terça-feira, 21 de outubro de 2014

Juízo, Torcida Brasileira!

O fato de ter escrito um livro com o editor deste blog, não afetará em nada do que será dito a respeito desse cidadão. Vladir Lemos acaba de ter mais um livro publicado: “Juízo – Torcida Brasileira!” (Editora Realejo). Trabalhamos juntos, durante vários anos, na TV Cultura, e sem medo de errar, sempre lhe dizia que um dia aquelas mãos seriam as de um escritor. Um dos melhores repórteres da TV brasileira, com sensibilidade ímpar. Assinar uma obra com ele foi apenas a “cereja do bolo”.


A Magia da Camisa 10 (Verus Editora), correu o mundo, publicado em alguns países desse planetinha obsceno. Não nos trouxe riqueza, somente orgulho da cria parida a quatro mãos. Agora, as mãos de Vladir, escreveram em conta gotas, na reflexão do dia a dia sobre o futebol, crônicas saborosas, várias publicadas no seu blog http://blogdovladir.blogspot.com.br/ . Por isso, se você, leitor, achar pouco o que irá ler aqui, fique a vontade para se deliciar com as linhas criadas por Vladir Lemos, no livro, no blog e por aí. Esse, conhece!




O futebol que imita a vida e vice-versa
Xico Sá

“Por uns quatro anos, tive o prazer de participar, ao lado de Vladir Lemos, do “Cartão Verde” (Cultura), um dos mais resistentes e democráticos da televisão brasileira. Para completar a festa, tínhamos as companhias do doutor Sócrates e do Vítor Birner.

A mesma elegância usada para comandar o programa, Vladir aplica neste livro. Tive a honra de selecionar as crônicas, a partir da sua vasta produção para “A Tribuna”, de Santos, cidade que o autor divide com São Paulo.

Foi um trabalho difícil deixar alguns textos de fora. É do jogo de qualquer edição. O que ficou neste volume é muito representativo do que foi e do que é o nosso futebol nos últimos anos. Sempre com um olhar que foge daquilo que o centenário Nelson Rodrigues, nosso craque maior da crônica esportiva, chamava de “idiotas da objetividade”.

Muito ao contrário. Vladir olha pela lente do lirismo. Em algumas ocasiões, tem a capacidade de desfocar do jogo para vê o homem que está à frente de tudo, como na página em que conta sobre um torcedor embriagado que corria risco de vida nas arquibancadas do Parque Antártica diante das câmeras que preferiam a tragédia à mínima solidariedade humana.

Vladir sabe que uma partida de futebol tem uma complexidade que não permite apenas uma leitura. E para ler o absurdo que pode representar  uma peleja esportiva, sempre imitando a vida e vice-versa,  o cronista busca  na escrita maluca e genial de Luigi Pirandello a surpresa de enquadrar as coisas. 

Não é simplesmente o esquema tático que interessa ao autor. Ele foge o máximo dessa frieza. Porque sabe, como deixa patente, que “torcer é um tipo de esperança”. Porque sabe, e deixa evidente em uma imagem bonita, que “o futebol está nu” diante de incontáveis câmeras na cobertura de uma partida.

Outro ponto marcante do livro é um certo enfado com o futebol tosco. Na convivência com o doutor Sócrates, esse aspecto foi sempre ressaltado. O craque do Botafogo de Ribeirão Preto, do Corinthians e da Seleção Brasileira não tinha a menor paciência, muitas vezes não suportava dez minutos, de um jogo feio. Cada passe errado que via doía no coração, como o amigo lerá em um dos mais comoventes textos desta coletânea.

Boa leitura a todos.”

Literatura na Arquibancada destaca abaixo duas crônicas de Vladir Lemos:

Um olhar sobre a história

Os dias têm me insinuado que ver o tempo passar e não se render ao saudosismo é um desafio dos grandes, muito maior do que esse que o Corinthians acaba de encontrar ao iniciar sua saga pela Série B. O futebol é uma boa prova disso, mas não é a única. Tá cheio de gente por aí, debruçada sobre as referências do passado como se ele ainda fosse possível. E o pior, é que essa insistência em comparar épocas distintas só ajuda a deixar ainda mais evidente a pobreza dos gramados atuais.

Nesta hora, os saudosistas já devem estar bradando algo como: “Quem esse moleque pensa que é? Diz isso porque não viu Pelé jogar!”. Tá certo, não vi mesmo, mas que culpa tenho por não ter nascido antes?

Saibam que isso não me alegra nem um pouco. Ao tocar no assunto, quase não me perdôo, por jamais ter perguntado ao meu pai, se um dia, ele me levou a um estádio em que se apresentava o Rei. Ainda que minha memória não tenha gravado um único flash do acontecido, a confirmação me confortaria.

Saudosistas, fiquem calmos, ninguém será capaz de apagar o virtuosismo e a elegância de um Nilton Santos, de um Didi ou de um Zizinho.

Ninguém será capaz de ameaçar aqueles que por meio da bola ganharam outra dimensão.

E olha, dizer que nunca pude ver Pelé jogar, não é uma verdade absoluta. Lembro muito bem do dia em que o CT do Santos foi inaugurado. As traves virgens aguardavam, claro, o Rei. Ainda posso ver a cena. Pelé chegou, segurou a bola. Mirou a luz do sol. Indicou o melhor lugar para o batalhão de fotógrafos e cinegrafistas. E, então, soltou a bola no chão e, narrando seus próprios movimentos, a chutou de encontro à rede. Deu até Jornal Nacional. E eu nunca mais esqueci aqueles segundos. Acho até que não seria muito diferente se o craque em questão fosse o Pagão ou o Garrincha.

Fazer o quê? Nessa vida não se pode tudo.

Mas, esta semana, ao ler o artigo escrito por José Miguel Wisnik para a revista Piauí, intitulado “São Vicente e Pelé”, vivi o inverso desse sentimento de limitação temporal.

Nas palavras do ensaísta embarquei num passeio delirante pelo futebol da Baixada Santista das décadas de 50 e 60. E nelas encontrei o Continental, o Beija-Flor, o Itararé. Times que eu vi jogar, como o Paulistano, onde o clima era sempre de rivalidade pura. Esses esquadrões cravaram nas minhas lembranças lances inesquecíveis, e gols que alegraram muitos domingos.
Então, em silêncio comigo, inundado por uma saudade imensa, pensei. Talvez não os tenha visto no auge, mas vi, ô se vi.

Da vida dos Reis

Da vida dos Reis costuma-se exaltar os grandes feitos, conforto, as facilidades da nobreza, as muitas mordomias. Tudo normal, quando o mundo, de tanto girar, fez desses nobres personagens fáceis.

Que Reis nos sobraram? O Juan Carlos, da Espanha? O que não se fala é que ao longo da história grande parte dos reis não teve vida fácil. Morriam cedo. Muitos passaram a maior parte da vida em meio a batalha ferozes, dormindo em camas de camas de campanha, cercado de homens e de uma realidade imunda. Assim, e só assim, conseguiam reafirmar a condição de líderes e manter a honra.

Metaforicamente com o Rei do Futebol não foi diferente. Lembro que uma década atrás, quando completava 60 anos, Pelé concedeu uma entrevista a uma rádio. Depois de cumprir o compromisso por lá, se entregou a um bate-papo em clima amistoso, como sempre, com os jornalistas que naquele dia tinham a missão de ouvi-lo e, mais importante, tinham a informação de onde ele estaria.

Recordo também que no final do encontro, quando o pessoal já dispersava, eu, e se não me engano, o Luciano Faccioli, estendemos um pouco a conversa e tomamos a liberdade de brincar com o fato de sua majestade não ter um único fio de cabelo branco. Usaria o rei uma tintura?

Nada como estar diante de um Rei diferente. Dessa vez, perto de completar 70 anos, Pelé decidiu não falar. Quantas perguntas sobre o tema fariam sentido?

Sinto, porque por outro lado, a idade costuma das aos homens uma lucidez impressionante. Além do mais, uma chance a menos de falar com o Rei será sempre uma chance a menos.

Mas queria dizer que parte dessa lucidez percebi na entrevista que Pelé concedeu na última sexta durante o lançamento de um programa educacional-esportivo. Disse, por exemplo, que chegou a dizer para Neymar que “o dom do futebol a gente ganhou de Deus. Mas o resto é a gente que tem que cuidar. A gente tem que cuidar da condição física”.

Acho até que isso pode explicar aquela ausência de cabelos brancos nessa divindade. Há quem diga ainda que Pelé foi muito ajudado pelo fato de ter brilhado em uma época em que a televisão já se fazia presente. Não entro nessa. Se pouco vi Pelé, imagina os que vieram antes dele. Respeito os homens pela história que deixam. Não é fácil construí-las.

O que sei do Rei é que poucas vezes na vida encontrei alguém com tamanha capacidade para lidar com a fama. Certa vez, quando o Santos inaugurava o CT ali perto da Santa Casa, percebi que não havia uma bola no locar.

Sim, o Centro de Treinamento estava sendo erguido. Perto do desespero, implorei a um guri que se amontoava entre os fotógrafos e cinegrafistas para que arrumasse uma bola. O menino deu conta do recado. Quando o Rei chegou, olhou aquela multidão de sedentos por imagens e declarações, mirou o sol, e decretou:
“Quem está com câmeras vai para lá. A luz está melhor para lá”.

Ordenou que todos se posicionassem atrás de um dos gols. E com a bola debaixo de um dos braços caminhou lentamente até a linha imaginária do meio-campo, que também não existia. Colocou a bola no chão e veio com ela dominada, narrando sua trajetória até o chute derradeiro. Finalizou dizendo:

– “Lá vai Pelé! É gol!!!”

Foi ao fundo da rede, pegou a bola e saiu dizendo: “O primeiro gol aqui nesse lugar foi eu que fiz!”

E eu nunca mais esqueci como era diferente de tudo ver Pelé fazer um gol.

Sobre o autor:
Vladir Lemos começou a carreira no início da década de noventa como repórter da TV Tribuna, na cidade de Santos. É autor de livros e documentários. Trabalhou como repórter e apresentador do programa "Grandes Momentos do Esporte, da TV Cultura, de São Paulo, onde atualmente apresenta o programa "Cartão Verde".

Sem Rumo na Copa

Existem muitas maneiras de se cobrir um evento mundial como uma Copa do Mundo de Futebol. Mas, certamente, a menos divulgada é aquela escolhida por muitos “aventureiros”, no bom e real sentido da palavra. É o que fizeram os jovens catarinenses Diego Madruga, Pedro Rockenbach e Renan Koerich, três mochileiros que exploraram o universo paralelo a um evento como a Copa. A aventura transformou-se em livro sobre a Copa disputada na África, em 2010: “Sem Rumo na Copa – 45 dias de uma aventura na África do Sul” (editora Via Escrita). Nada de bola rolando, dentro de campo, mas muitas lições do cotidiano para guardar.

Apresentação

Você consegue lembrar exatamente o que você fez nos últimos 45 dias? É difícil rememorar dia por dia. Mas nós lembramos exatamente como foi cada um durante o mês e meio que passamos na viagem para a África do Sul em 2010. Cada minuto da aventura mais incrível de nós três, pelo menos até a confecção deste texto, reverbera na memória. Não somos levianos em usar “da vida” porque o futuro é um mistério e esperamos aventuras cada vez mais marcantes.

Juntamos as economias e partimos para acompanhar de perto a Copa do Mundo de futebol. Para nós – Diego Madruga, Pedro Rockenbach e Renan Koerich – era a primeira vez fora do continente. Era a primeira vez tanto tempo longe de casa.

A ideia surgiu no início de 2010, quando a mãe do Renan viu uma chamada da Copa na televisão. Dona Sandra sugeriu: “Por que vocês não vão para lá?”. Meio ano depois, o aparente devaneio se transformou em realidade.

Um pacote para cursar inglês durante um mês na África do Sul, no período do Mundial, foi a forma mais econômica de viajar. Às 10h do dia 5 de junho, iniciamos a nossa jornada num voo partindo do Aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis.

O curso ofereceu estadia para os estudantes. Por isso, ficamos numa casa com 16 brasileiros. Em quase todas as histórias contadas neste livro, mais alguém da residência estava conosco. Nas reportagens e nas demais furadas, há a participação desses amigos. A colega Bárbara Lins, que se juntou ao trio para colocar o pé na estrada quando deixamos a Cidade do Cabo, também contribuiu e participou de várias entrevistas e passeios pelo Cabo.

Nos 45 dias, mantivemos um blog, enviamos reportagens para o jornal Diário Catarinense, à rádio CBN Diário e transmitimos vídeos para o clicrbs.com.br. Ao retornarmos ao Brasil, contamos inúmeras vezes as experiências vividas no país.

Percebemos que esses relatos eram tão cheios de informações jornalísticas como as reportagens. Então, decidimos eternizar o abstrato em algo físico. Foi o nascimento do livro “Sem Rumo na Copa”.

O texto também nos permite fazer um paralelo para com o Brasil. Muitos dos fatos narrados pelo trio se tornaram um déjà vu em nosso país. Os problemas de internet, obras atrasadas, estádios que são “elefantes brancos” e transporte coletivo precário são alguns dos exemplos negativos que vimos na África do Sul e apareceram no horizonte brasileiro em 2014.

Mas também vimos muitos exemplos positivos que se repetiram por aqui. Principalmente, em relação às pessoas. Brasil e África do Sul são países muitos parecidos em níveis econômicos e sociais. E, mesmo com muito esforço para ganhar a vida, as pessoas que movem as duas nações têm sempre um sorriso para compartilhar, solicitude para ajudar e uma enorme vontade de receber o mundo em sua casa. Querem mostrar que, mesmo não tendo o nível europeu, tão imposto pela FIFA, têm outras inúmeras qualidades, como riqueza em cultura e vasta opção de belezas naturais, por exemplo.

Antes de o leitor conhecer as peripécias do trio, vale uma explicação. Para escrever, usamos a 1ª pessoa do plural, nos momentos em que os três participam, e a 3ª do singular para ações individuais ou em dupla.

Sobre o conteúdo, não tivemos a pretensão de confeccionar um livro de História. Apenas contar a nossa história misturada às reportagens produzidas por nós.

Prefácio
Por Fábio Zanini


“Quem em sã consciência trocaria Florianópolis pela dureza de um continente com mosquitos, conexão de internet a carvão e ônibus que só partem quando o motorista quer?

Os autores deste livro trocaram. Certamente eles já ouviram dezenas de vezes a pergunta: “Por que a África?”, e aqui eu vou repetir a resposta que costumo dar sempre que sou emparedado por olhares incrédulos: “Por que não?”.

Veja bem, a África é a parte do planeta em que um jornalista pode realizar plenamente a satisfação de contar uma história. Lá, está ainda tudo por construir, pacificar, desenvolver. As pessoas têm um senso agudo de pertencerem a um coletivo. O individualismo ainda engatinha.

E a surpresa mais gratificante é descobrir que nem tudo é desgraça. As pessoas riem e são simpáticas. Estrangeiros são bem-vindos, desde que não adotem uma atitude de colonizadores extemporâneos. De vez em quando, o mundo até para e presta atenção a algo mais do que fomes e guerras. Foi assim na libertação de Nelson Mandela, em 1990. Foi assim na Copa do Mundo da África do Sul, em 2010.

Pedro, Diego e Renan deixaram Floripa para vivenciar um momento único na trajetória do continente. Este livro reúne suas histórias. São relatos de quem não teve medo de se misturar a pessoas desconhecidas em ônibus, albergues e lan houses, nem se sentiu intimidado pela porta na cara que a FIFA bateu em incontáveis jornalistas pelo mundo.

Uma Copa do Mundo não é somente o que acontece nos estádios, hotéis e restaurantes coalhados de torcedores. Às vezes, nesses locais é onde a Copa menos acontece. Se alguém quisesse sentir de verdade a tensão da competição, o orgulho que despertou nos sul-africanos e a paralisia que provocou em um país inteiro, não era assistindo a Eslováquia contra Nova Zelândia no estádio reformado da cidadezinha de Rustenburgo.

Era nos shebeens, os bares sul-africanos, ou no coração de Joanesburgo, onde aquele evento gigantesco representava bem mais do que uma festa de mídia para a FIFA. Era mais um sinal de libertação após décadas de tirania racial.

Felizmente, os autores deste livro perceberam isso direitinho.”

Literatura na Arquibancada destaca abaixo um dos capítulos da obra.

Música e pelada à beira-mar

Para variar, entre idas e vindas, no domingo fomos parar de novo no Waterfront. Como uma ótima surpresa, valeu a pena outra pernada pela área turística do antigo porto. Assistimos, literalmente, a um show de cultura no início da tarde.

Vários artistas de rua solos e em grupo se apresentavam nas calçadas de lajotas simetricamente alinhadas. Atabaques de couro, flautas em cano de PVC, mágicos e até um saxofonista hipnotizavam os olhos e enfeitiçavam os ouvidos dos turistas.

Alguns traziam rostos pintados e entoavam cânticos remetendo aos povos tribais, os primeiros habitantes da atual África do Sul. Tribos foram dizimadas pelos colonizadores e embarcadas em porões de navios negreiros ali naquele mesmo porto para colônias e países de regime escravocrata.

Paramos em frente a um senhor baixinho de coluna arqueada. Ele vestia boné, uma jaqueta, calça jeans e trazia ao peito um saxofone de tom avermelhado desbotado. Ao reconhecer nossas camisas, iniciou os acordes de Garota de Ipanema.

E nós acompanhamos balbuciando a letra: com um doce balanço a caminho do... béééééééé. A melodia “travou” numa nota. Enquanto encontrava ar para segurar o acorde com uma das mãos, com a outra o baixinho apontava o lenço estendido no chão. Só daria sequência ao clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes se colocássemos dinheiro sobre o lenço. Sacamos algumas moedas e deixamos ali.

Achou pouco, fez sinal negativo com a cabeça e pediu mais. Tivemos boa vontade, mas o amigo do sax não conhecia a realidade do trio, que vivia sob forte avareza desde o desembarque no Cabo. Fizemos cara de “é isso que temos” e partimos. A Garota ficou interrompida.

Miduduzi Mbuyazi
Logo à frente, encontramos outro jazzista. Mais simpático, mais atencioso e mais talentoso que o anterior. Munido apenas de cano de PVC e um pequeno chocalho em forma de bola, Miduduzi Mbuyazi, de 25 anos, tocava algo criado por ele, batizado de Unico Jazz. Do cano e do chocalho, sentado no chão, Miduduzi tirava cadências parecidas com aqueles sons andinos tocados em praças do Brasil.

Usando uma roupa de estampa de onça e uma touca em forma de bola de futebol, o sul-africano fica de duas a três horas por dia nos pontos turísticos da cidade. Segue essa rotina há cinco anos.

Para quem ouve e não entende nada de música, o Unico Jazz soa apenas como um barulho agradável. Porém, aqueles com audição mais apurada percebem a sutileza do som, as variações de tons, a metragem perfeita da batida. Enxerga também a sensibilidade e o cuidado com que o jazz de Miduduzi é moldado. “Eu amo tocar aqui, isso aperfeiçoa meu som, que ainda tem muito a melhorar.”

Quando encerramos a nossa conversa com o inventor do “Unico Jazz”, o relógio marcava 16h. Estávamos atrasados para o nosso show. Modéstia à parte, na tarde de domingo, nós também faríamos uma apresentação. Não artística, mas futebolística.

O “trio dos sonhos” de qualquer time iria participar de uma pelada no bairro Camps Bay, o metro quadrado mais caro do país. Buscamos rapidinho o fardamento em casa e fomos rumo à estreia fora do Brasil. O lugar ficava à beira-mar, rodeado de mansões, restaurantes de pelo menos quatro talheres e lojas das mais caras grifes do mundo.

Nos fundos de um desses restaurantes, ficam os dois campos de futebol. A bola já rolava ao descermos da van. Encostamo-nos à beira do gramado com cara de menino pidão. Pelo menos um do trio sempre usava a camisa da Seleção Brasileira.

Isso facilitava as coisas muitas vezes. E para bater uma bola, não foi diferente. Não demorou muito para um brasileiro chamar a nossa atenção e perguntar se queríamos entrar. Complementamos as equipes da pelada, que acontecia todos os domingos à tarde. Descobrimos o local por meio de amigos das aulas de inglês. Passamos pouco tempo no curso, entretanto deu para fazer algumas amizades.

O futebol ali era uma espécie de mini Copa do Mundo. Trocamos passes com ingleses, nigerianos, brasileiros, sul-africanos, portugueses e por aí vai. A nossa Copa do Mundo. O único problema estava no que não podia ser visto, apenas sentido.

O frio intensificado pelo vento riscava as nossas canelas. A sensação térmica com certeza devia estar por volta dos 5ºC. Corremos uns 20 minutos, mais para se aquecer do que para marcar ou fazer gol. Numa dividida, Renan recebeu uma entrada forte. Ficou uns dois dias reclamando de dor, praguejando contra o inglês perna de pau que o lesionara. Todos deixaram o campo quando desabou a chuva.

Frio e corpo molhado não seriam nada agradáveis. O tempo na Cidade do Cabo tem
características surpreendentes. Há cinco minutos, o céu azul e um lindíssimo pôr do sol pintavam a paisagem. Sem aviso, veio a precipitação. Passou em cinco minutos.

Essas alterações aconteciam constantemente em Cape Town. Várias vezes não havia
nem sinal de nuvem, e surgia uma chuva.

A brincadeira sob baixas temperaturas rendeu resfriado ao Diego e ao Renan. À noite, ambos foram dormir na mesma sintonia: “Cara, estou com dor de cabeça e no corpo”. Reclamaram apenas da dor porque ninguém ousava se arrepender de jogar aquele futebol. Sabíamos que fora um privilégio compartilhar o mesmo objetivo com tantas culturas diferentes. “Tabelei com um nigeriano”, Diego enfatizava emocionado cada vez que precisava recontar a tarde de domingo.

Terminava com dois debilitados e um rindo da cara deles a primeira semana na África do Sul. Obviamente, nem imaginávamos, mas, nos próximos dias, aguardavam pelo Sem Rumo na Copa uma escalada, uma ilha-prisão, uma favela, um estádio lotado e um pedaço do Brasil a oito mil quilômetros de distância das terras descobertas por Cabral.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Guga, Um Brasileiro

Um livro obrigatório para os amantes da literatura esportiva. Saiu a autobiografia de um dos maiores esportistas brasileiros de todos os tempos. Guga, Um Brasileiro (Editora Sextante) foi construído a partir de depoimentos do tenista ao jornalista Luís Colombini.

Histórias de superação, de conquistas, de um sonho nunca sonhado transformado em realidade em quadras espalhadas pelo mundo: Gustavo Kuerten, o Guga, 20 títulos individuais e primeiro do ranking mundial por 43 semanas !

Histórias como a do Guga menino, que sonhava ser bombeiro. Em recente entrevista a Revista Época (http://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Vida/noticia/2014/09/guga-se-eu-nao-fosse-brasileiro-nao-teria-sido-o-numero-1-do-mundo.html ), Guga relata o “custo” para chegar tão longe:  “A minha mãe vendeu piano, jóia, relógio do meu pai, carro e estava pronta para vender a casa. Minha família foi dissolvendo todos os investimentos seguros. Isso é bem empolgante no livro porque a gente vê que, apesar de não ter nenhuma certeza, a gente estava convicto de que ia dar certo. Porque como é que a gente estava tendo coragem de botar tudo em risco assim para alguma coisa que não fosse acontecer?”

Apesar de todas as conquistas, Guga segue com a mesma simplicidade que sempre o caracterizou, dentro e fora das quadras.  Sua inacreditável trajetória vencedora, como ele mesmo afirma, não teve nada de anormal: "Se você olhar hoje pensa: não pode ser verdade, é inacreditável ver aonde cheguei. Mas não tem nada de mágico, uma fórmula secreta ou um cometa Halley que passa a cada tantos anos. É a história de um cara comum que aproveitou as oportunidades".

Mais ou menos Guga. Você é pra lá de especial.

Apresentação (da editora)

É em junho de 1997 que Gustavo Kuerten inicia a maior virada de sua vida. O palco é Roland Garros, o torneio de tênis mais charmoso do mundo. Como personagem inicialmente coadjuvante e depois protagonista, o desconhecido cabeludo, surfista e boa-praça iria abalar as tradições do esporte refinado e entrar para a história mundial do tênis e do esporte brasileiro.

Mas sua trajetória brilhante rumo ao topo do ranking tem início muito antes, quando ainda era criança em Florianópolis, onde seria preparado pela família, pelas tragédias e por um treinador que esteve ao seu lado em todos os grandes momentos.

Em um relato absolutamente sincero, empolgante e emocionante, Guga revela através de seus sentimentos as passagens mais marcantes de sua vida. Ele descreve as memórias de sua infância e adolescência com o mesmo estilo modesto e divertido que o caracteriza como jogador.

A forte base familiar, a inspiração no pai, a admiração pelo irmão tenista, o apoio irrestrito da mãe, a paixão pelo irmão caçula e a confiança inabalável do treinador são peças fundamentais em sua história, a base que o levou a superar a falta de incentivo, a descrença em si mesmo e os adversários mais temidos de sua época.

Essa jornada sem igual, passando pelos torneios juvenis e profissionais, o tricampeonato de Roland Garros, a chegada ao topo do ranking mundial, entre outras conquistas, é contada a partir da visão única do menino que nasceu para ser campeão e cativou o coração de todos os brasileiros.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo uma das muitas histórias narradas por Guga.

“Estava tão tenso, tão dominado pelas emoções, tão apavorado que, se Kafelnikov devolvesse dentro, não me enxergava em condições de dar continuidade ao ponto. Caso a bola voltasse para o meu lado, já me via paralisado, sem ação, só observando minha ruína. Tudo bem que ainda podia ter mais jogo pela frente, mas, se eu já me sentia destruído naquele momento, de onde tiraria força para ir além?

O russo ficava me encarando com uma expressão provocativa, querendo dizer “Vai, cara, manda, você está tão nervoso que tá óbvio que não vai acertar”. Saquei na direita dele. Queria muito dizer que dei um ace fulminante. Mas não foi nada disso. Com o braço encolhido, o saque saiu muito lento, supostamente fácil para o russo. Só que demorou tanto para chegar que ele se atrapalhou e rebateu torto com o aro da raquete, isolando a bola uns três metros para fora da quadra. Por dentro, eu dava pulos de alegria. Empatei, 40/40.

Nessa hora, em mais uma legítima e arrebatadora esquizofrenia de tenista, saí do fundo do poço e fui direto para a estratosfera.

– Ganhei o jogo! Agora não tem mais jeito. O cara não aproveitou a chance dele e ele que se lasque. Este jogo é meu – decretei, os olhos cintilando, a convicção espantando as dúvidas e, com elas, todos os meus fantasmas e demônios.

A sensação da vitória era tão profunda que retomei o desempenho do primeiro set, um cara mirando no alvo e disparando em linha reta até acertar na mosca. Quando finalizei o game, ganhando a partida e concretizando o inimaginável, urrei como se tivesse conquistado o título.

Ainda com adrenalina saindo pelos olhos, Rafa exultava, berrava, vibrava. Em lágrimas, Letícia, a namorada dele, quase esmagava meu irmão no abraço de comemoração. Larri estava eufórico e emocionado. A plateia foi ao delírio e aplaudia, sorrindo com o ar de satisfação de quem presencia um fenômeno raro, o cometa flamejante que só cruza o céu a cada duzentos anos.

Caramba, o que tinha sido aquilo? Depois de estar perdendo de 2 sets a 1, como é que eu havia mudado o roteiro da história? Como tinha sido possível ganhar do Kafelnikov, o número 3 do mundo?! Como aquele absurdo tinha acontecido? Apesar de ter sido o protagonista da história, naquela hora eu não tinha resposta para nenhuma das perguntas. Ainda mal acreditava que tinha vencido, que aquele carnaval na torcida era todo para mim. No entanto, era real. Eu tinha derrotado o monstro e a escalada da montanha continuava.

Eu estava na semifinal de Roland Garros.”



Sobre Gustavo Kuerten (da Wikipédia):
Nasceu em Florianópolis, no dia 10 de setembro de 1976. É considerado o maior tenista da história do Brasil. O único tenista da história a ganhar de Pete Sampras e Andre Agassi no mesmo torneio. Guga, Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic são os únicos quatro jogadores não norte-americanos a jogar pelo menos uma vez a final de todos os quatro Masters Series ATP jogados na América (Indian Wells, Miami, Montreal/Toronto e Cincinnati).
Gustavo Kuerten teve a vida marcada por duas tragédias familiares. A primeira foi a morte de seu pai, Aldo Kuerten, jogador amador de tênis e incentivador da educação pelo esporte, que colaborava nos campeonatos como juiz de cadeira. Quando Guga contava apenas 8 anos de idade, em 1985, teve que enfrentar a morte do pai devido a um ataque cardíaco, enquanto arbitrava uma partida entre juniores em Curitiba. A segunda envolve o irmão caçula, Guilherme Kuerten, que durante o nascimento sofreu de privação prolongada de oxigênio, causadora de dano cerebral irreversível e conseqüentes deficiências física e mental severas. Guilherme faleceu em 7 de novembro de 2007, vítima de parada cardiorrespiratória.

Guga, seu irmão e a mãe.
Desde cedo Guga foi estreitamente ligado à luta diária do irmão, algo que incorporou em sua carreira de tenista: em cada jogo disputado, a partir de 1998, Kuerten doava duzentos dólares a instituições de caridade; além disso, todos os troféus conquistados eram dados para o irmão caçula (incluindo as três réplicas em miniatura do troféu de Roland Garros). Gustavo Kuerten começou a jogar tênis aos 6 anos, por incentivo paterno. Começou treinando com o professor Paulo Allebrandt. Quando tinha 14, conheceu Larri Passos, seu técnico pelos 15 anos seguintes. Foi ele quem convenceu o jogador e sua família de que o jovem tenista tinha talento suficiente para se profissionalizar. Ambos - Kuerten e Larri - começaram a participar de torneios juniores no Brasil e no exterior. Em 1995 Kuerten tornou-se profissional. Além do tênis, Guga costuma praticar o surfe nas praias de Florianópolis. No futebol, Guga torce pelo Avaí Futebol Clube de sua cidade natal . Também é conhecido por ser extremamente humilde e respeitar seu público, quando fora das quadras.