias em que era parceira também no banho, ganhava a permissão da minha mãe para dormimos abraçados, naquele sentimento de amor eterno. Até que a morte apareceu num pavoroso chute que a levou para o meio da rua e dali para a roda de um maldito carro que não teve tempo de evitar o atropelamento. O som do estouro até hoje é cristalino na memória. O duro golpe do fim da primeira paixão só conseguiu ser digerido pelos outros amores esféricos que passaram a ocupar minha vida.

Mas o que faz uma bola ter essa bola toda?

No passado, quando ainda nem era tão redonda assim, ela já tinha uma aura de importância. Nos primórdios da civilização humana, saber o que fazer com uma bola poderia significar, literalmente, a salvação de sua vida.

Hoje a coisa mudou. Ser o dono da bola dá prestígio e rende bastante dinheiro para quem sabe tratá-la muito bem. A evolução mundial do futebol trouxe tanto poder a esse objeto esférico que, por conta dele, algumas centenas de milhões de dólares são movimentadas ao redor da Terra.

Os tempos podem ter mudado, o futebol pode ter evoluído, mas uma coisa nunca vai mudar – todos querem ser donos da bola.

Milhões de bolas

Com o crescimento do futebol no mundo, calcular quantas bolas são produzidas por ano é uma tarefa impossível. No que diz respeito às bolas fabricadas segundo o padrão de qualidade internacional, as que recebem o selo de “bola aprovada”, a estimativa mais precisa que temos é dada pela Fifa em conjunto com a Nike e a Adidas, os dois grandes fabricantes de bolas no mundo. Segundo eles, cerca de 40 milhões de unidades são produzidas anualmente, podendo chegar a 60 milhões em período de Copa do Mundo.

Noventa fábricas possuem contrato de licenciamento com a Fifa, e as análises indicam que as grandes marcas esportivas são responsáveis por três quartos da produção de bolas do mercado mundial. Boa parte da fabricação tem como origem os países da Ásia: os materiais sintéticos são produzidos em Taiwan, Índia, Tailândia, China, entre outros, enquanto o Paquistão se tornou especialista na montagem das bolas.

Bola murcha

Esse crescimento da indústria de consumo no futebol trouxe também graves problemas. No início da década de 1990, as principais fabricantes mundiais de bolas terceirizaram suas linhas de produção para países africanos e asiáticos. Marrocos, Índia, China, Vietnã e Paquistão se tornaram os grandes produtores de bolas no mundo. Como exemplo, a bola oficial da Copa do Mundo de 1998, realizada na França, foi produzida no Marrocos.

A busca por esses países teve como motivo manter a margem de lucro das empresas com a venda do produto. Com a mão de obra mais barata e a carga tributária menor, as grandes marcas esportivas começaram a contratar empresas desses locais para confeccionar as bolas. Esses produtores, por sua vez, para ganhar e manter o cliente, reduziam ao máximo o custo local para produzir uma bola. 

Em poucos anos, surgiram denúncias com relação ao uso de trabalho escravo e também infantil nessas fábricas. Comprovou-se que na Índia e no Paquistão era comum que famílias inteiras executassem trabalhos semiescravos e escravos, e os intermediários, que lhes forneciam o material, ficavam com a maior parte dos rendimentos. Mulheres e crianças recebiam o equivalente a trinta centavos por bola costurada – um trabalho que exige força física, machuca as mãos e prejudica a visão. Várias reportagens e investigações concluíram que o negócio era dominado por grandes máfias em vários dos países que tinham a produção de bolas terceirizada.

Preocupada com essa questão, a Fifa adotou em 1996 um código de conduta na fabricação de produtos licenciados pela entidade, tentando assegurar que neles não houvesse trabalho escravo ou infantil. A Uefa também adotou esse código a partir da Eurocopa de 2000.

As bolas pelo mundo

A Fifa tem atualmente 208 países filiados, organizados em cinco confederações. Confira os diferentes nomes para “bola” em alguns desses países e em quais lugares a redonda é também chamada de “bola”.

País e Termos para “bola”

Albânia (top), Andorra (bola), Argentina (balón ou pelota), Azerbaijão (top), Bósnia e Herzegovina (lopta), Brunei (bola sepak), Dinamarca (bold), Eslováquia (gul’a), Filipinas (bola), Finlândia (pallo), Haiti (ballon ou boul), Holanda (bal), Hungria (labsa), Indonésia (bola), Irlanda (ball ou liathróid), Islândia (bolti), Itália (pallone), Letônia (bumba), Lituânia (kamuolys), Macau (bola ou ),Malásia (bola), Moldávia (minge), Portugal (esférico), República Tcheca (koule), Romênia (minge), Suécia (boll), Tanzânia (mpira), Timor-Leste (bwola), Vietnã (banh).

As principais empresas fabricantes se eximiram de culpa e cancelaram seus contratos com os fornecedores socialmente irresponsáveis. Desde então, passaram a adotar políticas rígidas para a aprovação de fornecedores de mão de obra e, além disso, passaram a investir milhões de dólares em ações de marketing social. De todo modo, os custos de produção permanecem mais baixos nos países asiáticos, que continuam a ser os principais produtores de bolas no mundo.

Sobre o autor:
Erich Beting nasceu em 1979 e é jornalista esportivo. Trabalhou em jornal, rádio, TV e internet. Começou sua carreira na Folha de S.Paulo, passou pelo Lance!, pelo site Esporte Bizz e foi comentarista e apresentador do canal BandSports. É dono do site Máquina do Esporte, sobre negócios do esporte, tem um blog no UOL, em que também comenta sobre futebol, e ainda é professor e palestrante. Tinha seis anos quando ganhou sua primeira bola de couro, desde então é fascinado pelo cheiro de bola nova, mesmo ela não sendo mais de couro natural... Beting nunca plantou uma árvore, mas já teve dois filhos e publica agora seu segundo livro para contar a história das bolas e manter na nova geração a paixão pelo futebol sempre acesa.