segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Em 12 Rounds

Para muitos o boxe está nocauteado após a impressionante popularização do MMA. O esporte que chegou a arrastar multidões no século XX tornou-se menos “comercial”. Nos Estados Unidos, porém, ele continua “vivo”, sendo explorado pela literatura e pelo cinema. Por aqui, no Brasil, dois autores, Bruno Freitas e Maurício Dehò, desafiaram a lógica do esquecido boxe brasileiro e decidiram criar uma obra histórica, um resgate fundamental, para o esporte e, principalmente, para a literatura esportiva. Acertaram um direto, com o seu “Em 12 Rounds – Histórias do boxe no Brasil. De Jofre a Popó, dos Zumbano a Tyson (Editora Via Escrita).

Apresentação - 1
Por Bruno Freitas

Eduardo Suplicy
Bloqueio de escritor é uma coisa séria. Levando ao mundo do boxe, poderia ser um pugilista de roupão, pronto na beirada de um ringue, que, por uma hesitação estranha, receia em caminhar em direção a seu adversário. Vivi um momento assim, no encaminhamento deste projeto. A certa altura, estava com tudo pesquisado, tudo apurado. Era me sentar e escrever meus seis capítulos – os outros seis estariam nas mãos e na criatividade de Maurício Dehò, colega de empreitada. Mas, sei lá por quê, não começava.

Chegou uma hora em que não dava mais para adiar. Numa noite de vai ou racha, refleti sobre a lista de meus seis capítulos e elegi Eduardo Suplicy. O episódio do jovem de classe alta, que se encanta com o boxe, e suas lições humanas subliminares, simboliza muito do que é este projeto.

São histórias que transcendem o ringue, a mera troca de golpes. É a busca por aquela essência misteriosa da nobre arte que fascina o cinema norte-americano e suas plateias há décadas.

A aventura do filho dos Matarazzo nos ringues mexeu com a São Paulo da década de 1960 e, talvez, tenha ajudado a iluminar a consciência social do futuro político sobre a complexidade das diferenças de classes – o próprio senador admite isso.

Suplicy, boxeador.
Mas, enfim, o que era hesitação de escritor virou uma euforia por escrever. Varei a madrugada com a história de Suplicy nas mãos e só parei com ela concluída na tela do computador. Quando vi, eram 6 e pouco da manhã, mas o sono inexistia. A adrenalina intimidava a ideia de ir para cama. Então, num rompante maluco, vesti roupas esportivas e fui correr no Ibirapuera.

Cruzei o parque contente com a pequena vitória pessoal que o mundo desconhecia. Ali, com o dia ainda se criando, fui em direção à pista de corrida. Quase ninguém pelo caminho, só os dedicados atletas das manhãs. Ao chegar no começo da pista de terra, parei para um breve alongamento, sozinho, eu e as árvores. De repente, um senhor aparece a alguns metros, deixando o local calmamente, ao fim de seu exercício pessoal. Ninguém menos do que Eduardo Suplicy!

Parecia uma brincadeira da vida. Passara a madrugada com a cabeça na experiência de um personagem e dou de cara com ele ao sair de casa. Não tive muita reação, admito. Poderia relatar toda aquela história, dividir a surpresa do destino com aquele inesperado interlocutor. Mas só esbocei um “bom dia, senador”. Ele respondeu educadamente, certamente não  lembrava do jornalista que o visitou em uma tarde. Afinal, já passara mais de um ano. Apesar da frustração de não ter conseguido uma conversa mais extensa, ficou ali, para o autor, a sensação meio mística de que o projeto daria certo. Era um sinal, não? Naquela altura, tínhamos um acordo verbal com uma editora, mas as coisas não deram certo. O boxe já arrastou multidões no século XX, mas hoje não é um tema lá tão comercial – vivemos os dias de glória do MMA. Enfim, fomos atrás de parceiros, batalhamos alternativas de publicação, porém, nada vingava. Os anos foram passando, e o livro, pronto, ficou na gaveta um bom tempo. Faz parte do jogo. Depois, nos associamos à Via Escrita, fomos ao Catarse, em busca de financiamento de leitores, e o resultado está agora em suas mãos.

A ideia deste livro surgiu no já distante ano de 2006, com a leitura de A Luta, do craque das letras Norman Mailer, obra que deu origem ao documentário Quando Éramos Reis, premiado com um Oscar. Agora, nas próximas páginas, temos o privilégio de apresentar episódios incríveis do boxe – mas casos vividos em solo nacional. Sim, nós também temos as nossas histórias cinematográficas. Alô, produtores espertos, que tal um Touro Indomável made in Brazil?

Apresentação - 2
Por Maurício Dehò

Valdemir Pereira, o Sertão.
Se o ambiente do boxe são as academias, com seu inconfundível cheiro de suor e os eventos em que o ringue já foi centro de uma festa de gala e, hoje, estão às moscas, este livro mostra que um outro cenário é fundamental para a nobre arte: a rua. Escrever Em 12 Rounds foi um exercício que levou, a mim e ao parceiro Bruno Freitas, a deixar nossas casas, em busca de entrevistados, personagens, testemunhas de cada história contada.

A necessidade de ver, ouvir e sentir o que cada um dos envolvidos nos nossos 12 rounds tinha a oferecer acabou provando que não é só enfurnado em uma academia que o boxe brasileiro se fez.

Uma das missões com a obra foi sair da zona de conforto. No desafio mais ousado dessa nossa jornada, juntei-me ao amigo pugilista Washington Silva, peguei um avião para Salvador e, na sequência, um ônibus, para entrar no interior baiano, em busca de Cruz das Almas, a cidade do último campeão do boxe verde-amarelo: Valdemir Pereira, o Sertão.

Além de sentir o calor cruz-almense, andar pelas ruas de paralelepípedos e terra e ver com meus próprios olhos onde os garotos brigões da cidade trocaram a violência pela arte de boxear, eu ainda tinha de achar Sertão. O ex-campeão dos penas havia jogado tudo para o alto, depois de se descobrir doente antes de uma luta, e voltou à sua cidade, para viver no ostracismo.

Praticamente escondido, como ele reagiria a um jornalista batendo à sua porta, sem avisar? Nem Washington, meu guia turístico, queria se meter nessa. Deixou-me a dois quarteirões e falou: "Ali é a casa da mãe dele. Te espero aqui, leva o tempo que precisar". O "Deus da pauta" deu uma mão. Ao bater à porta, foi a mãe de Sertão quem atendeu. Mostrou fotos, falou com orgulho do filho e, assim, o caminho para chegar a ele estava amaciado. Quando Valdemir chegou, a estranheza de receber um repórter no meio de um fim de semana foi logo deixada de lado, e ele até me recebeu na casa em que morava, bem próxima à de sua mãe.

Assim como meu parceiro Bruno Freitas sabia que nosso trabalho sairia de nossos computadores e ganharia páginas de papel quando avistou Suplicy, minha certeza veio, nessa viagem, diferente de tudo que já tinha vivido como jornalista, e que ainda incluiu uma pausa em Salvador para longas conversas com Popó e Luiz Dórea. Popó, claro, é mais um exemplo de pugilista que saiu da vida simples, fazendo bicos na rua, para ser disputado por empresários milionários, e até acabou detido por isso, como veremos adiante.

Esquiva e Yamaguchi Falcão
A rua também é papel fundamental na história de Nilson Garrido, o pernambucano chamado de doido por muitos, ao montar academias de boxe embaixo de viadutos de São Paulo. Ou na dos irmãos Falcão, que já ficaram desabrigados nos momentos mais difíceis que o pai, Touro Moreno, teve na vida. A família capixaba, por sinal, foi a última adição ao projeto, com sua história digna de filme, e sua trajetória impensável nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres.

De Suplicy aos Falcão, o boxe permite entrar em todas as camadas da sociedade. Permite ir além do esporte, falar de História, de cultura, mostrar os diversos Brasis que a população viveu nos últimos 50 anos. Cada capítulo, um reflexo diferente dos tempos.

E mais. O livro é sobre boxe no Brasil, mas foi possível colocar no papel dois capítulos sobre lendas estrangeiras do boxe. Muhammad Ali e Mike Tyson estiveram em São Paulo e protagonizaram momentos que seus interlocutores brasileiros dificilmente esquecerão. Momentos que, como nos outros capítulos, estavam se esvaindo das mentes dos amantes da nobre arte, mas que são resgatados aqui.

Obrigado por vir junto conosco nessa e um agradecimento, em especial, a todos os apoiadores do Catarse, que acreditaram neste livro, antes mesmo de ele ser real. Hora de subir no ringue, o gongo vai soar. Boa leitura.

Prefácio
Por Álvaro José (jornalista TV Record)

Cassius Clay
Nenhum outro esporte lhe dá, ao mesmo tempo, um balé e um soco no queixo e o coloca no chão. Como se fosse possível passar incólume a isso, ainda é conhecido como a nobre arte. Esporte olímpico desde os Jogos da Antiguidade, ganhou seu passaporte definitivo para integrar o programa dos Jogos Olímpicos da Era Moderna em Antuérpia, 1920. Seus protagonistas têm vitórias de superação e de glória únicas, inclusive, na luta contra o preconceito. Até mesmo Cassius Clay, campeão olímpico em Roma, 1960, jogou sua medalha de ouro em um rio, em frente a uma lanchonete, após ter sido barrado por ser negro.

No Brasil, existem muitos ídolos a reverenciar. O boxe brasileiro sofreu, durante muito tempo, o mesmo problema do futebol, com a profissionalização de seus lutadores muito cedo. Os atletas olímpicos deveriam ser, obrigatoriamente, amadores, o que fez com que grandes talentos da nobre arte, aqui no Brasil, ficassem sem condição de disputar os Jogos Olímpicos.

O boxe fez parte de minha infância e pré-adolescência. Eder Jofre era campeão mundial e meu pai, o jornalista esportivo Álvaro Paes Leme, assistia e trabalhava nas grandes lutas. Falava de Luisão, Oscar Banavena e Luís Faustino Pires como donos de punhos de ferro. Ganhamos, meu irmão e eu, luvas infantis “Galo de Ouro Eder Jofre”, por ele autografadas. Elas renderam, durante as férias escolares, muita diversão para nós e preocupações infinitas para minha mãe. Quando meu pai chegava em casa, íamos esperá-lo no portão, com as luvas, e já pedíamos dicas de posição dos pés, esquivas, golpes e tudo mais.

Quando entrávamos, invariavelmente, todos nós tomávamos bronca, mas logo depois a sala virava um ringue novamente e, de vez em quando, sozinhos, meu irmão Claudio e eu exagerávamos na dose, e lá ia um para o chão. Mais bronca.

Além de Eder, Servílio de Oliveira, nosso medalhista olímpico no México, em 1968; Juarez de Lima, que fez sua carreira praticamente fora do Brasil e chegou a ser numero um do ranking; Miguel de Oliveira, João Henrique e todos os grandes lutadores brasileiros dessa época eram assunto em casa. Da mesma maneira, Abraham Katznelson e Kaled Cury, amigos de meu pai e figuras que encontrávamos, normalmente, quando estávamos junto com ele, em algum lugar, eram muito conhecidos. Ralph Zumbano, outro grande ex-pugilista, tio de Eder e que foi treinador de Maguila, também era próximo. Tal qual num ringue, o mundo do boxe da época girava próximo a nós.

Quando me tornei jornalista, o boxe continuou em minha vida, desta vez na empreitada do Luciano do Valle, com quem tive o privilégio de trabalhar durante muitos anos, em levar o Adilson Maguila Rodrigues a lutar pelo título mundial dos pesos pesados.

Foi um dos grandes momentos da história do boxe brasileiro, sem dúvida. A organização de grandes combates aqui no Brasil, e lá fora, para que Maguila alcançasse posições de destaque no ranking, para poder desafiar os melhores na busca de um título para o Brasil, foi um momento mágico.

Acelino Popó Freitas
Na esteira disso vieram, depois, Acelino Popó Freitas, campeão mundial, tal como Eder, em duas categorias, mas por quatro vezes.

Em Londres, vi os irmãos Falcão, Esquiva e Yamaguchi, conquistarem prata e bronze para o boxe olímpico brasileiro, depois de um jejum de 44 anos. Junto com eles, Adriana Araújo, a primeira medalhista brasileira no boxe feminino. Momentos inesquecíveis.

O boxe tem uma característica única de mexer com o imaginário de todos nós. É um esporte tão singular! Torna-se o vilão que, por vezes, leva embora até as lembranças de seus maiores ídolos. Aqueles que fizeram sua glória. Apaga memórias, mas não apaga a história que tem obras como essa para contá-la.



Sobre os autores:
Bruno Freitas é jornalista desde 1998 e acumula coberturas internacionais em 18 países. Cobriu três Olimpíadas e uma Copa do Mundo, entre outros eventos. Este é seu segundo livro. Também é autor de “Queimando as traves de 50 – glórias e castigo de Barbosa, maior goleiro da época romântica do futebol brasileiro”.
Maurício Dehò é jornalista desde 2006, com coberturas nacionais e internacionais de boxe e MMA, entre outros esportes. Este é seu primeiro livro.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Adeus a Roberto Porto

O jornalismo esportivo perdeu neste 4 de dezembro de 2014 mais uma de suas maiores referências. Roberto Porto, o “Robertão” para os amigos, um jornalista que jamais escondeu sua paixão pelo clube de coração, o Botafogo.

Porto nasceu em 1940, no Rio de Janeiro. Foi repórter e redator do Jornal do Brasil. Na Bloch Editores trabalhou nas revistas Enciclopédia Bloch, Fatos & Fotos e Domingo Ilustrado, trocando depois as revistas por O Globo, onde foi subeditor de esportes. Voltou ao Jornal do Brasil, como subeditor de esportes, retornando pouco depois a O Globo no mesmo cargo. Por fim, trabalhou em O Dia e foi editor-chefe da Tribuna da Imprensa. Foi colunista do Jornal dos Sports

Por todos os jornais, Porto cobriu várias Copas do Mundo, Jogos Olímpicos e Pan-Americanos.

Escreveu também diversos livros. Com João Máximo, publicou A História Ilustrada do Futebol Brasileiro (Edobrás, 1968), em quatro volumes, e, com Carlos Leonam e Manoela Pena, lançou Dicionário Popular de Futebol – O ABC das Arquibancadas (Editora Nova Fronteira, 1999). Manteve um blog http://blogdorobertoporto.blogspot.com.br/. Participava do programa Loucos por Futebol, do canal ESPN Brasil.

Entre tantos livros publicados sobre o Botafogo, um em especial, Botafogo: 101 Anos de História, Mitos e Superstições (Editora Revan, 2005), acabou gerando pelo editor da obra, seu amigo César Oliveira (o acento você entenderá ao ler o texto abaixo), uma crônica emocionante.

Ao longo dos três anos de existência, Literatura na Arquibancada destacou vários livros e textos do craque Roberto Porto e que podem ser acessados nos links a seguir:

MEU AMIGO ROBERTO PORTO
Por César Oliveira

Eu o vi pela primeira vez nas arquibancadas do Maracanã, atrás do gol, mas meio de esguelha, fumando feito louco e, de vez em quando sendo reconhecido e saudado pela Torcida.

Não lembro mais qual foi a coluna dele no Jornal dos Sports que eu comentei, através do e-mail portoroberto@uol.com.br. Mas é claro que era sobre a sua maior paixão imaterial: o Botafogo de Futebol e Regatas. Era 2004 e ele logo respondeu.
E-mail pra cá, e-mail pra lá, ele manda essa, quase um lamento:

– César (ele sempre acentuou meu nome), meu sonho é escrever o meu livro sobre o Botafogo.

Se você escrever, eu dou um jeito de publicar, respondi. Como assim?, quis saber. Ora, trabalho com livros desde 1980, sei fazer, vamos fazer?

A resposta abriu caminho para o começo de uma curta, mas intensa amizade:
– Onde você mora?
Morávamos a menos de 500 metros um do outro, ele na Senador Nabuco, eu na Visconde de Abaeté, em Vila Isabel. Pedi seu telefone, liguei, Ada atendeu e passou pra ele:
– Vem pra cá agora! – pedido quase ordem que se repetiu pela amizade afora, mesmo depois que ele mudou pros cafundós do Recreio dos Bandeirantes.

Foi difícil convencê-lo que ele não era um qualquer. Que estava à altura de Saldanha e Sandro, Oldemário e Sergio Augusto.

Foi assim que começou o sucesso de “Botafogo: 101 anos de histórias, mitos e superstições” que, agora posso revelar, mereceu apoio imediato de Manoel Renha, Carlos Augusto Montenegro, Sávio Neves, Luiz Roberto Santos, Pedro Bulcão e Durcésio Mello. Valério Gomes, da Ideia Busdoor, nos concedeu um monte de adesivos em ônibus. O Jornal dos Sports não criou impedimento a que usássemos seu rico acervo para ilustrar o livro. Eu ainda não havia criado a LivrosdeFutebol.com e, então, lançamos pela Revan.

Um livro histórico, de colecionador, com muitas fotos do Jornal dos Sports e o rico projeto gráfico da MQuatro Design, dos meus queridos Marcelo Fonseca da Rocha e Lina Mizutani. Um brinco de livro, um orgulho imenso e pra sempre.

Ele escreveu tudo rapidamente e não parava de ligar, várias vezes ao dia, indócil como o seu maior projeto editorial. Era o sonho de uma vida:
O "meu" livro sobre o Botafogo!

Quando o livro chegou da gráfica, chamei o Marcelo e combinamos de levar o livro pro Porto. Entramos no apartamento, ele nos recebe, então o Marcelo abre a pasta e apresenta a preciosidade. Ele olhou a capa, com sua caricatura feita pelo Ique, comemorando um gol do Botafogo numa pilha de jogadores que tinha Elton, Mané Garrincha, um jovem Jairzinho e, como cereja do bolo, Gérson Canhotinha de Ouro ainda com muito cabelo.

Ele pegou o livro, virou-se de costas pra nós, que não sabíamos o que fazer ou dizer, apenas vê-lo se afastar para a varanda, onde se sentou, e folheou o livro, chorando por quase meia hora.

O lançamento foi na livraria Dantes, da Ana e do Flamínio Lobo, em cima do Odeon BR. Como ele morava no Recreio, pedi que fosse de manhã pra casa do cunhado, em Vila Isabel, almoçasse e descansasse, para chegar ao Odeon lá pelas 18 horas.

Fez tudo o que eu pedi. Chegou à livraria às 17 horas, normalmente ansioso.

Mal subiu as escadinhas, já encontrou cinco torcedores na fila. Um, chegara pouco antes de Juiz de Fora, especialmente para o lançamento. Pra agradar os torcedores, sentou-se no local reservado a ele e começou a atender a todos. Trouxera dez canetas e quatro maços de cigarros.

Logo, uma multidão encheu o local, e olha que o Botafogo não ganhava o Carioca desde 1997, passara o Centenário em branco.

Alexandre Niemeyer, do Canal 100, generosamente fornecera um filmete de vinte minutos, que passava no cinema enquanto o lançamento acontecia. Velhos companheiros, imprensa, torcedores e admiradores lotaram o espaço, mais de quatrocentos livros vendidos.

Marcelo Duarte, um dos Loucos por Futebol, apareceu com um bigode de bombril, para homenagear o Mestre.

No final da noite, no rescaldo da alegria, ele se levanta, estávamos apenas em família, então peço o meu autógrafo e ele me diz:
– Porra, espera que eu preciso mijar! Não levantei dali desde que cheguei! Nem fumar, fumei.
"Em poucas e resumidas palavras": mais Roberto Porto, impossível.

Que Deus te abençoe, meu amigo! Pelo menos, agora, você vai matar as saudades da Ada Regina!

O abraço e a admiração do
César Oliveira
PS.: Nessa despedida, acato a sua gozação e autoacentuo o meu nome.


domingo, 30 de novembro de 2014

Diário da Copa: Alemanha campeã 2014

Quantos jornalistas não sonham em cobrir uma Copa do Mundo, ainda mais quando o evento é realizado em seu país? Gustavo Hofman, jornalista da ESPN Brasil, teve o privilégio de ser o “setorista”, aquele que acompanha diariamente uma equipe, da seleção campeã do mundo, a Alemanha.

Foram dias e dias de convívio com os campeões do mundo, que acabaram sendo os maiores algozes dos brasileiros, na goleada histórica por 7 a 1.

Gustavo reuniu essas vivências em um livro: “Quarenta dias com a campeã do mundo – Histórias e bastidores da Alemanha no Brasil” (Via Escrita Editora). E essas obras serão sempre bem-vindas, pois apesar da ampla cobertura de todas as mídias, especialmente as TVs, mesmo veículo que Hofman trabalha, nem sempre conseguimos ter detalhes de tudo o que acontece (ou aconteceu) no dia a dia de uma competição, ainda mais quando esse evento é uma Copa do Mundo.

Apresentação
Por Gustavo Hofman

Cobrir uma Copa do Mundo é algo espetacular. Fiz jornalismo por causa do esporte e sempre fui um apaixonado por futebol. Consequentemente, estar em um Mundial era o sonho maior. Quando o Brasil foi escolhido como sede em 2007, senti uma mistura de emoções. Fiquei feliz pela escolha do meu país, mas ao mesmo tempo preocupado com tudo de ruim que poderia acontecer com o dinheiro público.

Demorou um pouco para a ficha cair e perceber que, logo ali, haveria uma Copa do Mundo no jardim de casa, e que eu poderia estar nela. Nessa época eu trabalhava na Trivela e já tinha coberto um Mundial, em 2006, mas alocado na redação. O mesmo aconteceu quatro anos depois.

Agora era diferente. Como comentarista da ESPN, fui escalado para substituir Gerd Wenzel na cobertura da seleção alemã em território brasileiro. O Wenzel é a maior referência de futebol alemão no Brasil, um dos pioneiros do tema por aqui, desde os tempos de TV Cultura. Ele optou por ficar em São Paulo, na redação da ESPN, e eu com muita honra recebi a missão.

O que você lerá nas próximas páginas é um livro de memórias do Mundial, o meu diário da Copa.

Um diário de trabalho, o “Diário Alemão da Copa”, como coloquei em meu blog durante a competição. São relatos do cotidiano de uma cobertura, bastidores da seleção alemã, curiosidades de tantas viagens pelo Brasil como setorista da equipe (26 voos em 40 dias).

É também um diário que mostra toda competência e excelência alemã na busca pelo tetracampeonato mundial, que veio com um atropelamento contra o Brasil e a final contra a Argentina em pleno Maracanã.

E não deixa de ser uma forma de relembrar essa incrível Copa do Mundo. Boa leitura.

Prefácio
Por Gerd Wenzel

Quando os alemães optaram por estabelecer o Centro de Treinamento para a sua seleção na Vila de Santo André, no município de Santa Cruz Cabrália na Bahia, não faltaram polêmicas. Afinal, com esta decisão, os dirigentes da Federação Alemã de Futebol haviam rejeitado todas as opções oferecidas pela Fifa através do Comitê Organizador Local e encamparam um projeto pré-existente de um Hotel Resort administrado por empresários alemães.

A repercussão, tanto na mídia alemã como na brasileira, foi enorme e muito se falou sobre a conveniência ou não de praticamente isolar os jogadores de todo burburinho, para dizer o mínimo, da Copa do Mundo no Brasil, ao contrário de outras seleções como a Holanda e os Estados Unidos, só para citar dois exemplos.

Mas, na contramão do que imaginavam os críticos contumazes, a partir do “Marco 0” do Brasil – Santa Cruz Cabrália na Bahia – praticamente tudo deu certo para a seleção alemã em terras brasileiras. A começar pela sua chegada: rodaram o mundo fotos dos já descontraídos jogadores na balsa atravessando o Rio João de Tiba, trajeto que iria se repetir à exaustão para a alegria dos futuros campeões mundiais.

Descontração, alegria e simpatia, marcas registradas do elenco. Mas quem conhece a Bahia sabe que estas são também as características do generoso povo baiano. E por conhecer relativamente bem a Bahia, mesmo à distância, tive a nítida impressão de que este jeito baiano de ser acabou sendo incorporado pelos jogadores alemães.

Não faltaram exemplos para comprovar esta tese: a inteiração com os índios pataxós, o carinho com as crianças numa escola de Santo André, a forma atenciosa de tratar os torcedores brasileiros.

Tudo isto sem perder de vista o foco principal: a conquista do quarto título mundial. Só que, pouco antes do início da Copa do Mundo no Brasil, o treinador alemão enfrentou sérios problemas de contusão de alguns jogadores considerados fundamentais para compor o elenco, principalmente Marco Reus, considerado o melhor jogador alemão da atualidade.

O que fazer? Manter o foco, buscar alternativas e fomentar o espírito de equipe. E foi exatamente o que a comissão técnica em conjunto com todo elenco fizeram durante o tempo que estiveram no Brasil e, neste sentido, a escolha de Santa Cruz Cabrália acabou caindo como uma luva para que o objetivo final pudesse ser atingido. Em outras palavras: a pequena Vila de Santo André forneceu as condições necessárias aos jogadores alemães para o pontapé inicial rumo à jornada histórica que culminou com a conquista no templo do futebol mundial, o Maracanã.

E esta jornada foi descrita de forma exemplar pelo jovem jornalista Gustavo Hofman no seu “Diário de Bordo” que à noite, após um exaustivo dia de trabalho enviando boletins para a emissora, fazendo entrevistas com Deus e o mundo, acompanhando coletivas de imprensa, trocando ideias com colegas jornalistas, viajando de cima para baixo com a seleção alemã, comentando os jogos nos estádios, fazendo matérias extra-futebol, além de enfrentar dia sim e outro também, problemas de ordem organizacional que só um setorista conhece, ainda foi encontrar tempo e energia para colocar no papel as suas experiências vivenciadas naquelas últimas 25 horas. Sim, 25 horas – porque para um repórter como Gustavo Hofman este é o tempo mínimo da duração de um dia. Portanto, foi também uma jornada pessoal rumo às entranhas da Copa do Mundo no Brasil. Ficará para sempre em sua memória. Uma jornada que poderá contar com orgulho para o seu filho e, quiçá, mais tarde, para os seus netos.

E ficará para sempre também em nossa memória graças ao seu livro “40 dias com a campeã do mundo – histórias e bastidores da Alemanha no Brasil” onde Gustavo Hofman soube transmitir com maestria a sua vivência daqueles dias de experiências extraordinárias.

Sobre o autor:
Gustavo Hofman nasceu em Belo Horizonte (MG), em 5 de maio de1981, mas cresceu em Campinas (SP). Mora em São Paulo (SP). É formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Pucamp/SP) e tem pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Antes de ser jornalista, jogou basquete pela Sociedade Hípica e pelo Tênis Clube, ambos de Campinas, tendo disputado os campeonatos paulistas da base entre 1994 e 1998. Começou a carreira em sites e revistas customizadas de Campinas. Já como repórter, ingressou no jornal Folha de S.Paulo e pouco tempo depois foi contratado pelo portal Terra, exercendo a mesma função. Em 2005 foi editor do site e repórter da revista Trivela. É comentarista dos canais Espn, blogueiro do site Trivela.com e colunista do ExtraTime.com.br. 
(fonte: Portal dos Jornalistas- www.portaldosjornalistas.com.br)