segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dia de Drummond

Hoje, 31 de outubro, Dia de Drummond, o Literatura na Arquibancada dará sua colaboração reunindo alguns textos do poeta relacionados com o tema futebol.

No dia 31 de outubro de 1902, nascia o grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Para comemorar a data, o Instituto Moreira Salles criou há alguns anos o Dia D – Dia Drummond –, que passou a fazer parte do calendário cultural do país. Assim como os irlandeses (e hoje o mundo inteiro) festejam a vida do escritor James Joyce todos os anos no dia 16 de junho com o Bloomsday, os brasileiros começaram a homenagear um de seus maiores poetas sempre no dia de seu nascimento. O objetivo do IMS é promover e difundir a sua obra.

O conteúdo da programação do IMS e também das instituições parceiras estão disponíveis no site http://www.diadrummond.com.br.

Poema da noite
Futebol
Carlos Drummond de Andrade
Futebol se joga no estádio? 
Futebol se joga na praia, 
futebol se joga na rua, 
futebol se joga na alma. 

A bola é a mesma: forma sacra 
para craques e pernas-de-pau. 
Mesma a volúpia de chutar 
na delirante copa-mundo 
ou no árido espaço do morro. 

São vôos de estátuas súbitas, 
desenhos feéricos, bailados 
de pés e troncos entrançados. 

Instantes lúdicos: flutua 
o jogador, gravado no ar 
- afinal, o corpo triunfante 
da triste lei da gravidade.

Para quem quer conhecer o trabalho de Carlos Drummond de Andrade sobre o tema futebol vale a pena conhecer a tese de doutorado em Letras de Fabio Mario Iorio, na UFRJ, em 2006.

RASTROS DO COTIDIANO: FUTEBOL EM VERSIPROSA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE é leitura obrigatória para os admiradores de Drummond e também para se descobrir que o autor não escrevia apenas poemas sobre o futebol. Mais detalhes, acessar o link:
http://docplayer.com.br/5229203-Rastros-do-cotidiano-futebol-em-versiprosa-de-carlos-drummond-de-andrade.html

No trecho abaixo, Fabio Iorio detalha um livro considerado referência para conhecer o Drummond apaixonado pelo futebol:

“Em 2002, a Editora Record editou o livro Quando é dia de futebol de Carlos Drummond de Andrade, como resultado de uma pesquisa e seleção de textos feitas pelos netos Luiz Maurício Graña Drummond e Pedro Augusto Graña Drummond, reunindo as raras crônicas futebolísticas desde 1931. O projeto editorial foi se configurando a partir de uma consulta preliminar de Luiz Maurício sobre os dados importantes dos textos de Carlos Drummond de Andrade, estabelecendo uma lista de assuntos abordados e pessoas mencionadas. Como um dos temas mais citados era o futebol, ele e o irmão Pedro Augusto realizaram de forma mais completa a pesquisa desse material jornalístico específico, que se concentra entre 1954 a 1986.

A edição do livro reúne as crônicas, alguns poemas e trechos de cartas familiares, percorrendo os arquivos pessoais de Carlos Drummond de Andrade, do colecionador Edgard de Almeida Loural (doado à Biblioteca Central da PUC-RJ) e do acervo da Biblioteca Nacional. Os textos seguem a cronologia de suas produções, abordando principalmente os momentos da seleção brasileira masculina nas competições oficiais da Federation International of Football Association - FIFA e completando a coletânea com as homenagens aos maiores jogadores do futebol profissional: Pelé e Garrincha.

Ainda se encontram pedaços de crônicas que relacionam o futebol com outros assuntos e episódios da sociedade, destacando inclusive a sua linguagem codificada e uma de suas principais influências na adolescência do torcedor: o futebol de botão. O comentário final do livro pertence a Edmílson Caminha, que resume o foco da abordagem, sublinhando ainda a correspondência na comemoração centenária entre o cronista e o primeiro grêmio carioca, Rio Football Club.

A dimensão do futebol nos textos de Carlos de Drummond de Andrade é ampla, traça uma leitura paralela aos cronistas esportivos mais destacados, de Nelson Rodrigues a João Saldanha, o primeiro com seu discurso épico-lírico de olhar barroco e o segundo situado nos liames do ideológico e do especialista com a moderna linguagem da crônica futebolística, sustentando na afetação simbólica um saber singularizado.

Carlos Drummond de Andrade e seus ilustres companheiros têm no futebol a rica contribuição da arte popular para o debate reflexivo da sociedade brasileira. Drummond relaciona também o futebol e a poesia, aproximando–se do outro mineiro, Paulo Mendes Campos.”

Deste mesmo livro, Quando é dia de futebol (Editora Record, 2005), Literatura na Arquibancada destaca algumas reflexões do poeta sobre o tema: Vitória x Derrota. Vencer e perder é o resumo do jogo que tanto encantou Drummond em vida.

“E chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estaremos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, a derrota estabelece um jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo.

Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo. (pg.181)

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Não me venham insinuar que o futebol é o único motivo nacional de euforia e que com ele nos consolamos da ineficiência ou da inaptidão nos setores práticos. Essa vitória no estádio tem precisamente o encanto de abrir os olhos de muita gente para as discutidas e negadas capacidades brasileiras de organização, de persistência, de resistência, de espírito associativo e de técnica. (pg. 37)

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Diante de tamanha angústia adormecida, porém não pacificada, fica-se na dúvida: o esporte será hoje uma fonte de prazer individual e coletivo, ou mais uma contribuição valiosa para as estatísticas mortuárias? (...) O torcedor, na sua impotência, joga ainda mais do que o jogador...

O sofrimento esportivo se agrava com os equívocos de linguagem e os golpes publicitários, assumindo formas políticas e belicosas que espantariam os próprios e inocentes torcedores, se eles se detivessem a examiná-las. (...) Os sofrimentos, irritações e depressões que provoca estão longe de ser imaginários, e perturbam nosso perturbado viver. Somos campeões do mundo, é verdade, mas isso não nos deve torturar mais do que, por exemplo, as misérias do subdesenvolvimento. O campeão não é campeão 24 horas por dia; chega uma hora (...) de não sofrer mais do que o estritamente necessário (...) não somos 60 milhões de campeões. (pg. 43)

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Hoje,

manuscritos picados em soluço,
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não-ter-sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?

É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza...
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa...
no jogo livre e sempre novo que se aprende...
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho...
Nem heróis argivos nem parias...
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.”
(pg. 85-87)

Literatura na Arquibancada destaca abaixo mais um texto escrito pelo poeta sobre o tema futebol. Uma crônica que só mesmo o poeta poderia escrever e que foi encontrado nos arquivos do Jornal do Brasil do dia 18/06/1974.

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Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranqüilidade.

Bem-aventurados os que, por entenderem de futebol, não se expõem ao risco de assistir às partidas, pois não voltam com decepção ou enfarte.

Bem-aventurados os que não têm a paixão clubista, pois não sofrem de janeiro a janeiro, com apenas umas colherinhas de alegria a título de bálsamo, ou nem isto.

Bem-aventurados os que não escalam, pois não terão suas mães agravadas, seu sexo contestado e sua integridade física ameaçada, ao saírem do estádio.

Bem-aventurados os que não são escalados, pois escapam de vaias, projéteis, contusões, fraturas, e mesmo da glória precária de um dia.

Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura.

Bem-aventurados os fotógrafos que trocaram a documentação do esporte pela dos desfiles de modas, pois não precisam gastar tempo infindável para fotografar o relâmpago de um gol.

Bem-aventurados os fabricantes de bolas e chuteiras, que não recebem as primeiras na cara e as segundas na virilha, como os atletas e assistentes ocasionais de peladas.

Bem-aventurados os que não conseguiram comprar televisão a cores a tempo de acompanhar a Copa do Mundo, pois, assistindo pelo aparelho do vizinho, sofrem sem pagar 20 prestações pelo sofrimento.

Bem-aventurados os surdos, pois não os atinge o estrondar das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo.

Bem-aventurados os que não moram em ruas de torcida institucionalizada, ou em suas imediações, pois só recolhem 50% do barulho preparatório ou comemoratório. 

Bem-aventurados os cegos, pois lhes é poupado torturar-se com o espetáculo direto ou televisionado da marcação cerrada, que paralisa os campeões, ou do lance imprevisível, que lhes destrói a invencibilidade.

Bem-aventurados os que nasceram, viveram e se foram antes de 1863, quando se codificaram as leis do futebol, pois escaparam dos tormentos da torcida, inclusive dos ataques cardíacos infligidos tanto pela derrota como pela vitória do time bem-amado.

Bem-aventurados os que, entre a bola e o botão, se contentaram com este, principalmente em camisa, pois se consolam mais facilmente de perder o botão da roupa do que o bicho da vitória.

Bem-aventurados os que não confundem a derrota do time da Lapônia pelo time da Terra do Fogo com a vitória nacional da Terra do Fogo sobre a Lapônia, pois a estes não visita o sentimento de guerra.

Bem-aventurados os que, depois de escutar este sermão, aplicarem todo o ardor infantil no peito maduro para desejar a vitória do selecionado brasileiro nesta e em todas as futuras Copas do Mundo, como faz o velho sermoneiro desencantado, mas torcedor assim mesmo, pois para o diabo vá a razão quando o futebol invade o coração.
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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Parabéns Pelé

Edson Arantes do Nascimento, Pelé, completa 76 anos de vida. A data correta, 21 (conforme certidão de nascimento original) ou 23 (dia que Pelé considera o oficial) de outubro, pouco importa.

O que vale é o que esse menino nascido na pequena Três Corações, em Minas Gerais, conquistou no mundo da bola. Um homem que conseguiu transformar o futebol em, antes e depois de seu nascimento. E o futebol mundial nunca mais foi o mesmo.

No texto abaixo, publicado no livro A Magia da Camisa 10 (Verus Editora, 2006 - Vladir Lemos e André Ribeiro), compreendemos um pouco do fascínio que Pelé trouxe a uma simples camisa de futebol. Parabéns Pelé!

Cidade de Roma, 31 de Outubro de 2005

O rosto é inconfundível, a pele negra, lisa, mascara a idade, empresta um ar jovial, dando a impressão de que o homem ali tem sido capaz até mesmo de driblar o tempo. Em uma sala qualquer da capital italiana, lentes e microfones estão apontados em sua direção. Repórteres, fotógrafos, seguranças, todos o olham com um misto de curiosidade e admiração. A voz grave, tão conhecida quanto o velho corte de cabelo, domina o ambiente e faz pairar no ar uma frase marcante como suas antigas jogadas:

Talvez não saibam quem é Cristo, porém de Pelé já ouviram falar”.

Três Corações, 23 de Outubro de 1940

Pelé, o menino-deus do futebol, nasceu Édson em 23 de outubro de 1940. Noite de lua cheia na pacata cidade mineira de Três Corações, cenário breve na vida do garoto cuja família se mudou para o interior paulista antes que ele completasse cinco anos de idade. Nessa época era tratado simplesmente como Dico. 

A intimidade com a bola à primeira vista parecia hereditária. Dondinho, seu pai, era um exímio cabeceador, artilheiro nato. Jogou por pequenos clubes da região sul do estado de Minas Gerais, mas a grande chance, no Atlético Mineiro – clube grande da capital Belo Horizonte –, não durou mais do que um jogo. Uma contusão grave no joelho fez o pai do pequeno Édson abandonar a carreira de jogador profissional. Continuou a jogar de forma amadora, pelo Vasco, da cidade de São Lourenço. Dico estava sempre por lá e parece ter gravado no subconsciente o nome de apenas um jogador da equipe em que o pai jogava: o goleiro Bilé. Em 1945, Dico e sua família mudaram-se para a cidade de Bauru, e nas peladas disputadas nas ruas de terra da pequena cidade do interior paulista era comum ouvir Édson gritar: “Defeeeende Bilé...”.

A “fome” por bola dos Arantes do Nascimento começou cedo. Não contente em defender o infanto-juvenil do Canto do Rio, Bilé – ou melhor, Pelé – criou em Bauru seu próprio time com apenas dez anos de idade. Batizou-o de 7 de Setembro, coincidência ou não, a mesma data em que anos mais tarde marcaria seu primeiro gol pelo Santos, time que o levaria à fama.

O primeiro “contrato” surgiu ainda nessa idade,  para jogar pelo Ipiranguinha, time de várzea na cidade de Bauru.

Os feitos do menino-deus não eram exatamente milagres, embora parecessem. Aos 14 anos foi defender o Baquinho, time para garotos de até 15 anos formado pelo Bauru Atlético Clube. No segundo jogo o Baquinho venceu o São Paulo, clube da cidade, pelo placar de 21 a 0. Dico – ou melhor, Pelé – marcou sete gols.

Com a bola no pé, o jogador franzino estava longe de ser tímido. Corria, sendo sempre marcado de perto, e de repente parava, inventava uma saída. Não era igual aos outros. Os olhos de Waldemar de Brito, técnico do time e ex-jogador da seleção brasileira na Copa de 1934, enxergaram tudo isso. Amigo de Dondinho e hábil o suficiente para convencer a mãe, dona Celeste, Brito foi a ponte que uniu Pelé ao Santos Futebol Clube.

Em 1955 a Vila Belmiro, bairro onde estava localizado o campo do esquadrão santista, já era lugar de respeito , casa de grandes craques. Zito, Del Vechio, Jair Rosa Pinto, Pepe e Pagão, campeões paulistas no ano anterior, poderiam intimidar qualquer um, menos aquele jovem no auge dos seus 15 anos.

Destaque entre os juvenis, ajudante entre os profissionais e ainda sem ter encontrado o equilíbrio necessário entre a habilidade e o respeito, acabou punido em um simples treino. Ao receber um passe, levantou a cabeça e partiu em direção ao gol. Não contente com o primeiro corte no zagueiro, deu outro, e Hélvio desequilibrou-se. Estava de bom tamanho, dava para seguir em frente, mas um novo drible levou o marcador ao chão. Poderia até ser perdoado, mas largou a bola e não conteve o riso. A molecagem rendeu uma punição e um lugar no time.

Mas foi a contusão do ponta-de-lança Vasconcelos, na final do Campeonato Paulista de 1956, que deu ao menino a vaga de titular. A camisa que vestiria era, ainda, como outra qualquer. Pelé soube aproveitar como ninguém a oportunidade que surgia em sua vida. No ano seguinte tornou-se artilheiro absoluto do Campeonato Paulista ao marcar 17 gols, feito que se repetiria pelos próximos 11 anos consecutivos.

Mil novecentos e cinqüenta e oito, ano de Copa do Mundo. Feola, técnico da seleção brasileira, tinha razões de sobra para convocar um garoto para disputar o Mundial da Suécia. Pelo segundo ano consecutivo Pelé era o artilheiro do Campeonato Paulista, mas dessa vez com nada menos do que 58 gols, marca jamais superada após quase meio século de história. Ninguém mais duvidava de sua habilidade e muito menos de seu oportunismo, mas só mesmo um milagre seria capaz de transformar um jovem com apenas 17 anos em titular da seleção.

Não houve milagre, houve destino. E que destino! Um ano antes, em 1957, no Maracanã, quando vestiu pela primeira vez a camisa da seleção, o Brasil perdeu por 2 a 1 para a Argentina, mas Pelé deixou o gramado como autor do único gol brasileiro.

No Mundial de 1958, na Suécia, Pelé era um ilustre anônimo entre os craques do futebol mundial. Do banco de reservas, começou vendo a seleção brasileira, nervosa e cuidadosa, vencer a Áustria por 3 a 0. No empate por 0 a 0 contra a Inglaterra, na segunda partida, Pelé permaneceu na reserva – afinal, ser o camisa 10 da seleção naqueles dias não passava de mero detalhe. O Brasil chegara a correr o risco de ficar fora do Mundial porque nossos dirigentes mandaram a relação de jogadores convocados para o torneio sem dar número aos atletas. Isso mesmo! A tarefa fora executada por um dirigente uruguaio que estava na sede da Fifa. Sem conhecer os jogadores, fizera do goleiro Gilmar o camisa 3; do lateral Nilton Santos, o camisa 12; e do craque Didi, o camisa 6.

Para derrotar a ciência do futebol soviético, o treinador brasileiro apostou nos dribles desconcertantes do camisa 11, Garrincha, e na divindade do garoto Pelé, que o destino quis vestir com a camisa 10.Na vitória por 2 a 0 contra a União Soviética, os gols foram de Vavá e o show de Garrincha. O primeiro gol do jovem camisa 10 em Copas do Mundo seria marcado no jogo seguinte, contra o País de Gales. Não foi um gol qualquer. Teve plasticidade, pelo atrevimento de se livrar da marcação dos zagueiros dentro da área, com um giro rápido, mas, principalmente, teve importância, porque com ele o Brasil conseguiu passar para a semifinal da Copa.

Diante da França, o brilho de Pelé superou até mesmo o de outra figura monumental do futebol brasileiro e mundial: o mestre Didi. O placar de 5 a 2 se repetiu na partida final diante dos anfitriões. Na vitória de virada contra a Suécia, o talento e a coragem de um homem, quase menino, deixaram boquiabertos torcedores e especialistas do mundo inteiro. Com a frieza que só os craques têm, Pelé aplicou um calculado chapéu dentro da área adversária. Os olhos do público só conseguiam enxergar uma camisa em campo... e dela jamais se esqueceriam.

O primeiro gol contra o País de Gales, os três contra a França e os outros dois marcados na decisão diante dos donos da casa fizeram de Pelé o artilheiro da seleção brasileira, e uma vez mais com números improváveis para um jogador de apenas 17 anos. Foram quatro jogos, seis gols. No Mundial da Suécia o incógnito deus do futebol, veladamente, abençoou aquele menino e sua camisa 10.

Quatro anos mais tarde, em 1962, na Copa do Mundo do Chile, Pelé fez um dos gols da vitória por 2 a 0 contra o México, na estreia brasileira. No jogo seguinte, contra a Tchecoslováquia, para a decepção do torcedor brasileiro, machucou-se sozinho e deixou de brilhar na conquista do bicampeonato mundial. Pelé arrastou-se em campo durante vários minutos da partida. Naquela época as substituições ainda eram proibidas. O reconhecimento de seu talento surgiu no gesto singelo do goleiro tcheco, Schroif, que, ao perceber que o craque brasileiro não conseguia mais sequer andar, carregou-o nos braços até o lado de fora das quatro linhas.

Era fato: a primazia de Pelé transformava-o em alvo. Um alvo que os zagueiros portugueses não erraram em 1966, durante a Copa do Mundo, na Inglaterra. A essa altura seus adversários sabiam que era preferível abatê-lo a enfrentá-lo. Caçado pelos zagueiros dentro de campo, o Brasil, sem o seu camisa 10, voltou para casa com a pior campanha em Mundiais do pós-guerra.

Rapidamente, o mundo percebia o abismo existente entre Pelé e os outros jogadores. Até esse momento não era a camisa 10 que fazia a diferença aos olhos do torcedor apaixonado pelo futebol. Os anos que separaram a estreia em 1958 e a indignação de 1966 tinham revelado, acima de tudo, um campeão.

Até 1966 Pelé já havia conquistado, com a camisa 10 do Santos, seis Campeonatos Paulistas (1958, 1960, 1961, 1962, 1964 e 1965), cinco Campeonatos Brasileiros (de 1961 a 1965), duas Copas Libertadores das Américas (1962 e 1963), dois Campeonatos Mundiais Interclubes (1962 e 1963), além de quatro torneios Rio–São Paulo (1959, 1963, 1964 e 1966).

Ao lado de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pepe e outros, Pelé transformou o time da  Vila Belmiro em uma lenda que correu o mundo como sinônimo de futebol supremo. Vestindo a consagrada e cobiçada camisa 10, chegou a disputar 121 jogos em um mesmo ano, numa época em que viajar 32 mil quilômetros e disputar uma dúzia de amistosos em menos de 30 dias não era motivo de espanto. Surpreendente era rejeitar uma a uma as tentadoras propostas que surgiam de todos os lados. Todas elas para ver a magia de uma camisa, o talento de um craque.

Em 1961 Pelé pisou no gramado do Maracanã para enfrentar o Fluminense em jogo válido pelo torneio Rio–São Paulo. O Santos vencia por 2 a 1 quando Pelé dominou a bola pouco depois do meio de campo. Seria preciosismo listar os seis jogadores que o camisa 10 driblou até chutar na saída do goleiro Castilho. Dias depois, o templo do futebol ganharia uma placa, onde foi escrito:

Neste campo, no dia 5 de março de 1961, Pelé marcou o tento mais bonito da história do Maracanã

A placa permanece lá, a expressão gol de placa pode ser ouvida ainda hoje, a qualquer hora, nos quatro cantos do país do futebol.

Com seus dribles curtos e velocidade improvável, usou o oponente para praticar uma arte que beirava a magia. Chegou a usar as pernas do marcador para fazer uma tabelinha maquiavélica e genial. Certo dia ajeitou a bola para cobrar um pênalti. Os olhos da torcida miraram atentos cada movimento. Um olhar solto em direção ao gol e Pelé dispara, mas foi como se, por uma fração de segundo, o tempo tivesse parado; foi como se, naquele momento, tivesse surgido um contratempo para retardar o grito da torcida: para ele, uma simples “paradinha” com a intenção clara de tirar do goleiro a já minguada chance de defesa.

Pelé é um mito que, em campo, não cresceu somente refletido em instantes de rara habilidade. A figura do maior camisa 10 de todos os tempos ampliava-se em momentos emblemáticos, como no dia 19 de novembro de 1969. Naquela noite 65 mil torcedores nas arquibancadas do Maracanã e outras dezenas de milhares ligados no rádio e televisão aguardavam com ansiedade mais um gol do rei do futebol. Não era um gol qualquer. Exatamente aos 33 minutos do segundo tempo, o zagueiro René, do Vasco, cometeu pênalti, e a possibilidade de o camisa 10 santista entrar definitivamente para a história do futebol mundial materializou-se. Faltavam alguns segundos para Pelé marcar o milésimo gol de sua carreira. Ao ajeitar a bola na marca da cal, estava rodeado por uma pequena multidão. Com a maestria de sempre, usou o pé direito para colocar a bola no canto esquerdo do goleiro Andrada. A frase que diria minutos depois – “Pensem no Natal, pensem nas criancinhas” – mostrava um homem preocupado em usar, de alguma forma, toda a magnitude que o havia transformado em uma pessoa de dimensão única.

Vestindo uma camisa do time adversário com o número 1000 estampado nas costas, Pelé pôs fim a um dos momentos mais marcantes de sua carreira, mesmo sendo questionado pela imprensa:

Dediquei o gol às criancinhas abandonadas. Me chamaram de hipócrita e alienado. O tempo mostrou quem estava certo"

Em 1995 a prefeitura da cidade de Santos decidiu criar o Dia Pelé, homenagem à marca histórica alcançada naquele 19 de novembro de 1969.

Imprevisível, como os movimentos e caminhos que demonstrava descobrir em campo, era também invisível – mas incontestável – o poder que Pelé revelava. Naquele mesmo ano de 1969, o Santos embarcou para mais uma série de amistosos, dessa vez na África. A excursão previa amistosos no Congo Kinshasa (ex-Zaire, atual República Democrática do Congo) e no Congo Brazzaville (atual Congo). O único problema era que os Congos, Kinshasa e Brazzaville, estavam em guerra. Mas para ver Pelé e sua camisa branca com o 10 às costas valia a trégua forçada. O conflito, que se arrastava havia meses, parou com a assinatura de um acordo entre os dois governos. Soldados de Brazzaville foram autorizados a escoltar o barco que levaria a equipe santista pelo rio Congo até a guarda das forças lideradas por Kinshasa. O Santos fez cinco jogos em apenas nove dias. Pelé marcou sete gols, dois deles na segunda partida, contra uma seleção do Congo-Brazzaville. A equipe santista perdia por 2 a 0 e, literalmente, apanhava em campo por causa da péssima arbitragem. Revoltado com a situação, Pelé decidiu protestar. Pensou em abandonar o gramado, mas sabia que essa decisão colocaria em risco sua vida e a de seus companheiros. O protesto mais simples foi pedir para que todos os jogadores se sentassem no meio do gramado. No mesmo instante, o árbitro da partida recebeu um bilhete vindo não se sabe de onde. Após ler atentamente, constrangido, conseguiu convencer o time santista a continuar o jogo. O Santos reage, Pelé marca os dois gols da virada por 3 a 2. Nos vestiários, Pelé e toda a delegação santista descobriram o que estava escrito no bilhete:

O Santos, time de Pelé, está aqui para dar um espetáculo. Eu estou aqui para assistir a esse espetáculo. Se você não apitar segundo as regras do jogo, vai sair preso do estádio. Assinado: Comandante Marien Ngobi, Chefe de Estado do Congo Brazzaville”

Derrotar o Santos de Pelé parecia missão impossível, ainda mais para uma equipe africana que ainda não tinha seu futebol desenvolvido como agora. Na seqüência da excursão, o impossível aconteceu. Derrota por 3 a 2 para a seleção do Congo Kinshasa. O delírio tomou conta das ruas de Kinshasa. Aos gritos eles repetiam: “Vencemos Pelé! Vencemos Pelé!”6. Pelé parou a guerra, e, por causa dessa vitória, o ditador Joseph Mobuto oficializou em seu país a data, 23 de janeiro, como o Dia Nacional do Esporte.

O homem que deu início à mística da camisa 10 foi antes de tudo um criador. Depois de consagrado, sentou-se no banco de reservas apenas uma vez em toda a sua carreira. Foi em 1970, no empate por 0 a 0 entre Brasil e Bulgária, no estádio do Morumbi, em São Paulo, em um jogo preparatório para a Copa de 1970. Só entrou em campo no segundo tempo, substituindo Tostão, e, para não desfazer a mística, vestia a 13. A 10, com certeza, ficara nos vestiários.

Nesse mesmo ano, a disputa da Copa do Mundo, no México, era aguardada com muita expectativa. As principais forças mundiais traziam em suas escalações craques que, com certeza, fariam sombra a Pelé, sem contar que todas as seleções campeãs do mundo em Copas anteriores estavam lá. Só que o Brasil da Copa de 1970 não tinha apenas um Pelé em campo. Na equipe brasileira, outros quatro jogadores – Jairzinho, Gérson, Tostão e Rivelino – jogavam com a 10 em seus clubes no Brasil. Mas, em campo, apenas Pelé teria o direito de usar a 10. Logo na partida de estreia, o Brasil goleou a Tchecoslováquia por 4 a 1 e deixou a certeza de que o tricampeonato do mundo estava próximo. Os dois jogos seguintes seriam as duas únicas partidas em que o Brasil venceria seus adversários por um gol de diferença: primeiro, o duelo antológico com a Inglaterra, vencido por 1 a 0; e, na seqüência, vitória contra a Romênia por 3 a 2, com dois gols de Pelé.

Na quarta partida, Pelé enfrentou o amigo e ex-companheiro de seleção, Didi. O brasileiro, bicampeão do mundo em 1958 e 1962, era, na Copa do México, o treinador do time peruano. Didi não foi poupado, e o Brasil goleou por 4 a 2.

O duelo na semifinal entre Brasil e Uruguai reunia duas seleções bicampeãs mundiais. Ao tomar a frente do placar, a seleção uruguaia fez pairar sobre o estádio Azteca a sombra da derrota sofrida em pleno estádio do Maracanã, na final da Copa de 1950. O Brasil venceria por 3 a 1 e teria como destino a Cidade do México, palco da grande final. A criatividade de Pelé não levou o Brasil ao gol, mas desenhou a cena mais marcante do duelo: um drible que ele executou ao tomar a direção oposta à da bola, ludibriando o goleiro Mazurkiewicz e arrebatando a torcida.

No dia 21 de junho, 107 mil torcedores estavam no estádio Azteca, e a Taça Jules Rimet teria finalmente um dono. O duelo entre Brasil e Itália revelaria ao mundo o primeiro país tricampeão mundial de futebol. Pelé foi o autor do primeiro gol e, depois de viver a apreensão de ver estampado no placar o empate, parece ter encontrado no papel de coadjuvante a maneira mais eficaz de se transformar no primeiro jogador três vezes campeão do mundo. Quando o alemão Rudi Glockner soprou o apito, as cenas de histeria e devoção protagonizadas no gramado por uma torcida enlouquecida transformaram-se na mais perfeita tradução da apoteose vivida pelo camisa 10 mais famoso de todos os tempos.

Pelé levou a sério o verso do português e poeta Fernando Pessoa e provou que o jogador de futebol, assim como o poeta, é um fingidor. Os que o acompanharam tentando se convencer e convencer ao mundo de que um dia ele e o futebol deixariam de ser uma coisa só, viram-no em vários atos. Um deles, escrito na pista de atletismo do Estádio do Morumbi depois de enfrentar a Bulgária em julho de 1971: o braço direito erguido segurava na mão uma coroa. Na noite de 2 de outubro de 1974, outro ato do mesmo roteiro: a Vila Belmiro, lotada, pulsava entre a euforia e o lamento. Era o fim de um casamento de 18 anos, seis meses e 26 dias. Aos 22 minutos do primeiro tempo da partida contra a Ponte Preta, Pelé ajoelha-se e abre os braços em forma de cruz. Faz um giro para ficar frente a frente com os torcedores dos quatro lados do campo. De pé, com a camisa 10 enrolada na mão direita, dá uma volta olímpica acenando para a torcida. Horas depois a súmula do jogo revelaria a importância de Pelé ao mundo: “A partida começou às 21h11, e às 21h33 o atleta Édson Arantes do Nascimento fez sua despedida do futebol”.

Em 1975, com 34 anos e uma proposta milionária, Pelé assinou contrato com o Cosmos de Nova York. O desafio era ajudar os Estados Unidos, nação mais rica do mundo, a popularizar o futebol. Dois anos após sua chegada, a média de público nos estádios norte-americanos saltou de oito para 21 mil pessoas.

Disse adeus uma vez mais, em 1977, e ainda voltou a campo ao menos oito vezes. Naquela noite de 1º de outubro, o artista plástico pop norte-americano Andy Warhol, que ficou conhecido pela frase “todos têm o direito a 15 minutos de fama”, profetizou: Pelé vai ser famoso por 15 séculos”.

Não precisou de tanto tempo assim. No dia 26 de abril de 1978, em Kaduna, distante 900 quilômetros de Lagos, capital da Nigéria, Pelé era o convidado de honra para dar, apenas, o pontapé inicial da partida amistosa entre o Fluminense e o Racca Rovers, da Nigéria. Segundos antes de cumprir o acordo, ouviu o chefe da polícia local dizer em voz baixa, ao pé do ouvido, que não teria como conter a ira do público caso não jogasse. Sem estar preparado para aquela exigência, o incômodo maior não foi vestir a camisa do Fluminense durante os 45 minutos iniciais do jogo: difícil mesmo foi calçar a chuteira 37, dois números abaixo da que costumava utilizar.

Sob a mística da camisa 10, o menino nascido em Três Corações  dividiu-se em dois. Édson Arantes do Nascimento foi o primeiro ministro de Estado negro do Brasil, empresário, homem criticado e questionado. Já Pelé, que enfrentou times de 66 países, cortejado por reis e rainhas, reconhecido nos quatro cantos do mundo, segue intocável, um mito.   

Em setembro de 2004 a camisa azul de mangas curtas usada por ele no Mundial da Suécia esteve estendida em uma sala elegante, dividindo espaço com quadros de pintores renomados e valiosíssimas peças de porcelana e cristal. De repente, o martelo do leiloeiro  chocou-se contra a mesa. A Christie’s, uma das mais famosas casas de leilão do mundo, acabava de vender a camisa 10 com a qual um dia o Rei do futebol começou a dominar o mundo, em 1958. O preço, 105 mil e 600 dólares, pode parecer muito, mas era apenas um terço dos 283 mil dólares que um anônimo comprador pagara dois anos antes pela camisa 10 vestida por Pelé na Copa do Mundo do México.

A essa altura você pode estar intrigado, vendo em sua memória Pelé socando o ar com o místico número 10 pregado nas costas, e lembrando que foi assim porque, certo dia, durante a Copa de 1958, nossos dirigentes simplesmente se esqueceram de enviar à Fifa a numeração dos nossos atletas. Mas... e no Santos, quem lhe entregou o uniforme do mesmo número?

Pois é, lembra-se daquele ponta-de-lança de nome Vasconcelos, que se contundiu na partida decisiva do Campeonato Paulista de 1956 deixando o caminho livre para o menino? Então, ele era camisa 10!!!


Por isso, já não há dúvida de que o incógnito deus do futebol tem lá seus caprichos e fez questão de ver seu mais nobre discípulo vestido assim.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Tostão: "Tempos vividos, sonhados e perdidos"

Quase ninguém o identifica pelo seu nome de batismo, Eduardo Gonçalves de Andrade. Mas, dizer, Tostão, a associação é imediata com o craque do futebol brasileiro surgido no final dos anos 1960 e tricampeão mundial na Copa do México, em 1970.

Tostão também ficou marcado na história do futebol brasileiro pelo fim precoce da carreira, aos 26 anos, devido a problemas em sua visão. Virou médico, Dr. Eduardo, e, mais tarde, cronista de primeira no jornalismo e literatura esportiva.

Tostão tem agora um livro: Tempos vividos, sonhados e perdidos - um olhar sobre o futebol” (Companhia das Letras). Uma “viagem” pelos últimos 60 anos do futebol brasileiro, sob o olhar de uma de suas grandes estrelas.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo o texto de introdução, assinado pelo próprio Tostão e o trecho final do primeiro capítulo da obra.




Introdução
Tostão

Os “tempos perdidos” do título do livro são momentos não vividos, que ficaram soltos no tempo e no imaginário.

Não nos lembramos de muitas coisas que estão em nossa memória, e o que recordamos nem sempre é um retrato exato dos fatos. Com frequência, esquecemos, reprimimos e sublimamos o que não queremos lembrar. A lembrança dos fatos não costuma ser a primeira imagem, a real. Às vezes, a verdade chega perto, mas foge de nossa consciência, como sempre ocorre quando acordamos e tentamos lembrar o que sonhamos. Os fatos que esquecemos não desaparecem. Vão para debaixo do tapete da memória e podem voltar a qualquer momento, sem avisar, muitas vezes disfarçados, incompreendidos.

A finalidade principal deste livro não é escrever sobre minha carreira de atleta, muito menos sobre minhas memórias pessoais. Não é uma autobiografia, nem um almanaque, nem um livro de pesquisa de informações. Também não tenho a pretensão de contar a história do futebol brasileiro, que já tem 120 anos, o dobro do tempo contado neste livro. A tentativa é fazer uma síntese da evolução do nosso futebol nos últimos sessenta anos, especialmente das seleções brasileiras e das Copas do Mundo, a partir de minhas lembranças e impressões sobre as coisas que vi, senti, participei, analisei e imaginei nesse período, como garoto, adolescente, atleta profissional, médico, professor de medicina, comentarista de tv, colunista e cidadão. O futebol e o mundo mudaram muito ao longo desse tempo. Já minhas grandes dúvidas continuam as mesmas.

Por exagero didático, dividi esses sessenta anos em três períodos de mais ou menos vinte anos cada um, com um futebol praticado em diferentes qualidades e estilos. O primeiro, do final dos anos 1950 até o início dos anos 1970, foi de encantamento, beleza e fantasia. O segundo, chamado por José Miguel Wisnik de intermezzo, foi o do conflito entre a ciência e a improvisação. O terceiro, o da conciliação entre os dois olhares anteriores. Coincidentemente, minhas relações com o futebol foram também distintas em cada uma dessas três épocas. Nas primeiras duas décadas em questão, fui uma criança e um adolescente que gostava muito de futebol, que se tornou um atleta e que foi obrigado a encerrar a carreira precocemente aos 26 anos de idade. Nas duas seguintes, fui estudante, médico e professor de medicina. Nos últimos vinte anos, trabalho como comentarista e colunista esportivo. “A vida dá muitas voltas, a vida nem é da gente” (João Guimarães Rosa).

Primeiro capítulo

Encantamento

(...)

Antes da Copa de 1958, o jogador brasileiro já era conhecido por sua habilidade, fantasia e improvisação. Faltava um grande título mundial para mostrar que essa intimidade com a bola, o futebol moleque, descontraído, poderia também ser eficiente. Foi o que ocorreu na Copa do Mundo de 1958 e se repetiu em 1962, com quase todos os mesmos jogadores. A partir do primeiro título, nasceu a mística da camisa amarela, do futebol bonito, do futebol arte, da magia, enquanto os europeus jogavam o futebol força.

Dizia-se que nasciam craques em cada esquina no Brasil. Alguns lances passaram a ser a marca característica do futebol brasileiro, como os passes de rosca, de curva, de trivela, os dribles de todos os tipos, os elásticos, os chapéus, a ginga, a finta com o corpo, sem tocar a bola, e dezenas de outros efeitos especiais. O mundo passou a adorar o futebol brasileiro. Quando aparecia um jogador de muita habilidade na Europa, diziam que atuava como um brasileiro.

Há uma grande discussão sobre as origens de tanta habilidade e fantasia. Muitos diziam que tudo começava nos campos de pelada, de terra, onde os meninos, em vez de estarem em escolas públicas, em horário integral, descobriam a intimidade com a bola, sem regras e professores. A miscigenação racial do povo brasileiro seria outro motivo. A importação de técnicos sul-americanos, como Fleitas Solich, Filpo Nuñes e outros, e húngaros como Eugênio Medgyessy, Dori Kruschner, Imre Hirschl e Béla Guttmann, nos anos 1950, ajudou na evolução de nosso futebol. A Hungria tinha uma seleção fantástica em 1954, quando venceu o Brasil por 4 a 2.

O argentino Filpo Nuñes foi técnico do Cruzeiro em 1964, antes do Mineirão, que seria inaugurado no ano seguinte. Após as partidas, ele reunia os jogadores e perguntava a um meia ou a um atacante que havia sido muito elogiado pela imprensa: “Quantos gols você fez? Quantos passes deu para gols ou que poderiam ser gols?”. O jogador respondia: “Nenhum”. Filpo retrucava: “Então, você não fez nada”.

Alguns pensadores relacionam o estilo descontraído e irreverente e a improvisação do futebol brasileiro com a brincadeira e a falta de compromisso – da mesma forma como alguns escritores, como Machado de Assis, definiram o homem brasileiro. Esses e tantos outros motivos foram determinantes para a criação do estilo brasileiro de jogar, único, que se perdeu progressivamente ao longo do tempo. Hoje, estamos sem identidade, sem saber onde estamos nem para onde vamos.