terça-feira, 9 de setembro de 2014

O Jogo do Senta



Este livro demonstra até onde o futebol motiva tanta polêmica e paixão entre seus torcedores. Um jogo ocorrido há 70 anos, mais exatamente, no dia 11 de setembro de 1944, entre Flamengo e Botafogo, rendeu histórias, lendas e muita polêmica entre os torcedores dos dois clubes.

Jogo do Senta – A Verdadeira Origem do Chororô (Editora Livrosdefutebol.com) tem como autor uma figura queridíssima no Rio de Janeiro, o professor Paulo Cezar Guimarães, botafoguense de quatro costados.

Apresentação
Por PC Guimarães

Reprodução jornal Diário da Noite, 11/9/44
Alô, Torcida do Flamengo, aquele abraço!

Vou logo avisando: sem choro, por favor! Este livro não é uma obra de ficção, e, muito menos, é sobre o Flamengo. É, sim, sobre uma vitória histórica do Botafogo contra um dos seus principais adversários em âmbito regional e sobre um fato marcante na história do futebol brasileiro que completa 70 anos em setembro de 2014. Data redonda ou efeméride como gostam de destacar os jornalistas. O jogo poderia ter sido contra o Flamengo, contra o Vasco ou contra o Fluminense.

Se Jogo do Senta – a Verdadeira origem do Chororô tivesse sido escrito para falar do Flamengo, como alguns dos meus amigos flamenguistas andaram pensando (ou melhor, chorando), seria uma boa falar da “lenda urbana” que diz que Gilberto Gil usou a frase “Alô, Torcida do Flamengo, aquele abraço!” para zoar os flamenguistas por causa de uma derrota do Flamengo num jogo contra o Fluminense em 1969. No site de Gilberto Gil, no entanto, nada consta sobre essa história: “Meses depois de solto, eu vim ao Rio tratar da questão da saída do Brasil com o Exército. Na manhã do dia da minha volta para Salvador, fui visitar Mariah Costa, mãe de Gal; ali, na casa dela, eu ideei e comecei Aquele Abraço. Finalmente eu ia poder ir embora do País e tinha que dizer ‘bye-bye’; sumarizar o episódio todo que estava vivendo, e o que ele representava, numa catarse. Que outra coisa para um compositor fazer uma catarse senão numa canção? (...) ‘Aquele abraço, Gil!’– Era assim que os soldados me saudavam no quartel, com a expressão usada no programa do Lilico, humorista em voga na época, que tinha esse bordão. Ele até ficou aborrecido com a música; achou que deveria ter direito à canção. Mas eu aprendi a saudação com os soldados. Eu não tinha televisão na prisão, evidentemente, mas eles assistiam o programa; eu só vim a ver depois, quando saí.”

Quando pensei em escrever este livro sobre o “Jogo do Senta”, ouvi e li as mais esdrúxulas desculpas dos flamenguistas: “Esse jogo não existiu”, “isso é uma calúnia”, “quero ver você provar”, “cadê as fotos?”.

Depois que mostrei no Blog do PC (www.blogdopcguima.blogspot.com.br] e no Facebook (https://www.facebook.com/pc.guimaraes.7 ) a foto dos jogadores do “Mais Querido” sentadinhos em campo, as desculpas passaram a ser: “Ah, mas esse jogo foi ‘no tempo do onça’ ou ‘no tempo em que Dondom jogava no Andaraí’”.

Flamenguistas são seres estranhos, muito estranhos. Para eles, qual o conceito de passado? 1981, quando conseguiram a Copa Toyota no Japão num jogo contra um time de “embriagados ingleses”, como dizem as pessoas más, não é passado? E quando choram até hoje por causa do gol do Maurício em 1989? 1989 não é passado?

Jogo do Senta – A verdadeira origem do Chororô, repito, é apenas uma lembrança de um jogo histórico que aconteceu em 10 de setembro de 1944 e um resgate de outros célebres jogos em que um time reclamou da arbitragem por causa de um lance ou uma determinada situação que teria favorecido o adversário.

Tudo documentado através de pesquisas em jornais e entrevistas com personagens envolvidos nesses jogos ou “testemunhas oculares” da História.

Não tem achismo. Tem o que poderia se chamar de “aspismo”. É claro que por resgatar principalmente um – vá lá – polêmico jogo entre Botafogo e Flamengo não pude deixar de fazer uma comparação entre o que aconteceu em 1944, quando o Flamengo sentou em campo, após tomar o quinto gol de uma goleada de 5 a 2; com o chamado “Jogo do Chororô”, em 2008, quando jogadores, técnico e Presidente do Botafogo se reuniram no vestiário para reclamar da arbitragem – e, vá lá, chorar.

As pesquisas e entrevistas realizadas para a produção do livro acabaram provando por a mais b – ou B mais F – quem é o maior chorão do futebol carioca, talvez do Brasil, quiçá do mundo. Tudo, como disse, documentado com fatos.

Botafogo, campeão de 1995
Quando tentam justificar o que aconteceu em 2008 (e também em 2007 e 2009; e não cabe aqui recordar) alegam que: o Botafogo foi campeão Brasileiro em 1995 graças a um suposto impedimento de Túlio Maravilha mostrado incessantemente ao longo dos anos por um tira-teima global, campeão contra o mesmo Flamengo em 1989 graças um suposto empurrãozinho de Maurício no Leonardo e, pasmem, ganhou do Atlético Mineiro em 2007 graças a um pênalti não marcado por Carlos Simon no jogador do Galo. Em mais de 100 anos de história do Glorioso lembram apenas de três “graças”, ou melhor, de três supostos lances em que o Botafogo teria sido beneficiado. E os outros jogos em que, dizem, o Botafogo foi garfado?

Em 14 de agosto de 2007, após uma das muitas partidas em que o alvinegro foi prejudicado pela arbitragem, o jornalista Renato Maurício Prado escreveu em sua coluna: “Em tempo: o Botafogo foi, uma vez mais [grifo meu], prejudicado. Continuo a não crer em complô. Mas que está ficando estranho, está”.

Imparcial como todo jornalista Botafoguense, procurei ouvir sempre os dois lados das histórias. Não foi à toa que fiz questão de entrevistar Djalma Beltrami, o árbitro que, ao marcar um impedimento inexistente de Dodô, apontado pelo assistente Hilton Moutinho, ajudou o Flamengo a conseguir o primeiro dos três “Carioquinhas” seguidos em cima do Botafogo e, dizem alguns botafoguenses, foi a origem do protesto do ano seguinte. Marcelo de Lima Henrique, árbitro do chamado "Jogo do Chororô", também foi procurado. Marcou duas entrevistas e deu bolo. Em uma, na Federação de Futebol do Rio de Janeiro, próximo ao
Maracanã, saiu antes da hora marcada. Na outra, no quartel do Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (CEFAN), na Avenida Brasil, onde exerce também a função de Primeiro-Sargento Fuzileiro Naval, deixou um recado na portaria dizendo que tinha saído para “uma missão”. Depois, não retornou mais as ligações. Tremendo furão!

Ouvi dirigentes, jogadores de futebol, técnicos, jornalistas, árbitros e testemunhas oculares do “Jogo do Senta”. Tirando estes últimos, poucos disseram ter ouvido falar do jogo, como Carlos Roberto de Carvalho, que formou com Gérson Canhotinha de Ouro um dos maiores meios de campo da história do Botafogo e do Brasil:

Globo Sportivo, 15/9/44 - Plateia e Domingos da Guia, no destaque
– Ouvíamos essa história que o Botafogo aplicou uma goleada no Flamengo e o rubro-negro sentou em campo pra não tomar de mais. Sempre houve essas histórias de goleada entre grandes times. Eu, por exemplo, tive o prazer também de, em 1972, participar de uma goleada que a gente aplicou no mesmo Flamengo, por 6 a 0, justamente no dia do aniversário do clube. Nesse dia eles não sentaram. Mas pediram pra gente não fazer mais gols. Preferiram levar olé, coisa que eles não gostavam e os jogadores do Botafogo faziam naquela época. Trocaram uma goleada histórica por um olé. Mas, realmente, o sexto gol foi feito quase no finalzinho do jogo e não havia tempo de fazer mais (risos).

Embora seja um dos mais ferrenhos alvinegros da face da terra, Carlos Augusto Montenegro, que dispensa apresentações e foi presidente do Botafogo em 1995 quando o clube ganhou o Campeonato Brasileiro em cima do Santos, nunca ouvira falar do “Jogo do Senta”:
– Depois que falei com você por telefone, fui conversar com algumas pessoas e poucas sabiam do jogo. Difícil, né? O jogo foi em 1944 e quem tinha 14 ou 20 anos na época, teria que ter nascido em 1930 ou 1924. Com certeza, alguns Grandes Beneméritos do Botafogo foram ao jogo.

Gozador como sempre, o ex-presidente do Botafogo provocou:
– Eu adoraria ter visto isso. Gostaria de ter visto o Flamengo sentado em campo depois de levar uma goleada. Não vi, mas vou esperar seu livro sair para ver.

A Rivalidade que Atravessa Gerações
Por Roberto Porto (Eminente jornalista e escritor Botafoguense, Benemérito do Botafogo F.R.)

Globo Sportivo, 15/9/44, poster da vitória
Minha mais antiga recordação de um jogo do Botafogo tem a data da final do Carioca de 1948 –12 de dezembro. Morava com meus pais e irmãos em Laranjeiras e, um dia, voltando pra casa de lotação, passei com minha querida mãe em frente ao campo do Botafogo, aquele simpático estadinho destruído pela modernidade burra e que tantas vezes frequentei depois, por prazer e obrigação profissional.

Naquele tempo, a Cidade era mais silenciosa que hoje e não era normal tão grande aglomeração de pessoas nas ruas. Então, depois de um “urro” uníssono por trás dos muros altos, mamãe esclareceu que estava acontecendo ali um jogo do Botafogo.

Na passagem do lotação por um portão, ainda vi, de relance, os torcedores e o campo. Jamais esquecerei disso.

Como o PC Guimarães dirá no curso desse livro, já que me procurou para uma entrevista na tentativa de recuperar uma efeméride mais velha que andar pra frente, meu querido tio Júlio Lopes Fernandes, botafoguense do chapéu às polainas, detestava o “Simpaticíssimo” e eu custei a saber a razão.

Esportista – aplaudia os adversários quando entravam em campo; militar, não admitia que um time não soubesse perder.

Até que um dia – faz tempo isso – me relatou o verdadeiro “mico” que o Simpaticíssimo pagou em General Severiano, com seus jogadores sentando em campo aos 31 minutos do segundo tempo, para estupor de jogadores, dirigentes e torcedores do Glorioso alvinegro.

Mas, afinal de contas, o que teria acontecido de tão marcante, precisamente naquela tarde ensolarada de um domingo, 10 de setembro de 1944?

Para o “Simpaticíssimo”, apenas um tropeço – obviamente, inesperado – na rota para o merecido tricampeonato. Para os torcedores botafoguenses, porém, apesar da vitória de 5 a 2, ficou um travo amargo na garganta.

O chute de Geninho, forte e em curva, a bola batendo no ferro da rede, quicando dentro do gol e repicando para fora, para criar confusão e fazer História.

Numa época romântica e cavalheiresca como aquela, era imperdoável o adversário não aceitar uma derrota, principalmente por tantos gols de diferença.

Talvez esteja aí a origem da rivalidade que atravessa gerações.

E que o jornalista e professor PC Guimarães, desbragado botafoguense, meu herdeiro na alvinegra tarefa de sempre gozar os adeptos do time da beira da Lagoa, recupera com requintes de correção histórica.

Ele mostra a história, mostra o porrete e sacramenta: sentaram pra não perder de mais. Poderia ter sido pior. E choram as pitangas até hoje.

Sobre o autor:
PC Guimarães é jornalista e professor da Faculdade Hélio Alonso, no Rio de Janeiro. Trabalhou com muito orgulho no "O Globo", mas, por sua reconhecida e radical imparcialidade, nunca quis cobrir a área de esportes. É botafoguense porque não gosta de torcer para times comuns e porque viu Rogério, Gérson, Roberto, Jairzinho e Paulo Cezar Caju jogando juntos no Botafogo. Escreveu "Edição de Impressos", livro sobre Jornalismo, para as Faculdades CCAA (2010). É autor do Blog do PC (blogdopcguima.blogspot.com.br) e editor do blog sobre o Botafogo no site do Jornal do Brasil.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Anjos Brancos

Real Madrid. Um clube histórico, que em sua longa trajetória teve também times históricos. Mas entre tantos, um marcou definitivamente não somente sua história como também a do mundo dos negócios no futebol mundial.

Qual amante do que se estabeleceu chamar de futebol-arte não admirou, mesmo não sendo torcedor, o Real Madrid formado a partir do ano 2000 com os galácticos Zidane, Beckham, Roberto Carlos, Figo e companhia?

É essa história que o jornalista e escritor John Carlin investigou e transformou no livro “Anjos Brancos – Entre o Céu e o Inferno e Os bastidores do Real Madrid” (Ed. Relume Dumara, 2006).

O histórico de seu autor permite classificar a obra como fundamental na literatura esportiva mundial. 

John Carlin é autor também de outros dois livros importantíssimos. 

Um, a biografia do tenista Rafael Nadal. Outro, “Conquistando o inimigo”, base para o roteiro do filme Invictus, que narra a vida de Nelson Mandela como presidente eleito da África do Sul, sua luta pelo fim do regime do Apartheid, até a final da Copa do Mundo de Rúgbi entre o Springboks (seleção da África do Sul) e o All Blacks (seleção da Nova Zelândia).

Introdução
Por John Carlin

Eu fui à África escrever sobre a epidemia de Aids, mas as pessoas só queriam saber de David Beckham e Real Madrid. Isso não deveria me surpreender. Mal se passara uma semana daquela que seria – com a possível exceção do início da guerra no Iraque – a notícia de maior impacto mundial de 2003: a transferência do jogador de futebol mais glamoroso do mundo para o clube mais glamoroso do mundo. Mas o que surpreendeu, o que me deixou de boca aberta, estupefato, enquanto o micro-ônibus em que eu estava chacoalhava e pulava pela maior favela de Nairóbi, o labirinto infestado de Aids de Majengo, foi o conhecimento profundo de meus companheiros de viagem; os mínimos detalhes em que as 12 outras pessoas no veículo discutiam não apenas a transferência de David Beckham do Manchester United, mas o outro grande assunto do dia: por que motivo o presidente do Real Madrid tinha afastado o técnico do time.

– Alguém, qualquer um aí, entende por que Florentino Pérez se livrou de del Bosque? – perguntou um homem sentado na frente, junto ao motorista. – É que eu não vejo lógica nisso – disse ele, girando o corpo para falar com os passageiros reunidos.

O homem, eu saberia mais tarde, era um jovem médico queniano. As outras pessoas no micro-ônibus, todas as quais falavam inglês, eram em sua maioria da área de saúde e estavam sendo levadas, como eu, para uma clínica no centro de Majengo onde eles estavam realizando testes com um grupo de prostitutas que pareciam ser imunes à Aids; que não tinham conseguido se tornar HIV-positivas, apesar de anos de esforços tristemente incansáveis para sucumbir à terrível doença. Mas ninguém no micro-ônibus tinha uma pista de quem eu era, ninguém sabia que o homem branco, alto e cabeludo, espremido no fundo do lado direito do veículo tinha não apenas chegado da Espanha no dia anterior, mas também era um entusiasmado apreciador do belo jogo, especialmente da forma como era praticado naqueles dias pelo  Real Madrid Club de Fútbol. O que, claro, me deixou ainda mais impressionado com o que o assunto tivesse surgido; que o homem no micro-ônibus tivesse falado nos nomes de Florentino Pérez e Vicente del Bosque, supondo que todos imediatamente saberiam quem eles eram.

Estarrecido, fiquei quieto e ouvi.

Florentino Pérez
– É verdade – disse um homem atrás daquele que tinha dado início à discussão. – Ninguém pode acusar o Real de estar fazendo uma temporada ruim.

– É isso – disse o homem da frente. – Eles conquistaram o campeonato espanhol e chegaram à semifinal da Liga dos Campeões. Então, por que derrubar o técnico?

– Especialmente – acrescentou o segundo – depois da vitória de 6 a 5 sobre o Manchester United nas quartas-de-final e jogando o melhor futebol de qualquer um em qualquer lugar do mundo pode se lembrar. – A isso todo o grupo respondeu com murmúrios, acenos de cabeça e um sorriso ou dois de doce lembrança. Até que um homem sentado no fundo, perto de mim, se manifestou:

– É, mas vocês não estão entendendo. O problema com o Real Madrid é que eles têm um padrão diferente das outras equipes. Ser o segundo ou o terceiro não é bom. Não é aceitável. Principalmente agora, com esse Pérez no comando. Vejam quem ele comprou desde que assumiu o clube há dois anos: Figo, Ronaldo, Zidane. E agora Beckham.

– Mais Roberto Carlos e Raúl. Os melhores jogadores do mundo! – continuou o cara esperto do meu lado. – Então, com essa inacreditável coleção de superastros, você tem de ganhar tudo, ou o técnico é demitido. É assim.

Vicente del Bosque
O homem da frente fez uma careta, sacudiu a cabeça e olhou para fora através da janela. Ele não estava inteiramente convencido. Ou talvez de algum modo partilhasse da simpatia que o espanhol comum sentia por Vicente del Bosque, um camarada legal cuja postura imponente, vestuário lúgubre e bigode anos 50 estavam em heroico desacordo com os jogadores vistosos e com pose de astros de cinema que ele tinha treinado até três ou quatro dias antes; del Bosque, longe de se parecer com o homem que tinha jogado no meio-campo do Real Madrid quando jovem, tinha a imagem de um gentil mas cansado padeiro levando uma vida de trabalho honesto em uma cidade pequena no interior da meseta de Castela.

– Eu acho que Pérez tinha raiva dele, por algum motivo – disse o defensor queniano de del Bosque. – Li em algum lugar que Pérez simplesmente não ia com a cara dele. A química não funcionava.

– Não, você está enganado – disse outra pessoa, dois bancos à minha frente. – Pérez é frio demais para permitir que seus sentimentos interfiram em uma decisão importante como esta...

E assim continuou a conversa, de um extremo ao outro do ônibus. Eu rapidamente me dava conta de que, pelo menos no caso do Real Madrid, não tinha absolutamente nada a oferecer àquelas pessoas. Do lado de fora de nosso micro-ônibus, crianças pequenas brincavam nuas em poças de água viscosa, um em cada quatro adultos que víamos zanzando em meio à confusão de barracos de folhas de flandres enferrujadas de Majengo tinha HIV, mas seus compatriotas do lado de dentro do ônibus (e eu não tinha dúvida de que um bom número daqueles que se encontravam do lado de fora) estavam tão bem informados sobre os acontecimentos no Real Madrid quanto qualquer um dos meus amigos em casa, na Espanha.

Real Madrid histórico, com Puskas e Di Stefano.
Eu poderia tê-los apresentado a Angel, o motorista de táxi com quem eu assisto aos jogos da TV em um bar que tem as paredes cobertas de ponta a ponta com fotografias emolduradas de times do Real Madrid desde os gloriosos anos 50, quando os lendários Puskas, Gento e Di Stefano passaram pela Europa como colossos. Eu poderia tê-los apresentado a Pedro, o especialista em doenças tropicais cuja satisfação de realizar a missão de sua vida de encontrar uma cura para a malária seria para sempre maculada se ele fracassasse em sua outra grande missão – conseguir ingressos para assistir ao que ele chama de este “inigualável” time do Real Madrid. Poderia tê-los apresentado a Sebastián, que está passando por uma separação dolorosa e que não sabe como poderia ter suportado tudo sem o consolo de um passe para toda a temporada no sagrado estádio do Real Madrid, o Bernabéu. Poderia ter apresentado meus colegas de viagem do micro-ônibus de Majengo a qualquer madrilenho fanático pelo Real Madrid, e em segundos eles estariam conversando como se fossem amigos de infância.

Mesmo se eles não falassem a língua um do outro, o futebol é um meio de comunicação tão universal que com grunhidos estranhos, alguns gestos e a menção de certos nomes – Ronaldo, Beckham, Florentino – eles logo estariam se dando admiravelmente bem, gesticulando furiosamente em concordância um com o outro. E então, sentado naquele ônibus, pensei que a discussão que eu estava acompanhando com toda certeza estava sendo reproduzida não apenas em cada esquina da Espanha, não apenas em todas as outras partes do Quênia e da África, mas por todo o mundo – na França, na Alemanha, no Japão, na Rússia, na China. (Como eles poderiam não estar tendo essa conversa na China se, no dia 29 de julho de 2003, na cidade de Kunming, 20 mil fãs pagaram entre 20 e 100 dólares cada um para assistir a um jogo-treino entre o time titular do Real Madrid e os reservas?) As pessoas provavelmente estavam debatendo a polêmica Pérez-del Bosque até mesmo em algum lugar dos Estados Unidos, o último bastião pagão em que a última grande religião unificadora do mundo – a única que supera todos os credos, raças, ideologias e bandeiras – ainda não se firmou plenamente.

A questão acerca do Real Madrid, acerca deste Real Madrid, o que Florentino construiu, é que em um único time você tinha as mais veneradas divindades da religião – a santíssima trindade formada por David Beckham, Zinedine Zidane e Ronaldo – e, em Raúl, Luís Figo e Roberto Carlos, três outros que o transformam na equipe dos sonhos de praticamente todo técnico de futebol sério do mundo. Sete dos últimos jogadores do ano da Fifa jogavam neste time do Real Madrid. (Na vez em que eles perderam, quando Rivaldo foi o escolhido em 199, Beckham chegou em segundo; em 2001, Figo, Beckham e Raúl foram o primeiro, o segundo e o terceiro.) Ainda mais marcante , ainda mais inteiramente sem precedentes, este time tinha os melhores não de uma, duas ou três, mas de cinco das principais nações que jogam futebol: Inglaterra, Brasil, França, Espanha e Portugal. Nunca, em 150 anos da história do esporte, tal reunião de primeira do talento disponível no planeta esteve concentrada em um único clube. O futebol é jogado em todos os países do mundo. Milhões de pessoas, da floresta amazônica às montanhas do Tibete, chutam uma bola todos os dias. Milhões desses milhões sonham um dia se tornarem jogadores profissionais. E de todas essas almas inumeráveis, seis das melhores surgiram de três continentes, e ao final desse processo de destilação acabaram – ouro puro – no Real Madrid. Os galácticos é como os seis magníficos do Real são chamados na Espanha, como se fossem super-heróis de quadrinhos. E é exatamente assim, como jogadores que são maiores que a vida, como astros de outra galáxia, que a enorme fraternidade planetária do futebol os vê. E é na devoção que sua genialidade inspira, mais até que na questão menor de se eles ganham ou perdem, que repousa o apelo mundial do Real Madrid. É por isso que, se o futebol fosse a cristandade (embora seja Igreja Católica – a maior, mais pródiga denominação existente.

A devoção pode ser medida em números. Grandes empresas de todo o mundo ofereceram muito dinheiro para ligar seus nomes ao do Real Madrid. Além de um grande aumento de faturamento em função da frequência aos estádios, direitos de televisionamento e vendas de camisas, o clube tem ganhado muito dinheiro de empresas como Audi e Siemens, ansiosas para se associar na mente de seus clientes potenciais à cada vez mais poderosa marca “Real Madrid ” – duas palavras que, colocadas lado a lado, se tornam grandemente evocativas, trazendo à mente ideias de elegância, estilo e classe que nas mãos de marqueteiros espertos são ferramentas que podem ser utilizadas com um resultado muito lucrativo. Todas essas razões, e mais, explicam por que no final da temporada do futebol europeu de 2002/2003, antes mesmo da transferência de Beckham, o Real Madrid pela primeira vez superou o Manchester United como o clube mais lucrativo do mundo, segundo a revista World Soccer.

A categoria de Zidane
Tudo indicava que o Real Madrid, reforçado por Beckham Inc., consolidaria sua ascendência nos anos seguintes. Mas mesmo não tendo sido assim, tudo indica que o modelo de negócios de Florentino Pérez continuará a florescer. É uma forma revolucionária de administrar o futebol. A grande ideia de Pérez, desde o início de seu mandato de presidente, em 2000, foi a de que se você comprar os melhores jogadores, os melhores de todos, você vai ganhar no final, porque eles se pagam. É a mesma lógica adotada por produtores de Hollywood, quando decidem pagar enormes somas para convencer os grandes astros a participar de seus filmes. “Nós somos provedores de satisfação, como um estúdio de cinema”, explicou José Angel Sánchez, o exuberante diretor de marketing do Real Madrid, em uma entrevista à revista The Economist. “Ter um time com Zidane é como ter um filme com Tom Cruise.” A atração dos jogadores mais carismáticos do esporte é tal que sua simples presença irá, no mínimo, pagar seus custos. Assim, enquanto Pérez quebrava os recordes de passe mais caro para trazer Figo em 2000, quebrava-os de novo para trazer Zidane em 2001, e depois pagava outra fortuna por Ronaldo em 2002, o lucro do clube aumentava a cada ano.

Mas a revolução de Pérez tem outro lado. Homem de negócios de estrondoso sucesso, presidente da segunda maior empreiteira da Europa, ele não estava apenas mudando as práticas administrativas do futebol; estava destruindo antigas ortodoxias, alterando a concepção do esporte. Todas as vezes em que ele comprou outro superastro, mas especialmente quando comprou o garoto de ouro Beckham, os sumos sacerdotes do esporte – técnicos, ex-técnicos, ex-jogadores e colunistas de futebol – resmungaram que ele estava cometendo um grande erro; que, claro, Beckham tinha um ótimo passe de bola, mas que a prioridade era outra, que o time não tinha “equilíbrio”; que era necessário com urgência um novo cabeça de área, um meio-de-campo defensivo – homens fortes e duros que acrescentassem estabilidade à mistura já altamente refinada do Real. Pérez – e realmente é ele quem decide as coisas no clube – não acreditou em uma palavra disso. Foi em frente e apostou todo o seu dinheiro, e todo o seu prestígio, no talento. Puro talento futebolístico. “Los mejores”, diz ele, “Quiero a los mejores”. Os melhores, eu quero os melhores. Deixe que os outros times fiquem com os cabeças de área e os meio-campistas defensivos: contra nós, irão precisar deles!  

Extraordinariamente irresponsável. Alguns – especialmente na Itália, onde eles veem o futebol como uma versão mais complexa do xadrez – disseram que o homem era um suicida. E é verdade que, de acordo com a sabedoria inspirada do futebol, não há como administrar um clube de futebol sério. O Real Madrid de Pérez – às vezes chamado na Espanha de el Florentime – é o tipo de time fantástico de futebol que seria montado em um jogo de computador por um garoto de dez anos de idade sem qualquer sofisticação tática. Pérez defende a ideia de que, para dizer a verdade, o garoto de dez anos de idade sabe muito mais do esporte que os sumos sacerdotes. Embora, para fazer justiça aos sumos sacerdotes, a atrevida nova filosofia de Pérez seja baseada em uma premissa que eles mesmos nunca consideraram. A de que vencer não é o objetivo primordial do esporte. Você precisa competir, claro. Você precisa jogar no mais alto nível, o que significa a Copa dos Campeões da Europa – uma competição que apresenta um índice de qualidade muito mais confiável do que a Copa do Mundo. Você precisa sempre ser considerado um bom candidato a ganhar tudo. Mas, ganhe você tudo ou não, mesmo que o Real Madrid perpetue a grandiosa tradição de ter erguido muito mais copas europeias que qualquer outro, isso não é o princípio e o fim. O principal objetivo – o maravilhosamente lúcido diretor de esportes do Real o chama de “obrigação social” – é garantir o que eles em Madri chamam de espetáculo. Apresentar o melhor espetáculo da Terra. Emocionar. Mais do que a passageira felicidade da vitória, o que o Real Madrid aspira fazer é atingir um pouco da duradoura qualidade da arte, algo que toque as pessoas em todos os lugares, sempre.

Apenas assista a um jogo do Real Madrid, qualquer jogo, e mantenha os olhos fixos em Zidane. Veja-o girar e escapulir, com seu 1,87m, com a bola nos pés, e você entenderá o que Beckham queria dizer quando o descreveu como “uma ballerina”; você verá que a principal razão pela qual o inglês mais famoso do mundo queria jogar no Real Madrid era pelo privilégio, pelo puro prazer de atuar no mesmo grupo deslumbrantemente talentoso de seu ídolo – porque ele é o ídolo de todo mundo – Zidane.

                                         Aos 4'19, o golaço de Zidane com passe de Beckham

As fantasias futebolísticas mais extravagantes de Beckham se concretizaram em um dos primeiros jogos do campeonato contra o Valladolid. O jogador de melhor passe do jogo disse mais tarde que ele talvez nunca tivesse dado um passe melhor – mas que definitivamente ninguém tinha feito um gol mais bonito com uma bola passada por ele. Se você não viu, faça de tudo para conseguir um vídeo. Veja o passe de 45 metros de Beckham, observe a graça de seu movimento e a pureza da trajetória da bola enquanto ela sobe e cai, como um peso morto, no caminho de Zidane; então se encante com a forma mágica como – na corrida, em um movimento fluido – o francês pega a bola no ar com o pé esquerdo e a arremessa no lado oposto do goleiro no canto direito da rede.

O futebol de Zidane é arte. Arte que as pessoas estarão admirando daqui a 500 anos. E tem o grande mérito de não ser uma arte reservada aos iniciados, ao historiador de arte, ao melômano, ao leitor de Shakespeare e Cervantes. É a única forma de arte verdadeiramente globalizada, acessível a uma parcela da humanidade mais ampla do que qualquer outra arte antes. As pinceladas magníficas de Zidane tem uma qualidade maravilhosamente democrática. Elas produzem exatamente as mesmas reações – a mesma admiração, o mesmo deleite – no agricultor de subsistência de Ruanda e no banqueiro da City de Londres. E como toda arte, o que elas fazem é embelezar a condição humana, enriquecer a vida. Elas oferecem inspiração, oferecem prazer, oferecem – seja ao meu próspero amigo Sebastián passando por sua separação ou aos milhões de famintos da África – consolo para as tristezas da vida.

Joseph Conrad poderá se revirar no túmulo, mas sua definição de arte como algo que fala à “solidariedade (...) que liga os homens uns aos outros, que une toda a humanidade – os mortos aos vivos e os vivos aos não nascidos”: esta definição pode se aplicar com o mesmo valor tanto ao futebol quanto à musica, à literatura ou à pintura, quando o jogo é disputado com o esplendor e a genialidade dos homens de branco do Real Madrid.

Há outros belos times, outros grandes jogadores por aí no início do século XXI. Ronaldinho, do Barcelona; Van Nistelrooy, do Manchester United; Henry, do Arsenal; Totti, do Juventus; Kaká, do Milan; Ballack, do Bayern de Munique, são indivíduos capazes de levar o jogo a um patamar mais elevado. É só que – colocando de lado considerações tribais e examinando o que está disponível com olhos desapaixonados – os jogadores reunidos no Real o fazem com maior frequência, mais belamente e em um nível mais elevado. É por isso que a conversa que eu acompanhei no micro-ônibus em Majengo não deveria ser surpresa para mim, já que era óbvio que as pessoas estavam tendo exatamente a mesma conversa em micro-ônibus por todo o planeta Terra.

Ao voltar de Majengo para Nairóbi, tendo passado duas horas na clínica conversando com duas daquelas prostitutas imunes à Aids, fui almoçar no principal hospital universitário da cidade com um jovem médico que integrava a equipe que pesquisava por que aquelas mulheres tinham derrotado todas as probabilidades e evitado a infecção. O motivo pelo qual eu estava lá, em primeiro lugar, era para escrever uma reportagem de jornal sobre uma vacina para combater a Aids que os médicos quenianos estavam tentando desenvolver com base nas impressionantes defesas naturais das prostitutas. Eminentes catedráticos com os quais eu tinha conversado na Universidade de Oxford tinham dito que aquele era o mais ousado projeto do tipo no mundo. E, embora não fosse capaz de avaliar os méritos científicos do que estava acontecendo, eu estava bastante impressionado com o brilhantismo e a dedicação de pessoas como o jovem médico com o qual estava almoçando. Especialmente porque eu tinha entendido que um cientista capaz como ele, de apenas 27 anos de idade, poderia estar ganhando muito dinheiro se vendesse seu talento no exterior.

– Ah, sim – explicou ele –, mas para mim é um grande privilégio fazer parte dessa fantástica equipe de pesquisadores, realizando um trabalho tão importante para o mundo. Eu não trocaria isso por nada. Ao fazer parte desse grupo, sinto o que David Beckham deve estar sentindo ao fazer parte do Real Madrid.

Desta vez, não fiquei perplexo e boquiaberto, já que a viagem para Majengo me preparara para inesperadas alusões ao futebol. Foi o médico, e não eu, quem inicialmente levantou o tema do Real Madrid. Eu estava ali profissionalmente, conversando solenemente sobre Aids. Mas o que realmente me impressionou foi o que aconteceu a seguir. Algo de que eu sempre irei me lembrar como uma coincidência quase inacreditável. Não mais de cinco segundos depois de meu amigo médico mencionar o Real Madrid, meu telefone celular tocou. Atendi, e José Angel Sánchez, o chefe de marketing do Real Madrid – braço-direito e alter-ego de Florentino Pérez, e segundo homem mais poderoso do clube – se identificou. Era como ouvir uma voz de outro planeta, tão distante era o mundo opulento e ostentatório que ele habitava da vastidão vazia, cinza, de concreto do hospital em que eu estava e da imundície sórdida que eu tinha visto naquela manhã em Majengo.

Sánchez queria saber se eu poderia ir a Madri na semana seguinte para entrevistar Beckham para o canal de televisão do Real Madrid. Seria uma “exclusiva” mundial a ser transmitida para uma centena de países no dia de sua apresentação oficial como jogador do Real Madrid. Estávamos na quinta-feira, e a entrevista seria na terça ou na quarta-feira seguinte. O que dizer?

Aquilo era loucura. Eu estava na África fazendo uma reportagem sobre Aids, e durante todo o dia tinha havido referências ao Real Madrid e a Beckham. E agora eu estava sendo convocado a Madri para entrevistar o próprio homem. Estaria em andamento algum realinhamento planetário, com o Real Madrid e David Beckham no seu centro? Nem mesmo no coração da África era possível fugir deles. Nem por um só minuto.

Mas a resposta à pergunta de Sánchez não foi imediatamente óbvia para mim. Tinha acabado de chegar ao Quênia, a primeira parte de uma viagem de reportagem de duas semanas por quatro países da África que eu tinha passado mais de um mês diligentemente organizando. Podia eu jogar todo esse trabalho fora, me obrigar a recomeçar novamente a tarefa paciente de marcar encontros em Ruanda, África do Sul e Angola? E havia mais: eu tinha ido à África em uma missão de peso. Escrever sobre a Aids, o terrorista da natureza, o assassino que todos os dias, sem exceção, matava duas vezes mais pessoas que aquelas que morreram no World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Eu também iria escrever sobre guerra, pobreza e fome: em resumo, sobre a difícil situação dos povos mais abandonados e mais desesperados do mundo. Iria eu abandonar essa empreitada fabulosa para partir e entrevistar David Beckham? Minha consciência me permitiria esquecer isso? Tendo passado 20 anos de minha vida como jornalista cobrindo guerras, denunciando violações dos direitos humanos, defendendo, o quanto podia, os desventurados da Terra, seria eu agora acusado de uma frívola e irresponsável negligência para com o dever?

Disse a Sánchez que não podia dar conta daquilo naquele momento e que telefonaria para ele mais tarde. Então, me virei para o médico – aquele herói africano, o nobre oposto da cigarra frívola em que eu estava prestes a me tornar – e, embaraçado, expliquei a situação difícil em que me encontrava. Sua primeira resposta, bastante perplexa foi:

– Por que você?

edição inglesa de Anjos Brancos
Previsivelmente, ele imaginara que eu fosse um correspondente estrangeiro e não um jornalista esportivo. Eu disse que sim, que ele estava certo. Vagar por favelas em países pobres e conversar com pessoas como ele sempre tinha sido minha ocupação principal. Mas, nos últimos anos, minha paixão por futebol tinha convergido para minhas obrigações profissionais.

Sou meio-britânico, meio-espanhol e, tendo passado sete anos de minha infância em Buenos Aires (onde eles são provavelmente mais malucos por futebol do que em qualquer outro lugar do planeta Terra), era meu destino ser um fanático por futebol por toda a vida. O outro país em que cresci foi a Inglaterra, onde o esporte foi inventado. Muito mais tarde, quando me mudei para a Espanha, fui cativado pela paixão e pela arte do futebol espanhol, logo chegando a conclusão – partilhada pela maioria dos connoisseurs de futebol, eu suponho – de que o campeonato espanhol era o melhor do mundo. E foi assim que eu comecei a escrever cada vez mais sobre futebol. Inevitavelmente, era sobre o Real Madrid que meus editores britânicos queriam ouvir. Um dos motivos pelos quais recebi aquele telefonema impressionante foi que, ao começar a escrever sobre futebol, tinha entrevistado Pérez e Sánchez no Real Madrid e nós tínhamos nos dado bem. O fato de ser bilíngue ajudou. Mas percebi que a principal razão pela qual o Real Madrid queria que eu fizesse aquela entrevista era porque eu conhecia os mundos do futebol britânico e do futebol espanhol, falava inglês – e, portanto, esperava-se que eu deixasse Beckham mais à vontade que um jornalista espanhol na primeira grande entrevista dele para o seu novo time em solo espanhol.

Mas chega de autobiografia. O que eu precisava naquele momento, e com urgência, era de conselhos.

– O senhor é médico – disse eu. – Confio em médicos. Tenho essa grande escolha a fazer. Então me diga: o que devo fazer?.

Carlin é também autor da biografia de Mandela
Ele sorriu o sorriso do homem bom, sábio, de princípios cristalinos.

– Meu amigo – disse ele, abrindo um grande e radiante sorriso –, quando o trem chega, você precisa pegá-lo.

Ele estava certo. Sabia que ele estava certo. Telefonei para Sánchez e disse-lhe que estava pegando o trem. Que eu estaria em Madri na noite de segunda-feira.

Antes disso, fiz uma parada rápida em Ruanda, passei o domingo antes de minha volta no interior daquele pequeno país no coração geográfico da África, entrevistando as pessoas mais traumatizadas do mundo: as vítimas e os assassinos da maior atrocidade que o mundo tem visto desde a Segunda Guerra Mundial, o genocídio que começou em abril de 1994, no qual a população de etnia hutu de Ruanda, a maioria do país, se ergueu contra seus compatriotas tutsis, matando um milhão deles em 100 dias – quase todos eles cortados em pedaços com facões. Naquela noite, fui tomar um drinque com um general de Ruanda, um tutsi que tinha perdido a maior parte de sua grande família no genocídio, que levara um tiro no rosto e tinha a cicatriz para provar, e integrara a força rebelde que libertara o país pondo fim à matança, em junho de 1994. Mas eu já tinha tido histórias horríveis demais. Assim como ele. Conversamos sobre futebol.  Sobre – o que mais? – o Real Madrid e a transferência de Beckham. Como o Manchester United tinha permitido que ele partisse por tão pouco dinheiro? O que o técnico do Manchester, Alex Ferguson, estava pensando? Em que posição Beckham iria jogar? Ele não corria o risco de fracassar de forma terrível, jogando com aqueles atletas tão fantasticamente talentosos? E Ronaldo: tinha voltado à sua forma sensacional, mas as pessoas não temiam que ele tivesse uma recaída de sua terrível lesão no joelho? E Roberto Carlos, e Zidane, e Figo, e Raúl: eles não eram absolutamente fantásticos? E, por falar nisso, por que Pérez se livrou de seu técnico vencedor, del Bosque?

Vinte e quatro horas mais tarde, eu estava em um hotel cinco estrelas de Madri, preparando minha entrevista com Beckham. Fui bem.

Um mês mais tarde, após ter ido à África mais uma vez, então para concluir meu trabalho, recebi um telefonema de James, um amigo americano que trabalha para a ONU. Ele tinha estado na Suécia com dois garotos de oito e 12 anos de idade, filhos de um bom amigo que pouco tempo antes tinha morrido muito jovem de uma doença. Esperando divertir um pouco os dois garotos e fazer com que eles pensassem em outras coisas, James mencionara que tinha um amigo que entrevistara Beckham. “O queixo deles caiu”, disse James.

– Eles ficaram parados lá, impressionados, mudos, fascinados e admirados de que eu – um pobre infeliz – tivesse um amigo que tinha sentado e conversado com David Beckham.

John Carlin
Foi naquele momento, ou muito pouco depois, que James compreendeu que eu tinha de escrever um livro sobre o Real Madrid de Beckham. Telefonou para me dizer isso e eu percebi imediatamente que ele estava certo. Ei-lo.